Resenha do Thriller “A Desperate Man”, de Claes Ryn

Por Bruce Frohnen [*]

O que um homem deveria estar disposto a fazer para salvar o seu país da corrupção e da ruína? Morrer? Subverter a ordem dominante? Matar? Participar de uma matança em grande escala? Num certo nível, essas profundas questões morais estão no centro do agradável e envolvente primeiro romance de Claes Ryn, “A Desperate Man” (“Um Homem Desesperado”, em tradução livre). Num nível mais profundo, no entanto, esse livro fala sobre caráter. Sendo assim, ele é certamente um livro perturbador e que merece a atenção de leitores sérios preocupados com o estado de seus países — e de suas próprias almas.

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Claes G. Ryn

“A Desperate Man” é metade um thriller político e metade um estudo introspectivo sobre a formação de um bom caráter. Ele acompanha [os passos de] Helen Bittenberg enquanto ela tenta localizar seu marido, que desapareceu inesperada e inexplicavelmente durante as férias da família em Paris. Ela se atira de corpo e alma nessa busca, agindo ao mesmo tempo como detetive, espiã e femme fatale. Eventualmente, ela faz uma série de descobertas chocantes sobre o marido e sua vida dupla. Entretanto, mesmo que desperte atenção e interesse, a história de Helen não é a parte mais importante desse romance, mas sim uma espécie de introdução, guia e contra moral para a história de seu marido, Richard – um professor de história que é o personagem principal do livro.

Há anos, Richard está obcecado com o caos e a corrupção que apodrecem o núcleo de sua nação. Esse país é os Estados Unidos num futuro próximo, não muito diferente do nosso tempo, que sofre com protestos, dependência do Estado, e é governado por uma classe política divorciada do seu povo e do seu senso de responsabilidade. Preocupações profundas, combinadas com uma introspecção progressiva e uma série de eventos aparentemente fortuitos, puseram Richard em um círculo de conspiradores de alto nível que buscam [tomar] medidas radicais contra a oligarquia corrupta dos Estados Unidos. É dentro dessa organização que Richard deverá responder a questões de política e moralidade, frequentemente varridas para debaixo do tapete da devoção democrática da nossa era de governo presidencial plebiscitário.

A maioria dos americanos hoje apenas concede sua vontade às elites em Washington, fingindo que ir às urnas de vez em quando os torna soberanos. Mas Richard é mais autoconsciente que isso, e precisa decidir entre fazer o que é necessário para ajudar a mudar os eventos ou concordar com as mentiras da autonomia de um governo, [formado] por pessoas e líderes corruptos. Para fazer essa escolha, ele precisa determinar até que ponto ele pode – ou deve – seguir na tentativa de salvar uma república constitucional que foi reduzida a uma falsa democracia.

Grande parte de “A Desperate Man” diz respeito à longa batalha de Richard para decidir-se, ou melhor, para orientar sua vontade em situações extremas. Ao contar a história de seu protagonista, o Sr. Ryn reformula perguntas feitas por aquele “professor do mal”, Nicolau Maquiavel, assim como os antigos pais da filosofia política, Platão e Aristóteles. Mas ele se recusa a fornecer respostas na forma de meras abstrações filosóficas. Se há uma lição que ele aprende com Maquiavel em particular é que as circunstâncias nas quais alguém se encontra com frequência devem, em grande medida, impor suas ações na busca de fins apropriados.

"A Desperate Man", de Claes G. Ryn.

“A Desperate Man”, de Claes G. Ryn.

Se isso soa como se o Sr. Ryn estivesse apresentando um ethos moral no qual os fins justificam os meios, este crítico tem alguma simpatia por essa interpretação do livro. Mas o Sr. Ryn também [sente o mesmo], desde que a pessoa a escolher os fins tenha disciplina para escolher os fins verdadeiramente bons e para alcançá-los através de uma verdadeira preocupação com o bem comum, e não pelo seu próprio bem, independente do que seja.  O que torna “A Desperate Man” diferente do típicos thrillers políticos, e especialmente do típico programa político estabelecido pelos pretensos filósofos e estadistas, é que ele foca nas atitudes corretas como [sendo] o resultado de um bom caráter e não de bons princípios. A força desse livro está na coerência do autor em aplicar sua filosofia da mente e do caráter às ações concretas dentro de uma situação fictícia bastante verossímil. Richard, como o Sr. Ryn, rejeita a noção moderna e ideológica de que se deve propor um modelo ideal para uma sociedade perfeita e, em seguida, fazê-la acontecer. Ele também rejeita a compreensão mais tradicional e inata das atitudes corretas como [algo] enraizado em um entendimento racional de determinados bens permanentes aos quais alguém se direciona naturalmente, desde que se exerça a prudência e evite ser corrompido pelo pecado.

Qual seria, então, a alternativa ao discurso da lei natural, com suas claras afirmações objetivas sobre o bem e o mal? A estrela guia do Sr. Ryn é o Novo Humanismo formulado durante a primeira metade do século XX por pensadores importantes, tais como Babbit, Paul Elmer More e, ao seu modo, Benedetto Croce. Em vez de ensaiar argumentos filosóficos, no entanto, neste romance o Sr. Ryn mostra como se pode tentar chegar às percepções dos Novos Humanistas – no sentido profundo de infundi-las no próprio caráter. Logo no início, somos informados sobre como Richard tem procurado conter seus próprios impulsos. Ou seja, ele trabalhou sobre si mesmo para criar hábitos adequados e, mais que isso, uma orientação consistente para uma vida de ordem, dignidade e respeito pela tradição e por aqueles com quem ele vive a sua vida. Talvez mais importante que isso, Richard procurou ser guiado por uma visão objetiva daquilo que significa levar uma vida boa. Os leitores católicos (como este crítico) terão discordâncias importantes quanto à caracterização do Sr. Ryn sobre o pensamento correto de seu protagonista. A visão dele não é a do direito natural tradicional.  De fato, em sua obra filosófica, o Sr. Ryn rejeita repetidamente o que ele considera um casuístico raciocínio da lei natural de muitos católicos, que são favoráveis a um racionalismo menos baseado nas leis. Em “A Desperate Man”, o resultado é uma grande quantidade de introspecção, muitas vezes dolorosa, para o protagonista. Richard deve constantemente recalibrar suas atitudes, suas ações, e suas metas de curto prazo de acordo com mudanças em circunstâncias particulares e com novos fatos que ajudam a compreender melhor as suas motivações.

A vida de Richard é apresentada como boa, apesar de claramente não ser uma vida fácil. Cada aspecto de sua vida é refletido e depositado dentro de uma concepção de cunho moral. Ele é uma pessoa muito cuidadosa e controlada que julga a si mesmo e aos outros por seus modos, suas roupas e pela atenção aos detalhes da vida pública e particular. Mas o objetivo não é o formalismo como um fim em si mesmo e sim a dignidade e o respeito mútuo demonstrados e reforçados por iniciativas visíveis.

Apesar da preocupação com as aparências, é o que acon01 Consciousnesstece dentro da própria mente de Richard que é central para o seu caráter e seu ser. Richard discute consigo mesmo muito mais do que com aqueles que são seus companheiros nessa empreitada perigosa e vulgar com a qual ele se comprometeu. Mesmo no que diz respeito às questões mais cruciais sobre moralidade política há pouca discussão conjunta. Nitidamente, o Sr. Ryn procura evitar conversas [mais] racionalistas, na qual se ouve com frequência coisas como guerra justa, ética situacional etc. E ele afirma, através da boca de personagens rígidos, geralmente militares, que essas conversas são, muitas vezes, uma pose meramente abstrata. Ainda assim, alguns de nós continuamos convencidos de que a discussão moral e o debate servem para clarear a mente dos homens e permitir que eles se entendam tão bem quanto se é exigido de um homem bom.

Não é por acaso — e como crítico tenho certeza disso — que Richard encontra-se com sérios problemas quando se baseia em uma compreensão mal concebida, autorreferenciada e mais emocional da “consciência”. O Sr. Ryn deixa claro que Richard e os devidos objetivos que ele busca seriam mais apropriados se Richard depositasse mais confiança no [poder de] decisão das pessoas certas. Aqueles que demonstram bom caráter e atitudes ao encararem circunstâncias difíceis na busca dos fins corretos merecem um certo respeito, certamente mais respeito do que as afirmações de uma consciência subjetiva.

A consciência, para o pensador da lei natural, não é subjetiva, mas sim uma faculdade que permite o entendimento e a compreensão da natureza do ser e as exigências de sua virtude (a busca de uma vida boa neste mundo e a possibilidade da bem-aventurança no próximo). É agradável ler um romance que apresenta, com todos os detalhes introspectivos, uma visão que rejeita o niilismo moderno, mas não participa — nas mãos de alguns praticantes exageradamente racionalistas, e nas mãos de outros altamente subjetivos — do modelo da lei natural. Discordando da concepção do Sr. Ryn sobre as origens da ordem correta da alma, este crítico recomenda o seu romance como uma forte introdução à sua visão. É uma visão mais Espartana e bastante exigente (não sendo nenhuma dessas necessariamente uma coisa ruim). Além disso, a compreensão do Sr. Ryn permite uma concepção integrada de raciocínio e ação morais pela qual mais pessoas podem se empenhar e obter bons resultados. Ele é capaz de fornecer orientação para o autoaperfeiçoamento de cada leitor, mesmo aqueles cuja fé, sendo mais pessoal do que o retratado aqui, os leva a uma concepção de caráter correto, que também é mais pessoal.

Tradução: Fernanda Ferreira

Revisão: Márcio Flemming

[*] Bruce Frohnen. “What Should a Moral Man Do in Desperate Times?” The Imaginative Conservative, 8 de Fevereiro de 2016.

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