Por que estudar guerra?

Por Victor Davis Hanson [*]

A História militar nos ensina sobre honra, sacrifício e a inevitabilidade dos conflitos.

Tente explicar a um estudante universitário que Tet foi uma vitória militar americana. Você não terá como resposta um contra-argumento — muito menos uma concordância — mas sim um olhar de perplexidade: quem ou o que era Tet? Fazendo entrevistas sobre o recente sucesso de bilheteria “300”, encontrei desconfiança semelhante de ouvintes e locutores de rádio. Não só a maioria deles não sabia quem eram os 300 ou o que era Termópilas, eles também pareciam ignorar por completo as Guerras Pérsicas.

Não é surpresa nenhuma o fato de os civis americanos tenderem a carecer de uma compreensão básica dos assuntos militares. Mesmo quando eu era estudante de pós-graduação, 30 e poucos anos atrás, a História militar — entendida em sentido geral, como a investigação das razões por que um lado vence e outro perde uma guerra e que engloba reflexões sobre generais autoritários ou tolos, avanços ou estagnação tecnológica e os papéis da disciplina, bravura, vontade nacional e cultura na determinação do resultado de um conflito e nas suas conseqüências — já havia se tornado algo antiquado no campus. Hoje as universidades são ainda menos receptivas ao assunto.

Este estado de coisas é profundamente preocupante visto que a cidadania democrática requer conhecimento de guerra — e agora, na era das armas de aniquilação em massa, mais do que nunca.

Cheguei ao estudo da guerra de uma maneira estranha, aos 24 anos. Sem nunca ter feito uma aula de História militar, ingenuamente comecei a escrever sobre a guerra numa dissertação para o curso de Clássicos da Universidade de Stanford que explorava os efeitos da devastação agrícola na Grécia Antiga, em especial a devastação dos campos atenienses promovida pelos espartanos durante a Guerra do Peloponeso. O tema me fascinava. Essa estratégia foi eficaz? Por que presumir que exércitos antigos e com ferramentas primitivas poderiam queimar ou cortar facilmente, árvores vinhas e grãos em milhares de hectares de fazendas inimigas, quando na fazenda da minha família em Selma, Califórnia, demorava-se quase uma hora para derrubar uma árvore frutífera madura com um machado moderno e afiado? No entanto, mesmo que os invasores não pudessem matar de fome a população civil, a destruição ainda seria prejudicial psicologicamente? Será que isso convenceria os orgulhosos agricultores a se sublevarem e lutar? E o que essa prática nos diz sobre os valores dos gregos — e dos generais que persistiram numa operação que aparentemente não trouxe resultados tangíveis?

Apresentei essas perguntas para o provável orientador da minha tese, e acrescentei todo tipo de justificativas adicionais. Observei que era um tópico fundamental para se entender a Guerra do Peloponeso. A pesquisa seria interdisciplinar — o que é algo positivo na universidade moderna – elaborada em cima não apenas das histórias militares antigas, mas também da arqueologia, dos drama clássicos, epigrafia e poesia. Eu poderia trazer também uma dimensão pessoal para a pesquisa, tendo sido criado com veteranos de ambas as guerras mundiais ao meu redor, que falavam constantemente sobre as batalhas. E da minha experiência na fazenda eu queria adicionar detalhes práticos sobre o cultivo de árvores e videiras em um clima mediterrâneo.

No entanto, meu orientador estava cético. As guerras agrárias, na verdade as guerras de qualquer tipo, não eram populares nos cursos de doutorado voltado para os estudos clássicos, ainda que a agricultura e a guerra fossem as duas atividades mais comuns dos gregos antigos e origem das anedotas, alusões e metáforas de quase todos os seus textos filosóficos, históricos e literários. Poucos classicistas pareciam se importar com o fato de que os escritores, pensadores e homens de estado gregos mais notáveis – de Ésquilo a Péricles e Xenofonte — haviam servido na Falange ou em um trirreme no mar. Dezenas de dissertações e monografias do século XIX sobre a guerra antiga — a organização do exército espartano, o nascimento de táticas gregas, o pensamento estratégico dos generais gregos e muito mais — foram amplamente ignorados. Como também o foi a disciplina da História militar, que já foi fundamental para uma educação liberal, em voga nos campi na década de setenta. É como se a universidade se esquecesse que a própria História começou com Heródoto e Tucídides, como a história dos conflitos armados.

