Uma Introdução a F.A. Hayek

(Prefácio do livro “Essential Hayek” do Fraser Institute)

por Vaclav Klause

hayektdcitacaoAqueles de nós nascidos no século XX – o século de duas destrutivas guerras mundiais e dois igualmente ruinosos períodos de Nazismo e Comunismo – particularmente aqueles de nós nascidos durante a Segunda Guerra Mundial e que dispenderam quatro décadas sob o Comunismo, que tentaram à época entender o que estava se passando, e que eventualmente tiveram a coragem de tentar mudar, estivemos sempre procurando por uma bússola que tornasse possível alguma orientação na vida. De um lado, procurávamos nas ciências sociais por uma descrição e explicação teórica, no trabalho de importantes professores, pensadores e escritores, e de outro lado, procurávamos por personalidades significativas, influentes, inspiradoras e francas, para modelos a seguir, cujas vidas estivessem em linha com seus escritos.

Friedrich August Hayek foi absolutamente crucial para muitos de nós em ambos os aspectos. Nascido em 1899 em Viena, a capital do Império Áustro-Húngaro, que ainda estava sob o governo do Imperador Franz Joseph I, Hayek participou da Primeira Guerra Mundial como soldado no front Italiano. Quando retornou para casa em Viena para completar seus estudos universitários encontrou o império perdido, as fronteiras da Europa redesenhadas, o país profundamente abalado, e a economia em ruínas (e experimentando um hiperinflação devastadora). Ele começou a trabalhar numa instituição administrada pelo governo lidando com os débitos da guerra sob os auspícios de um outro grande economista Austríaco, uma geração mais velho, Ludwig von Mises. Mises dedicou-se à tradição da Escola Austríaca de Economia e sua poderosa metodologia (especialmente sua Teoria da Moeda e do Crédito) e, com a formação da União Soviética e seu planejamento central sem mercado e preços, para o repentinamente altamente relevante debate sobre a impossibilidade do cálculo econômico sob o socialismo. Hayek desenvolveu e enriqueceu substancialmente ambos os tópicos em seus escritos nas décadas seguintes.

Após mudar-se para a Inglaterra e para a London School of Economics em 1931, na época da Grande Depressão, Hayek rapidamente tornou-se o maior oponente de John Maynard Keynes e sua defesa da intervenção massiva do estado como uma salvação necessária ao capitalismo. Hayek opôs-se acentuada e inflexivelmente à doutrina Keynesiana, a qual ele interpretou como o veículo mais perigoso porque, através dela, as portas estariam abertas ao socialismo integral. Muitos consideram que a disputa entre Hayek e Keynes tenha sido a controvérsia mais importante do campo da economia no século XX. Por muitas décadas – na verdade até o período de estagflação da década de 1970 – Keynes parecia ser o vencedor, ao menos na prática, no campo da política econômica.hayektdcaminohdaservidao

A Escola Austríaca de Economia tradicionalmente subestimou, se não negligenciou a macroeconomia (ou ao menos sua importância), e Hayek compreendeu que não venceria o debate aceitando como campo de jogo a macroeconomia Keynesiana. Ele decidiu atacar as doutrinas intervencionistas de Keynes movendo-se para a microeconomia, para a defesa do papel insubstituível dos mercados e preços na economia, e para a demonstração de que o intervencionismo torna impossível o funcionamento eficiente do mercado. Seus artigos seminais, “Economia e Conhecimento” e especialmente “O Uso do Conhecimento na Sociedade”, estão entre as mais importantes contribuições ao campo da ciência econômica em todo o século XX. Hayek dedicou sua análise a explicar a coordenação da ação humana num mundo em que o conhecimento é inevitavelmente disperso e foi capaz de provar que a solução está no sistema de preços, não no planejamento central.

Hayek foi além. Seu próximo movimento foi transpor as barreiras da ciência econômica. Durante a trágica Segunda Guerra Mundial ele viu não apenas o Nazismo na Alemanha (e em sua terra natal, a Áustria), e o comunismo na Rússia e toda a União Soviética, mas também a similar centralização da tomada de decisão, planejamento governamental e administração da economia, a similar supressão de direitos civis e a introdução de todos os tipos de controles em todos os países engajados na guerra. Ele considerou este novo desenvolvimento uma tendência que tinha que ser desafiada. Ele o fez em 1944 com a publicação de um livro não acadêmico. O Caminho da Servidão (dedicado aos socialistas de todos os partidos), que se tornou o texto mais importante para todas as pessoas amantes da liberdade, desde então. Devo confessar que foi quase uma Bíblia para aqueles de nós que viveram décadas sob o Comunismo. Hayek chama nossa atenção para a estrada enganosa que desce de uma, a primeira vista limitada e quase “inocente”, intervenção do governo, para um sistema iliberal e não livre. A liberdade foi para Hayek o valor essencial da Civilização Ocidental, sem o qual outros valores não podem realizar-se.

O Caminho da Servidão tornou-se um bestseller (especialmente após a versão Readers Digest) e abriu para Hayek as portas aos leitores não acadêmicos. Ele não parou aí. Continuou sua missão com uma importante atividade organizacional, fundando a Mont-Pélérin Society em 1947. A sociedade reuniu um grupo muito influente de liberais clássicos e outros oponentes do intervencionismo e da social democracia. Por quase sete décadas desde então, a sociedade tem se reunido regularmente, e é responsável pela renovação do liberalismo na segunda metade do século XX.

