Roger Scruton: A autocensura e o fim do debate sensato

Por Roger Scruton [*]

A autocensura é muito mais prejudicial do que a censura estatal, argumenta o escritor e filósofo britânico Roger Scruton, pois ela empobrece profundamente o debate. O estrago causado à discussão pública nas questões mais urgentes da atualidade pode ser visto em ambos os lados do Atlântico.

Qualquer discussão de livre expressão tem que levar em conta duas questões importantes: piadas e raça. Piadas não são opiniões, mas elas podem simplesmente ofender muita gente. Sendo assim, deveria haver a mesma liberdade para se fazer piadas assim como para expressar opiniões? A questão racial tem sido objeto de profundo autoquestionamento nas comunidades modernas. O pior genocídio da história recente – o Holocausto – ocorreu porque as pessoas se sentiram livres para odiar os judeus e para difundir esse ódio num discurso que era protegido por lei. A opressão dos negros nos Estados Unidos e a negação dos privilégios da cidadania para essa parcela da sociedade foi defendida livre e destrutivamente nos últimos tempos e, novamente, essas opiniões foram protegidas por lei. Será que esses e outros casos similares não justificam a crença predominante de que a liberdade de expressão não é um bem em si mesma? E será que esses grupos suscetíveis a serem alvos do ódio coletivo devem ser protegidos desse abuso?

achei-ofensivo-apaga-blog-tediadoEssas duas questões são de suma importância para nós. O caso do jornal Charlie Hebdo na França nos lembra que piadas podem tanto ofender quanto inspirar a mais violenta das respostas a elas, e nós de maneira alguma devemos nos surpreender ao sabermos que o comediante francês Dieudonne, que frequentemente inclui piadas antisemitas em seus shows stand-up, foi banido em muitos lugares da França e da Bélgica. Devemos nos lembrar, no entanto, que a ofensa pode ser tomada mesmo quando não é feita. Existem feministas radicais que examinam cada comentário inocente a respeito das mulheres para a agenda sexista oculta. Até mesmo ao usar o pronome masculino de um modo gramaticalmente sancionado, para assim se referir indiferentemente aos homens e às mulheres, você pode estar ofendendo alguém e por isso essa forma de expressão está agora sendo banida de todos os campus dos Estados Unidos. Não é o seu desejo ofender, mas você está lidando com pessoas que são especialistas nisso, que têm cultivado a arte de ficarem ofendidas por muitos anos e que em nenhuma outra ocasião ficam mais satisfeitas do que quando algum homem inocente cai na armadilha de falar incorretamente.

Normalmente, uma piada tenta suavizar alguma coisa, para que então você se sinta confortável com aquilo e dê risadas. Muitas piadas étnicas são assim, são formas de lidar com a diversidade étnica, ao ajudar as pessoas a se sentirem felizes com seu próprio grupo e não ameaçadas pelos outros. Às vezes é o próprio grupo que faz a suavização, como em muitas piadas de judeu que mostram algum ponto fraco judaico mais como uma excentricidade engraçada do que como um problema. Piadas se tornaram populares porque elas relevam as coisas, fazendo a realidade, com todas as suas divisões, parecer menos intimidadora. Aqui temos uma piada bastante conhecida advinda das disputas na Irlanda do Norte: Um homem para outro na rua e aponta uma arma contra o seu peito. “Católico ou protestante?”, ele pergunta. “Ateu”, respondeu o homem, ao passo em que o outro retruca: “ateu católico ou ateu protestante?” O humor desse tipo está demonstrando tanto o absurdo que são os conflitos sectários quanto também o fato de que eles não passam de disfarces, desculpas para o ódio, em vez de reações a esse sentimento. Isso nos lembra que a arte de ficar ofendido é usada por pessoas mesquinhas para levarem uma vantagem injustificada sobre o resto de nós.

É claro que existem piadas de mau gosto, que expressam atitudes desagradáveis ou maliciosas. Nós ensinamos aos nossos filhos a não contarem piadas desse tipo, e a não rirem quando outros as contam. O humor é abalizado pelo julgamento moral. Esperamos conduzi-lo em direção à aceitação e à misericórdia, e para longe da malícia e do desdém. Mas, como devemos lidar com as piadas que ofendem? Você não pode legislar contra a ofensa. Sem leis, sem invenção de novos crimes e punições, pode-se possivelmente introduzir ironia, misericórdia e boa vontade nas mentes especializadas na arte de ficar ofendido. Isso é tão verdade para feministas radicais como o é para grupos sectários e radicais islâmicos. Embora nós tenhamos uma obrigação moral de rir dessas piadas, esses grupos têm tornado perigoso fazê-lo. No entanto, nós nunca devemos perder de vista o fato de que são eles, e não nós, que são os transgressores. Aqueles que desconfiam que há deboche em todo o lugar e que reagem com uma ira implacável quando pensam que o identificaram, são os reais ofensores.

E quanto ao discurso racista? Ele é diferente dos outros tipos de discursos, ou existe alguma razão especial para criminalizá-lo? O Holocausto justifica o banimento das opiniões que deram origem a ele? Muita gente acha que sim, e na França a legislatura foi mais longe, criminalizando aqueles que negam que o Holocausto ocorreu. Opiniões racistas não acabarão apenas porque nós proibimos a sua expressão. Na verdade, proibi-las pode lhes conferir um encanto especial. O que havia de mais destrutivo na propaganda nazista contra os judeus não era a expressão dessas opiniões desprezíveis, mas a supressão daquelas que visavam refutá-las. Foi a falta da liberdade de expressão que permitiu que essas opiniões saíssem vorazmente de controle, livres dos argumentos que poderiam expô-las ao ridículo. Em contrapartida, os negros nos Estados Unidos ganharam seu status de cidadãos em parte por causa da liberdade de expressão, pela qual persuadiram os americanos comuns de que a estereotipização é tão irracional quanto injusta. Graças a ela que os negros puderam dar voz às suas opiniões, derrotando assim os racistas.

Esse exemplo é de vital importância para nós no Reino Unido. O policiamento da esfera pública com o objetivo de suprimir as opiniões “racistas” tem causado um tipo de psicose pública, uma sensação de se ter de andar com a ponta dos pés por um campo minado, tendo de evitar todas as áreas onde a bomba da indignação pode estourar em cima de você. E essa bomba tem sido preparada e plantada pelas pessoas, muitas das quais vêem a acusação de racismo como uma maneira útil de minar a nossa crença em nosso país e em seu modo de vida. Logo, forças policiais, oficiais de justiça, conselheiros municipais e professores têm hesitado em pensar no que sabem ser verdade, ou de agir contra o que sabem que está errado. Nós temos visto isso nos casos de abuso sexual em Rotherham e em outros lugares, quando a relutância em apontar uma comunidade imigrante como a culpada tem sido um motivo para a inação. O meu romance The Disappeared foi uma tentativa de explorar a profundidade da desordem moral na qual adentrou a nossa sociedade através desse tipo de autocensura, que impede um professor, um oficial de polícia ou um outro trabalhador de agir, precisamente quando é mais do que necessária a sua ação.

A autocensura é muito mais prejudicial do que a censura estatal, pois ela empobrece profundamente o debate. Devido à imigração em massa, nossa sociedade tem sofrido transformações vastas e potencialmente traumáticas. Contudo, sem o auxílio da discussão pública é como se não tivéssemos escolha sobre nosso futuro. A intensidade da confusão e do ressentimento estão começando a ficar perceptíveis, não apenas aqui mas por toda a Europa, e é essa discussão que, sozinha, teria prevenido isso. Aqueles que tentaram iniciá-la foram submetidos à caça às bruxas a ao assassinato de reputações de uma forma que poucas pessoas podem suportar facilmente. O resultado tem sido o fim do debate sensato nos lugares onde nada é mais necessário do que o debate sensato.

Uma última palavra sobre a arte de ficar ofendido: Em nenhum outro lugar ela tem sido cultivada mais assiduamente do que nos campus universitários americanos, onde uma cultura da trepidação inteiramente nova foi estabelecida para capturar a psique adolescente. Ao se discutir qualquer um dos temas nos quais os dogmas seculares empilharam uma reivindicação – raça, sexo, orientação, políticas sexuais – o professor pode agora ser obrigado a emitir “avisos de sensibilidade” para que ele não se desvie para assuntos que podem desencadear a lembrança de algum evento traumático na vida do aluno. Palestrantes convidados com opiniões heréticas a respeito do feminismo ou do homossexualismo também são recebidos com avisos de sensibilidade. Alguns campus até mesmo fornecem salas de segurança onde os alunos magoados podem consolar-se por terem sido expostos à contaminação de um ponto de vista não-ortodoxo.

Apesar de ser cômico, você deve ter cuidado para não rir disso, se você for um professor que ainda não tomou posse. Aqueles que desejam manter a mente do estudante em uma condição de vulnerabilidade mimada, desacostumada com a oposição e inexperiente no debate, agora policiam os campus, resultando que esses lugares, os quais deveriam ser o último bastião da razão em um mundo confusão, são, ao invés disso, lugares onde todas as confusões se alimentam. Esse exemplo ilustra vividamente o caminho pelo qual os ataques à liberdade de expressão podem se enveredar, indo tão longe que são capazes de obstruir a estrada do conhecimento. E, por fim, é por isso que devemos valorizar essa liberdade, e por isso que John Stuart Mill estava tão certo em defendê-la como algo fundamental para uma sociedade livre. Sem ela nós nunca saberemos realmente o que pensamos.

[*] Roger Scruton. “Self-censorship and the loss of reasoned argument”. Eurozine, 3 de Fevereiro de 2016.

Tradução: William Dellatorre

Revisão: Rodrigo Carmo

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