Tocqueville: As Mulheres Fizeram a América Grande (e elas fizeram isto sem o feminismo)

Por Maddie Mehr [*]

Alexis de Tocqueville veio para a América em 1831 para estudar os presídios, mas acabou por documentar quase toda faceta da vida americana. Com curiosidade de jornalista, o aristocrata francês examinou com cuidado religião e governo americanos, sua sociedade e indústria. Ele queria saber o que permitiu os Estados Unidos superar a Europa como uma superpotência econômica e política.

Sua conclusão? As mulheres.

As mulheres as quais Tocqueville viu não eram CEOs ou celebridades, nem políticas ou atletas profissionais. Elas estavam principalmente confinadas em seus lares: limpando, cozinhando e cuidando das crianças. Mas para o jovem historiador político, nenhuma posição parecia ser mais importante. “Nunca houve sociedades livres sem moral, e (…) é a mulher quem molda a moralidade”, ele escreveu. Tocqueville enxergou as mulheres americanas como o pilar da família, aquelas que poderiam manter todos juntos.

Assumindo a responsabilidade fundamental da casa, as mulheres americanas permitiram seus maridos cumprirem suas funções como provedores e protetores, e ambos trabalharam por um objetivo comum: o fortalecimento da família. Os papéis tradicionais de homens e mulheres, demonizados como os prejudiciais “estereótipos de gênero”, são exatamente o que ajudaram a fazer a América excepcional na visão de Tocqueville.

Gênero: não uma construção social fluida

Clay Jenkinson, estudioso das humanidades americanas, escreveu que “é impossível compreender a democracia na América sem a impressão de um poderoso senso de perda.” Isto é principalmente verdadeiro na questão de relações de gênero nos Estados Unidos. O trending topic na mídia está criando crianças “feministas” treinando crianças a se rebelarem contra diferenças normativas entre homens e mulheres. Um artigo recente da CNN adverte os pais para censurarem os programas que seus filhos assistem, não para protegê-los de ver pornografia, mas protegê-los de ver “um super-herói com músculos grandes ou uma princesa de cabelos compridos”. Em “Como Criar um Filho Feminista”, o New York Times estimula casais a não deixarem os filhos verem a mãe principalmente preparando as refeições ou o pai sempre cortando a grama, para que não internalizem a divisão de comportamentos estereotipada.

Enquanto é difícil de imaginar a reação de Tocqueville à máxima feminista de hoje, ele surpreendentemente ofereceu uma refutação relevante para aqueles que obscureceriam as diferenças entre mulheres e homens:

Há homens na Europa que, confundindo os atributos diferentes dos sexos, afirmam fazer homem e mulher serem, não iguais, mas similares. Eles dão para um e para o outro as mesmas funções, impõem os mesmos deveres e dão a eles os mesmos direitos eles os misturam em tudo, trabalho, prazeres, relações públicas. É fácil de se imaginar que, tentando dessa maneira, fazer um sexo ser igual ao outro, ambos são degradados e desta mistura da obra da natureza dos papéis apenas homens fracos e mulheres desonestas é que podem surgir.

Os “homens na Europa” a quem Tocqueville se referiu eram franceses como Joseph-Benjamin Buchez, os quais argumentavam que as diferenças entre homens e mulheres eram principalmente resultado da educação e da socialização, não da natureza divina, ou Barthelemy Prosper Enfantin, o qual acreditava que a igualdade sexual seria alcançada pela utopia socialista. Eles eram membros do movimento Saint-Simoniano, o qual iniciou como um movimento socialista francês atuando pela igual representação das mulheres no espaço público e terminou como uma religião que abraçou a infidelidade como virtude e enxergou a reprodução como uma função do estado ao invés de uma decisão particular da família. Ao fazer as contribuições das mulheres para o “bem-estar social” similar à dos homens, a família tradicional como uma barreira entre o estado e o indivíduo começou a se degradar.

Tocqueville reconheceu um contraste distinto entre a agitação social que resultou dos Sanit-Simonianos e outros, e a sociedade civil da América, que estava prosperando.

Na América, o domínio do homem eram os negócios e o reinado da mulher era a casa. Mas Tocqueville não considerou essa separação como subjugar um sexo ao outro. Ele argumentou que os papéis tradicionais eram uma questão de economia política, dividindo então para que o maior trabalho da sociedade pudesse ser concluído de forma mais eficaz. “Progresso”, ele escreveu, “não consiste em fazer quase as mesmas coisas que seus diferentes, mas cada realizando suas tarefas no melhor grau possível.”

A função tradicional como base para o respeito

Os homens e mulheres observados por Tocqueville tinham diferentes funções, mas o foco deles era o mesmo: suprir as necessidades da família. O mesmo princípio pode ser aplicado a um time de futebol unido por uma estratégia vencedora ou a uma orquestra aperfeiçoando a sinfonia. A especialização dos membros resulta em um todo coerente e funcional. Assim como não esperaríamos que um flautista indignamente exigisse ocupar o papel de violinista ou que um goleiro insistisse em deixar o gol para atuar no ataque, Tocqueville provavelmente se surpreenderia com as mulheres que consideram o papel da dona de casa degradante. O exercício dos papéis tradicionais que ele testemunhou não indicou falta de respeito, mas serviu como base.

