Por que você não deve usar pronomes transgêneros.

Por Daniel Moody [*]

Você não precisa ser professor de psicologia para perceber que uma tentativa de transferir pronomes com referencial no corpo para a mente é uma tentativa de destruir a nossa habilidade de nos comunicar.

Talvez o nome do Dr. Jordan Peterson não lhe seja familiar. Também não era para mim até assistir seu vídeo recente no Youtube, “O medo e a Lei”, no qual ele calma e metodicamente disseca o politicamente correto, e faz referência especialmente ao Projeto de lei C-16 (Bill C-16) (Um projeto de lei canadense que adicionaria “identidade de gênero” e “expressões de gênero” à lista de motivos proibidos para discriminação).

Peterson é professor de psicologia na Universidade de Toronto, é uma aposta segura afirmar que ele conhece bem o funcionamento da mente humana. Em “O medo e a Lei” ele imagina como seria se tivesse que se referir a um aluno ou colega por meio dos “pronomes de gênero neutro”: “Eu não reconheço os direitos das outras pessoas ao determinar quais pronomes usar ao falar com elas. E isto eu não farei.” Deu a deixa para a tempestade que viria do corpo de professores e estudantes(?).

Visto isso, fica claro que necessitamos falar sobre pronomes. Não deveríamos precisar, mas falaremos. É desse jeito que o mundo está agora. Entretanto, principiemos com alguns esclarecimentos. Primeiro, nossa inquietação repousa não em uma doença (transexualismo), mas em uma ideologia (Identidade de gênero, que leva ao transgenerismo).

Segundo, nossa questão não é como responder se John (que é homem) nos pedir para chamá-lo de Jessica. Os nomes de batismo não são hereditariamente ligados ao sexo da mesma forma que os pronomes são. Não, nossa indagação é esta: Caso John nos peça que nos refiramos a ele por outros pronomes que não sejam ele/o/dele(?), nós deveríamos?

Como as palavras relacionam-se com os corpos

Faz sentido iniciarmos com alguns fundamentos provavelmente esquecidos. Os pronomes da terceira pessoa são aqueles conjuntos de palavras pelos quais nos referimos a uma pessoa por meio de seu sexo. Sabe a forma como o Facebook nos permite marcar uma pessoa em uma foto? É a mesma coisa. Os pronomes são modos de identificar alguém em uma conversação.

Usamos ele/o/dele para um homem, ela/a/dela para uma mulher, e eles/elas/seus/suas/os/as para aludirmos a mais de uma pessoa. Este é um sistema, simples, bem fundamentado e totalmente não controverso pois o sexo é o único candidato viável pelo qual um pronome poderia se ligar: Ele representa a totalidade do corpo de uma pessoa, isto não pode ser mudado e existe independentemente de nossa mente. Dito de outra forma é o único sustentáculo pelo qual podemos assegurar a relação entre língua e pessoas.

Em um mundo de diversidade sexual, um pronome pessoal de terceira pessoa é a centelha oportuna quando nossas palavras encontram uma terceira pessoa. Porém, se isto é deveras óbvio, já não podemos concluir este ensaio? Infelizmente não, por que há um novo integrante no grupo e ele (?) anseia que usemos os pronomes de forma inteiramente nova.

Como os pronomes transgêneros minam a língua

Não é relevante o sentido que você ou eu damos a palavra “gênero”. A única opinião que vale é a aquela do Estado, já que o Estado sozinho tem poder para impor suas crenças sobre nós. Pelas leis, nossa identidade de gênero é definida sem tomar por referência o nosso corpo, o que significa dizer que trocar o referencial de sexo para gênero é igual a trocar o referencial do corpo para a mente.

Isto é, neste caso, também a troca do natural para o escolhido, do fixo para o fluido de um número (dois, binário) para qualquer número (não binário). Diferentemente de seu sexo, a identidade de gênero de John é imaterial. Isto exige novos modos com os quais comunicaríamos nossa identidade – Por esta razão que se deu a chegada de crachás com “pronomes preferidos” nos campi universitários em toda a América.

Você não precisa ser um professor de psicologia para perceber que uma tentativa de transferir pronomes referenciados no corpo para a mente é uma tentativa de destruir nossa habilidade de nos comunicar. Consideremos: John pode escolher uma infinidade de identidades de gênero, sem nenhuma ligação rígida entre qualquer identidade de gênero e qualquer conjunto de pronomes.

Por exemplo, John e Joan poderiam ambos identificar-se como “mulher”, com John utilizando-se de ela/a/dela e Joan utilizando-se, digamos, de vermelho/branco/azul. O que significa tudo isso? Significa que pronomes de gênero são hiper voláteis. John poderia trocar seus pronomes (sem trocar sua identidade de gênero), ou ele poderia trocar sua identidade de gênero (sem trocar seus pronomes), ou ele poderia trocar ambos. Ademais, ele poderia fazer qualquer uma dessas coisas quando bem entendesse por qualquer ou nenhuma razão. Isto dá muitos crachás.

Nada retrata esse niilismo tão bem quanto a tentativa de transformar o pronome “eles/elas” em um pronome singular. (Uma nota para os detalhistas: não estamos discutindo aqui a validade do pronome “eles/elas” quando o sexo da pessoa é desconhecido. Antes, estamos preocupados com uma tendência emergente onde um indivíduo persiste em querer ser chamado como “eles/elas” do que pelo pronome correspondente a seu sexo). Além de ser uma opção impressionantemente pouco criativa para um pronome singular, “eles/elas” igualmente simboliza outro ataque à diversidade. Não satisfeito com o colapso dos sexos entre si, a ideologia também quer colapsar a diferença entre o singular e o plural. O nível de imprudência é quase admirável.

