Tolkien e a dádiva da mortalidade

Por Anna Mathie [*]

tolkQuando comecei a ler O Senhor dos Anéis, ainda na graduação, senti-me meio envergonhada por fazê-lo. Eu poderia me tornar uma daquelas garotas que deixam mensagens umas às outras, no quadro de avisos do dormitório, na língua dos elfos e que ficam acordadas até tarde discutindo a geografia da Terra Média em sotaques falsos de inglês. Mesmo após ter superado minha soberba e descoberto a grandeza do livro, pretensões literárias ainda me mantinham afastada dos apêndices: Explicações detalhadas da antropologia e da linguística inventadas — o que elas poderiam ser senão a loucura autoindulgente de um grande e singular autor? Mas, quando o acaso ou o tédio levaram-me, finalmente, a devorá-lo em um único dia, deparei-me com o que ainda considero o momento mais triste em um livro, repleto de sofrimentos extraordinariamente belos.

A sábia e bondosa Arwen, que desistiu de sua imortalidade élfica para tornar-se a rainha de Aragorn, é derrotada em seu leito de morte e implora para que ele fique com ela por mais tempo. Ele recusa, dizendo que o certo é que parta de bom grado, antes que fique fraco. Então, Aragorn diz a Arwen:

Não digo isso para consolá-la, pois nos círculos deste mundo não há consolo para tamanha dor. Cabe a você a escolha definitiva: arrepender-se e ir para o Paraíso, e levar consigo para o Oeste as memórias de nossos dias em comunhão, que permanecerão para sempre vivas, mas que não serão mais do que memórias; ou então suportar o Destino dos Homens.

Arwen responde que ela não tem escolha:

Submeta-me eu a ele ou não, devo, de fato, suportar o Destino dos Homens: a perda e o silêncio. Mas digo a você, Rei dos Numenores, não será assim até que eu entenda a história e a queda de seu povo. Como tolos vis, eu os desprezei, mas, no fim, compadeço-me deles. Pois se este é, realmente, como dizem os elfos, o dom dEle aos Homens, é amargo recebê-lo.

Imbuída desse novo e amargo conhecimento, ela parte sozinha após a morte de Aragorn, “a luz de seus olhos… destruída… cinza e fria como o anoitecer que chega sem estrelas.” Ela morre sozinha na terra morta de Lorien, onde, uma vez, viveram Elfos imortais.

Na concepção de Arwen, infinitamente mais sábia do que a nossa, e contrária, a morte é o desconhecido, uma descoberta nova e inesperada. Aragorn entende melhor; ele sabe, como todos os mortais deveriam [saber], que, diante da morte, o conforto é impossível, e, até mesmo, desonroso. Porém ele ainda se atém firmemente ao que Arwen tem entendido apenas como um princípio teológico abstrato: que a morte é um verdadeiro dom de Deus.

Eu choro sempre que releio essa passagem; ela me envolve como nenhuma outra, embora seja difícil de explicar por quê. O ponto principal da passagem é a frase “o dom dEle aos Homens.” Tolkien olha para “a perda e o silêncio” da morte indiferentemente, mas permanece firme: A morte é nossa maldição, mas, também, nossa bênção.

Ele escondeu essa história singular em um apêndice, mas a mesma ideia sobre a mortalidade permeia todo o livro. O enredo concentra-se em um anel que dá imortalidade ao seu portador, e o corrompe. Muitos dos interesses dos personagens surgem de interações entre raças mortais e imortais, as quais, mutuamente, iludem e fascinam umas às outras. A estrutura da obra também ecoa a própria mortalidade.

Eu tenho ouvido amigos criticarem o desfecho longo e vagaroso (mais de cem páginas), mas nunca entendi tais críticas. Eu fui grata por cada página, sempre vivamente consciente de que elas acabariam muito rápido. Aqueles capítulos finais são um retrato da mortalidade: não importa quão feliz termine uma história, ela deve terminar, e é este mesmo nosso maior sofrimento. Tudo que é belo e amado morre. A Sociedade do Anel completa sua missão, mas, com o fim de seus problemas, vem a separação de seus membros. Gandalf e os Grandes Elfos ganham a guerra, mas sua própria vitória os bane da Terra Média. Com eles, “muitas coisas boas desaparecerão e serão esquecidas”. Frodo salvou o mundo, mas, agora, anseia por deixá-lo. Esse foi um dos finais felizes mais tristes da literatura. Tolkien fez-nos saborear o agridoce, pois ele sabe (como Gandalf) que “nem todas as lágrimas são um mal”.

