Uncharted 4: Nathan Drake é um Raro Exemplo do Macho Alfa Herói

Por John Daniel Davidson [*]

O lançamento de ‘Uncharted 4’ da Sony nesta semana é uma rara afirmação cultural do antiquado macho alfa herói no personagem de Nathan Drake.

O lançamento nesta semana de Uncharted 4: A Thief’s End para o PS4 é um grande evento no mundo dos games. Com o quarto e último jogo da série que perdurou uma década, Uncharted já é tido como o jogo mais popular e mais bem sucedido da Sony de todos os tempos.

Mas o lançamento de Uncharted 4 é também importante fora do mundo dos games por causa da audaciosa caracterização do heroísmo masculino na figura de Nathan Drake, o protagonista do jogo. Tão recentemente quanto alguns anos atrás, seria duvidoso dar a personagens de videogames o mesmo peso literário que geralmente reservamos para personagens de romances e filmes. Mas os avanços tecnológicos permitiram aos desenvolvedores de jogos criarem mundos tão admiráveis quanto os de filmes e histórias tão intrincadas quanto os romances.

Também permitiu a eles criar personagens literários distintos como Drake (dublado pelo mesmo ator em todos os quatro jogos, Nolan North), que é mais ou menos um Indiana Jones moderno. Ele é engraçado, se auto deprecia, é ousado, imprudente, e, no final do dia, um homem de princípios. Em nossa cultura moderna, o que é único sobre Drake não é que ele atira em caras maus e descobre cidades perdidas. É que ele é um cara normal que acredita em decência, lealdade, honra, coragem e amor. Ele é tão antiquado quanto o Rick Blaine de Humprhey Bogart em Casablanca ou o Philip Marlowe de Raymond Chandler.

A Guerra da Esquerda contra os Heróis

Se você não acha que isso é uma raridade nesses dias, considere que o conceito de masculinidade tem sido atacado nos últimos anos pela Esquerda. Esta manchete, “O problema das armas na América tem tudo a ver com o problema da masculinidade na América” resume bem o pensamento esquerdista. Claro que não demorará muito para isso eclodir na política. Republicanos têm um “problema de masculinidade” uma acusação viável, pelo menos para os esquerdistas, com a ascensão de Donald Trump. Em meio ao debate sobre banheiros transgêneros e a extensa agenda trans, pode-se encontrar livros inteiros sobre “A Destrutiva Masculinidade na Cultura Ocidental”.

Um símbolo proeminente tanto da masculinidade quanto do patriotismo antiquado, o Capitão América, tem sido alvo de grande escrutínio. A Vanity Fair lamenta a “virilidade heterossexual” do novo filme do Capitão América, e o critica por tirar “o sonho de Bucky e Capitão” como amantes gays (como se isso fosse o que os fãs mais estivessem querendo). O Salon pensa que super-heróis como Capitão América e Thor estão “estão colocando padrões [de beleza] irreais para homens”. E por aí vai.

Super-Heróis são problemáticos para a Esquerda, mas assim também os são os velhos heróis comuns e até mesmo os homens comuns. A Faculdade de Springfield em Massachusetts, por exemplo, recentemente eliminou uma aula de “Homens na Literatura”, porque supostamente criou um “ambiente hostil” para as mulheres. Se homens são um problema, então os homens alfa com suas atitudes do século XXI de masculinidade, moralidade e honra são realmente um problema. Estes tipos tendem a ser tanto homens de romance quanto homens de ação, e nenhum deles são o que se poderia chamar de homem domesticado ou politicamente correto.

Mas eles vivem por seus princípios, o que geralmente significa sacrifícios, desistir de tesouros ou pagamento ou reputação os mesmos objetos de suas aventuras com o intuito de fazer o que é certo. Esse é um destino constante, por exemplo, do Capitão Malcom Reynolds da série de 2002 “Firefly”, que sempre parecia desistir de sua carga ou pagamento pelo bem de sua tripulação. E claro o Indiana Jones praticamente nunca consegue levar os artefatos de volta para o museu.

