Resenha do livro “The Silencing: How the Left is Killing Free Speech”

Por David Gayvert [*]

O novo livro de Kirsten Powers, The Silencing: How the Left is Killing Free Speech [O Silenciamento: como a esquerda está matando a liberdade de expressão], apresenta um minucioso panorama da hipocrisia, intolerância e repugnância daquilo que ela chama de “esquerda autoritária”. É, de fato, um alento ver uma autoproclamada “esquerdista de longa data” apontar os abusos de seus colegas progressistas, mesmo que não inove muito ao fazê-lo: conservadores bem informados já sabem muito bem o que acontece constantemente nas universidades, Hollywood, na mídia tradicional e em outros ambientes dominados pela esquerda.

Em seu capítulo introdutório, Powers admite que o fenômeno sistêmico por ela tratado só é encontrado na esquerda, mesmo não dedicando muito tempo aí – ou em qualquer outra parte do livro – para discutir realmente o porquê disto. Os capítulos seguintes abordam as várias afrontas cometidas em nossas universidades, mídia e debates públicos contra a linguagem, a lógica, a honestidade e a decência. Powers concentra-se em particular nas intelectuais feministas radicais que avidamente atacam qualquer homem e, especialmente, mulheres que se afastam das atuais devoções progressistas/feministas. Ela escreve:

Quando homens discordam de feministas autoritárias, uma tática recorrente para silenciar é acusá-lo de “mansplaining”. Feministas autoritárias forjaram a noção de “mansplaining” para ser uma arma que silencia qualquer homem que apresenta uma opinião contrária à da ortodoxia feminista. Como funciona é algo relativamente simples: um homem pró-vida falando sobre aborto com uma mulher pró-escolha é mansplaining. (Mas um homem pró-escolha concordando com uma mulher pró-escolha não é mansplaining).

Powers também se mostra incrédula em relação a legitimidade dos regulamentos sobre “micro-agressão” e “aviso de conteúdo” [trigger warning] inspirados no feminismo os quais infestam hoje em dia os campi das universidades, lamentando a preocupação da esquerda em “proteger” os alunos de pensamentos com os quais poderiam se incomodar ao invés de insistir que eles deveriam conhecer e entrar em contato com tais pensamentos. Como ela observa:

Se um estudante universitário vai ficar traumatizado por [ler] O Grande Gatsby, então ele achará a vida cotidiana insuportável assim que sair das creches em que as universidades hoje em dia se tornaram.

Os outros exemplos apresentados nos nove capítulos são familiares: a intimidação sofrida por estudantes com visões tradicionais sobre religião, casamento e moral; a hipocrisia do descaso em relação aos xingamentos misóginos de homens de esquerda contra mulheres conservadoras; e a deturpação e invenção deliberadas de “fatos” para promover a visão de mundo progressista.

No entanto, com a exceção de apontar o papel do Presidente Obama em uma tentativa de deslegitimar a Fox News, é curioso como Powers não parece se importar em examinar abusos semelhantes contra a liberdade de expressão e de pensamento levados a cabo por políticos de esquerda (por exemplo: Clinton, Reid, Pelosi, Wasserman-Shultz, só para citar os principais) que constantemente demonizam seus oponentes políticos e promovem ativamente a intolerância e a hipersensibilidade das quais Powers se afasta.

Não há dúvida de que Powers se sente de fato ofendida por aquilo que denomina de impulsos e práticas “autoritárias” dos progressistas que atacam ao invés de argumentar contra opiniões que não se coadunam com sua visão esclarecida. Ela menciona exemplos após exemplos de tentativas levadas a cabo por estes esquerdistas de humilhar, difamar, destruir e impedir o debate, e de virtualmente politizar qualquer problema, público ou particular. Ao longo o livro, Powers professa de maneira orgulhosa seu esquerdismo e postula, ainda que de fato não argumente – isto é, não fornece evidências além de suas próprias sensibilidades – que o esquerdismo “de verdade” exige um debate livre e respeitoso, e consideração pelas opiniões dos outros. Nisto ela convence o leitor de sua imparcialidade, se não de seu modo de pensar claro. Ela menciona uma série de pontos, mas não consegue conectá-los. O leitor é assim deixado se perguntando: como ela pode catalogar e condenar todo este comportamento esquerdista e não vê a ligação com a filosofia que lhe é subjacente?

