Redescobrindo John Dos Passos — Parte I

Por Jay Nordlinger [*]

Há algumas semanas, eu estava colocando um título em um texto (sobre uma conversa que tivera com George W. Bush). Uma frase veio a minha mente: “O tema é liberdade”. De onde ela surgira? Eu sabia que era o título de um livro de John Dos Passos, que há muito pretendia ler.

Este também é o título de um livro de M. Stanton Evans, o famoso jornalista conservador. Publicado em 1994, o livro se chama The Theme Is Freedom: Religion, Politics, and the American Tradition (“O Tema é Liberdade: Religião, Política e a Tradição Americana”, em tradução livre). Esta obra também está em minha lista.

Eu li o livro de Passos. É fantástico. E escrevi sobre ele para o presente volume da National Review. Eu gostaria de aumentar, significativamente, o texto nesta coluna.

John Dos Passos era muito, muito famoso. Se você conhecia Ralph Kiner e Adlai Stevenson, também conhecia Passos. Seu nome é pouco conhecido hoje — é seguro dizer que mesmo os jovens com boa formação não o conhecem. Porém, ele foi um dos grandes [nomes] da literatura americana da década de 1920 até meados do século.

Aliás, este é o título de um dos romances de Passos: “Midcentury” (“Meados do século”, em tradução livre).

Ele nasceu em 1896. Sartre chamou-o de “o maior escritor de nosso tempo”. Mas algo aconteceu: Passos rompeu com a Esquerda, onde todos estavam, e foi para a direita, pois ele era basicamente um liberal no sentido clássico. Hemingway¹ disse-lhe que, se insistisse com sua independência de pensamento, “os críticos de Nova Iorque vão matá-lo. Eles destruirão você para sempre”.

Foi o que fizeram.

Os críticos decidiram que ele não mais podia escrever — o que era simplesmente uma mentira. Quem se beneficiou de seus escritos foi uma nova revista, a NR [National Review] (que surgiu em novembro de 1955).

Certa vez, o fundador da revista, William F. Buckley Jr., conversou comigo sobre Passos. Ele disse que as pessoas o chamavam de “Dos” — pronunciando “Dahss”, e não “Dohss”. Para nossas páginas, Passos escreveu da convenção Republicana de 1964. Quatro meses depois, ele votou pelo indicado, Goldwater².

Vocês fazem ideia de como foi estranho para Passos, antes um herói da esquerda literária mundial, votar em Goldwater?

Passos morreu seis anos depois, em 1970.

Foi em 1956 que ele publicou “O Tema é Liberdade”, uma coletânea de sua atuação jornalística. Há uma descrição melhor e mais detalhada feita pelo próprio autor — que a chamou de “uma coletânea de vários escritos de maior ou menor complexidade política, provenientes das surradas edições antigas de publicações já extintas ou que ainda sobrevivem, e das páginas já quebradiças de alguns dos meus próprios livros fora de catálogo”.

Seja o que for, “O Tema é Liberdade” é impressionante e profundo. Quem escreve hoje em dia como Passos? Mark Helprin é um deles, mas não há muitos.

Os textos reunidos datam de 1926 até o presente, ou melhor, 1956. É um belo período de 30 anos. E, para aqueles que gostam de efemérides, o livro faz agora 60 anos [2016]. Ao longo dele, Passos faz alguns comentários em itálico. Isto é, comentários em meados da década de 1950 sobre sua própria juventude. Às vezes ele se mostra envergonhado, mas não teria republicado esses textos se não se sentisse satisfeito com eles — e ele deveria mesmo sentir-se assim.

Ele sustenta que, onde quer que se situasse no espectro político, seu tema sempre fora o mesmo: a liberdade do indivíduo e, por conseguinte, da sociedade como um todo. Nós podemos criticá-lo e alegar que ele andou muito tempo com a Esquerda, mas ele tem seus motivos. E mesmo em seus momentos mais à esquerda, ele era vigilante e cético ao invés de hipnotizado e fanático.

