Politicagem: Por Que a China Odeia Bitcoin e Ama Blockchain?

Por Michael J. Casey [*]

A comunidade de criptomoedas está mais uma vez revoltada com a repressão chinesa e jogando búzios para prever o próximo movimento de Pequim.

A elaboração de políticas da China está longe de ser transparente, então só se pode especular por quanto tempo as novas restrições sobre as transações de bitcoins e as vendas de token podem durar.

Ainda assim, se considerarmos as ações da China no contexto de suas intenções geopolíticas, podemos ao menos obter um quadro significativo do que está em jogo e dos desafios e oportunidades de longo prazo que criam para a indústria de criptomoedas e blockchain.

Considere o seguinte:

• O Banco Popular da China parece estar mais perto de emitir uma moeda fiduciária digital do que qualquer outro banco central do planeta. O banco lançou seu próprio instituto de pesquisa de moeda digital com um diretor que fala abertamente sobre suas possibilidades de design em publicações [online] como o CoinDesk.

• O desejo da China de acabar com o domínio global do dólar americano tem se tornado mais evidente, como acontece com outros membros do grupo internacional BRICS (Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul). O presidente russo Putin, falando após a reunião dos BRICS na cidade chinesa de Xiamen neste mês, disse que o grupo trabalharia em conjunto para “superar o excessivo domínio do número limitado de moedas de reserva”.

• Independentemente de sua cautela em relação ao bitcoin, a China está comprometida com a Tecnologia de Contabilidade Distributiva (DLT). Uma variedade de consórcios de alto nível foram formados por instituições governamentais e empresariais para desenvolver e implementar a DLT. O próprio Ministério da Tecnologia da Informação da China está apoiando um novo laboratório de blockchain, anunciado poucos dias após a repressão à negociação de bitcoins.

• Com a “Iniciativa Belt and Road”, que prevê investimentos de US$ 900 bilhões em rotas terrestres e marítimas que abrangem 65 países diferentes, a China está liderando o plano de desenvolvimento de infra-estrutura e comércio internacional mais abrangente do mundo, um modelo semelhante ao Plano Marshall projetando influência econômica e política no exterior.

Cortando a intermediação dos EUA

Em suma, é claro que o governo chinês quer promover o comércio internacional sob seus próprios termos e acabar com a hegemonia financeira, econômica e política dos EUA.

Com a adoção de medidas protecionistas por parte do presidente Donald Trump que colocam a América em primeiro lugar, sob o tema “America First” e um desdém pela diplomacia que irrita os aliados dos EUA, Pequim vê uma oportunidade para tomar o bastão da liderança global. (Se conseguirá ou não é uma questão que abordaremos mais adiante).

Dado seus investimentos neste nicho, parece óbvio que as autoridades chinesas vêem a tecnologia blockchain como uma ferramenta potencialmente útil e desintermediante para promover seus interesses regionais, especialmente no comércio. Muito está sendo feito, por exemplo, para incorporar contatos inteligentes, tokens e outros aspectos da tecnologia blockchain em sistemas de gerenciamento de cadeia de suprimentos que melhoram o compartilhamento de informações e a eficiência.

O lançamento deste mês do Consórcio Belt and Road Blockchain, sediado em Hong Kong, oferece um quadro internacional para amarrar a tecnologia às maiores ambições da China.

Atualizações de tecnologia avançada para a logística da cadeia de suprimentos só tornarão as soluções de blockchain mais viáveis. Uma dessas melhorias, anunciada na cúpula de Xiamen, é a “rede E-Port” dos BRICS, que o grupo descreveu como “uma plataforma eletrônica integrada para processar e monitorar movimentos de mercadorias através de fronteiras e embarcações a um nível portuário”.

Mais agressivamente, a China poderia usar essa tecnologia para ir diretamente atrás dos interesses dos EUA e do domínio do dólar. Sabemos que a China e a Rússia já estão colaborando na liquidação de títulos baseados em blockchain.