O que há por trás dessa falta de interesse acadêmico? A explicação mais óbvia é: estávamos no imediato pós-guerra do Vietnã. A percepção pública nos anos Carter era a de que os Estados Unidos perderam uma guerra na qual, por razões morais e práticas, nunca deveria ter entrado — uma catástrofe que, para muitos dentro das universidades, nunca deveria se repetir. O remédio necessário não era estudar como tais guerras começavam, se dessenvolviam e eram perdidas. O melhor era simplesmente ignorar qualquer coisa relacionada com assuntos tão odiosos.

O pessimismo nuclear da guerra fria, que se seguiu ao horror das duas guerras mundiais, também atenuou o interesse acadêmico. A obscenidade pós-guerra da Destruição Mutuamente Garantida emprestou uma aparência apocalíptica à guerra contemporânea: como o presidente Kennedy advertiu: “A humanidade deve pôr fim à guerra, ou a guerra acabará com a humanidade”. Deste ponto de vista, o conflito armado tornou-se algo tão destrutivo que já não havia mais relação com as batalhas do passado. Parecia absurdo preocupar-se com um novo tanque ou uma nova doutrina de contra-insurgência quando apertar um botão desencadearia o Armagedon nuclear, o que tornaria supérfluo o pensamento militar.

Além disso, os anos sessenta apresentaram uma visão utópica da sociedade, visão essa antitética com o pensamento sério sobre a guerra. Para os novos seguidores de Rousseau, o governo, os militares, os empresários, a religião e a família haviam conspirado para perverter os indivíduos, naturalmente pacíficos. Conformidade e coerção sufocaram nossos eus naturalmente pacifistas. Afirmar que as guerras eram deflagradas porque homens maus, por medo ou orgulho, buscavam vantagem material ou status, ou porque os bons tinham feito muito pouco para detê-los, agora era visto como algo incompatível com uma compreensão esclarecida da natureza humana. “Que diferença faz”, nas palavras do muito citado Mahatma Gandhi, “para os mortos, os órfãos e para os desabrigados, se a destruição insana é efetuada sob o nome de totalitarismo ou sob o santo nome da liberdade e da democracia?”

A negligência acadêmica para com a guerra é ainda mais aguda hoje. A História militar como matéria de ensino se atrofiou, com pouquíssimos professores, artigos acadêmicos ou programas de graduação. Em 2004, Edward Coffman, um professor de História ilitar aposentado que lecionou na Universidade de Wisconsin, analisou as faculdades dos 25 melhores departamentos de história, tal como classificados pela “U.S. News e World Report”. Ele descobriu que dentre mais de mil professores, apenas 21 identificaram a guerra como sua especialidade. Quando a guerra surge em programas universitários, muitas vezes o enfoque é sobre a raça, classe e gênero dos combatentes, ou sobre os civis em tempo de guerra. Assim, uma aula sobre a Guerra Civil se concentrará na Estrada de Ferro Subterrânea e na Reconstrução, não em Chancellorsville e Gettysburg. Uma aula sobre a Segunda Guerra Mundial pode enfatizar o internamento japonês, “Rosie the Riveter”, e o horror de Hiroshima, e não Guadalcanal ou Midway. Uma pesquisa sobre a Guerra do Vietnã dedicará muito tempo às injustiças da proposta, à cobertura da mídia e ao movimento anti-guerra doméstico, e irá suprimir os ataques aéreos e de artilharia em Khe Sanh.

Aqueles que querem estudar a guerra de maneira tradicional enfrentam uma intensa desconfiança acadêmica, como o poema de Margaret Atwood “A Solidão do historiador militar” sugere:

Confesso: é minha profissão que alarma você. É por isso que poucas pessoas me convidam para jantar, embora Deus saiba que não abandono meu jeito de ser assustador.

Os críticos suspeitam que os historiadores da guerra devem sentir um prazer perverso em ler sobre carnificinas e sofrimentos. Em vez disso, por que não descobrir como proscrever a guerra para sempre, como se ela não fosse um aspecto trágico e quase inevitável da existência humana? Daí o recente aumento de “estudos da paz” (ver “The Peace Racket”).

