William Shakespeare: um homem imortal

Por Joseph Pearce

mariaSoul of the age!

The applause, delight, the wonder of our stage!

My Shakespeare, rise! I will not lodge thee by

Chaucer, or Spenser, or bid Beaumont lie

A little further, to make thee a room:

Thou art a monument without a tomb,

And art alive still while thy book doth live

And we have wits to read and praise to give. — Ben Jonson¹

William Wordsworth, em seu soneto esplendidamente belo à Virgem Maria, chamou a Imaculada Mãe de Deus de “jactância solitária da nossa natureza eivada”. Por ser um inglês, ao contemplar o aniversário de quatrocentos anos da morte de William Shakespeare, sou tentado a dizer que o Bardo de Avon² é a jactância solitária de minha nação eivada. Eu percebo, certamente, que essa pretensão afeta a reputação de outros grandes escritores ingleses, tais como Chaucer, Austen e Dickens, e falha com o devido respeito e reverência a grandes santos ingleses, como Eduardo o Confessor³, a quem Shakespeare enalteceu em Macbeth, ou Robert Southwell, que Shakespeare conhecia e a quem elogiou perfeitamente em várias de suas peças, mais notoriamente em O Rei Lear. Todavia, há um sentido real em William Shakespeare se destacar como o colosso da cultura que merece o reconhecimento de Ben Jonson de que ele “não foi de uma época, mas de todos os tempos”. Sendo assim, a afirmação de que ele seja a jactância solitária de minha nação eivada poderia afetar Shakespeare mais do que a qualquer outro escritor. A verdade é que a Inglaterra não é digna de seu valor. Sua genialidade colossal é magnífica demais para que pertença a qualquer nação. Ele não pertence a um país, mas a todos; um presente enviado do céu para a humanidade, cujos dons são celestiais, resplandecendo a Música do Único ao qual honrou, acima de tudo, com seu talento. É por essa razão que ninguém pode tê-lo, mas louvá-lo.

A razão para que o Bardo de Avon “não seja de uma época, mas de todos os tempos” é que ele escreve com uma beleza inigualável sobre as coisas que unem a humanidade em todas as faixas etárias e culturas. Ele escreve sobre as coisas que são essencialmente humanas, que são parte de nossa essência, das virtudes e das verdades atemporais, dos vícios e das vaidades atemporais. Para ser mais preciso, ele faz isso, crucialmente, através de uma perspectiva da ortodoxia Cristã, que abrange as virtudes e verdades (o bom e o verdadeiro) e que está em guerra com os vícios e as vaidades (os pecados mortais, e o orgulho, que é o pior de todos os pecados).

No entanto, existe um outro significado mais profundo por trás das palavras de Ben Jonson. Não é porque Shakespeare sobreviveu ao teste do tempo que suas peças — e a verdade e moralidade contidas nelas — transcendem o tempo. Elas não são meramente obras que resistem ao tempo, são obras que vão além do tempo. Elas têm sua inspiração nas verdades eternas e apontam a essas mesmas verdades. Essas verdades não mudam com o tempo, nem são modificadas por ele; Elas simplesmente existem.

Talvez a melhor maneira de ilustrar essa dimensão transcendente em Shakespeare seja comparar o Heilige Geist com o zeitgeist, o Espírito Santo com o Espírito da Época. O Espírito Santo não muda de uma geração para outra; ele simplesmente o é. O Espírito da Época, por outro lado, está sempre mudando. Ele está sujeito ao tempo e é modificado por ele. O significado literal de zeitgeist é Espírito do Tempo. Aquele que serve ao Espírito do Tempo é o mesmo que queira parecer relevante aos modismos e modas de sua época. Sua principal preocupação é manter-se atualizado. O problema é que esses que se mantém atualizados, muito em breve ficarão ultrapassados porque — como C.S. Lewis gracejou — a moda sempre vai e volta, embora ela geralmente vá. Aquilo que é relevante a moda de hoje será irrelevante a ela amanhã.

A razão de Shakespeare não pertencer a uma época, mas a todos os tempos é que ele serve ao Heilige Geist, e não ao zeitgeist. As verdades que inspiram a sua Musa, e as verdades que emergem pelos frutos de sua Musa (suas peças e poemas) são as verdades do Espírito Santo, as verdades da [Santíssima] Trindade, as verdades do Cristo e as verdades da Igreja Católica, que é o Corpo Místico de Cristo. Essas verdades não apenas resistem ao teste do tempo, elas são as verdades pelas quais o próprio tempo é testado.

1 – Espírito do tempo!

O aplauso, o agrado, a maravilha de nosso momento!

Meu Shakespeare, levanta-te! Não te trocarei

Por Chaucer ou Spenser, ou Beaumont estenderei

Um pouco mais, para abrir-te a lacuna:

Tu, arte, um monumento sem tumba,

E a arte viverá ainda, enquanto teu livro viver

E tivermos na leitura o pensar e louvores a fazer. — Ben Jonson

2 – Um dos apelidos de William Shakespeare na Inglaterra.

3 – http://heroismedievais.blogspot.com.br/2012/11/santo-eduardo-o-confessor-rei-da.html (parte 1)

http://heroismedievais.blogspot.com.br/2012/12/santo-eduardo-o-confessor-rei-da.html (parte 2)

Joseph Pearce. “William Shakespeare: A Man for All Time”. The Imaginative Conservative, 22 de Abril de 2016.

Tradução: Hélio Duarte

Revisão: Rodrigo Carmo

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