Um exemplo mais literário e comovente é de Philip Marlowe, que raramente é pago por descobrir a verdade, constantemente rejeita os gracejos de mulheres porque pensa que dormir com elas não seria certo considerando as circunstâncias, e frequentemente é surrado por perguntar demais. Ao final de O Perigoso Adeus ele retorna um cheque de 5.000 dólares dizendo “Pegue o seu dinheiro, Señor Maioranos. Tem muito sangue nele”.

A Medida de um Homem

Quanto a Drake, em Uncharted ele parece nunca manter os tesouros que encontra. Uncharted 4 mostra ele levando a vida quieta de um homem casado. Aposentado da caça ao tesouro, ele administra uma companhia de resgate marítimo e vive uma vida pacífica, a domesticação rotineira. Sem entregar muito da trama, Drake é arrancado da vida serena e embarca novamente em um mundo de cidades perdidas, vilões inescrupulosos e tesouros.

À primeira vista, isso parece com uma censura de toda a noção de domesticação e felicidade conjugal. Mas a esposa de Drake, Elena, é uma aventureira, uma intrépida repórter que Drake conheceu no primeiro Uncharted e que o acompanha em algumas de suas jornadas. Assim como Drake é modelado à partir de Indiana Jones, Elena é a imagem e semelhança de Marion, a outrora amante de Indiana em Os Caçadores da Arca Perida, que o salvou mais de uma vez.

Assim como Indiana, o personagem de Drake constitui uma censura ao moderno “macho beta”, um homem covarde indisposto a se elevar pelos seus princípios ou defender os fracos (ou até mesmo se mudar da casa da mamãe e do papai). Se esquerdistas pensam que um macho alfa é basicamente um porco sexista, conservadores apontam o Garoto de Pijama, o insuportável homem-criança do Obamacare, como a representação do macho beta.

Mas perdido em todo esse xingamento há uma realidade mais sutil dos homens modernos: nós não somos binários, machos alfa ou machos beta. A verdade é que os homens modernos estão em conflito e muitas vezes inseguros em como levar a vida em uma cultura que está constantemente nos dizendo para suprimir nossa masculinidade e abraçar nosso lado mais sensível igual aquela lista embaraçosa do New York Times da última primavera, “27 Maneiras de ser um Homem Moderno” (Nº 20, “Ocasionalmente, o homem moderno é a colher de chá. Algumas noites, quando ele está se sentindo para baixo ou vulnerável, ele precisa de escudo físico e emocional”).

O fato é, homens devem ser masculinos. Isso não significa ser sexista ou intolerante, significa estar disposto a lutar, fisicamente se necessário, pelo que acreditam. Mais que isso, significa aderir aos seus princípios, mesmo ao custo pessoal. Para citar o falecido, grande Michael Kelly, havia um tipo de homem americano nas décadas de 1930 e 1940 antes de Frank Sinatra e a invenção do “descolado” exemplificada por Bogart em Casablanca e Marlowe em O Perigoso Adeus e também por Drake. Este homem, em sua essência, é um conservador:

Ele está disposto a morrer por suas crenças, e suas crenças são, embora lhe doa esconder isto, antiquadas. Ele acredita na verdade, justiça, o modo de vida americano, e no amor… Ele é, de certo modo, um cavalheiro e, e sob o ponto de vista moderno, um igualitário sexual. Ele é direto, desdenhoso da desonestidade em todas as suas formas, de fingir a mentir. Ele enfrenta seus inimigos abertamente e honestamente, mesmo que possa perder. Ele é honrado e virtuoso, embora ele corretamente desconfie de homens que falam sobre honra e virtude. Ele pode estar cansado da vida, mas ele não é irônico.

Se, em 2016, precisamos de um personagem de videogame como Drake para transmitir esse ideal de homem para uma nova geração, então aceitamos de bom grado um personagem de videogame.

[*] John Daniel Davidson. “Uncharted’s Nathan Drake Is A Rare Modern Alpha Male Hero”. The Federalist, 13 de Maio de 2016.

Tradução: Giovanni Russo

Revisão: Rodrigo Carmo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *