Por que a transgeneridade é uma “identidade” mas a anorexia um distúrbio?

A normalização da disforia de gênero faz que outros doentes mentais sejam cada vez mais lançados na penumbra.

Por Moira Fleming [*]

A balbúrdia em relação ao caso dos “banheiros unissex” na Carolina do Norte tem servido ao movimento trans como combustível perfeito para continuar a alimentar sua campanha de aceitação nacional. Ela também tem provocado uma reação “transfóbica” semi-histérica de tradicionalistas hipócritas.

Eu não consigo me ver em nenhum dos lados. Abordo este tema com a dolorosa sensação de ter sido desconectado do próprio corpo, de odiar com todas as fibras do meu ser o que vejo no espelho e de estar propenso a submeter-me a grandes surtos de automutilação para alcançar uma visão que simplesmente está sempre fora do alcance. Minha perspectiva sobre o tema, entretanto, provavelmente, não soará bem para a maioria dos indivíduos LGBTT. Por ser uma pessoa que tem lutado contra anorexia nervosa desde a puberdade, a angústia dos transgêneros ressoa em mim. As semelhanças entre as duas enfermidades surpreende, embora uma seja tida como identidade e a outra seja considerada um distúrbio. Por quê?

No âmago da disforia de gênero está o desejo paradoxal de ser definido como algo que a própria pessoa declara ser indescritível (isto é, os papéis desempenhados pelos gêneros são construções culturais ilusórias, mas eu anseio verdadeiramente encarnar essa ilusão). No que tange ao desespero, o desejo incongruente na trangeneridade é similar ao desejo na anorexia. O objetivo é ficar magro, e o indivíduo nunca fica magro o suficiente até acabar morrendo. O objetivo é ser de um sexo diferente daquele da composição biológica, mas ninguém pode alterar seus cromossomos e sua composição genética.

Se um homem quer se maquiar, usar vestidos, mesmo implantar silicones nos peitos, quem somos nós para impedi-lo? Se ele quer mudar legalmente seu nome, ótimo! Entretanto, fiscais da língua, [saibam vocês que] a insinuação de que, por meio da utilização indevida de um pronome, estamos atacando cruelmente a essência de uma pessoa é indefensável. Usar “ele” em vez de “ela” pode muito bem ferir os sentimentos de alguém, porém esse nível de sensibilidade equivale a agorafobia (medo de locais públicos lotados ou fechados). O ônus de encontrar meios de lidar com a situação recai sobre a pessoa [que tem o problema]. O mundo não pode ser responsável pela validação de uma questão confusa e obscura que tem sido muito rapidamente transferida de “distúrbio” para “condição”, de irracional para heroico.

Um desejo ardente de modificar a si mesmo

Seus defensores insistem que disforia de gênero não é uma patologia. A Associação Mundial de Profissionais pela Saúde dos Transgêneros (do inglês WPATH) define um distúrbio como “uma descrição de algo com que a pessoa pode ter que lidar, não como a descrição da pessoa ou da identidade da pessoa.” Isso é uma sequência absurda de verborragia. A identidade de uma pessoa não é o seu sexo biológico. Ele é uma parte da identidade de uma pessoa.

Contudo, muitos indivíduos com disforia de gênero sentem que devem mudar a aparência externa para combinar com esse ideal interno. Devido à composição fisiológica do corpo humano, todavia, essa tentativa é frequentemente um esforço extremo. Alguns podem até ir tão longe a ponto de dizer que é uma batalha. A intensidade desse desejo ardente de transformar a si mesmo é o que eu constatei ser o mais parecido com minha própria enfermidade. Não conseguimos descansar até que o exterior iguale-se ao interior.

Muitas pessoas com distúrbios alimentares assumem uma identidade centrada completamente nesse distúrbio. Segundo um artigo no site do Centro de Pesquisa de Assuntos Sociais (em inglês, SIRC), sites pró-anorexia defendem a inanição como “uma escolha de estilo de vida correta para eles [os anoréxicos], e permitirão que obtenham felicidade e perfeição.” Imagine se alguém com um severo transtorno obsessivo-compulsivo por germes pudesse impor suas manias. Seríamos todos obrigados a andar com luvas e máscara no rosto.

O mesmo poderia ser dito sobre um exibicionista distímico. A acomodação [à doença], o que é essencialmente encorajar uma ilusão, é forçada para “melhorar” a vida de um indivíduo que se sentiu como um estranho no seu próprio corpo durante anos. Infelizmente, o suporte social nunca vai mudar os fatos biológicos básicos. Aferrar-se a uma ilusão não faz uma pessoa ser louca, marginalizada, ou inferior. Isso a faz um ser humano.

Lembra-se de seu Descartes? Sentimentos não são confiáveis

Nós não podemos confiar em nossos “sentimentos”, não importa quão forte sejam. Se eu tivesse confiado em meus sentimentos, estaria morta. Por quê? Porque meus sentimentos me alertam que comer comida significa ganhar peso, e ganhar peso é intolerável. Crianças transgênero estão absolutamente convictas de que nasceram no corpo errado. É uma crença sustentada tão profundamente que jogamos fora todo o conhecimento acumulado sobre psicologia e distúrbios mentais para satisfazê-las.

Pessoas com anorexia, frequentemente, podem também remontar sua inquietação com o próprio corpo ainda à primeira infância. Ambas as situações são casos de sentimentos abstratos que, claramente, contradizem a realidade. A certeza de que alguém é uma mulher, apesar de ter nascido homem, é terrivelmente semelhante à convicção de que o corpo de alguém está com sobrepeso mesmo quando o índice de massa corporal está em nível de inanição. A sensação de fome – a mais primeva e arraigada resposta psicológica – incita o indivíduo a abster-se. Pode-se questionar a profundidade dessa crença?

Ninguém com algum entendimento sobre o assunto nega que haja incompatibilidade entre o cérebro do indivíduo e seu corpo. O caminho para o “bem-estar”, todavia, é desesperadamente abortado. O cérebro é um componente desse quebra-cabeça com uma imensa plasticidade. Recondicionamentos não invasivos ocorrem todos os dias. O corpo é o elemento mais difícil de transformar de modo significativo. Desta maneira, por qual razão as cirurgias de mudança de sexo são tidas como o método de tratamento de alto padrão para a literatura de disforia de gênero? Por qual motivo um procedimento tão drástico, e violento, é endossado com tanto vigor?

A questão não é se a identidade de alguém deveria ou não ser reconhecida, mas se o reconhecimento deveria sustentar uma tentativa de fabricar um artifício impossível. Se um homem sente que é uma mulher no seu interior, isso pede que indaguemos: O que é uma mulher? As inabalavelmente nebulosas explicações que abundam na defesa dos direitos dos transgêneros ecoam a bravata desesperada do grupo pró-anorexia.

Os adultos têm o direito de vestir-se, agir e viver da maneira que quiser e bem entender. No entanto, a rapidez com que a “condição” de transgênero tem sido aceita como mentalmente saudável é injusta tanto com o público em geral quanto com os próprios indivíduos. Não há um tratamento cem por cento efetivo contra anorexia nervosa, mas isso não significa que essa seja a forma como minha mente deve funcionar e que eu devo aceitar isso [os efeitos da doença na mente]. O mesmo deveria se aplicar à disforia de gênero.

[*] Moira Fleming. “Why Is Transgender An Identity But Anorexia A Disorder?”. The Federalist, 27 de Junho de 2016.

Tradução: Jay Messi

Revisão: Pedro Henrique e Gleice Queiroz

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