Tirania chinesa 2.0

Por Alex Newman [*]

O sobrevivente Lizhi He, praticante da disciplina espiritual Falun Gong, passou miseráveis 1.280 dias em um gulag chinês. Na cúpula de 2013 assistida por este escritor no Knesset (parlamento israelense) que se focou na colheita de órgãos na China comunista, o sobrevivente dos campos de prisioneiros do regime contou sua história aos legisladores e dignitários reunidos e descreveu a tortura selvagem que ele suportou — meses sendo forçado a sentar-se imóvel, espancamentos severos, mergulhado em água fria no inverno, torturado por eletrochoque, humilhação, desumanização e muito mais. Muitas vítimas nunca conseguiram escapar vivas, então Lizhi, que quase perdeu sua vida nas mãos de seus captores, teve a sorte de pelo menos no que diz respeito à sobrevivência.

Acusado e processado em um tribunal “falso” por supostamente “sabotar a implementação da lei”, Lizhi foi preso por suas crenças inabaláveis que desafiaram a ortodoxia oficial adotada pelos governantes totalitários da China. O regime considera o Falun Gong — uma disciplina que uma vez já foi promovida por eles — um “culto do mal” que deve ser suprimido a todo custo. Então, quando Lizhi, engenheiro premiado do Ministério da Construção, foi pego enviando cartas a amigos e colegas explicando o que ele via ser a verdade sobre o movimento, as represálias foram rápidas e horríveis. Ele foi seqüestrado na Praça Tiananmen e foi arrastado para ser torturado e sofrer lavagem cerebral.

O campo de prisioneiros era brutal. “Além da tortura física… fomos forçados a ler literatura difamando o Falun Gong”, explicou depois de descrever os métodos de tortura bárbaros empregados contra ele e seus colegas presos — especialmente outros prisioneiros de consciência e praticantes de Falun Gong. “Fui eletrocutado com bastões elétricos de alta tensão… Todas essas atrocidades visavam minhas crenças e consciência. Os prisioneiros de Falun Gong nunca foram tratados como seres humanos, a menos que desistíssemos de nossas crenças”. Ele também foi recrutado como trabalhador escravo fazendo produtos para exportação.

Ainda hoje, inúmeras vítimas permanecem nos famosos campos de prisioneiros da China por causa de suas crenças. “É triste dizer que minha experiência de encarceramento foi apenas uma das centenas de milhares de experiências de chineses inocentes que praticam Falun Gong”, explicou Lizhi, instigando o mundo a falar. “Tais tragédias ainda estão acontecendo na China em nome da lei”. Enquanto o governo canadense ajudou a resgatar Lizhi e sua esposa, e a Anistia Internacional e outras organizações assumiram sua causa, muitos outros não tiveram tanta sorte. Na mesma cúpula em Jerusalém, onde Lizhi contou a história dele, um documentário intitulado Free China: The Courage to Believe destacou outras atrocidades — e tudo está em andamento.

Apesar das afirmações em contrário, o regime que governa a China continental continua a ser brutal e autoritário até a medula — e agora está sendo preparado para desempenhar um papel de liderança no que os globalistas e a própria ditadura se referem como a “Nova Ordem Mundial” (veja o artigo relacionado “China: Staking Claim in the New World Order“). Se o regime do Partido Comunista vai “tomar” a Nova Ordem Mundial, como George Soros — o bilionário globalista e aliado de Obama — colocou, como parecerá essa ordem? Para se obter uma breve prévia, um olhar sobre o próprio regime oferece muitas sugestões.

Sofrimento, sofrimento

Muitos ocidentais hoje têm uma imagem muito mais positiva da República Popular da China (RPC) do que a transmitida pelo testemunho de Lizhi no Knesset israelense ou por outras testemunhas oculares. Mesmo muitos que estão cientes de que o regime foi um dos mais totalitários da história acreditam não obstante que a RPC se “reformou” e já não é mais “comunista”. Porém por que a palavra “comunista” já não se aplica à China quando o próprio regime oficialmente afirma ser comunista? E por que devemos acreditar que os déspotas se tornaram de repente “democratas” quando os assassinos em massa não foram levados à justiça e quando, de fato, o regime ainda honra os governantes comunistas anteriores como o sanguinário Camarada Mao?

É claro que os apologistas do regime que afirmam que Pequim hoje é menos autoritário do que o Partido Comunista de Mao têm alguma razão. Afinal, sob Mao, os comunistas chineses assassinaram mais seres humanos do que qualquer outra seita de criminosos e assassinos em massa em toda a história humana registrada. Ser menos assassino do que Mao e companhia, portanto, dificilmente é uma realização notável. No entanto, a afirmação de que a tirania chinesa “nova e melhorada” é muito diferente ou superior à “antiga” é mais que um pouco dissimulado. O regime pós-Mao, que é um produto do legado de Mao, nunca renunciou ao poder absoluto e irrestrito sobre seus cidadãos. Isso ficou muito evidente no infame massacre da Praça Tiananmen de manifestantes pacíficos em 4 de junho de 1989. E é evidente hoje, para qualquer um que esteja disposto a abrir os olhos e olhar as ações do regime.

Por exemplo, enquanto o extermínio em massa de dissidentes desapareceu em grande parte, o assassinato em massa continua a ser uma característica do governo de Pequim. O regime continua a matar milhões de crianças por nascer em abortos forçados — parte da sua selvagem “política de um filho único” — com a assistência do Fundo de População da ONU (UNFPA) e da Planned Parenthood, financiados pelos contribuintes dos EUA, de acordo com depoimentos de especialistas do Congresso. Apesar de alegadamente “aliviar” a política grotesca de apenas uma criança, milhões de mulheres e crianças por nascer na China continuam sendo submetidas a abortos forçados, além de esterilizações forçadas em massa e outros crimes.

Apenas no mês passado, um escândalo internacional irrompeu quando uma professora com cinco meses de gravidez, foi condenada a matar seu filho — depois de ter obtido permissão das autoridades para ter um segundo. “Sua experiência demonstra dramaticamente o que eu tenho dito o tempo todo: a China continua sua prática horrível de abortos tardios forçados”, disse à LifeNews, Reggie Littlejohn, presidente da Women’s Rights Without Frontiers. “Isso é uma selvageria e deve ser interrompido”. Essa ordem de matança em particular foi interrompida, mas apenas graças à tremenda pressão doméstica e internacional. Para dar uma visão sobre o pouco valor que a seita governante da China atribui à vida humana ou aos direitos das mulheres, considere que há alguns anos atrás, em uma conferência “climática” da ONU presenciada por este escritor em Copenhague, um representante oficial para Pequim se gabou de como a política coerciva de um só filho da China está reduzindo sua “emissão de carbono”.

Além da mãe e dos filhos não nascidos, outros membros da família também podem ser punidos quando uma mulher tem mais filhos do que o permitido. Chen Guangcheng, um advogado cego e autodidata que foi perseguido incansavelmente pelo regime por seu ativismo antes de fugir para os Estados Unidos através da embaixada dos EUA, testemunhou recentemente no Congresso sobre a selvageria. “Para atingir seu objetivo de controle populacional, o Partido Comunista estabeleceu um vasto sistema para levar adiante sua política. O Partido também sinalizou para aqueles que estão na linha de frente que o encarceramento, o espancamento, o despejo, a demolição e outras políticas não estão descartadas, mesmo ao custo da vida”, explicou. “Na minha aldeia e em aldeias vizinhas, muitas vezes ouvimos e vemos grupos de pessoas, de uma dúzia para várias dúzias e liderados por seus chefes de partidos locais, agindo como bandidos, espancando aldeões e mantendo-os detidos ao arrepio dos procedimentos legais, dia e noite. Podíamos ouvir gritos e choros durante essas operações. Se esses bandidos comunistas não conseguiam levar a mulher grávida a se submeter a uma operação noturna [aborto], eles levavam familiares, parentes como tios e tias, irmãos e mesmo outros vizinhos dentro de um diâmetro de 50 metros do alvo, geralmente incluindo de 10 a 20 famílias, à força, muitas vezes com crueldade “.

Outras classes de cidadãos chineses também são massacradas regularmente pelos líderes comunistas da China por várias razões — especialmente membros do movimento espiritual conhecido como Falun Gong, do qual Lizhi pertence. De acordo com inúmeros desertores, especialistas, sobreviventes e outras fontes, Pequim literalmente colhe órgãos dos corpos de prisioneiros políticos tais como praticantes de Falun Gong. O ex-deputado canadense David Kilgour, também ex-ministro de Estado da região Ásia-Pacífico, descreveu as chacinas macabras em um livro sobre o assunto intitulado Bloody Harvest (“colheita sangrenta”). O livro documenta a longa investigação do autor sobre o comércio de órgãos bem estabelecido da China. Conclui que o bazar de órgãos vem não apenas de criminosos condenados a morrer, mas de praticantes de Falun Gong perseguidos por suas crenças.