A mortalidade está, claramente, no âmago da história. O assunto é hoje um tema quente, com Leon Kass e outros “mortalistas” argumentando contra uma cultura de pesquisa que vê a morte e o envelhecimento simplesmente como adversários a serem derrotados. Se a medicina conseguir tornar o homem imortal, ou, ao menos, muito mais longevo, muito do que faz a vida humana valer a pena será perdido.

Kass usou a sabedoria de autores antigos, como Homero, para ilustrar sua visão dos benefícios da mortalidade. Em O Senhor dos Anéis, Tolkien reveste de Cristianismo a mesma visão. No mundo de Tolkien, imortalidade e vida longa levam até as mais nobres criaturas à morte espiritual, ou à completa corrupção.

As virtudes da mortalidade estão mais óbvias no grande paradoxo do livro: que os Hobbits, muito mortais, são os únicos que conseguem resistir à sedução do anel e destruí-lo. [Pertencentes] à, aparentemente, menor e mais insignificante raça, eles dedicam sua vida (relativamente) curta a atividades insignificantes. Para eles, as sublimes ideias dos elfos são pouco aproveitáveis. Como a maioria dos personagens em O Senhor dos Anéis observa, os hobbits são improváveis salvadores do mundo. Na verdade, sua humilde mortalidade pode ser seu maior trunfo.

Os hobbits são firmemente encarnados. Eles amam jardinagem, visitas, comidas, bebidas — “seis refeições por dia (quando possível)” — e festas e presentes. Além disso, diferente das outras terras que vemos, o Condado é cheio de crianças, pois Tolkien nos diz que os Hobbits possuem famílias grandes, sendo Frodo e Bilbo, “como solteiros, exceção”. Isso não é verdade para nenhum outro povo da Terra Média.

Os imortais elfos precisam de poucas crianças, é claro. Arwen parece ser considerada uma das mais jovens de seu povo; eles a chamam de “Evenstar”. Legolas, aparentemente, é o herdeiro de seu pai para a eternidade. Os anões, embora sejam mortais, vivem por muito tempo e têm filhos tão raramente que muitos acreditam que eles não nascem, mas surgem das pedras. Há poucas mulheres entre eles, e um número ainda menor de crianças, pois muitas anãs escolhem não se casar; o mesmo ocorrendo com os homens, “dos quais muitos também não desejam casamento, por estarem absorvidos pelo ofício”. Os Entes parecem viver quase para sempre, mas até eles têm morrido. “Pode-se dizer que, por terríveis longos anos, não temos visto uma criança Ente”, diz Barbárvore aos Hobbits. “Os Entes deram seu amor às coisas que encontraram no mundo, e as esposas dos Entes doaram seus pensamentos às outras coisas.” Por fim, as esposas dos Entes desapareceram por completo.

Não foram só as raças mais velhas e menores que deixaram de gerar crianças. A esterilidade também é característica de Gondor. Uma vez grandiosa, a cidade decaiu. Pippin vê lá que muitas casas terminaram vazias, de modo que “faltava metade dos homens que poderiam ter morado facilmente por lá”. O guarda Beregond diz a ele, “Sempre houve pouquíssimas crianças na cidade.” Quando Faramir, filho mais novo de Rei de Gondor, encontra Frodo, ele explica mais detalhadamente a decadência de seu País:

A morte sempre esteve presente, porque a calma dos Numenores, como houve outrora no reino, e foi então perdida, ansiava por uma vida infinita e imutável. Reis construíram túmulos mais esplêndidos do que casas para os vivos, e estimaram mais os nomes antigos das listas de seus ascendentes do que o nome dos filhos. Homens sem crianças sentaram em salões antigos divagando sobre os brasões; em câmaras secretas, homens a envelhecer fizeram fortes elixires, ou, em torres frias, fizeram perguntas às estrelas. E o último rei da linha de Anorien terminou sem herdeiro.

A imortalidade pessoal, ou o encanto por ela, parece voltar os membros de todas essas raças para si mesmos. Os elfos vivem mais em suas memórias do que no presente, as raças mortais que vivem por muitos anos fazem dos atos gloriosos uma tentativa de imortalidade pessoal. Para os elfos e os Entes, o resultado é um tipo de letargia. Para os homens, pode ser ainda mais sinistro: em Boromir, e, especialmente, em Denethor, Tolkien mostra o orgulho e o desespero que advêm da busca pela imortalidade pessoal por meio da glória individual.