Ao contrário do dogma feminista predominante, os homens que Tocqueville observou não enxergavam as mulheres como menos do que suas iguais:

Os homens americanos constantemente exibem uma confiança completa na razão de sua companheira e um profundo respeito pela liberdade dela. Eles julgam que a mente dela é tão capaz quanto a do homem de descobrir a verdade nua, e o coração firme o suficiente para seguir a verdade e eles nunca procuraram abrigar a virtude de um mais do que a do outro de preconceitos, ignorância ou medo.

O inquérito histórico feminista normalmente foca em se as mulheres são ou não respeitadas (geralmente concluindo que elas não são), mas dos escritos de Tocqueville, nós vemos que o respeito pelas mulheres precedeu as sufragistas e a revolução sexual. A questão a ser examinada, então, torna-se o que as características inspiraram nesse respeito.

Os homens com quem Tocqueville interagiu valorizavam as mulheres por sua razão e julgamento moral. Os homens americanos acreditavam que, já que as mulheres eram tão capazes de encontrar e seguir a verdade, não precisavam ser protegidas do mundo. Antes, as meninas americanas foram treinadas para ver o mundo com o que Tocqueville chamou de “olho firme e calmo”. A elas foram ensinados princípios de virtude e depois confiavam em discernir entre o certo e o errado. Este julgamento moral é o que Tocqueville acreditava ter trazido homens e mulheres em bases iguais mais do que qualquer outra coisa.

Contudo, os americanos não acreditavam no igualitarismo puro. Acreditando que todas as associações efetivas deveriam ter uma cabeça, os americanos não negaram ao homem a última palavra em assuntos familiares. Tocqueville justifica isso explicando que o propósito da democracia não é destruir todo o poder, mas sim fazer legítimo o poder. A autoridade patriarcal do pai sobre as crianças era mais fraca do que na Europa, permitindo que as crianças adultas agissem independentemente de restrições familiares. No entanto, o papel dos pais americanos como os cabeças de suas famílias permaneceu inalterado. Uma vez que o nascimento do autogoverno resultou na abolição do domínio arbitrário, é razoável inferir que os papéis de pai e mãe, esposa e marido, não foram considerados arbitrários. Ao invés disso, eles eram divinamente autenticados.

Matrimônio e Maternidade: força, não fraqueza

Como se antecipasse uma crítica feminista moderna, Tocqueville explica que esse ponto de vista não é “particular a um sexo e contestado pelo outro”. Em outras palavras, as mulheres americanas não aceitaram relutantemente seu papel de esposas e mães. Ao contrário:

Eu não percebi que as mulheres americanas consideravam a autoridade conjugal como uma usurpação feliz de seus direitos, ou que elas acreditavam que era degradante se submeter a ela. Parecia ver, ao contrário, que eles tomaram um tipo de glória na entrega voluntária de sua vontade, e que elas localizaram sua grandeza em dobrar-se para o jugo e não escapando dele.

Tocqueville descreve as mulheres na França que embarcaram no matrimônio e na maternidade de maneira grosseira, muitas vezes em idade prematura. As mulheres americanas, ao contrário, corajosamente assumiram o papel da mãe porque escolheram livremente. E elas escolheram por conta de sua educação democrática, que Tocqueville revela tão movimentada desde o início como uma educação focada no desenvolvimento da razão e no discernimento entre verdade e erro. É da prática da independência, Tocqueville argumenta, que as mulheres americanas tiraram a força para serem esposas e mães.

As sociedades aristocráticas da Europa permitiram que as mulheres bem-sucedidas se dedicassem ao prazer. Esbanjaram elogios a elas por suas habilidades decorativas e seu charme. “Nos Estados Unidos”, Tocqueville observa, “as mulheres são dificilmente elogiadas. Mas todos os dias é visto que elas são respeitadas.” As mulheres americanas que trabalham em casa não desfrutavam dos elogios das mulheres europeias, mas ao abraçar seu papel como educadoras das famílias, elevavam a feminilidade para um plano mais alto do que a mera sexualidade. A graça de rainha com a qual elas fortificaram seus lares impressionou profundamente Tocqueville. Ele afirmou que as mulheres eram a principal fonte de força e prosperidade da América.

Examinando o presente

É comum falar sobre retornar aos nossos princípios fundadores, refletindo a respeito da marca única de política e economia que transformou os Estados Unidos na nação mais livre e próspera do mundo. É menos comum examinar o tecido social que permitiu esses princípios florescerem. O respeito pelas gerações futuras requer que consideremos não somente a progressão de nosso governo, mas também a progressão da família, de acordo com que se afastam da Era Fundadora.

Tocqueville atribuiu o caos na Europa a uma apropriação indevida da igualdade e a um equívoco sobre os papéis de gênero. Ele reconheceu a força da América em homens e mulheres que eram iguais, entretanto não similares. Mas todo o seu argumento para a família depende da escolha: homens e mulheres devem livremente escolher seguir seus papéis distintos, porém igualmente valiosos. Não consolidada pela tradição patriarcal aristocrática da Europa, a família americana sobreviveu porque homens e mulheres escolheram ativamente por suportá-la como propósito a viverem em suas vidas. A questão da nossa geração é se nós faremos o mesmo.

[*] Maddie Mehr. “Tocqueville: Women Made America Great”. The American Conservative, 11 de julho de 2017.

Tradução: Patrícia Maragoni

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