Redescobrindo John Dos Passos — Parte II

Por Jay Nordlinger [*]

O caso Sacco e Vanzetti foi um dos mais conturbados dos anos 1920, causando uma significativa divisão na vida americana. Citarei Passos:

O caso fez nascer uma imensa amargura entre aqueles que acreditavam que eles eram inocentes e os que acreditavam que eram culpados.

De vez em quando há casos que acabam com as amizades. A partir da década de 2000, eu penso na Guerra do Iraque (A recontagem na Flórida também foi bastante amarga e, antes disto, todo o drama do impeachment de Clinton). Agora, penso no fenômeno Trump e o que causou aos americanos de direita.

De qualquer modo, cito Passos (escrevendo nos anos 1950 sobre a década de 1920, Sacco e Vanzetti):

Lembro-me de ter recebido uma carta de uma pessoa de quem eu gostava e admirava e com quem mantive uma amizade nos tempos da universidade, quando quebrávamos formalmente nossas relações. Visto que não nos víamos há anos, e que ele vivia em um lado do país e eu em outro, fiquei intrigado com ele ter se dado ao trabalho. Sem dúvida, ele achava estar cumprindo seu papel como cidadão.

E aqui escreve Passos sobre os comunistas:

Neste país eles eram, até então, somente uma pequena seita tentando, sem muito sucesso, formar seus próprios sindicatos. Sua força residia no fato de possuírem um conjunto de convicções definido e que sustentavam com fervor religioso. O movimento oferecia uma boa carreira a homens e mulheres que se submetiam à sua disciplina, a certeza inabalável de que eram melhores que os outros e aquele sentimento de fazer parte da história que, para o marxista, toma o lugar da religião.

Eu já vi isso repetidas vezes e tenho certeza de que você também. OK, qual era a fraqueza dos comunistas?

A fraqueza era que eles não tinham como apelar para o desejo de independência pessoal e para a crença fundamental de que devesse haver justiça [fair play] para todos, o que, graças a Deus, é forte tanto entre os trabalhadores americanos quanto no restante da população.

Outra colocação sobre o comunismo e seu sucesso:

Seu grande sucesso jaz, como hoje [nos anos 1950], em sua habilidade de manipular e direcionar o pensamento de jovens americanos inexperientes e pouco ilustrados [halfeducated] provenientes da classe média.

Seria exagero pensar em Bernie Sanders e suas legiões de militantes universitários?

Sanders passou sua lua de mel, ou algo parecido, na União Soviética. (O prefeito de Nova Iorque, Bill de Blasio, passou a sua na Cuba dos Castros). Passos viajou para a URSS em 1928. (Como um simpatizante, eu diria). O Estado bolchevique era jovem: tinha apenas 11 anos.

No caminho, Passos parou em Helsinque. Minha sequência [de artigos] não tem a intenção de ser literária – ela é mais política – mas eu quero mencionar uma passagem de Passos por Helsinque, onde ele utiliza o antigo nome sueco da cidade:

Helsingfors é boa exceto pelo mar não ser salgado e a cidade parecer uma versão mais limpa de Duluth. E eles acabaram com todo o estoque anual de escuridão.

Esta passagem é típica de Passos.

Passos conversou com dois jovens em Leningrado. O estado era jovem, mas não tão jovem para eles – que mal sabiam de outras coisas.

Era difícil para eles imaginar um período no qual o marxismo não fora uma regra de conduta, como seria difícil para um estudante secundarista americano duvidar da importância de open shops¹ ou da Doutrina Monroe².

Passos escreveu isto em 1928. E aqui está ele, em meados dos anos 1950, comentando sobre o que escreveu:

Deus, como as coisas mudaram. O marxismo ainda é uma regra de conduta para além daquelas fronteiras. Enquanto isso, o mundo Ocidental misturou todas as suas convicções. Se você conversar com um estudante secundarista neste ano de 1955, ele vai alegar que as open shops são artimanhas de empresários astutos. Se ele já ouviu falar da Doutrina Monroe, não vai aprová-la.

E em 2016?

Passos conversa com um russo – um soviético, na verdade. Ele é um técnico ou algo do tipo. O soviético conta que os americanos desenvolveram fantásticas “técnicas industriais”. Porém, “nós estamos aprendendo o seu sistema. É como a aritmética: uma vez descoberta, qualquer um pode aprendê-la. O que Shakespeare dizia? A vilania que você me ensinou eu executarei”.

Esta fala é de O Mercador de Veneza. Na verdade, é “A vilania que você me ensina”, e não “que você me ensinou”, mas não importa. Que encontro interessante.

Aqui, Passos olha para o passado, nos anos 1950:

Tudo o que eu pensei e escrevi naquele verão [de 1928] baseava-se na ideia, a qual Joseph Stalin logo mostraria ser falsa, de que a fase violenta da revolução russa terminara, que o ímpeto do fanatismo comunista enfraquecia e que a energia magnífica do povo russo logo seria usada para o trabalho em prol de uma vida digna de ser vivida.

Acredito que essa energia ainda tivesse de ser liberada para que a vida valesse a pena.

Uma pausa para um pouco de humor. Novamente, Passos escreve nos anos 1950:

O gosto de Stalin influenciou bastante as artes. O que ele gostava no teatro era a incessante repetição de “O Lago dos Cisnes”.

Bom, com relação a isto, somente a isto, talvez eu seja um pouco stalinista. …

P.S.: Hitler é conhecido pela sua paixão por Wagner3. Mas o que ele amava acima de tudo – sua obra de arte favorita – era A Viúva Alegre [The Merry Widow], a opereta de Franz Lehár4. Ele pessoalmente prestou homenagens ao compositor.

P.P.S. Eu conheço uma mulher – no presente, “conheço” – que se encontrou com Lehár e diz que ele foi um dos homens mais charmosos que conheceu em toda a sua vida.

A coisa mais surpreendente no relato de Passos sobre a URSS é um breve encontro que teve: um encontro, uma visita a um casal. Ele era inglês; ela, russa. O inglês viajara para a URSS por motivos idealistas. Agora, ele e a esposa estavam apavorados e buscavam uma maneira de fugir. Passos não queria acreditar neles.

Seu relato tem apenas duas páginas e meia, mas que são inesquecíveis.

“Eu conhecia Kronstadt? Quando se soube da verdade sobre Kronstadt, tudo virou um pesadelo amargo para ele – “ele” o marido, o inglês.

Kronstadt, lembrem-se, era uma fortaleza naval situada em uma ilha no Golfo da Finlândia. Em 1921, marinheiros soviéticos, soldados e outros se rebelaram contra Lenin e os Bolcheviques. Não é preciso dizer que eles foram esmagados como insetos.

Desde então, “Kronstadt” tem sido uma metáfora. Ex-comunistas e ex-esquerdistas já falaram sobre seus Kronstadts pessoais. O termo “Kronstadt” possui duas definições: ele pode se referir ao momento de desilusão com o Partido Comunista, ou quando alguém toma uma posição contra o Partido.

O momento crucial, para alguns, foi o pacto nazi-soviético; para outros, o “discurso secreto” de Khruschev. Para outros ainda, a repressão da Revolução Húngara. E por aí vai.

Voltando ao inglês que Passos encontrou: seu Kronstadt foi, literalmente, Kronstadt. Citarei Passos novamente. Lembrem-se que a Cheka, ou Tcheka era a polícia secreta soviética; a Okhrana, a polícia secreta do Czar, fora sua antecessora.

Os marinheiros que se revoltaram em Kronstadt eram os homens que participaram dos dias de Outubro [e que ganharam a Revolução Russa]… Não havia dúvida de que a revolta era um grande perigo. … Sem dúvida ela precisava ser reprimida. As tropas leais recapturaram o forte após uma dura batalha. Os marinheiros se renderam. Os agentes da Tcheka haviam corrido como coelhos ao primeiro sinal de perigo. Eles não ousaram voltar por três dias até que as tropas recuperassem o lugar. Porém, os prisioneiros foram logo entregues para a Tcheka…

E os Chekos [Chekists], muitos deles,

haviam sido membros da antiga Okhrana – de czaristas, sádicos, pervertidos da pior espécie. “Não há crueldade pior que a dos russos, nem mesmo a chinesa [segundo o inglês]. Eles massacraram até as prostitutas dos bordeis de Kronstadt. Alguns dos agentes da Tcheka traziam consigo cópias de O Jardim dos Suplícios, escrito por aquele francês asqueroso, para usá-lo como referência quando sua imaginação falhasse. Uma coisa eu digo: foi um pesadelo”.

Prosseguindo com Passos:

Minhas pernas tremeram um pouco. Era terror que eu vira nos olhos do homem … [e] nas passadas nervosas da mulher. Eu me senti mal. Dei um pigarro. “Mas a Tcheka acabou. [Ela foi reorganizada e renomeada em 1922]. … A maioria deles foi fuzilado. O terror acabou.”

Você pode ir e vir quando quiser. Estaremos no páreo até que nos prendam ou matem, a não ser que possamos fugir. Estamos condenados. Eles sempre chegam à noite. Fazem prisioneiros sem que ninguém os veja, e os que veem nem se atrevem a contar a alguém.

Foi um alívio poder sair e entrar numa rua qualquer.

É preciso dar crédito a Passos por ter escrito isso naquele momento, nos anos 1920, e não depois, na década de 1950. Muitos escritores omitiram o que testemunharam. Até certo ponto, Passos também. Aqui ele nos fala na década de 1950:

Como é difícil escrever com sinceridade. Ao ler estas linhas, fico me lembrando de coisas que esqueci de escrever. Por que eu me esqueci de escrever sobre as fotos ampliadas de Lenin ainda bebê, que eu vi nos altares das casas dos camponeses em vez daquelas do Menino Jesus? Por que eu não dei atenção para o que as pessoas falavam sobre Stalin?

Eu acho que ele se explica no trecho a seguir:

Assim como qualquer outro americano, eu me esforcei ao máximo para ver o que era bom, mas a última impressão que tive foi a do medo, o medo da complexa maquinaria brutal e invisível da polícia estatal. Medo nenhum nunca esteve tão bem fundamentado.

Considere outro medo – o de Passos: “o medo de escrever algo que fosse visto no Ocidente como uma propaganda antissoviética”.

Passos, nos anos 1920, não estava preparado para ser um anticomunista. “Eu tentava ser neutro, colocando-me acima da batalha tal como Goethe”. Mas em dado momento ele teria de escolher um lado, e ele escolheu bem – e bravamente.

 Nos vemos em breve na Parte III, que irá tratar de Harlan County e da Espanha. Agradeço por se juntar a mim, e a Passos por estas raras observações.

[*] Jay Nordlinger. “Doses of Dos Passos, Part II”. National Review, 3 de Maio de 2016.

Tradução: Alexandre Ramos

Revisão: Márcio Flemming

Notas:

¹ Termo que designa empresas nas quais o empregado não precisa se associar a um sindicato para nelas trabalhar.

² A Doutrina Monroe foi fundamentada numa mensagem do presidente dos Estados Unidos, James Monroe, ao congresso no dia 2 de dezembro de 1823. Ela consistia em 3 princípios: a não criação de novas colônias nas Américas, a não intervenção nos assuntos internos de países do continente e a não interferência dos Estados Unidos em conflitos entre países europeus, como guerras entre eles e suas colônias, por exemplo.

³ Wilhelm Richard Wagner (Leipzig, 22 de maio de 1813 — Veneza, 13 de fevereiro de 1883) foi um famoso maestro, compositor, diretor de teatro e ensaísta alemão. Para saber mais sobre Richard Wagner e sua obra, clique aqui.

Franz Lehár (Komárom, Áustria-Hungria (atual Komárno, na Eslováquia); 30 de abril de 1870 — Bad Ischl, Áustria; 24 de outubro de 1948) um dos maiores compositores austríacos que ficou famoso por suas operetas, principalmente a obra “A Viúva Alegre”, que foi tocada pela primeira vez em 30 de dezembro de 1905. Para assistir a “A Viúva Alegre” (com legendas em inglês), clique aqui.

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