Os hobbits não alimentam ilusões de que possam, de alguma forma, viver para sempre. Como resultado, concentram-se em preocupações imediatas e animais. Eles buscam a imortalidade somente por um caminho mais humilde e mortal: a imortalidade ordinária, impessoal e animal da paternidade. Não é por acaso que todos que se deparam com os Hobbits os confundem, à primeira vista, com crianças. Mesmo depois de longa convivência, eles são para Legolas “aquele povo pequenino e feliz” e, para Barbárvore, “os pequenos Hobbits”. Algo sobre os Hobbits é tão vivo e natural que eles voltam, invariavelmente, a mente dos outros à infância e às crianças.

Essa fertilidade, essa vontade de passar a vida a uma nova geração, ao invés da avidez por uma “vida constante e imortal”, é a grande força dos Hobbits, assim como deveria, igualmente, ser a força característica do ser humano. Isso os torna, de uma só vez, mais humildes do que imortais, por colocarem menos confiança em suas habilidades individuais; e mais esperançosos,  uma vez que suas próprias derrotas individuais não são o final de tudo. A vida que vive para a posteridade poderá nunca alcançar a perfeição, mas ela também não é nunca totalmente corrompida ou totalmente derrotada. Alguma esperança sempre permanence.

O elfo Legolas e o anão Gimle discutem essa obstinação dos mortais logo que vêem Gondor. Gimle observa na escultura mais velha da cidade uma promessa não realizada pelos mais jovens:

É sempre assim  com as coisas que os homens iniciam: há uma geada na Primavera, ou uma ferrugem no Verão, e eles falham em suas promessas.”

Porém, são raras as vezes em que eles, de fato, falham com suas sementes,” disse Legolas. “E elas permanecerão por tempos e lugares insondáveis. Os atos   dos Homens sobreviverão a nós, Gimli.”

Aqui, e durante todo o livro, semente é o símbolo de Tolkien para a esperança peculiar dos mortais. Gandalf diz a Denethor que ele também é um guardião, encarregado de preservar todas as coisas boas. Ele não terá falhado por completo, diz, “se alguma coisa, que ainda possa crescer regularmente ou dar frutos e flores novamente em dias que estão por vir, sobreviver a esta noite”. O emblema de Gondor, uma árvore branca, secou séculos atrás. Mesmo após a derrota de Sauron, Aragorn está ansioso pelo seu reino, até que ele possa encontrar uma muda para replantar na cidade.

Pois, como ele diz a Gandalf, por mais longa que seja sua vida, ele ainda é um mortal. A resposta de Gandalf indica que Aragorn deve buscar esperança na mortalidade: “Tire seu rosto do mundo verdejante, e olhe por onde tudo parece estéril e frio.” Aragorn encontra a muda — crescendo sozinha em uma encosta pedregosa e cheia de neve, que significa a continuação de seu reino por meio de seus herdeiros. Ele procura vida em um lugar de morte, como já havia feito antes no Caminho dos Mortos, como Arwen fez quando escolheu a vida mortal com ele, e como os Hobbits fizeram quando aceitaram a desesperançosa missão, e como fez Gandalf quando morreu, embora seja imortal.

A esperança de vida que a mortalidade oferece está muito longe de ser certa. A conversa de Legolas e Gimli continua com Gimli perguntando-se se os atos dos homens “ainda serão reduzidos, no final, a nada mais do que poderiam-ter-sido”. “Para isso os elfos não têm a resposta,” responde Legolas.

Nós também não sabemos a resposta. Tolkien não está tentando alegremente fingir que nossa condição é ideal, ou que a mortalidade garante-nos algum tipo de virtude. Mas, diferentemente da mortalidade terrena que ele previu para nós, nossa mortalidade oferece uma distinta e maior esperança para  além deste mundo, não importa quão incerta possa parecer. Essa esperança é o consolo que Aragorn oferece a Arwen em suas últimas palavras: “Em sofrimento devemos seguir, mas não em desespero. Veja! com os círculos deste mundo não estamos para sempre vinculados, e, para além deles, há mais do que memórias. Adeus.”

[*] Anna Mathie. “Tolkien and the Gift of Mortality”. First Things, Novembro de 2003.

Tradução: Laan Carvalho
Revisão: Gleice Queiroz

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