Frustado por ver o crescente impacto do Keynesianismo nas décadas de 1950 e 1960, Hayek meio que abandonou a teoria econômica e moveu-se para campos mais gerais (e menos rigorosos) – para a filosofia política, o direito, a metodologia da ciência e até psicologia. Seus tópicos foram diversificados, mas seus conteúdos permaneceram muito focados: a liberdade, seus inimigos, livre mercado e as ambições do construtivismo. Esta mudança de tópicos pode ser facilmente distinguida pelos títulos de seus livros e artigos do período: O Abuso da Razão; A Ordem Sensória; Individualismo: Verdade e Falsidade; A Teoria do Fenômeno Complexo; Evolução de Sistemas; O Atavismo da Justiça Social; A Contra Revolução da Ciência; Direito, Legislação e Liberdade, etc…

Hayek passou a maior parte da década de 1950 nos EUA, uma parte significativa na Universidade de Chicago (apesar de sua frustração, devido ao caráter não acadêmico de O Caminho da Servidão, seu período em Chicago não foi no prestigioso Departamento de Economia). No início dos anos 1960, Hayek voltou para a Europa, para Universidade de Freiburg, e passou o último terço de sua ativa vida na Europa, à qual ele realmente pertencia.

Em 1974, quando tinha formalmente parado de escrever sobre assuntos econômicos, ele obteve o Prêmio Nobel em Ciência Econômica, que foi uma importante justificação e de grande satisfação para ele. Em seu discurso na premiação, “A Pretensão do Conhecimento”, ele resumiu suas perspectivas sobre a diferença entre as ciências físicas e ciências sociais (incluindo economia), e criticou as tentativas de uso de métodos das ciências físicas em outros campos. Ele chamou esta tentativa de “cientificismo”, não ciência.

Nas últimas décadas de sua longa vida (ele morreu em 1992, aos 93 anos), Friedrich Hayek esteve envolvido na preparação, de maneira normativa, do esquema de A Constituição da Liberdade (publicado em 1960), no qual ele tentou formular as precondições legislativas para a liberdade (sem tentar “vender” isto a nenhum partido político). Ele tornou-se um defensor do evolucionismo e da “ordem espontânea” (como opostos ao construtivismo). O contraste entre o “racionalismo construtivista” e “a maneira de pensar evolucionária” foi absolutamente crucial para ele. Ele tentou mostrar a impossibilidade do construtivismo racionalista. Compreender sua ênfase na diferença entre ação humana e design humano é compreender Hayek.

Hayek foi um dos intelectuais mais significativos do século XX, mas embora tenha sido extremamente importante para as pessoas nos países Ocidentais, ele não foi suficientemente apreciado e reconhecido. Lembro-me de estar na “sua” Áustria em 1989, um dia antes da Revolução Velvet em meu país, e ouvir na Universidade de Linz que “Hayek está morto para a Áustria”. Reagi dizendo que o traríamos de volta à vida em Praga novamente. Ousei argumentar que Hayek foi mais importante para nós no Oriente do que para pessoas no Ocidente. Os Ocidentais realmente veem um perigo real no Comunismo, mas não viram que estavam começando o caminho de descida de sua própria “estrada enganosa” Hayekiana. Eles quase sempre consideraram suas perspectivas dramáticas ou exageradas. Para nós, Hayek foi um guru, nosso professor, nosso farol, nossa bússola, na depressiva era do Comunismo. Era mais fácil para Hayek conquistar nossos corações.

Após a queda do Comunismo, a era otimista em que as doutrinas do “fim da história” (a la Fukuyama) dominaram, Hayek foi considerado vingado – embora ironicamente, seus escritos tenham sido amplamente esquecidos, como se não fossem mais relevantes. Ele foi anunciado como o “profeta que provou estar certo” (o que foi um pouco ilógico porque ele nunca acreditou que suas perspectivas e propostas pudessem vencer no mundo real), mas suas ideias (e seus alertas) pareciam pertencer a um tempo diferente. Com a “vantagem” de nosso passado Comunista, entretanto, alguns de nós sabíamos que os escritos de Hayek não eram de forma alguma menos relevantes do que foram antes.

Duas décadas após a morte de Hayek a história se move novamente. O intervencionismo estatal está de volta e crescendo, a era Reagan-Thatcher esquecida há muito, como a era Comunista. O paternalismo estatal, regulação e controle, bloqueio social e ambiental do funcionamento dos mercados, o construtivismo e o dirigismo estão de volta e, especialmente na Europa, estão mais fortes que nunca. Devemos voltar aos ensinamentos de Hayek. Devemos mais uma vez tomar seus livros em nossas mãos e tentar espalhar seus pensamentos por todo o mundo, porque são tão relevantes agora como no passado.

Este livro é um bom começo. Ele nos introduz no caminho de reapresentar Friedrich Hayek para novas audiências, que muito embora não percebam, precisam de seus insights e ensinamentos quase tanto como precisávamos no século XX. Grande parte do mundo Ocidental está bem adiantado no “caminho enganoso” que Hayek advertiu em seus escritos. Apenas pelo entendimento da trágica trajetória que pode desenrolar-se é que entenderão quão urgente é que evitemos as armadilhas do passado. Este livro é um grande recurso para aqueles que valorizam a liberdade, porém, até mais importante, é leitura essencial para aqueles que estão ignorantes dos muitos perigos que podem se suceder a uma sociedade que ignore as lições do passado.

Václav Klaus é antigo Presidente da República Tcheca (2003-2013), atualmente Presidente do Instituo Václav Klaus, Membro Sênior do CATO Institute, e Professor de Economia na Universidade de Praga.

Tradução: Flávio Ghetti

Revisão: Hélio Duarte

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