Resenha | Logan (2017)

Por Douglas Ernst [*]

O mundo assistiu Hugh Jackman interpretar Wolverine, o super-herói da Marvel, por 17 anos, mas parece que o ator guardou sua melhor atuação para o último filme. Logan, um filme de classificação restrita dirigido por James Mangold, arrecadou 247,3 milhões de dólares mundialmente em sua semana de estreia, e por uma boa razão – é um filme de super-heróis que transcende o gênero.

O que talvez seja o mais fascinante em Logan é que, embora seja repleto de mortes bárbaras, apesar do sangue e da violência é um filme que valoriza o sacrifício altruísta, o amor incondicional, a lealdade, a família e a possibilidade de redenção para todos os homens — não importa o quão falíveis eles sejam. Os personagens maus morrem, mas a mensagem do filme em muitos níveis pode ser considerada “pró-vida”. Os bons samaritanos arriscam tudo pelas crianças, que são tratadas como ferramentas dispensáveis, enquanto a vida de um homem idoso e enfermo é ferozmente protegida pelo protagonista.

Logan (argumento de Mangold, roteiro de Scott Frank) ocorre em um futuro onde todos os X-Men da franquia 20th Century Fox estão mortos — exterminados em grande parte devido à mente decadente do Professor Charles Xavier (Patrick Stewart). Wolverine e um aliado chamado Caliban (Stephen Merchant) vivem na clandestinidade ao longo da fronteira dos EUA com o México, embora o herói seja capaz de fazer dinheiro o suficiente para obter a medicação para as convulsões de Charles trabalhando noites como um motorista de limusine.

Tudo muda para o trio quando uma enfermeira resgata uma criança geneticamente modificada conhecida como X-23 (Dafne Keen) para fora do cativeiro antes que ela possa ser morta pelo vilão Pierce (Boyd Holbrook). Seu objetivo é transportar a menina para uma coordenada em Dakota do Norte onde crianças com capacidades similares tentarão cruzar a fronteira para o Canadá. Logan, com seu fator de cura enfraquecido e corpo debilitado, é compelido por Charles, e pelos fragmentos restantes de virtude ocultos nas profundezas de seus ossos de adamantium, a aceitar a missão.

Sabe, Logan, Isso aqui é que é vida: um lar, pessoas que se amam, um lugar seguro. Você deveria dar um tempo e experimentar”, diz Xavier quando eles são acolhidos por uma família de camponeses e recebem abrigo e comida.

Sim, deve ser ótimo, responde sarcasticamente o herói relutante.

Logan! Você ainda tem tempo, insiste Xavier.

Durante quase 2 horas e 17 minutos o público testemunha Logan lutando para manter um niilismo aprendido através de décadas de morte, destruição e tristeza. Hugh Jackman às vezes quase parece canalizar outra famosa máquina de guerra — John Rambo, de Sylvester Stallone, do Rambo First Blood de 1982. Wolverine, vulgo Arma X, pode ter um diálogo diferente de Rambo em seus momentos mais pungentes, mas ele poderia muito bem ter dito “não há civis amigáveis” e “eles derramaram sangue primeiro”, com Xavier no papel de Coronel Trautman.

Há um final esperançoso para este conto, apesar de tudo. O efeito cumulativo do amor incondicional e caridade mostrado a Logan ao longo de sua jornada eventualmente rompe anos de cicatrizes emocionais, e antes dos créditos finais passarem, o herói é redimido.

Os cinéfilos que costumam manter distância dos filmes de super-heróis podem estar se perguntando por que levou quase 20 anos para se ter um filme de Wolverine que rompe o clichê e haverá, sem dúvida, inúmeros artigos dedicados ao tema. Talvez tenha sido simplesmente a passagem do tempo — Jackman tem agora 48 anos e Stewart tem 76 — que fez os homens explorarem adequadamente a mortalidade. Seja qual for o caso, a dupla alcançou o toque de Midas com Logan. É o tipo de filme que eleva o nivel para todo o gênero, e por isso deve ser recompensado.

[*] Douglas Ernst. Movie Review: Logan”. Conservative Book Club, 24 de Março de 2017.

Tradução: Rodrigo Carmo

Revisão: Mauro Tavares

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