X-Men Torturam a Líder da Heritage Foundation em Novo Quadrinho

Por Matt Battaglia [*]

Capitão América diz “A Inicitaiva Heritage. Eles chamam a si mesmos de ‘think tank’ mas –”, a líder dos X-Men Kitty Pryde interrompe: “eles são um bando de racistas anti-mutantes”.

O primeiro arco da nova série da Marvel X-Men Gold, escrita por Marc Guggenheim e ilustrada por Ardian Syaf, acabou de ser concluído com três edições. A história foi vendida para novos leitores como sendo um ponto de entrada para a série, com a Marvel proclamando estar “voltando ao básico” e evitando “política”, depois de sinais demonstrando que infundir suas linhas editoriais com políticas de identidades fez despencar as vendas.

Ainda assim a série X-Men Gold foi marcada por problemas. Syaf plantou referências à política da Indonésia, especialmente quando citou um versículo do Alcorão antagônico a judeus e cristãos (o que dada a trajetória do quadrinho é até irônico). A primeira edição de X-Men Gold começa com um programa jornalístico do “The Fact Channel” (“Canal dos Fatos”) exibindo uma entrevista com Lydia Nace, Diretora da “Iniciativa Heritage”.

Ela é uma personagem nova criada para a série, abertamente anti-mutante. A legenda da Iniciativa Heritage foi colocada ali, e se não fosse pela segunda edição chamando atenção ao nome, ela poderia muito ter passado despercebida.

No segundo número os X-Men confrontam a “Nova Irmandade dos Mutantes Maus” depois de eles terem explodido a ONU. Segue-se uma luta, e então os X-Men reúnem-se com o Capitão América para falar sobre os novos adversários. É nesse momento que o nome da Heritage passa a ser não uma provável coincidência, mas uma referência explícita à Heritage Foundation, um think tank conservador proeminente em Washington.

Capitão América diz, “Iniciativa Heritage. Eles chamam a si mesmos de think tank, mas se você quer minha opinião -” e Kitty Pryde, agora líder dos X-Men, completa o pensamento dele com, “eles são um bando de racistas anti-mutantes”.

Spoilers Adiante

Mais adiante é revelado que Lydia Nance e a Iniciativa Heritage planejaram e financiaram os ataques terroristas para despertar o ódio do público aos mutantes e assim poderem deportá-los. Os X-Men descobrem o esquema, invadem a casa dela, agridem-na e juram levá-la à justiça. E que justiça seria essa?

Humilhação pública. Expor não atos específicos que ela tenha cometido, mas sua falta de virtude. Esta é a chave: Kitty não ameaça a chefe da Iniciativa Heritage com a revelação pública de sua incitação ao sequestro, terrorismo, etc. – ela ameaça revelar que ela é uma preconceituosa! Nessa nova versão dos X-Men de Guggenheim, pensar de forma errada é algo pior do que atos criminosos verdadeiros.

Em resumo, o novo vilão do Universo X-Men é uma imitação mal disfarçada da Heritage Foundation e os X-Men atacam a presidente da dita organização. Isso depois de o editor dizer que a Marvel ficaria longe de política.

Isso é Muito Mais Profundo que a Referência ao Alcorão

Muitas pessoas quiseram pular na garganta dos editores pela bagunça feita pelo ilustrador da série, mas isso foi contornado porque, primeiro, o (agora ex) Editor Chefe da Marvel Axel Alonso disse não acreditar que ilustradores importem muita coisa e, segundo, que para captar a mensagem de Syaf você teria de estar familiarizado com a política da Indonésia e o Alcorão, além de segui-lo no Facebook.

No caso da Heritage, no entanto, Guggenheim faz seu desprezo por aqueles que estão na outra metade do espectro político dos Estados Unidos saltar das páginas dos quadrinhos direto na cara dos leitores. Os editores deveriam ter notado o uso que Guggenheim faz da Heritage, combinado com o fato de ter tornado os X-Men dublês do grupo político mais em evidência no momento, os imigrantes ilegais, especialmente quando a suposta diretiva era a de se ser “menos político”.

Quadrinhos sempre tiveram um ângulo político, mas nunca antes os quadrinhos mais tradicionais foram tão exagerados e veementes ao vilanizar os inimigos políticos de seus criadores. Agora todos os criadores estão também no Twitter, vomitando opiniões constantemente para que um vasto número de leitores possa assim descobrir que estes artistas não gostam deles.

A Marvel tem um problema sério: lançam quase 50 edições por mês, a U$3,99 cada, com um número de páginas variando entre 20 e 24, e cheias de anúncios. Some-se a isso alguns quadrinhos como “Gwenpool” (aparentemente uma mistura da Gwen Stacy, uma namorada do Homem-Aranha morta há vários anos, com Deadpool?) e Occupy Avengers (lembra-se do Occupy Wall Street?).

Eles têm uma divisão de filmes e TV de grande sucesso, mas parecem não conseguir fazer vender novos quadrinhos que apresentem seus próprios personagens. Será porque com o custo de duas edições de um quadrinho você pode assistir a Netflix por um mês, o que inclui aproximadamente quatro dias inteiros de Marvel TV? É possível. Os filmes são ótimos, mas não há como fazer com que alguém que tenha assistido aos filmes entre no mundo dos quadrinhos.

Não há nenhuma ligação óbvia entre os produtos, e os quadrinhos podem até ter o título dos filmes mas não a trama ou a caracterização desses. Capitão América é ou Sam Wilson ou (supostamente) um Agente da Hidra, Wolverine está morto, mas há uma versão envelhecida dele andando por aí em um universo alternativo (tente digerir essa, leitor que acabou de assistir Logan), Homem de Ferro é atualmente uma adolescente negra ou o Dr. Destino, e o Thor é agora a Natalie Portman. Ao menos o Hulk ainda é um nerd, embora agora seja um adolescente asiático.

Nenhum desses quadrinhos atrai leitores novos, familiarizados apenas com os filmes. Mesmo se se tentasse atraí-los, os quadrinhos estão sendo escritos e editados por pretensos eruditos políticos que dificilmente escondem seu desprezo por aqueles dos quais discordam. Aqui está um caso:

Isso. https://t.co/DrAhtHeptp

Marc Guggenheim (@mguggenheim) May 6, 2017

Merda, a Venezuela é os Estados Unidos amanhã. https://t.co/YzUA2Jf8FQ

Marc Guggenheim (@mguggenheim) May 5, 2017

Em homenagem ao 4 de maio, assistimos A Vingança dos Sith. pic.twitter.com/kBU7r2D3ZS

Marc Guggenheim (@mguggenheim) May 5, 2017

Rachel ataca Lydia Nace em X-Men Gold 3. Mas lá atrás, em “Os Fabulosos X-Men 207” de 1987, escrito por Chris Claremont e ilustrada por John Romita Jr., Rachel invade a casa da vampira mutante imortal Selene, para torturá-la e matá-la. Se havia alguém que merecesse esse fim, esse alguém era Selene, que por milênios sobreviveu por meio do assassinato de inocentes. Rachel encurrala Selene e está a ponto de assassinar a vilã, quando Wolverine, gravemente ferido, aparece para fazer Rachel desistir de tal feito.

Rachel se recusa a ouvir – Selene merece isso, ela diz. Logan responde que não é assim que os heróis são. Então ele avisa a Rachel: ele fará o que for necessário para impedir um assassinato, mesmo que seja o de Selene. Rachel desafia-o a tentar. A edição termina com um painel de página inteira onde se lê: “SNIKT”. O som das garras de Wolverine projetando-se.

30 anos depois, Rachel está livre para fazer as coisas do seu jeito. E os X-Men concordam com ela.

[*] Matt Battaglia. “X-Men Torture Head Of ‘Heritage’ Think Tank In New Comic Book”. The Federalist, 10 de Maio de 2017.

Tradução: Giovanni Russo

Revisão: Felipe Alves

2 comentários

  • Guggenheim é também um dos produtores do Arrow e do Legends of Tomorrow. Foi dele a ideia de colocar a Isis como sendo muçulmana como forma de “confrontar o Trump” e de fazer um episódio em Arrow para condenar o direito ao porte de arma.

  • Alan Simas Felizardo

    E a “Poderosa Thor”? O feminismo de nível “adolescente revoltadinha” só não é pior do que o ateísmo do autor Jason Aaron. Eu fico pensando: de quem foi a ideia de gênio de contratar um ativista ateu para escrever estórias sobre deuses? Não tenho nada contra o ateísmo, entenda, mas desde de que o autor assumiu o título ele só se preocupou em desconstruir o personagem. E isso fica muito claro desde os dois primeiros arcos, O Carniceiro dos Deuses e Bomba Divina, aonde um ser de um planeta deserto após perder sua família pra fome e miséria, desiste de acreditar em deuses, no que se depara com uma cena de batalha entre seres celestiais (o que deveria fazer qualquer descrente voltar atrás nas suas concepções) ele encontra uma arma e decide ir atrás de qualquer criatura que se autointitule Deus para subjuga-lo, algo muito lógico na cabeça de um ativista. Daí pra frente tudo se torna uma chance de exaltar o humano falho e ridicularizar o divino. Digo isso porque o texto é bem simples de ser entendido, pro Aaron, a ideia de um ser maravilhoso e perfeito é tratado como algo ridículo, e os personagens humanos, por vezes passam deuses e seres dos mais poderosos pra trás. Numa trama realmente ingenua, onde mega corporações exercem influência sobre os planetas da Arvore Cósmica, a Yggdrasil, muito mais do que qualquer reino viking jamais conseguiu, o autor Jason Aaron escreve uma das fases mais bobas e ideológicas do selo Thor. Uma leitura cujo o único legado foi levantar bandeira e fazer o asgardiano perder o Mjionir. Agora empunhado por uma feminista. Se bem que depois que ele fez A Thor vencer o Odim numa luta mano-a-mano acho que é certo que o autor é o pior disso tudo.

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