Em sua essência, a noção de pronomes de gênero é um erro de categoria, uma incompreensão sobre a natureza da linguagem. Identidades de gênero não possuem pronomes, pela mesma razão que idade e cor de pele também não – Isto é, somente os sexos têm pronomes. Não pode haver tal coisa como um pronome não binário pelo motivo de que não há sexos não binários, e não pode haver tal coisa como um pronome neutro por que não há corpos sem sexo.

Portanto, em resposta a nossa indagação, não poderíamos nos referir a John por meio de algum conjunto de pronomes senão ele/o/dele mesmo se nós quiséssemos. Pensemos desta forma: É possível permitir que homens usem os banheiros femininos? Não. Por que não? Porque tão logo permitamos homens usá-los, o banheiro deixará de ser um banheiro feminino. Claro, continuaria a ostentar a palavra “feminino” na porta, no entanto sua função mudaria. Do mesmo modo, os pronomes deixariam de ser pronomes tão logo nós os dessexualizassemos. Sem dúvida John pode se amparar na máscara linguística dos pronomes femininos – ela/a/dela – contudo seus conteúdos precedentes estarão para sempre fora de seu alcance por que estes conteúdos precedentes vieram de um corpo do sexo feminino.

Acontece que os pronomes de gênero não são sequer pronomes. Eles são uma coisa nova com um nome velho. Tudo o que resta de verdadeiro pronome é um tipo de navio fantasma. A tripulação salta ao mar, com o navio a esmo, vazio, golpeado por todos os lados pelos ventos de nossa imaginação. Em resumo, estamos sendo impelidos a parar de usar os pronomes, mas também a continuar a usar a palavra “pronome”. Não é irônico, pessoal?

Privatizar Identidades, Privatizar Línguas.

A aumento em números do assim chamado pronomes preferidos é nitidamente mais um subproduto derivado da mudança de referencial do sexo para o gênero, o que significa dizer que o colsapso atual na língua é apenas um sintoma de um problema anterior– ou seja, um colapso na compreensão de nossa própria identidade. Se a língua é o campo de batalha, então a identidade é a batalha.

Com efeito, a mudança representa a privatização da identidade, que inexoravelmente conduz a privatização da língua. Contudo, não podemos privatizar mais a língua do que a identidade, posto que identidade e língua fazem sentido apenas se aludirem a alguém. Pronomes de gênero podem funcionar muito bem nos cantos mais escuros da internet (Olá, Tumblr!), ou se cada um de nós tivesse um planeta para ele próprio ou ela própria, porém dado que necessitamos conversar com pessoas sobre pessoas, desta forma necessitamos de uma língua comum.

Inquiramo-nos o seguinte: Se estamos preparados para dizer que John não é ele, então em que fundamento pode haver qualquer coisa que não estamos preparados para falar? Sinceramente, os pronomes de gênero são um salão de espelhos do qual não seremos capazes de encontrar a saída. Assim sendo, não vamos adentrá-lo. Idealmente, a distância entre realidade e linguagem deveria ser a mais estreita possível, pois desta maneira nossa fala estaria em harmonia com o que a realidade nos apresenta. A ideologia de gênero, todavia, exige a o afastamento da linguagem e da realidade de modo que a realidade acaba por se tornar demasiado distante do alcance de nossa língua.

Corpo de Evidências

Sexo e gênero aparentam ser dois aspectos da identidade que podem andar paralelamente perante a lei, no entanto o gênero está a reivindicar coisas que contradizem o sexo. A mente está a reclamar superioridade sobre o corpo do qual faz parte. Portanto não se trata de termos a ambos sexo e gênero. Não, somos coagidos a escolher: sexo ou gênero. É nos inquirido que arranquemos palavras que se referem ao nosso corpo e as vinculemos as nossas mentes. Boa sorte com isso. Estamos, de fato, sendo inquiridos a romper o vínculo entre a língua e nosso próprio corpo.

G.K Chesterton fala que “O verdadeiro soldado luta não por que odeia o que está a sua frente, mas por que ele ama aquilo que está atrás.” Com certeza esta é a postura correta diante da guerra entre sexo e gênero. Isto não significa que devemos ser ríspidos ou insolentes, mas urge que abandonemos a hesitação para que o caminho no qual pisamos seja menos inconstante. Nós temos que plantar fortes raízes verbais no fértil solo da realidade, e isso quer dizer que temos que continuar fiéis aos pronomes reais.

Podemos não saber por onde seremos atingidos pelo rancor de alguém, no entanto podemos cuidar destas coisas que estão sob nosso controle. Podemos olhar para o nosso íntimo, examinar nossa consciência, e reconhecer que nossa motivação é saudável. Escute o coração, não seu “privilégio”. Seja confiante, mantenha a postura, e respeite os pronomes. Respeite a linguagem. Respeite a diferença sexual. Afinal, o que seria de John sem a diferença entre seu pai e sua mãe? Ele seria… Ninguém.

É desrespeitoso se recusar a chamar John de ela? Não mesmo. Estaremos fazendo algo errado se educadamente o informarmos que concernente aos pronomes, seu corpo nos diz mais do que sua mente? Não. Aliás, é ofensivo ou odioso conservar a relação entre palavras e pessoas? Não.

Como um meio para comunicar, o corpo funciona. O sexo funciona. A mente não. Se nos referirmos às pessoas pelo seu sexo, e assim devemos, nunca haverá a possibilidade de “usar o gênero errado” ou “usar o pronome errado” com alguém. O Dr. Peterson não usará pronomes de gênero neutro, e você não deveria também. Todos juntos agora: Eu não usarei.

[*] Daniel Moody. “Why You Shouldn’t Use Transgender Pronouns”. The Federalist, 18 de Outubro de 2016.

Tradução: Jay Messi
Revisão: Pedro Henrique

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