Psicólogos analisam Donald Trump à distância

Por Robert D. Mather [*]

Notas sobre duas análises publicadas

Donald Trump tem evocado longos comentários da comunidade psicológica. De fato, comparei eles com uma análise cognitiva social de seu estilo de debate (Mather, 2016), assim como com uma análise de sua base eleitoral (Mather e Jefferson, 2016). Apesar de ter visto muitas análises tendenciosas de jornalistas e cientistas, duas se destacaram para mim como relativamente imparciais e fundamentadas em pesquisa científica sólida. Recomendo fortemente a leitura de (seguem os links para os artigos) “The Mind of Donald Trump” e “The psychological Quirk that Explains Why You Love Donald Trump”. Sensatamente, leitores críticos de todos os partidos encontrarão coisas diferentes e nas quais discordam dos autores, cujas análises interessantes são baseadas em pesquisa empírica em psicologia científica.

O primeiro artigo, “The Mind of Donald Trump”, por Dan McAdams é o mais interessante. Dan McAdams é um dos psicólogos mais interessantes de nossa época. Ele recebe sua quota justa de aclamação nos círculos psicológicos, mas não têm o reconhecimento na cultura popular que reflita sua verdadeira genialidade. McAdams escreveu dois livros interessantes baseados em sua pesquisa, e estes dois livros estabeleceram o pano de fundo para sua análise de Donald Trump. Em “The Redemptive Self: Stories Americans Live By”(2006), McAdams descreve sua pesquisa sobre como as pessoas formam narrativas de suas vidas, e como as narrativas das vidas individuais moldam as decisões que fazem. Além de desenhar a pesquisa sobre as narrativas da vida de pessoas comuns, ele aplicou estas mesmas narrativas a culturas e figuras históricas. Embora possa parecer psicanalítico à primeira vista, a pesquisa é fundamentada em uma pesquisa empírica muito inovadora. Seu segundo livro que é relevante para o artigo é “George W. Bush and the Redemptive Dream: A Psychological Portrait”(2011). McAdams baseou-se em sua pesquisa empírica original sobre as narrativas sobre a vida de indivíduos para fazer muitas suposições especulativas sobre como George W. Bush tomou as decisões que tomou durante a presidência. Ele foi exaustivo na análise e os pressupostos eram razoavelmente lógicos a partir da pesquisa que ele realizou. Fiquei impressionado com a habilidade de McAdams de usar sua pesquisa narrativa para criar uma psicobiografia ampla de uma figura histórica proeminente, mesmo discordando de algumas de suas interpretações. Como muitos psicólogos saíram da toca para analisar Donald Trump, e geralmente com uma agenda partidária, desejei que McAdams tivesse escrito uma análise de Trump.

Fiquei agradavelmente surpreso quando The Atlantic publicou exatamente tal artigo. Ele compara o estilo de tomada de decisão com outros presidentes, incluindo Bill Clinton, George W. Bush, Richard Nixon, e Andrew Jackson, e descreve Donald Trump usando os traços de personalidade do Big Five (extroversão, neuroticismo, escrupulosidade, amabilidade e abertura para a experiência). Ele caracterizou Trump como tendo muita extroversão, pouca amabilidade, e muito narcisimo (que não é um dos traços do Big Five), e discutiu o papel do autoritarismo em sua candidatura. McAdams mergulhou fundo nas informações públicas fornecidas pelo próprio Trump em entrevistas e artigos, assim como nos trabalhos publicados sobre a família Trump, para criar uma narrativa plausível de Trump baseada na interpretação através das lentes dos princípios da narrativa individual que estão empiricamente validados. Para se assegurar, McAdams está especulando, e é necessário que seja assim, a partir de sua própria perspectiva política. No entanto, suspeito que os apoiadores de Trump que leem o artigo irão abraçar a narrativa de “lutador”, enquanto que aqueles que se opõe a ele irão abraçar elementos como “ele poderia fazer decisões ruins”. O artigo é uma especulação informada por um cientista baseada em conhecimento de uma pesquisa empírica. Ele não irá convencer qualquer eleitor, mas fornece uma análise relativamente objetiva de Trump como pessoa.

O segundo artigo, “The Psychological Quirk That Explains Why You Love Donald Trump”, por David Dunning, explica como a pesquisa de Dunning se aplica ao Trump e seus apoiadores. O efeito Dunning-Kruger se refere a como pessoas que não tem conhecimento sobre um assunto específico não irão, ironicamente, ter conhecimento suficiente para perceber sua falta de conhecimento. Imagine um especialista entendendo o suficiente para saber o quão pouco sabe, mas um novato achando que sabe tudo. Dunning apresenta o cerne da pesquisa empírica que demonstrou o efeito, e extende esta idéia a Trump (caracterizado como ignorante) e seus apoiadores (caracterizados como ignorantes, mal informados ou confusos). Este artigo parece estar enviesado contra Trump. As últimas páginas trazem uma confissão que deveria ser mais comum em tais análises – a de que os eleitores de Trump podem não ser de fato substancialmente diferentes de qualquer outros eleitores. Dunning coloca que “Tudo que é necessário é um candidato inexperiente demais para evitar cometer gafes sobre políticas… e eleitores desinformados demais para ver as violações”. Este contexto para a eleição atual é uma acusação a Trump e seus apoiadores. No entanto ele enfraquece sua posição com afirmações como “a perspectiva de Dunning-Kruger também sugere uma narrativa de advertência que se estende bem além do eleitor de Trump”,”Ele se aplicará a todos nós, mais cedo ou mais tarde”. Em seguida ele afirma “se nos preocuparmos com a aparente credulidade do eleitor de Trump, que pode ser extravagante e óbvia, devemos certamente nos preocupar sobre nossas próprias ingênuas opiniões políticas que provavelmente são mais cheias de nuances, sutis e invisíveis – Mas talvez não com menos consequências. Todos nós corremos o risco de estar muito pouco informados para perceber quando nossos próprios candidatos ou líderes nacionais favoritos fazem julgamentos catastroficamente ruins.” É ótimo colocar um aviso dizendo que todos podemos ser vítimas da credulidade, mas a implicação de que Trump está enganando um bando de palermas revela uma forte tendenciosidade da parte de Dunning, e talvez pesquisando mais em seus estudos originais sobre o comportamento eleitoral citados no artigo iriam se revelar tais vieses na forma de frasear as questões, no uso dos dados objetivos para apoiar afirmações política corretas ou incorretas, nos métodos experimentais etc. Ainda assim, se você ler o artigo em nome da ciência e tirar suas próprias conclusões, o artigo valerá a pena de ser lido.

Concluindo, ambos os artigos são interessantes contribuições para a discussão publicada sobre a candidatura de Donald Trump. McAdams fornece um insight bastante interessante sobre Trump, enquanto Dunning fornece um conjunto de idéias interessante sobre como o efeito Dunning-Kruger se aplica a toda a política, mas especificamente enfoca na candidatura do Trump. O mais importante é que ambos os artigos realçam a ciência psicológica empírica feita por pesquisadores de renome e fazem análises interessantes que deveriam ser lidos criticamente por leitores interessados de todas as vertentes políticas.

Referencias:

Dunning, D. (2016). The psychological quirk that explains why you love Donald Trump: The popularity of the GOP front-runner can be explained by the Dunning-Kruger Effect.Politico.

McAdams, D. P. (2006).  The redemptive self: Stories Americans live by. New York: Oxford.

McAdams, D. P. (2011).  George W. Bush and the redemptive dream: A psychological portrait. New York: Oxford.

McAdams, D. P. (2016, June). The mind of Donald Trump: Narcissism, disagreeableness, grandiosity—A psychologist investigates how Trump’s extraordinary personality might shape his possible presidency.  The Atlantic.

Mather, R. D. (2016, March 4). Why is Donald Trump so insulting in the debates? Great Plains Skeptic (Guest Post to Column),  Skeptic Ink Network.

Mather, R. D., & Jefferson, K. W. (2016, May). The authoritarian voter? The psychology and values of Donald Trump and Bernie Sanders support.  Journal of Scientific Psychology, 1-8. (www.psyencelab.com)

[*] Robert D. Mather. “Psychologists Analyzing Donald Trump from Afar”. Psychology Today, 9 de Junho de 2016.

Tradução: Pedro Henrique

Revisão: Felipe Alves

2 comentários

  • Maria de Lourdes

    Alguém aí para analisar psicólogos?

  • Um caso mais curioso que Trump, é da própria Hillary. Seu comportamento belicoso jamais foi examinado por qualquer psicólogo e psiquiatra. E no entanto colocou os EUA em várias intervenções militares ilegais traduzindo-se na ingerência nos assuntos internos de outras nações terceiro mundo posicionando-se indevidamente como policiais da Humanidade. E isso vocês não questionam sobre a sua legitimidade. Não, não sou marxista e muito menos socialista. Considero-me de direita, nada de nazismo ou centrismo, nada disso, mas que não admite que a esquerda possa sequer existir. Não gosto de psicólogos. Por que haveria de gostar? Serão pessoas normais, coerentes?

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