Não é um exagero imaginar essas duas potências explorando o sistema de blockchain — talvez uma combinação de contratos inteligentes e contas conjuntas — que permitiriam que seus respectivos importadores e exportadores liquidassem dívidas comerciais com swap direto de divisas cruzadas.

Isso poderia acabar com a função do dólar como moeda intermediária quando os exportadores ou importadores desejam proteger-se de flutuações adversas em suas moedas locais. Isso cortaria os bancos intermediários de Wall Street, reduziria os custos de transação e prejudicaria um sistema que deu aos EUA uma grande influência no comércio mundial.

Essa consequencia está longe de ser a única razão pela qual a China e a Rússia estão explorando uma moeda digital, mas é justo dizer que as moedas digitais fiduciárias tornariam as soluções bilaterais mais viáveis.

Para os EUA, a queda pode ser intensa

Se as empresas chinesas e russas não precisassem mais fazer pagamentos comerciais em dólares, seus governos talvez não precisassem também manter o dólar como moeda de reserva. Enquanto isso, se essa solução de comércio desintermediada funcionasse, a maioria dos outros países certamente os acompanhariam.

Os americanos não podem se dar ao luxo de serem complacentes quanto ao domínio do dólar e as vantagens — taxas de juros mais baixas, para começar — que os tornou atraentes nos últimos 70 anos.

O Desafio da China

Então, isso significa que a China vai ascender ao status de superpotência dominante? Não necessariamente.

A principal razão para apostar contra esse resultado é que o sistema econômico fechado atual da China limita sua capacidade de inovar. As empresas chinesas são excelentes para copiar as idéias dos outros, mas, em geral, não são grandes inventores (com exceção dos avanços de ponta em tecnologia solar e pagamentos).

Economias fechadas e planejadas não incentivam a inovação aberta; você não pode exigir criatividade através de imposição governamental.

É aí que os ataques da China contra ICOs e bitcoin podem ser contraproducentes. Ambos os fenômenos fazem parte de um sistema global emergente de inovação sem permissão — uma sopa de idéias caótica, onde vale de tudo. Nesse sistema, os desenvolvedores podem monetizar novos aplicativos descentralizados e lucrar com a colaboração, em vez de confiar em proteção de propriedade intelectual restritiva e litigada

É compreensível que os planejadores centrais da China estejam desconcertados por esse mundo aparentemente anárquico de idéias multidimensionadas, sobre o qual eles não têm controle. É também por isso que a maioria das pesquisas em blockchain sediadas na China provavelmente se concentram em livros contábeis autorizados sobre os quais o governo pode exercer controle.

No entanto, ao restringir o poder da inovação livre e aberta, a China está se separando das novas idéias e soluções dinâmicas que precisa para se manter à frente do Ocidente.

A sobrevivência do Partido Comunista depende, paradoxalmente, de um crescimento econômico implacável e contínuo, por um lado, e controle de informações, fluxos de dinheiro e idéias, por outro. Mas você não pode alcançar o primeiro se você estiver praticando o último. Em última análise, a China será impotente para competir contra o bitcoin e seus sucessores, uma vez que eles permitem diretamente um sistema descentralizado e resistente à censura que equilibra o campo de jogo e promove um pool global e perpetuador de inovação imbatível.

Dadas as prioridades políticas atuais da administração Trump, os EUA provavelmente não serão o vencedor nessa. Mas a China também não se continuar em seu curso atual.

A era da criptomoeda irá entregar resultados para países, empresas e indivíduos que operam dentro de um sistema de acesso aberto, direitos de propriedade e livre comércio — os princípios sobre os quais a hegemonia dos EUA foi originalmente construída.

[*] Por Michael J. Casey. “It’s Political: Why China Hates Bitcoin and Loves the Blockchain”. Coin Desk, 27 de Novembro de 2017.

Tradução: Isadora Calixto

Revisão: Alexandre Firmeza

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