A aversão da universidade ao estudo da guerra certamente não reflete uma suposta falta de interesse público no assunto. Os alunos adoram as aulas à moda antiga sobre guerras, nas raras ocasiões em que elas são oferecidas, geralmente como cursos introduzidos sorrateiramente pelos professores quando lhes é permitido escolher o que ensinar. Ministrei várias dessas aulas na Universidade Estadual da California, em Stanford e em outros lugares. Essas aulas terminavam invariavelmente com mais alunos interessados que vagas disponíveis e hordas de estudantes após o horário de aula dispostos a dar suas opiniões sobre as batalhas de Maratona e Lepanto.

A cultura popular também demonstra um entusiasmo extraordinário por todas as coisas militares. Há um novo “Military History Channel”, e Hollywood fornece um suprimento constante de superproduções de guerra, de “O Resgate do Soldado Ryan” a “300”. A explosão pós-Ken Burns de interesse na Guerra Civil continua. Os Grupo de Encenação Histórica reconstituem as grandes batalhas da História, das legiões romanas à Wehrmacht. As livrarias Barnes & Noble e Borders possuem seções de história militar bem abastecidas, com dezenas de novos títulos todos os meses. Uma infinidade de sites obcecados por estratégia e táticas. Videogames de sucesso estão cada vez mais realistas em suas recriações de batalhas.

Talvez o público se sinta atraído por História militar porque quer aprender algo sobre honra e sacrifício, ou por um interesse pela tecnologia empregada — a velocidade de saída do cano do canhão de 88 mm do Tiger Tank, por exemplo — ou por causa de uma necessidade patológica de vivenciar a violência, mesmo que indiretamente. A importância — e o desafio — do estudo acadêmico da guerra é elevar esse entusiasmo popular a um entendimento mais amplo e sério, que busque respostas a questões como: Por que as guerras começam? Como elas terminam? Por que os vencedores ganham e os perdedores perdem? Como evitar as guerras, ou ao menos conter seus piores efeitos?

Em tempos de guerra, uma população que desconheça os conflitos do passado pode ficar facilmente paralisada com a brutalidade do presente. Sem padrões de comparação histórica, ela demonstrará estar mal preparada para fazer julgamentos sólidos. Nem nossos políticos nem a maioria de nossos cidadãos parecem se lembrar da incompetência e das terríveis decisões que, em dezembro de 1777, dezembro de 1941 e novembro de 1950, levaram a grandes baixas americanas e, por um tempo, a desespero público. Não é surpreendente portanto que hoje tantos pareçam pensar que a violência no Iraque seja algo sem precedentes em nossa história. Cerca de 3.000 mortos em combate no Iraque em cerca de quatro anos de luta são, é claro, uma coisa terrível. E que provocou uma tal indignação nacional ao ponto de se cogitar a retirada e a derrota, já que ainda brigávamos acerca de Humvees blindados e quantidades de tropas adequadas. Mas uma geração anterior a esta considerou Okinawa uma impressionante vitória americana e preparou-se para dar-lhe continuidade com uma invasão ao próprio solo japonês — apesar de ter perdido, em pouco mais de dois meses, quatro vezes mais americanos que perdemos no Iraque, vítimas de falhas de inteligência, pobreza de lideralça e assaltos suicidas contra posições fortificadas.

Não é que a História militar ofereça comparações padronizadas com o passado. A vitória da Alemanha na Primeira Guerra Mundial sobre a Rússia em menos de três anos e seu fracasso em tomar a França em quatro aparentemente induziu Hitler a pensar que ele poderia sobrepujar os soviéticos em três ou quatro semanas — afinal, ele havia conquistado a França, historicamente mais forte, em apenas seis semanas. Da mesma forma, a vitória sobre o Talibã em oito semanas em 2001, seguida do estabelecimento do governo constitucional em Cabul no espaço de um ano, não quis dizer que a remoção tão fácil de Saddam Hussein em três semanas em 2003 asseguraria uma democracia iraquiana funcional dentro de seis meses. As diferenças entre os países — culturais, políticas, geográficas e econômicas — eram muito grandes.

Em vez disso, o que o conhecimento das guerras passadas oferece são amplos parâmetros para o que se esperar das guerras atuais. Temas, emoções e retórica permanecem constantes ao longo dos séculos e são, portanto, geralmente previsíveis. A desastrosa expedição de Atenas em 415 a.C. contra a Sicília, a maior democracia no mundo grego, pode não prefigurar nossa guerra no Iraque. Mas a história da calamidade siciliana nos ensina como sociedades consensuais podem sim clamar por uma guerra — mas logo se tornam desanimadas, e condicionam seu apoio de acordo com o desempenho percebido do campo de batalha.

A História militar nos ensina que, ao contrário da crença popular hoje em dia, as guerras não são necessariamente as calamidades humanas mais dispendiosas. A primeira Guerra do Golfo reclamou poucas vidas para retirar Saddam do Kuwait; já cruzar os braços em Ruanda resultou em gangues e milícias selvagens matando impunemente centenas de milhares de pessoas. Hitler, Mao, Pol Pot e Stalin mataram muito mais fora do campo de batalha do que nele. A epidemia de gripe espanhola de 1918 abateu mais pessoas do que a Primeira Guerra Mundial. E mais americanos — mais de 3,2 milhões de pessoas — perderam suas vidas durante os últimos 90 anos do que morreram em combate nos 231 anos de história deste país. Talvez o que nos incomode sobre as guerras, no entanto, não seja apenas a sua letalidade horrível, mas também que as pessoas escolham entrar em guerra — o que dá a impressão de que elas não são inevitáveis, ao contrário de um vírus da gripe ou um acidente de carro, e suas penosas consequências. No entanto, a História militar também nos lembra que a guerra às vezes tem uma estranha utilidade como o estrategista britânico Basil H. Liddell Hart afirmou: “A guerra é sempre uma questão de fazer o mal esperando que algum bem saia dele”. As guerras — ou ameaças de guerra — acabaram com a escravidão, o nazismo, o fascismo, o militarismo japonês, e o comunismo soviético.

A História militar é muitas vezes tanto a história da pacificação quanto da beligerância. Os avanços militares destrutivos de Alexandre o Grande, César, Napoleão e Hitler teriam terminado mais cedo se alguns de seus numerosos inimigos tivessem se unido quando as probabilidades eram favoráveis. O poder aéreo ocidental deteve o reinado de terror de Slobodan Miloševic a um custo baixo para as forças da OTAN — mas somente depois de uma década de inação e diálogo que possibilitaram a morte de dezenas de milhares. As sociedades ocidentais afluentes muitas vezes se mostraram relutantes em usar a força para evitar uma maior violência futura. “A guerra é uma coisa feia, mas não é a mais feia das coisas”, observou o filósofo britânico John Stuart Mill. “Muito pior é o estado decadente e degradado do sentimento moral e patriótico que afirma não existir nada pelo qual valha a pena guerrear”.

De fato, ao ignorar a História, a era moderna sente-se livre para interpretar a guerra como uma falha de comunicação, de diplomacia, de entendimento — como se os agressores não soubessem exatamente o que estão fazendo. A porta-voz do governo Nancy Pelosi, frustrada com a intransigência da administração Bush na Guerra ao Terror, voou para a Síria, na esperança de persuadir o presidente Assad a parar de financiar o terror no Oriente Médio. Ela presumia que a beligerância de Assad era resultado de nossa indiferença e arrogância, em vez do interesse de sua ditadura em destruir a democracia no Líbano e no Iraque, antes que o contágio dessa liberdade viesse destruí-lo. Para uma geração dada a terapias, que cresceu com Oprah e Dr. Phil — e não com os relatos de William Tecumseh Sherman e o “Diário de Berlim” de William Shirer — os problemas entre estados, como aqueles em nossas vidas pessoais, devem ser discutidos entre rivais igualmente civilizados e pacíficos, e assim serem resolvidos sem o recurso à violência.

No entanto, é difícil encontrar muitas guerras que resultaram da falta de comunicação. Muitas vezes elas explodem por causa de intenções malévolas e da ausência de dissuasão. Margaret Atwood também escreveu em seu poema: “As guerras acontecem porque os que a começam / pensam que podem ganhar.” Hitler pensou assim; do mesmo modo, Mussolini e Tojo — e suas pretenções eram lógicas, dado o relativo desarmamento das democracias ocidentais na época. Bin Laden atacou no dia 11 de setembro não porque houvesse uma escassez de diplomatas americanos dispostos a dialogar com ele no Hindu Kush. Em vez disso ele percebeu que uma série de ataques terroristas islâmicos contra interesses dos EUA ao longo de duas décadas não encontraram represálias significativas, e concluiu que os ocidentais decadentes nunca lutariam seja qual fosse a provocação — ou, se o fizéssemos, abriríamos mão da vitória como fizemos em Mogadíscio.

No século XXI, é mais fácil do que nunca sucumbir ao determinismo tecnológico, à idéia de que a ciência, novos armamentos e a globalização alteraram as próprias regras da guerra. Porém a História militar nos ensina que nossa capacidade de alvejar um único indivíduo a partir de 30 mil pés de altura com uma bomba com GPS, ou os esforços de um jihadista para ter sua propaganda irradiada para milhões em tempo real, não necessariamente transformaram as condições que determinam quem ganha e quem perde uma guerra.

É verdade que comunicações instantâneas podem acelerar a tomada de decisões, e os generais devem agora ser hábeis em entrevistas coletivas que podem influenciar a opinião de milhões em todo o mundo. No entanto, tudo isso não passa de rugas novas na velha face da guerra. O dispositivo explosivo improvisado versus o Humvee blindado é simplesmente uma versão atualizada da catapulta versus a parede de pedra ou o arcabuz versus o cavaleiro com uma maça. A longa história de guerra não sugere uma primazia estática da defesa ou do ataque, ou de uma espécie de arma sobre a outra, mas apenas vantagens temporárias obtidas por estratégias e tecnologias específicas que, por certo tempo, não encontram resposta à altura da parte de adversários menos aptos.

É muito duvidoso então, o estudo da guerra nos diz, que surja uma nova arma, seja do Pentágono ou de qualquer outro lugar, que venha a mudar a própria natureza do conflito armado — a menos que algum tipo de engenharia genética altere a química do cérebro do homem e o faça agir de maneiras sem precedentes. Lutamos a Guerra do Golfo de 1991 com armas deslumbrantes e sofisticadas. Mas perdida no meio de todo esse glamour tecnológico estava a sabedoria básica que diz que precisamos combater as guerras tendo em mente os objetivos políticos, e que, para concluí-las de forma definitiva devemos vencer e até mesmo humilhar nossos inimigos de tal forma que eles concordem em abandonar seu comportamento de pré-guerra. Por algum motivo, nenhum general americano ou diplomata pareceu entender esse ponto crucial há 16 anos, e o resultado foi que,com a cessação das hostilidades, os generais supostamente derrotados de Saddam Hussein usaram seus caças para matar curdos e xiitas com crueldade enquanto os americanos apenas assistiam. E pelo fato de não termos alcançado o objetivo adequado da guerra — garantir que o Iraque não usasse sua riqueza petrolífera para destruir a paz da região — tivemos que lutar uma segunda guerra de zonas de exclusão aérea, e depois uma terceira guerra para remover Saddam, e agora uma quarta guerra, de contra-insurgência, para proteger a incipiente democracia iraquiana.

A História militar nos lembra de importantes anomalias e paradoxos. Conta Tulcídides que quando Esparta invadiu a Ática na primeira primavera da guerra do Peloponeso, esperava-se que os atenienses se rendessem após algumas temporadas curtas de destruição. Eles não se renderam — mas o surto de uma praga inesperada causou um dano maior do que o de milhares de espartanos destruidores. Vinte e sete anos mais tarde, a marítima Atenas perdeu a guerra no mar para Esparta, uma potência terrestre insular que iniciou o conflito com uma Marinha escassa. A remoção de Saddam em 2003 refutou certos críticos mórbidos que previram milhares de mortes e milhões de refugiados, assim como os subsequentes quatro anos de reconstrução caótica não evoluíram como previsto para uma democracia tranquila e estável — para dizer o mínimo.

O tamanho dos exércitos não garante o sucesso do campo de batalha: os vencedores de Salamina, Issos, da Cidade do México e Lepanto estavam todos inferiorizados em número. Os momentos mais selvagens da História da Guerra — a ofensiva de verão dos Aliados em 1918, o cerco russo a Berlim na primavera de 1945, a Batalha das Ardenas, Hiroshima — muitas vezes ocorrem pouco antes da cessação das hostilidades. E os líderes democráticos durante a guerra — pensem em Winston Churchill, Harry Truman e Richard Nixon — muitas vezes deixam o cargo desacreditados ou com a popularidade em baixa.

É reconfortante pensar que a justiça de uma causa, ou a bravura de um exército, ou a nobreza de sacrifício asseguram o apoio público à guerra. Mas a História militar mostra que, com muito mais frequência, o que importa é a percepção da vitória. Os cidadãos voltam-se abruptamente contra qualquer líder considerado culpado pela derrota. “O sentimento público é tudo”, escreveu Abraham Lincoln. “Com o sentimento público, nada pode dar errado. Sem ele, nada pode ter sucesso. Aquele que molda a opinião é maior do que aquele que decreta as leis.” Lincoln conhecia bem essa lição. Gettysburg e Vicksburg foram brilhantes vitórias da União que, no verão de 1863, restauraram a credibilidade instável de Lincoln. Mas, um ano depois, depois das batalhas de Wilderness, Spotsylvania, Petersburg e Cold Harbor — Cold Harbour tomou 7.000 vidas da União em 20 minutos — o público o criticou. Nem Lincoln nem suas políticas haviam mudado; o que mudou foi a capacidade confederada de matar grande números de soldados da União.

Em última análise, a opinião pública segue os altos e baixos — incluindo o que se percebe como altos e baixos — do campo de batalha, já que a vitória excita o pacifista mais ardente e a derrota silencia o fanático mais apaixonado. Após a derrota da França, as perdas do Comando de Bombardeiros, a fúria dos U-boat e a queda da Grécia, Cingapura e Dunquerque, Churchill foi tido como o responsável por uma guerra tão aparentemente perdida na ocasião como, um pouco mais tarde, tão aparentemente ganha pelo brilhante primeiro-ministro após vitórias no norte da África, na Sicília e na Normandia. Quando a bem-sucedida ação militar contra Saddam Hussein terminou em abril de 2003, mais de 70 por cento dos americanos a apoiavam, e políticos e especialistas se acotovelavam para ganhar crédito por seu apoio presciente. Após quatro anos de insurgência, os americanos agora se opõem a essa guerra agora órfã, pela mesma margem percentual. O general George S. Patton pode ter sido rude, mas não estava errado quando declarou em alto e bom som: “Os americanos adoram um vencedor e não tolerarão um perdedor”. O público americano deu as costas à Guerra do Iraque não por causa de Cindy Sheehan ou Michael Moore, mas porque sentiu que as notícias vindas do campo de batalha tornaram-se uniformemente ruins e que o preço em dinheiro e vidas americanas para garantir a transformação iraquiana era alto demais.

Por fim, a História militar tem o propósito moral de educar-nos sobre os sacrifícios passados que garantiram a nossa atual liberdade e segurança. Se não sabemos nada de Shiloh, Belleau Wood, Tarawa e Chosun, as cruzes em nossos cemitérios militares não serão mais que belas pedras brancas em gramados verdes exuberantes. Eles não servem mais como lembretes de como milhares de pessoas sofreram dores e dificuldades pelo nosso direito de ouvir o que desejamos nos nossos iPods e fazer compras no Wal-Mart com segurança — ou de como eles esperavam que as futuras gerações, ligados nessa grande corrente de responsabilidades, fizessem o mesmo para aqueles que ainda não nasceram. Os Estados Unidos nasceram por meio da guerra, foram reunidos pela guerra e salvos da destruição pela guerra. Nenhuma geração futura, por mais confortável e afluente, deve ignorar essa terrível verdade.

O que, então, podemos fazer para devolver o estudo da guerra ao seu devido lugar na vida intelectual americana? O desafio não é apenas fazer mudanças nas escolas de pós-graduação ou no corpo docente, embora isso ajude. Em um nível mais profundo, precisamos reexaminar as forças que depreciaram a própria idéia da História militar — da própria guerra. Devemos abandonar a crença ingênua de que, com dinheiro, educação ou boas intenções suficientes, poderemos mudar a natureza da humanidade de tal forma que os conflitos armados, como por decreto, se tornem coisa do passado. Enfim, o estudo da guerra nos lembra que nunca seremos deuses. Sempre seremos homens. Alguns homens sempre irão preferir a guerra à paz; e outros homens, nós que aprendemos com o passado, teremos o dever moral de detê-los.

Estudando a guerra: por onde começar

Enquanto a ‘Guerra do Peloponeso” de Tucídides, uma crônica das três décadas de guerra entre Atenas e Esparta, fundou o gênero da História militar, o melhor lugar para começar a estudar a guerra é com as histórias dos próprios soldados. As memórias de Okinawa de E. B. Sledge, ‘With the Old Breed”, são verdadeiros pesadelos, mas nos faz lembrar que a guerra, embora muitas vezes se traduza em podridão, sujeira e carnificina, também pode estar a serviço de uma causa nobre. O trágico relato de Elmer Bendiner sobre a aniquilação dos B-17 sobre a Alemanha, “The Fall of Fortresses: A Personal Account of the Most Daring, and Deadly, American Air Battles of World War II”, é um clássico não reconhecido.

De uma perspectiva diferente — a dos generais — “Personal Memoirs” de U. S. Grant é celebrada com justiça comemorada como um modelo de prosa. No entanto, a quase contemporânea “Memoirs of General W. T. Sherman” é muito mais analítica na sua dissecação das loucuras e pretensões humanas que levam à guerra. Da mesma forma, “A Guerra que Eu Vi” de George S. Patton, não é só uma compilação do diário do excêntrico general, mas também uma avaliação sincera da própria natureza humana.

A ficção muitas vezes captura a experiência da guerra tão efetivamente quanto as memórias, a começar pela “Ilíada” de Homero, onde Aquiles se defronta com o paradoxo de que, na guerra, a recompensa nem sempre vai para quem mais a merece. Os três romances mais famosos sobre a futilidade do conflito são “A Glória de Um Covarde”, de Stephen Crane, “Nada de Novo no Front”, de Erich Maria Remarque e “Agosto de 1914”, de Alexandre Soljenitsin. No entanto, nenhuma obra é mais esclarecedora sobre a loucura da guerra do que “As Troianas” de Eurípides.

Apesar de muitos críticos contemporâneos acharem ultrapassado documentar as batalhas clássicas da História, pode-se encontrar um armazém de informações em “The Fifteen Decisive Battles of the World”, de Edward S. Creasy e “A Military History of the Western World”, de J. F. C. Fuller. “History of the Art of War” de Hans Delbrück e a “The Age of Battles” de Russell F. Weigley centram suas histórias abrangentes em confrontos decisivos, usando batalhas como a de Maratona e Waterloo como instrumentos para ilustrar valores sociais, políticos e culturais maiores. Um senso de alto drama permeia a “History of the Conquest of Mexico” e “History of the Conquest of Peru”, de William H. Prescott, enquanto é a tragédia que mais frequentemente caracteriza o breve e fascinante relato de Steven Runciman, “The Fall of Constantinople 1453” e o maciço “The Washing of the Spears” de Donald Morris, sobre a ascenção e a queda do Império Zulu. O tratamento mais abrangente e acessível em um só volume da guerra mais destrutiva da história continua sendo “A World at Arms: A Global History of World War II”, de Gerhard L. Weinberg.

Histórias relevantes para a nossa luta atual contra o terrorismo no Oriente Médio são o soberbo “A Savage War of Peace: Algeria 1954–1962” de Alistair Horne, “Six Days of War”, de Michael Oren e “Black Hawk Down” de Mark Bowden. Qualquer coisa escrita por John Keegan vale a pena ler; “The Face of Battle” continua sendo o livro de História militar mais impressionante dos últimos 50 anos.

O gênero da biografia é muitas vezes ignorado no estudo da guerra. As vidas de Pericles, Alcibíades, Júlio César, Pompeu e Alexandre o Grande, escritas por Plutarco, estabeleceram a visão tradicional desses grandes capitães como homens de ação, enquanto contrabalançam seus registros de conquistas quase sobre-humanas com suas megalomanias. “Wellington”, de Elizabeth Longford, é um estudo clássico do maior soldado da Inglaterra. “Lee’s Lieutenants: A Study in Command” de Douglas Southall Freeman, foi desprezado recentemente, mas é fascinante.

Se, como Carl von Clausewitz acreditava, “a guerra é a continuação da política por outros meios”, então o estudo da liderança civil em tempo de guerra é algo crítico. O relato acadêmico clássico da relação adequada entre os militares e seus supervisores é ainda o “The Soldier and the State: The Theory and Politics of Civil-Military Relations” de Samuel P. Huntington. Para uma “J’accuse” contemporânea da liderança militar americana durante a Guerra do Vietnã, consulte “Dereliction of Duty: Lyndon Johnson, Robert McNamara, the Joint Chiefs of Staff, and the Lies That Led to Vietnam”, de H. R. McMaster.

“Supreme Command: Soldiers, Statesmen, and Leadership in Wartime”, de Eliot A. Cohen, é supostamente uma das leituras favoritas do presidente Bush. No livro, argumenta-se que líderes bem-sucedidos como Ben-Gurion, Churchill, Clemenceau e Lincoln mantiveram um controle severo sobre seus generais e nunca confundiram os conhecimentos militares esotéricos dos oficiais com entendimento político nem com resolução estratégica.

Em “The Mask of Command”, Keegan examina a competência militar de Alexandre o Grande, Wellington, Grant e Hitler, e critica vivamente os dois nomes que lutaram sob governos consensuais. Em “The Soul of Battle”,levei esse argumento adiante e sugeri que três dos mais audaciosos generais — Epaminondas, Sherman e Patton — também eram pensadores políticos interessantes, com uma percepção estratégica sobre o que fazia seus exércitos democráticos tão formidáveis.

Também é interessante saber como os políticos perdem as guerras. Veja especialmente a biografia de Ian Kershaw, “Hitler, 1936-1945: Nemesis”. O primeiro volume de Mark Moyar de um proposto reexame em dois volumes do Vietnã, “Triumph Forsaken: The Vietnam War, 1954–1965”, é semelhante à leitura dos contos de aflição auto-infligida e chances perdidas de Eurípides. Horne escreveu uma meia dúzia de clássicos, nenhum mais absorvente do que o seu trágico “To Lose a Battle: France 1940”.

Poucos historiadores podem tecer uma narrativa militar dentro da paisagem política e cultural contemporânea. “Battle Cry of Freedom”, de James McPherson, pode, e este volume iniciou o recente renascimento da História da Guerra Civil. “The Guns of August” de Barbara Tuchman, descreve o primeiro mês da Primeira Guerra Mundial em detalhes fascinantes, mas terrivelmente tristes. Dois volumes de David McCullough, “Truman” e “1776”, dão fascinantes relatos internos da vontade política necessária para continuar as guerras em meio à depressão doméstica e às más notícias da frente de batalha. O mesmo acontece com “Winston S. Churchill: Finest Hour’, 1939–1941, de Martin Gilbert. Donald Kagan no “Origins of War and the Preservation of Peace” adverte contra os perigos da conciliação, especialmente a combinação fatal de retórica dura e ausência de preparação militar, em uma pesquisa de guerras da Grécia antiga à crise dos mísseis cubanos. “Dangerous Nation” de Robert Kagan lembra aos americanos que o seu idealismo (se não auto-satisfação) não é nada de novo, mas sim ajuda a explicar mais de dois séculos de intervenções no exterior, tanto as sábias quanto as mal executadas.

Qualquer pesquisa sobre História militar deve ser concluída com lições mais abstratas sobre a guerra. “Principles of War” por Clausewitz continua a ser a pedra angular da ciência. “A Arte da Guerra” de Nicolau Maquiavel mistura realismo com detalhes militares clássicos. Duas obras indispensáveis, “War: Ends and Means” de Angelo Codevilla e Paul Seabury, e “Makers of Modern Strategy”, editado por Peter Paret, fornecem relatos vigorosos e honestos sobre as regras atemporais e a natureza da guerra.

[*] Victor Davis Hanson. “Why Study War?”. City Journal, 23 de Dezembro de 2015.

Tradução: Cássia H.
Revisão: Felipe Alves

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