Aqueles que estão em desgraça com o regime que não são mortos por seus órgãos pelos esquadrões de açougueiros de Pequim enfrentam frequentemente um tratamento brutal nos gulags de reeducação da China. Um relatório divulgado no ano passado pelo Chinese Human Rights Defender (CHRD) sobre as “prisões clandestinas” do regime observou que, nesses gulags secretos, cujos ocupantes são de até 80% de mulheres, atos selvagens são perpetrados contra prisioneiros “não oficiais”. As vítimas nunca tiveram sequer o benefício de um julgamento falso em uma das cortes de faz-de-conta da autocracia. O relatório, We Can Beat You to Death With Impunity”: Secret Detention & Abuse of Women in China’s “Black Jails,” descreve os abusos em detalhes horríveis. “Dentro dessas celas de detenção sombrias, as detentas predominantemente mulheres — incluindo idosas, migrantes, mulheres que perderam terra ou foram vítimas de despejo forçado, com deficiência e mães com crianças pequenas — estão sujeitas a abusos espantosos, de agressões físicas e sexuais à privação de tratamento médico”, explicou o grupo de direitos humanos.

Os praticantes de Falun Gong dificilmente são os únicos alvos da perseguição focada em crenças de Pequim. Entre outros, o regime persegue implacavelmente cristãos e outras minorias, bem como a todo e qualquer um que se atreva a desafiar sua tirania, através da negação de autorizações de trabalho, encarceramento e até mesmo morte. E, apesar das alegações de que a perseguição está diminuindo, os fatos dizem o contrário. De acordo com a China Aid, uma organização cristã de direitos humanos, a repressão da ditadura aos crentes no ano passado atingiu níveis não vistos em pelo menos uma década, crescendo em mais de 10.000% em relação a 2013 em termos de número de crentes condenados por praticar sua fé, particularmente em igrejas clandestinas. Entretanto mesmo as igrejas aprovadas e controladas pelo regime encontraram-se vigiadas pela autocracia

O relatório anual da China Aid em 2014 sobre a perseguição dos direitos religiosos e dos direitos humanos na China, intitulado “The Year of ‘Persecution and Endurance”, mostra que a perseguição religiosa e os abusos dos direitos humanos perpetrados pelo governo em Pequim aumentaram chocantes 153% em relação a 2013 em geral, com base em seis categorias específicas de perseguição. Além do número de crentes sentenciados (que passaram de 12 em 2013 para 1.274 em 2014), as outras categorias de perseguição são: número de casos de perseguição religiosa, número de crentes perseguidos, número de detidos, número de casos de abuso graves e o número de indivíduos em casos de abuso grave. Todas as categorias registraram aumentos drásticos em 2014 ao longo do ano anterior, documentou em seu relatório a organização com sede no Texas.

A China Aid documentou 572 casos de perseguição em que 17.884 praticantes religiosos foram perseguidos — um aumento de 300% em relação ao ano anterior. Como a informação é tão fortemente controlada pelo regime comunista e seu aparelho de censura e repressão orwellianas, os números reais de abuso quase certamente são muito maiores, reconheceu a China Aid.

Além de oprimir os cristãos, o governo também procura controlá-los, estabelecendo denominações “protestantes” e “católicas” controladas pelo regime que recebem ordens do Partido Comunista ateu da China, em vez da Escritura ou do Vaticano e outras hierarquias da igreja. “A sinicização do cristianismo equivale a descristianizar a igreja na China e erradicar a natureza universal do cristianismo sob a aparência de construir um “cristianismo com características chinesas” e, em nome da priorização dos interesses do Partido Comunista, usurpar a doutrina cristã de que “Cristo é o chefe da Igreja”, explica o relatório 2014 China Aid documentando as ações.

O governo da China é opressivo mesmo fora de suas próprias fronteiras. Suportando décadas de ocupação brutal e terror estão o povo do Tibete, um país ilegalmente ocupado pela China comunista há mais de seis décadas. Muitos analistas acusaram Pequim de “genocídio” na antiga nação soberana, na medida em que a China trabalha para destruir a cultura e o povo tibetano — importando quantidades gigantes de chineses da etnia Han para deslocar os ocupantes anteriores. As estimativas sugerem que centenas de milhares de tibetanos desapareceram. Os monges tibetanos foram tratados cruelmente, com o regime regularmente assassinando, seqüestrando e forçando-os a uma “reeducação patriótica” (lavagem cerebral).

Em 2011, a barbaridade estampou as manchetes de todo o mundo quando as forças comunistas de “segurança” cercaram o mosteiro de Kirti depois que um monge se incendiou para protestar contra o extermínio da cultura tibetana por Pequim. Cerca de 100 monges foram “desaparecidos”. “Como ex-prisioneiro político, experimentei pessoalmente o tipo de tortura infligida aos tibetanos na prisão chinesa”, disse Lukar Jam, vice-presidente de uma organização tibetana de ex-prisioneiros políticos. “Os monges Kirti são inocentes e estão sob ataque por simplesmente expressarem seu direito internacionalmente reconhecido à liberdade de religião”. Pequim diz que é tudo para seu próprio bem.

Também sofrem perseguição do Partido Comunista da China a população Uigur Muçulmana da China Ocidental em Xinjiang. Muitos dos locais são contra serem governados por Pequim e estão buscando recuperar a independência. Em resposta, a ditadura se envolveu em uma repressão brutal, com seus agentes de “segurança” massacrando os manifestantes no local e disparando regular e indiscriminadamente contra multidões de civis — mais recentemente matando quatro e ferindo dezenas depois de atirarem em um protesto em maio de 2014. “A China está endurecendo deliberadamente suas políticas contra os Uigures”, disse Seyit Tumturk, vice-presidente do Congresso Mundial Uigur, ao Al-Monitor. “Especialmente a dura repressão aos valores religiosos que os Uigures respeitam não tem nada a ver com o combate ao terror. É um genocídio étnico e cultural sob pretexto de combater o terrorismo”.

Além disso, Pequim está trabalhando em um plano para arrancar centenas de milhões de fazendeiros chineses de áreas rurais e deslocá-los à força para novas cidades planejadas exatamente por essa razão. O New York Times descreveu o esquema como o “Grande Desenraizamento”, evocando as lembranças do macabro “Grande Salto para a Frente” de Mao. Aqueles que resistem aos despejos forçados enfrentam a ira do regime, como centenas de milhões de chineses inocentes enfrentaram nos últimos anos. Todavia tudo será “legal”, uma vez que a constituição do regime deixa claro que todas as terras são de propriedade coletiva.

Mas esse “desenraizamento” não é o preço do progresso? Hoje, os apologistas do regime muitas vezes apontam para a crescente prosperidade da China e sua alegada liberalização da economia como evidência de que Pequim aprendeu com o erro de suas escolhas. Mesmo aqui, porém, os fatos — e o próprio regime — dizem o contrário. Considere apenas como um exemplo o fato de que praticamente todas as principais empresas da China são na verdade possuídas e administradas pelo regime, que pode reprimir os trabalhadores — ditando salários, onde vivem, etc. — ao seu bel prazer. Mesmo as empresas que não são tecnicamente “estatais” são geridas em grande parte por comparsas pseudo-“capitalistas” dos oligarcas comunistas governantes. As empresas estrangeiras na China, entretanto, devem concordar com restrições extremas — muitas vezes incluindo a participação em sociedades mistas com empresas chinesas e “compartilhando” sua tecnologia e propriedade intelectual — como condição de operar na China. No final de maio, o Politburo Comunista até aprovou uma “regulamentação” que ordena que todos os locais de trabalho, mesmo em empresas nominalmente “privadas”, tenham uma unidade do Partido Comunista para que as políticas partidárias possam ser “implementadas em toda a sociedade”.

Em outras palavras, apesar da aparência de mercado, as empresas gigantes chinesas são, na realidade, apenas extensões do regime, e a economia está seguramente sob o punho de ferro dos tiranos de Pequim. De acordo com o Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation, que classifica 178 países baseado em quão livres eles são economicamente, a China comunista, no 139º lugar, é “predominantemente sem liberdade” e entre as mais controladas do mundo. A autocracia descreve seu o regime de “capitalismo de estado” como “socialismo com características chinesas”.

Certamente, não há “livre mercado” na China, exceto talvez na clandestinidade, mas há ainda menos “livre mercado” quando se trata de idéias e opiniões. A ditadura chinesa opera o regime de censura mais sofisticado do planeta, controlando rigorosamente a Internet e os “noticiários [propaganda]” estatais. O aparelho de controle de informações Orwelliano, muitas vezes chamado de “Great Firewall of China” (alusão à Grande Muralha da China), nega aos cidadãos chineses acesso a qualquer coisa de que o regime não goste. Se eles se atreverem a se expressar publicamente, os comentários serão censurados e os criminosos do pensamento serão devidamente punidos. Apenas um estado totalitário teme e suprime a liberdade de expressão, liberdade religiosa e uma imprensa livre.

Apesar das alegações de que a China comunista está se movendo na direção de uma maior liberdade, os fatos expostos mostram o contrário. A tirania pode ser um pouco menos óbvia e evidente, mas os tiranos permanecem tão cruéis e autocráticos como sempre. Tomando emprestada uma frase de George Orwell, se você quer saber como uma futura “Nova Ordem Mundial” liderada por Pequim pode parecer, “imagine uma [sola de] botina carimbada num rosto humano — para sempre”. Os americanos devem resistir.

[*] Alex Newman. “Chinese Tyranny 2.0”. The New American, 9 de Junho de 2015.

Tradução: Cássia H.

Revisão: dvgurjao

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