O primeiro capítulo de seu livro trata do caso Sacco e Vanzetti. O segundo é sobre a União Soviética, visitada por Passos em 1928. Em seguida, nós o encontramos nas minas de carvão de Harlan County, Kentucky, em 1932. Depois, na Guerra Civil da Espanha. Mais tarde, em vários lugares na Segunda Guerra Mundial.

Além de relatos, também temos seus ensaios, que são atemporais. Mas seus relatos também o são — por suas observações sobre pessoas, paixões e política. Lendo o livro, eu pensava constantemente sobre o presente, que não é muito diferente do passado próximo (ou do passado distante).

Nicola Sacco and Bartolomeo Vanzetti

Eu gostaria de passar alguns trechos de “O Tema é Liberdade”. Dos Passos passo a passo. E começaremos com Sacco e Vanzetti e seus partidários.

Vocês se lembram quem foram estes homens. Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti eram imigrantes italianos nos EUA, acusados de assassinato em 1920. Eles foram executados sete anos depois. Muitos alegaram a inocência deles afirmando que eram vítimas de preconceito contra imigrantes e discriminação política (ambos eram anarquistas).

Passos era um manifestante. Aliás, ele foi preso junto de Edna St. Vincent Millay³.

Aqui, Passos — o Passos da década de 1950 — fala sobre sua postura radical (uma postura que, é claro, ele partilhava):

O capitalismo era o mal que destruía a civilização. Acabem com os lucros dos empresários, nós dizíamos (…) Nós vibrávamos com a palavra cooperação (…) O capitalismo era o pecado que causara a Guerra [Primeira Guerra Mundial]; apenas a classe trabalhadora era livre de crimes.

E aqui ele fala de uma correlação de forças interessante:

Greenwich Village queria liberdade, a classe trabalhadora também. (…) Os moradores de Greenwich Village, a maioria filhos e filhas de profissionais, clérigos, advogados e médicos, repentinamente identificaram-se com a classe trabalhadora. De todas as camadas da sociedade, apenas os artistas e escritores e as pessoas que trabalhavam com as próprias mãos eram puras. Juntos, eles derrubariam os empresários e se tornariam os mandachuvas. Da aliança entre os sindicados e Greenwich Village nascia o radical americano.

Exatamente. Eu conheço esta aliança — ou pressuposta aliança — muito bem. Para começar, eu a vi em Ann Arbor (minha cidade natal).

Passos relembra: os radicais de Nova Iorque viajaram para Passaic, Nova Jersey, para protestarem a favor de Sacco e Vanzetti.

O protesto terminou e eu estou de pé em uma escada, olhando nos rostos das pessoas saindo do salão. Eu fico assustado com suas expressões tensas de integridade. Olhos semelhantes a uma fileira de rifles apontados em um pelotão de fuzilamento. Queixos erguidos entre a noite congelante. Eles se deslocam pela rua quase como se estivessem marchando. Eu me lembro principalmente das mulheres, seus olhos semicerrados em busca do mal. Há algo de intimidador nesta unanimidade do protesto. Eles estão convictos de que estão certos.

Passos concordava com o protesto, vejam só. Ele era parte dele. Porém, ele estava perturbado — “assustado” — com as pessoas. Eu as conheço. Eu as vi em Ann Arbor. Eu as vi depois em muitos lugares.

Hoje podemos encontrá-las nos campi como “JS”: “justiceiros sociais”. Podemos vê-los onde quer que haja extremismo arrogante e intolerante (não importa de onde venham).

Houve um tempo em que havia tolerância, escreve Passos. Você podia conversar com as pessoas.

É divertido lembrar que naqueles dias despreocupados, um membro do partido comunista, um anarcossindicalista e mesmo um capitalista cansado que acreditava no laissez-faire podiam sentar-se à mesma mesa, tomar cerveja juntos e apresentarem seus argumentos. Não que a opinião do outro fosse exatamente respeitada, mas pelo menos admitia-se o direito dele de ficar vivo. Nem é preciso dizer que este feliz estado de coisas não durou muito.

