Por que você não deve tratar seus filhos igualmente

Por Brett e Kate McKay [*]

É tempo de Natal mais uma vez. Em poucas semanas, as crianças estarão a correr alegremente até a árvore de Natal para ver o que Papai Noel deixou para elas… Antes de se instaurar a briga e a choradeira do porquê o pequeno Jimmy recebeu mais presentes do que elas.

É um dilema tão antigo quanto o tempo, um daqueles que se apresenta não apenas nas datas comemorativas: um dos seus filhos sente que você favoreceu mais um irmão ou irmã do que os outros. Muitas vezes estas acusações estão baseadas na percepção errônea e incompleta das crianças, porém alguns pais realmente se identificam mais com um filho do que com o outro.

Ainda que não exista de fato favoritismo, os pais comumente se sentem mal por seus filhos formarem este tipo de entendimento e esforçam-se a saná-lo ao tomar medidas proativas como tratar todos os filhos igualmente. Mas de acordo com Alex Jensen, professor na Faculdade de Vida Familiar da Universidade de Brigham Young, tal caminho pode causar mais estragos do que benefícios. Para saber o motivo disso, conversei com Jensen sobre o porquê de ser [preferível] tratar os filhos com mais equidade do que igualdade.

A Diferença entre Igualdade e Equidade

À primeira vista, igualdade e equidade parecem ser sinônimos; ambos estão ligados ao nosso senso de justiça. Pode-se compreender a diferença ao imaginar três crianças de várias alturas tentando assistir um jogo de baseball por cima da cerca. Tratá-los com igualdade significaria dar a cada um deles uma caixa para ficar de pé; no entanto, a criança mais baixa ainda não consegue ver mesmo em cima da caixa, e o mais alto não precisa de nenhuma caixa para ver sobre a cerca. Tratá-os com equidade, neste caso, significaria dar duas caixas ao mais baixo, uma para o de estatura média, e nenhuma para o mais alto.

Para ressaltar a diferença entre igualdade e equidade no mundo real, Jensen destaca um exemplo que ouviu de um colega:

“Uma amiga dela tinha dois filhos e um deles sofria de uma doença que o impedia de estar exposto à luz do sol e por isto tinha de ficar dentro de casa o tempo todo.

Apesar de ter um quintal grande e muitos espaços para brincar, os pais não deixavam o irmão, que não possuía a doença, ir para fora brincar por que eles temiam não serem justos com o outro filho. Eles optaram pela igualdade. Infelizmente o irmão que não possuía a doença que o impedia de ir para fora começou a desenvolver problemas psicológicos e físicos pois ele não estava ativo como qualquer outra criança deveria estar. Seus pais estavam praticamente forçando-o a ficar sentado no sofá o dia todo com seu irmão.”

Neste exemplo mais extremo, vemos que ao usar da igualdade para manter as situações “justas” em uma família tem, na prática, como resultado um caso verídico de injustiça. Contudo estes problemas aparecem em circunstâncias menos extraordinárias também. Provavelmente todos os seus filhos são adolescentes. Para evitar quaisquer conflitos acerca da distinção de cada advertência, mesmo apesar de um filho ter quebrado suas regras repetidamente, enquanto outro tem demonstrado ser responsável o suficiente para lidar com outra advertência depois. Ou talvez algumas crianças sejam capazes de mediar sua própria alimentação ou o consumo de tecnologia por si mesmos, enquanto que outras precisam de mais diretrizes e acompanhamento. Ser mais severo com uma criança que com outra pode levar a gritos como “Você permite que ele faça qualquer coisa que ele queira! Isso não justo!” Mas isto é genuinamente justo, só não é igualitário.

Tratar seus filhos com equidade exige que você os veja como indivíduos com desejos e particularidades únicas, e dar tempo, atenção, e regras especificas que eles necessitem para crescer. É relevante seus filhos saberem que o que funciona com um irmão/irmã, pode não funcionar com o outro(a).

Gerenciando as Percepções de Favoritismo

Digamos que você escolheu tratar seus filhos com equidade, mas como gerenciar a percepção de favoritismo que tanto assusta – especialmente porque [seus filhos] podem ser adeptos da igualdade como medida mais apropriada ao trabalho dos pais?

Jensen admite que os pesquisadores não tem muitos dados sobre esse caso em particular, entretanto, sua intuição inicial diz que se você está efetivamente interessado em suprir as necessidades individuais de cada filho, acusações de favoritismo, de fato, não serão um problema. Jensen utiliza como exemplo uma família hipotética onde um filho gosta de basquete e o outro gosta de arte. Com o filho que gosta de basquete, poder-se-ia treinar arremessos na cesta da garagem ou mesmo levá-lo a um jogo; e com aquele filho que gosta de arte, quiçá pintar algo juntos e depois passear com ele no museu. Os bilhetes para o jogo possivelmente serão mais caros que uma entrarada para o museu. Assim sendo, não são tratamentos iguais, porém é justo pois se baseiam nos interesses e necessidades únicas de cada um.

Jensen alerta que você pode se complicar caso invista mais tempo e energia com um filho somente porque tem mais interesse nas coisas que ele faz. Quem sabe você ame basquete também, e compre bilhetes para toda uma temporada do time da sua cidade, e vá a todos os jogos com um filho. Mas por não ter afeição por arte, não faz nada com seu filho exceto falar, “Olha só, que desenho bonito”, quando ele lhe mostra sua última criação.

Então enquanto a atenção não deveria ser estritamente igualitária em todas as coisas, igualdade de tempo e atenção parecem ser fatores importantes na prevenção da sensação de favoritismo. Se você naturalmente não se atenta que está mais ligado a um dos filhos, precisará ser mais consciente de como irá conversar e passar o tempo com eles, em vez de esperar que essas conexões estabeleçam-se por si mesmas.

Mesmo que você seja igualmente amigável com todos os seus filhos, as coisas que você pode e terá vontade de fazer com eles variam na medida em que eles ficam mais velhos e passam por diferentes fases de desenvolvimento. Logicamente, você pode vir a fazer atividades mais divertidas com seu filho mais velho, que é maduro o bastante para aproveitá-las. Um irmão mais novo verá isto como uma injustiça, contudo você deve lhes falar que eles também chegarão nessa fase da vida, e que eles vão aproveitar das mesmas atividades que o irmão mais velho quando chegar a hora.

Ao final do dia, não será necessária a preocupação excessiva a respeito de quanto tempo e atenção foi dada a cada filho. Embora Jensen relate que “Adolescentes, de famílias desestruturadas, ques se veem deliberadamente como menos favorecidos estão 3,5 vezes mais propensos ao alcoolismo, cigarro, ou drogas”, sentimentos ocasionais de favoritismo podem ser aliviados por uma atmosfera familiar repleta de afeto e carinho. Em outras palavras as preocupações dos filhos de que seus pais gostem menos deles comparados a outros irmãos, são menos angustiantes quando esses não duvidam do amor de seus pais.

Desta forma, em vez de focar naquilo que é impossível de controlar – a percepção de favoritismo de seus filhos – atente para naquilo que está ao seu alcance: criar um ambiente afetuoso e acolhedor em sua casa.

Equidade e Igualdade no tempo de Natal

Então, como explicar aquele choro e ranger de dentes que as vezes impregnam a casa na manhã de Natal quando uma criança sente que ficou na desvatagem na hora dos presentes?

Primeiro, Jensen notou que pode nem mesmo ser um problema que ocorre na sua casa. Em algumas famílias, as crianças não ficam de olho nos presentes dos outros. Cultivar este tipo de comportamento não competitivo e não possessivo é algo que teremos que lidar outra hora. Mas se isto for um problema em sua família, Jensen fala que a resolução dependerá da idade da criança. Quando as crianças são pequenas, seus cérebros pequeninos ainda não compreendem ideias abstratas como o preço. Assim, embora seu filho de quatro anos de idade tenha ganhado um presente que custou $30, ele pode inferir que sua irmã dois anos mais velha foi mais favorecida com seus quatro brinquedos de $7. Deste modo, quando ainda são pequenos, é melhor dar mais atenção a igualdade do que quando [eles forem] mais velhos. Notar que cada criança recebeu o mesmo número de presentes é algo que eles entendem melhor.

Enquanto eles crescem e seus cérebros começam a compreender as nuances como preço, ai você pode se sentir mais livre para um dar uma variedade de presentes de preço próximo. O fato de as crianças estarem em diferentes fases de desenvolvimento indica que algumas vezes certas crianças, em determinadas idades, tem interesses mais definidos que outros, e desta maneira podem ganhar presentes “melhores” que de uma criança com interesses menos definidos, as quais consequentemente ganham presentes mais genéricos. A hora deles vai chegar (eles terão seus hobbies!). A manhã de Natal pode instigar alguns conflitos de vez em quando, mas é uma grande oportunidade para discutir com seus filhos a diferença entre equidade e igualdade!

[*] Brett e Kate McKay. “Why You Shouldn’t Treat Your Kids Equally”. The Art of Manliness, 3 de Dezembro de 2015

Tradução: Juliermis Messias

Revisão: Cássia H.

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