Pois o que falta no livro de Powers – e está presente de modo contundente em, digamos, a história de conversão de David Mamet um esquerdista “estúpido” com boa reputação em um pensador conservador – é o reconhecimento de que as atitudes e práticas por ela rejeitadas não são uma distorção ou uma aberração das inclinações políticas as quais professa, mas sim sua inelutável consequência. A despeito de sua retórica altiva sobre ajudar os oprimidos e os “marginalizados”, a esquerda sempre buscou apossar-se e manter o poder para impor uma condição de igualdade a todos, menos a elite que manipula este poder. Este objetivo não tolera opositores. Powers constantemente enfatiza sua preferência pessoal pelo debate respeitoso, mas falha em reconhecer que, com algumas exceções, os esquerdistas modernos não têm interesse em participar de debates livres e baseados em fatos para convencer os outros; eles veem a si mesmos como detentores de um “conhecimento secreto” e querem impô-lo as massas ignorantes, incapazes de viverem sem tal conhecimento.

A ideia de Powers de esquerda autoritária X esquerda é uma tentativa de omitir a dissonância cognitiva que a afeta – como é possível as pessoas que partilham minhas opiniões e visão de mundo se comportarem de modo tão ruim?

É inegável que mais de um século e de dezenas de trilhões de dólares gastos em programas esquerdistas para combater a pobreza e outras injustiças, em uma tentativa de reformular a natureza humana e retirar a responsabilidade de vários grupos de pessoas por suas vidas e comportamento, fracassaram em alcançar os objetivos visados pela esquerda e acabaram mesmo prejudicando seus milhões de “beneficiários”. Na medida em que a nobreza da Visão progressista não pode ser criticada, só resta culpar fatores externos. Destarte, talvez Powers mencionasse o pouco dinheiro gasto, ou as verdadeiras discordâncias em relação as políticas públicas, ao invés de (culpar) os homens brancos Republicanos que são malvados, racistas, homofóbicos e odeiam crianças e mulheres – mas ela é parte de um minoria. Parece que ela não entende o que os progressistas “autoritários” – o que significa dizer quase todos os esquerdistas politicamente ativos com quem Powers em princípio comunga – realmente fazem, mesmo que apenas de modo visceral: 1) não há nenhum argumento objetivo válido para a visão progressista da sociedade; e 2) xingar e humilhar oponentes ideológicos não só é a melhor maneira de fazer a Causa triunfar – isto funciona!

Honestamente, The Silencing não é um argumento em favor da visão de mundo progressista ou da eficácia das políticas Democratas. É um chamado para a civilidade em nossos discursos públicos, o que é bem vindo, ainda que a Sra. Powers reconheça que isto, provavelmente, passará despercebido pelos totalitários sob sua mira. Ela não diz, porém deveria perceber, é que, de fato, o fenômeno por ela relatado só vai piorar em um futuro previsível em vista da crescente influência da esquerda nos campi do país. Um livro melhor teria explorado por que a intolerância da esquerda em relação a opinião dissidente é tão difusa, e como os políticos e líderes partidários nos quais ela em princípio vota e apoia encorajam ativamente tais atitudes. Tal questionamento, é claro, levanta perguntas perigosas que poderiam ser fatais para as ilusões esquerdistas de Powers sobre como o mundo realmente funciona.

Ao fim e ao cabo, o livro de Powers é melhor caracterizado como uma variação daquela velha piada: “O que significa 1000 advogados no fundo mar?”. Resposta: um bom começo. Kirsten Powers procurou trilhar o caminho da honestidade, diferente da maioria dos esquerdistas modernos, mas ela ainda precisa ir além caso seu ponto final seja entender a realidade como ela é, e não como os progressistas acham que deveria ser.

[*] David Gayvert. “Disconnect: Kirsten Powers’ The Silencing: How the Left is Killing Free Speech”. American Thinker, 14 de Junho de 2015.

Tradução: Alexandre Ramos

Revisão: Rodrigo Carmo

1 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *