Prosperidade Individual e ordem espontânea

Os indivíduos deveriam ser autorizados, dentro de limites definidos, a seguir seus próprios valores e preferências ao invés dos de outra pessoa; que dentro dessas esferas o sistema individual de objetivos deve ser supremo e não sujeito a qualquer imposição de outrem. É o reconhecimento do indivíduo como juiz último de seus objetivos, a crença de que até onde for possível, suas próprias visões devem governar suas ações, que forma a essência da posição individualista.

Friedrich Hayek (1944). The Road to Serfdom.

In Bruce Caldwell (ed.), The Road to Serfdom, II

(Liberty Fund Library, 2007): 102.

 

Se Betty, a padeira, notar que o preço dos cupcakes está subindo em relação ao preço do pão branco, ela vai transferir parte de seu esforço para assar pão branco – junto com um pouco de sua farinha, fermento, e espaço em seu forno –para assar cupcakes.

Do ponto de vista de Betty, o maior preço que ela pode cobrar agora por seus cupcakes é um sinal de que ela pode obter mais lucros assando e vendendo mais cupcakes. Do ponto de vista do economista, o maior preço do cupcake significa que consumidores agora querem cupcakes adicionais mais intensamente do que queriam ontem. Um cupcake produzido e vendido hoje cria mais satisfação de consumo – ou, para usar o termo preferido pelos economistas, mais “utilidade” – do que um cupcake produzido ontem. Essa subida de preço também motiva os fornecedores a responder de maneiras que atendam a essas mudanças de desejo do consumidor.

Uma economia de mercado, então, atinge duas metas importantes simultaneamente (por “economia de mercado” eu quero dizer uma economia na qual não existem restrições legais sobre até que ponto e em que direção os preços podem se mover; na qual os direitos de propriedade privada estão seguros; e na qual as pessoas são em grande parte livres tanto para obter os seus rendimentos como escolherem individualmente como gastar os seus rendimentos).

Primeiro, uma economia de Mercado permite pessoas auto interessadas a prosperarem economicamente apenas ao servirem aos interesses de outros. O empresário mais ganancioso só pode lucrar se oferecer acordos que os consumidores valorizem. Da mesma forma, o consumidor mais ganancioso só pode ter o que ele ou ela deseja ao pagar aos fornecedores quantias que os fornecedores achem atrativas. Adam Smith, o filósofo escocês que é o conhecido fundador da economia moderna, descreveu famosamente esse processo: “Não é pela benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração de seu próprio interesse. Dirigimo-nos, não à sua humanidade, mas ao seu amor-próprio, e nunca falamos com eles de nossas próprias necessidades, mas de suas vantagens.”.  Segundo, os preços fixados na economia de mercado “dizem” às pessoas como elas podem melhor servir aos interesses de outros. Preços são a mais importante fonte de informação tanto para produtores quanto para consumidores sobre o que eles podem esperar dos outros em uma economia de mercado.

Como os economistas da Universidade George Mason, Tyler Cowen e Alex Tabarrok, descreveram, “Um preço é um sinal embrulhado em um incentivo.”.

Uma economia de mercado, portanto, expande a capacidade de cada um de nós perseguirmos nossos próprios objetivos, aproveitando a cooperação de outros. Tente o quanto puder, você nunca poderia ir, digamos, de Montreal a Vancouver em apenas cinco horas sem a ajuda de incontáveis estranhos. Desde o piloto do avião, até o trabalhador do campo petrolífero que ajudou a produzir o combustível da aeronave, até o engenheiro que ajudou na concepção de motores do jato, a milhões de outros produtores especializados. Os esforços deles expandem o seu leque de opções; seus conhecimentos únicos e habilidades te dão opções para fazer o que você não seria capaz de fazer em milhões de anos sem eles. Claramente, essa expansão promovida pelas economias de mercado que abre, para cada um de nós, um leque de opções, é uma característica central e maravilhosa da vida moderna. (Mais uma vez, pergunte-se o quanto daquilo que você consome diariamente você poderia pessoalmente produzir apenas com seu próprio conhecimento e suas próprias mãos). Mas esse papel das economias de mercado atende mais do que a limitados propósitos materialistas.  Ele também expande nossa gama de opções “mais elevadas”.

Com uma maior riqueza, cada um de nós pode melhor se permitir – se nós escolhermos – tirar mais tempo livre. Da mesma forma com a educação: mercados (na extensão em que o governo permite que eles operem) fazem a educação mais acessível e melhor ao longo do tempo. Nós, habitantes da economia de mercado moderna, temos acesso não apenas a mais marcas de cerveja e a TVs de tela plana maiores, mas também a sublimes gravações de cantatas de Bach e óperas de Verdi, e volumes acessíveis de Shakespeare e Tolstoy e Hemingway, a viagens seguras para cidades historicamente significativas como Atenas e Roma, e a assistência médica e odontológica que os gostos do Rei Luís XIV, Rainha Vitória e até John D. Rockefeller nunca sonharam.

O mercado ainda expande nossa gama de escolhas individuais de uma forma ainda mais profunda: por sua própria natureza, a economia de mercado é aquela na qual os indivíduos não são conduzidos juntos e têm tarefas atribuídas segundo um único plano. Diferente de uma firma ou outra organização que persegue um único objetivo – como “fazer o máximo lucro possível através da produção e venda de automóveis” – uma economia de mercado não visa à obtenção de um objetivo único ao qual todos na sociedade devem subordinar seus próprios desejos e planos.

Numa economia de mercado apenas regras básicas e abstratas são aplicadas – principalmente as leis de propriedade, contrato e danos, junto com sanções penais contra iniciativas de violência, roubo e fraude. E essas regras são quase todas negativas, elas não dizem aos indivíduos o que fazer, e sim apenas o que não fazer. O resultado é que cada indivíduo tem amplo alcance para formular seus próprios planos – e amplo alcance para escolher como perseguir esses planos – sem ter que primeiro garantir a permissão de alguma autoridade.

As leis e normas do que Hayek chamou de “a Grande Sociedade” não são projetadas para manobrar indivíduos em determinados lugares para atingir algum resultado abrangente, grande, concreto e social. Nem são essas leis e normas julgadas por quão bem elas fazem essa manobra. A razão é que a Grande Sociedade é aquela que dá a cada pessoa o máximo alcance possível para formular e perseguir seus próprios planos individuais; não é uma sociedade na qual as pessoas são tratadas como os meios para alguns fins elevados.

Que a Grande Sociedade dá a cada indivíduo o máximo de oportunidade possível para viver como ele ou ela bem entender é, talvez ironicamente, o motivo pelo qual muitas pessoas não gostam dela. A própria Grande Sociedade não pede aos indivíduos para se juntarem conscientemente em nenhum empreendimento coletivo emocionante.

Ainda assim esse fato não quer dizer que não existam propósitos elevados para indivíduos perseguirem. Na Grande Sociedade, cada indivíduo pode escolher e perseguir seus próprios propósitos – incluindo aqueles elevados e nobres. E o indivíduo pode fazê-lo em aliança com tantas outras pessoas quantas ele puder persuadir a juntarem-se a ele. Ao contrário da suposição popular, portanto, propósitos mais elevados não precisam ser fornecidos pela “sociedade”. Esses propósitos podem ser escolhidos e definidos por indivíduos interagindo pacificamente uns com os outros dentro da Grande Sociedade. E entre as belas características desse fato está que ninguém é forçado a trabalhar por objetivos que ache desagradáveis, ofensivos, indignos, ou inalcançáveis.

Talvez ironicamente, ao permitir o máximo possível de liberdade para cada pessoa perseguir seus próprios objetivos escolhidos, o resultado é uma ordem social global que muito merece ser descrita como “Grande”.

Tradução Fernanda Ferreira

Revisão Flávio Ghetti

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