Darei a vocês um pouco mais de Passos, e depois mencionarei algo que aconteceu no mês passado. Mais uma vez, Passo escreve na década de 1950 sobre a década de 1920:

A House of Morgan4 era poderosa naqueles dias, mas nem tanto. Isso foi anos antes de eu ter aprendido que produzir um bicho-papão era um sofisma emotivo que impedia qualquer pensamento racional.

Um mês atrás, um dos candidatos à presidência, Bernie Sanders, encontrou-se com o New York Daily News. O editor percebeu que o senador gostava de acusar a “América corporativa” de acabar com “as fábricas do país”. Ele conseguiu nomear algumas corporações que estavam fazendo isto? As primeiras sílabas que saíram dos lábios do candidato foram “JP Morgan Chase”.

Eu me pergunto o que o velho J. P (1837-1913) pensaria: ainda um bicho-papão, em pleno século XXI.

A partir da ascensão de Obama, o conceito de “excepcionalismo americano” passou a ser questionado. Vejam Passos, novamente escrevendo na década de 1950 sobre a de 1920:

Os marxistas, que são tão hábeis em detectar e isolar as heresias, costumavam criticar uma que particularmente me agradava, eles a chamavam de excepcionalismo americano. Ao longo daqueles anos de crescentes protestos contra o modo como as coisas eram feitas nos EUA, aquele rótulo foi o meu refúgio. Ele me permitiu fazer parte dos protestos das diversas vertentes de marxistas… sem abrir mão das respostas automáticas do simples patriotismo americano em que fui criado.

Passos escreve sobre “aquele marxista instigando a inveja, o ódio e a malícia que corrói o caráter de homens e mulheres”. Eu sei bem o que ele quer dizer. Tenho certeza que vocês também.

Aqui vai algo curioso escrito pelo Passos da década de 1920:

Aos poucos, dentre os esquerdistas e as pessoas inteligentes, algumas manifestações de anarquismo passaram a ser admitidas de maneira relutante em conversas respeitáveis sob a expressão “anarquismo filosófico”, que trata-se de um anarquista que se barbeia todo o dia, tem boas maneiras e garante que não irá agir baseado em suas crenças.

(Na verdade, é o meu tipo de anarquista.)

Passos – o da década de 1920 – descreve os jurados que julgaram Sacco e Vanzetti. Escreve ele: “um júri cem por cento americano, que consistia em dois funcionários de imobiliárias, dois comerciantes, um pedreiro, dois maquinistas, um vendedor de roupas, um fazendeiro, um operário, um sapateiro e um formista³”.

Acredito que Passos — o dos anos 20 — falava isso de modo sarcástico e com desdém. Mas até que eu gosto.

Acho que já escrevi demais por hoje. Junte-se a mim — a nós — amanhã para a Parte 2. Até mais.

[*] Jay Nordlinger. “Doses of Dos Passos, Part I”. National Review, 2 de Maio de 2016.

Tradução: Alexandre Ramos

Revisão: Felipe Galves Duarte

Notas:

¹ Ernest Hemingway (1899-1961) foi um dos grandes escritores americanos do século XX. Autor de “O Sol também se levanta” “O velho e o mar”, “Por quem os sinos dobram” entre outros romances famosos. Clique aqui para assistir a um documentário sobre o escritor que está disponível no youtube.

² Barry Goldwater Morris, também conhecido como “Mr. Conservative” (Senhor Conservador), foi um Major-General da Força Aérea de Reserva dos EUA candidato à presidência em 1964 pelo Partido Republicano. Clique aqui para assistir a sua entrevista no Firing Line, com William F. Buckley Jr.

³ Edna St Vincent Millay (1892-1950) foi uma poetisa lírica e dramaturga americana, boêmia e que viveu uma vida não muito convencional.

4 House of Morgan foi uma famosa agência bancária internacional construída em 1913, localizada na época na rua Wall Street, 23, Nova Iorque, EUA. Jack Terzi da JTRE Holdings adquiriu o prédio em 2016.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *