Tradição e inovação são incompatíveis?

Por Donald Yerxa [*]

Nossa época é de inovação. Os mundos dos negócios, da educação, da medicina e da política são todos impulsionados pela busca de novas idéias, produtos tecnologias e abordagens. Nosso crescimento econômico, sucesso educacional, saúde e bem estar, e futuro político engrenam no progresso que apenas a inovação pode gerar e manter. Dizem-nos constantemente que precisamos pensar fora da caixa em uma jornada eterna por novidade e criatividade. Alguém precisa apenas pensar nas mudanças dramáticas nas mídias sociais pela última década ou algo assim – com tais implicações para como nos comunicamos, compramos coisas, nos relacionamos com outros, votamos e vemos nós mesmos e o mundo que habitamos – para admirar o poder da inovação que modela nossas vidas. Inovação é a chave para o progresso humano, enquanto falhar em inovar, parece, leva a estagnação, declínio, e, eventualmente, morte.

Mesmo sendo poderosa como a inovação é, ela deve enfrentar outra grande força, que é a tradição. A última se manifesta em um número de instituições sociais, hábitos, práticas e instituições que preservam as continuidades, regularidades, ortodoxias e “coisas permanentes” da existência humana. Tradição fala para aqueles impulsos de resistir a mudança rápida e inovação pela própria inovação e para as conexões afáveis e nutritivas com o passado – a “harmonia mística da memória” e costumes ritualísticos e cerimônia sagradas que ajudam a dar sentido à vida. Tradição condena a superficialidade presentista e a arrogância que descarta a sabedoria acumulada da humanidade.

Pode parecer, então, que inovação e tradição são incompatíveis: uma o motor da mudança, a outra o nexo de continuidade. Mas tal entendimento binário, de longe, é muito simplista. Com um exame mais próximo, é evidente que inovação e tradição estão intrinsicamente ligados. Como Michael North sugere, novidade é sempre circunscrito aos limites do antigo. Essa também é a conclusão de um número de acadêmicos proeminentes que têm comentado sobre a relação da inovação e tradição.

Por exemplo, o historiador Eric Hobsbaw, o filósofo político Alasdair MacIntyre, o sociólogo Edward Shils e o historiador da ciência Thomas Kuhn têm desenvolvido compreensões distintas da tradição e inovação que, tomadas em conjunto, ilustram as maneiras na qual os dois conceitos estão ligados. Podemos classificar a abordagem de Hobsbawm como utilitária, a de MacIntyre enfatizando a investigação racional, a de Shils como ampla e Kuhn como científica.

Em sua introdução a uma antologia clássica, Hobsbawm desenvolveu a noção de “tradição inventada”. Ele afirma que muitas práticas, regras e rituais geralmente considerados serem “tradicionais” são muitas vezes invenções recentes desenvolvidas em resposta a novas situações. O conceito é talvez melhor ilustrado em um capítulo memorável de Hugh Trevor-Roper sobre a tradição das Terras Altas da Escócia. Trevor-Roper defende que o tecido xadrez do Kilt não é um antigo “distintivo da sociedade das Terras Altas”, e sim uma “invenção retrospectiva” relativamente moderna usada para promover uma identidade nacional escocesa.

No trabalho de MacIntyre, tradição é um conceito central, embora ele tenha recebido algumas criticas por falhar em empregá-la com precisão ou mesmo definí-la. MacIntyre trata a tradição em termos de investigação racional, alegando que tal investigação sempre insere-se no contexto de pressupostos, práticas e objetivos compartilhados por uma comunidade intelectual específica. E, como Hobsbawn, ele também vê uma relação próxima, talvez paradoxal, entre tradição e inovação. Tradições de investigação, MacIntyre defende, são “definidas retrospectivamente”, frequentemente como resultado de confrontar alguma circunstância nova ou desafiadora. Por exemplo, a tradição teológica católica tridentina foi formulada como uma resposta ao desafio da reforma protestante.

Shils se agarra a uma visão da tradição mais multifacetada, embora não menos paradoxal. Sua abordagem ampla situa a tradição dentro da produção cultural acumulada do passado, passada adiante por instituições sociais tais como a família e a igreja. Entendida desta forma, a tradição alimenta a soma total de cultura humana. O que faz isto inerentemente paradoxal é que muitas das coisas que são passadas adiante como tradição já foram associadas com a inovação ou mesmo a rejeição da autoridade. Shils delineia esta tensão ao sugerir que há tradições de inventividade e originalidade pelas quais, como um outro autor colocou, “mesmo o trabalho mais original deve algo à tradição”. Historiadores podem traçar a genealogia destas tradições anti-tradicionais retroativamente, mas elas geralmente não são reconhecidas como tais no início do desenvolvimento.

E então há Thomas Kuhn. Mais conhecido pelo “A Estrutura das Revoluções Científicas ”, Kuhn produziu um artigo de conferência em 1959 que trata diretamente de nossa “grande questão”. O título, “A Tensão Essencial: Tradição e Inovação na Pesquisa Científica”, transmite o ponto crucial de seu argumento: Ambos os pensamentos convergentes e divergentes são necessários para a ciência avançar. Mas eles sempre estão em tensão entre si. A pesquisa científica normal é uma atividade altamente convergente baseada no “consenso estabelecido” de uma comunidade científica; divergência do consenso é relativamente rara, mas depende de períodos extensos de pesquisa convergente. O “efeito último” do “trabalho de laços tradicionais”, Kuhn defende, “tem sido invariavelmente mudar a tradição.”

Então, a ciência deve ser, simultaneamente, igualmente firmemente tradicionalista e inovadora, pelo menos potencialmente.

As visões destes pensadores desafiam a noção de que a inovação e tradição são incompatíveis. Se Hobsbawm, MacIntyre, Shils, e Kuhn estão certos, inovação e tradição são, ao contrário, dois lados da mesma moeda. Nenhuma delas pode ser entendida adequadamente de forma isolada. Como categorias analíticas, elas precisam funcionar em conjunto.

Dito isso, questiono se estas são boas categorias analíticas. Minhas reservas sobre elas partem de uma falta de precisão da definição. Não há realmente alguma definição de tradição que abranja o todo. Como Wilfred M. McClay notou, “tradição” tem uma “linhagem complicada”. De acordo com um antigo significado da palavra, “tradição” tem um sentido negativo, relacionado à rendição ou traição: entregar, como entregar alguém às autoridades seria chamado de um ato de tradição. Um sentido mais familiar de “tradição” como passar [algo] adiante tem suas próprias conotações negativas: de limitar o progresso ou cortar o potencial humano. Tradição neste sentido é frequentemente invocado de um jeito Bukleyano como “inverter a direção da história, gritando Pare!” Outra definição de trabalho pode ser: passar adiante algum aspecto do passado para servir de referencial a ações ou políticas no presente. Enquanto tais definições podem funcionar descritivamente, falta a elas rigor conceitual.

Inovação é um termo ainda mais impreciso. Geralmente é aplicado atualmente a qualquer coisa que é nova ou diferente. Mas a associação implícita de inovação com mudança positiva é um desenvolvimento relativamente recente. No seu uso original em latim, ‘inovar’ é renovar ou reformar, não começar de novo. De fato, as palavras “inovação” e “novidade” foram costumeiramente consideradas pejorativas até o século dezenove; elas tinham a conotação não apenas de ser novo, mas sem sentido ou mesmo um novo prejudicial. Então, como no caso da tradição, devemos confiar nas definições de trabalho. Mas como reconhecemos algo como uma inovação genuína? Como a inovação se origina? Como ela é transmitida? Como ela difere da simples mudança, invenção, ou melhora incremental? Não há respostas claras. Além disso, a ubiquidade do “discurso da inovação” exacerba a situação, incitando alguns a atacar a “celebração negligente da novidade” e a questionar se inovação se tornou um clichê tal que perdeu todo o sentido.

Além da imprecisão da definição que existe, ambos os conceitos tem maiores problemas de teorização fraca e obscuridade conceitual. Esse é precisamente o caso ao se tratar de inovação.

Enquanto há muitas análises sobre inovação no contexto dos negócios, há muito poucos estudos acadêmicos compreensivos do conceito. O melhor até agora é o ‘Novidade: Uma História do Novo de Michael North’ de 2013, que fica aquém de ser, nas palavras do autor, “um texto padrão ou uma história completa”. North, um professor de inglês, defende que novidade tem sido historicamente construída ou como recorrência (criar algo novo por recorrência de algo novo) ou recombinação (combinando elementos existentes em novos padrões), ou alguma combinação dos dois. Ele nota, no entanto, que algum conceito de novidade enfrenta um problema fundamental: ele “depende de algo anterior, a mesma continuidade que afirma violar”. Consequentemente, faz fronteira com “absurdo ontológico”. Há outro problema com inovação: o conceito costume ser empregado teleologicamente, alimentando o que historiadores chamariam de tendência iluminista de focar em tudo o que trouxe mudanças significativas e subvalorizar aqueles aspectos do passado que não deram frutos inovadores.

Similarmente, há alguns tratamentos compreensivos do conceito de tradição, apesar do seu uso amplamente genérico. E enquanto diversos acadêmicos – incluindo aqueles que comentei antes como William F. Shuter (cujo ensaio se intitula “Tradição como releitura” em uma antologia obscura descobri ser muito útil para preparar este ensaio) – têm escrito perceptivamente sobre tradição, ela continua com teorização fraca. Além disto, é amplamente visto com suspeição como uma categoria analítica nas ciências humanas.

Claramente, muito mais trabalho é necessário para fornecer uma claridade maior e rigor analítico para estes conceitos. Infelizmente, há poucos acadêmicos recentes dedicados ao estudo da interação entre tradição e inovação. Uma exceção recente é a antologia Tradição como o Futuro da Inovação, que cresceu de uma conferência internacional de filosofia na Itália. É muito cedo, no entanto, para dizer se estes debates preliminares estimularão mais pesquisa.

Então deveríamos abandonar conceitos de inovação e tradição? Não. Eles tem um valor heurístico considerável, mesmo que precisem de rigor conceitual para usá-los como categorias analíticas. O que é especialmente necessário é uma investigação mais ampla de contextos específicos, passado e presente, nos quais há evidência de uma mudança significativa. Apresso-me a ascrescentar (como já comentei em outro lugar) que precisamos também complementar estes estudos de caso com as necessárias tentativas de explorar padrões mais amplos de atividade. Hoje há tal ênfase na complexidade, especialmente entre historiadores, que acadêmicos cuidadosos frequentemente evitam generalizações com o temor de sacrificar a especificidade e complexidade da história. Mas não deveríamos deixar as demandas da especialidade acadêmica – importante como elas são – nos impedir de desenvolver hipóteses provisórias para lidar com padrões históricos tão gerais. Então, enquanto uma grande teoria da mudança está provavelmente além de nosso alcance, um trabalho empolgante precisa ser feito. Estudos em uma variedade de escalas podem ser extremamente importante em nos ajudar a esclarecer o que queremos dizer com inovação e permitem-nos entender melhor por que a inovação acontece, quando e onde acontece, bem como o papel que a tradição pode desempenhar em inibir ou estimular a inovação.

Questões para discussão:

  1. A inovação é supervalorizada como conceito?
  2. O conceito de inovação tem poder explanatório analítico suficiente ou é apenas um termo descritivo?
  3. É possível dar uma definição precisa de “tradição”?
  4. É possível formular uma grande teoria da mudança na sociedade humana?
  5. Pode a consideração evolutiva das sociedades humanas como incremental, gradual, espontânea e não planejada – como as que são oferecidas pelo jornalista científico popular Matt Ridley – ser uma melhoria sobre a dinâmica inovação-tradição?

Resumo da Discussão

Meu ensaio sobre a interação entre inovação e tradição gerou cinco respostas. É justo dizer que nenhuma apontou alguma exceção para a minha alegação básica de que inovação e tradição são dois lados da mesma moeda. Nenhuma pode ser adequadamente entendida em isolamento. Como categorias analíticas, elas funcionam necessariamente entrelaçadas.

As respostas foram basicamente de dois tipos: aqueles que sugeriram mais exemplos para reforçar meu argumento e aqueles que questionaram sobre as implicações. Reconheço as primeiras e sinalizo que meu ensaio não tinha a intenção de ser um tratamento exaustivo da inovação e tradição. O outro tipo de comentário me permitiu expandir um pouco o que eu disse no ensaio online.

A questão de por que certos lugares e momentos parecem experimentar maior receptividade a inovação é importante. Fui capaz de trazer alguns pontos razoavelmente óbvios sobre como a mistura entre inovação e tradição certamente não tem sido sempre uma constante. Algumas sociedade têm sido muito mais abertas a inovação do que outras. E há períodos cronológicos quando a mudança parece definitivamente estar mais propícia. A questão mais substancial, é claro, é: “Por que é assim?”. Ela nos traz às complexidades desta questão. O que catalisa a novidade? Sou incapaz neste ponto de sugerir uma lista curta que cubra todos os contextos. Mas estou inclinado a olhar a tais coisas como orientação geográfica e geopolítica (Ex: elementos cosmopolitas de poderes marítimos versus dimensões mais regimentadas e autoritárias de poderes continentais, que a natureza não forneceu fronteiras facilmente defendidas); estímulos religiosos por reforma e renovação; robusta atividade econômica e científica; “culturas do crescimento” (emprestado do Joel Mokyr); e sociedades e políticas que enfatizam o individualismo.

Minha resposta a uma questão similar me permitiu comentar em seguida que historiadores de minha geração rotineiramente viram mudança e continuidade como as linhas que costuram a história. Mas ao invés de afirmar que sempre houve uma dança entre mudança e continuidade ou, se você permitir, inovação e tradição, historiadores não alcançaram nada remotamente parecido com um consenso para o que alimenta estas forças. Isto não deveria ser surpresa. A absoluta complexidade da mudança e continuidade em instâncias históricas particulares é estonteante.

Isto sugere, ao meu ver, algumas direções para futuras investigações neste tópico. Primeiro, enquanto rotineiramente empregamos os termos inovação e tradição, há relativamente pouco estudo acadêmico sobre eles como conceitos que possam ser usados com rigor analítico. É ainda mais surpreendente, a mim pelo menos, que este é especialmente o caso da inovação dada sua ubiquidade no discurso atual.

A ausência de rigor conceitual torna altamente improvável que possamos desenvolver uma grande teoria da mudança na história e sociedades humanas – uma que considera adequadamente a “tensão essencial” entre inovação e tradição. Mas deveríamos trabalhar com esta finalidade. Isso irá precisar de mais investigação para contextos específicos, passados e presentes, nos quais haja evidência de mudança significativa. Alguns podem dizer que este é precisamente o que a maioria dos historiadores fazem rotineiramente. Mas estou sugerindo investigações que não buscam entender o particular, mas também construir insights colhidos de contextos específicos para tratar de questões mais amplas sobre o que catalisa a mudança e o que a inibe. Isso significa que – e aqui estou pensando primariamente em historiadores – precisamos fazer um trabalho muito melhor de sugerir padrões em larga escala que ofereça “respostas” provisórias para questões como a da interação entre tradição e inovação. Fazer isto é se envolver em um tipo de síntese e generalização que especialistas acham problemáticas.

É comumente assumido entre historiadores acadêmicos que todas as situações históricas possuem uma singularidade irredutível. Mas, como defendi em outro lugar, interrogamos o passado não apenas para examinar os particulares “deste lugar” e “deste tempo”, mas também como parte de determinar se padrões emergem para nos ajudar a entender o passado em escalas maiores de investigação que estudos de caso individuais. Quando padrões emergem de um estudo acadêmico cuidadoso, não devemos ser tímidos em rascunhar conclusões e desenvolver esquemas explicativos que podemos revisar à luz de novos dados. Como disse em meu ensaio, certamente podemos fazer mais que celebrar a especificidade e complexidade. Mas defender isto contraria o essencial da maior parte da prática atual entre historiadores acadêmicos.

Este exercício do BQO (Big Questions Online) desafiou-me a estudar mais a inovação e tradição com o objetivo de escrever um livro sintetizando interação delas através da história e sugerir padrões que emerjam. Dada a enorme amplitude do tópico, provavelmente limitarei meu pensamento à tradição e inovação na história cristã.

[*] Donald Yerxa. “Are Innovation and Tradition Incompatible?”. Big Questions Online, 4 de Janeiro de 2017.

Tradução: Pedro Henrique

Revisão: Rodrigo Carmo

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