Pode o criador de Bane quebrar as editoras de quadrinhos politicamente corretas?

Por Emily Gaudette [*]

“Eu não misturo política pessoal na minha obra”, diz o roteirista de histórias em quadrinhos Chuck Dixon, aludindo ao fato de ter escrito sobre um Batman anti-armas apesar de ele mesmo ser um membro da NRA. “Mas nos anos 2000 surgiram muitas ‘panelinhas’ políticas nos quadrinhos. Uma vez que você fica conhecido por tender para a direita, fica difícil reverter a situação.”

Em 2000, o ano a que Dixon se refere, chegava ao fim um período de vendas recordes de HQs do Batman . Nos anos 90 ele foi o escritor mais prolífico de Batman, co-criou os super-vilões Bane e Spoiler, lançou séries solo para Asa Noturna, Robin e Batgirl, e até mesmo as primeiras revistas das “Aves de Rapina”. Ele era um grande nome em um mundo cada vez maior, mas Dixon diz que sua carreira levou um baque quando as editoras começaram a se inclinar à esquerda e seus valores conservadores vieram à luz. “Não me faço de vítima, no entanto”, acrescentou.

Certamente ele não é bom em fingir-se de vítima. Na semana passada publicou com Brett R. Smith uma adaptação em quadrinhos do controvertido romance de Peter Schweizer “Clinton Cash”. Schweizer, que tem seu nome em destaque na capa, dirige o conservador Instituto de Responsabilização Governamental com Steve Bannon, o agitador conservador e apoiador de Trump para presidente. Dixon e Smith descrevem seu livro anti-Clinton como “radioativo”, mas esse já conquistou um público maior do que alguns dos seus trabalhos anteriores. É apenas um público muito diferente — e é aí que as coisas ficam um pouco confusas.

Dixon e Smith estão satisfeitos com as vendas e com o que dizem que essas vendas representam. Eles afirmam que os leitores de quadrinhos de super-heróis continuam de esquerda e de direita em proporções iguais, mas que as editoras e os críticos são majoritariamente de esquerda. Dixon disse que quer “continuar a fazer quadrinhos para os direitistas.” É certamente uma escolha política e estética, mas também uma decisão comercial.

“Clinton Cash“ estreou em primeiro lugar na Lista dos Mais Vendidos do New York Times , levando “Batman: A Piada Mortal” para segundo lugar. É de se notar que “A Piada Mortal” esteve na lista dos mais vendidos por mais de quatro anos.

Dixon e Smith acreditam que o sucesso comercial de “Clinton Cash: The Graphic Novel’s” mostra que existe um público conservador “sub-representado” nos quadrinhos, mas esse é um argumento difícil de provar. Acusar a Marvel de tentar afastar seus leitores conservadores não é uma ideia nova, e até mesmo os executivos da Marvel têm respondido a críticas nesse sentido dizendo que as vendas de suas HQs mostram o contrário. Apesar de a esquerda louvar a redefinição de alguns de seus heróis tradicionalmente brancos e masculinos, a Marvel diz que apenas age de acordo com o capitalismo, vendendo os títulos que são mais procurados. No entanto, Dixon diz que ainda se sente excluído pela indústria por se identificar como um conservador. Ele se recusa a ser um “bom menino”.

Sobre o tema da revista “Aves de Rapina”, Dixon disse à Fanzing em 2000, “Eu não acredito em nenhuma dessas besteiras ultra-feministas, mas acredito que as mulheres sejam uma influência civilizadora sobre o homem.” Em 2014, Dixon tinha deixado a ambiguidade de lado em suas críticas ao publicar um artigo de opinião no The Wall Street Journal afirmando que o esquerdismo envenenou os quadrinhos contemporâneos. Sua postura não mudou desde então.

Ambos, Dixon e Smith, dizem que os quadrinhos de super-heróis devem se esforçar para ser tão apolíticos quanto possível, e ambos só parecem ter problema com o que eles chamam de “justiçadas sociais” no cânone dos super-heróis. Eles parecem concordar que uma editora “apolítica” manteria todos os seus heróis principais como foram originalmente concebidos: Um monte de heróis brancos, héteros e homens.

“Editoras como DC e Marvel”, diz Dixon, “desejam obter cobertura da mídia fora do domínio dos quadrinhos, então eles fazem essas jogadas políticas cínicas, mudando a raça ou sexo ou inclinação sexual de um personagem já estabelecido.” Quando questionados sobre o que eles entendiam por “cínico”, ambos, Smith e Dixon, compararam a criação de novos personagens femininos ou não-brancos como “Ironheart” ou “Miles Morales” ou “Thor: Deusa do Trovão” com táticas baratas utilizadas nos quadrinhos de super-heróis dos anos 80 e 90, como matar o Superman sem a menor intenção de mantê-lo morto. As tramas e enredos das histórias em quadrinhos de super-heróis sempre foram temporárias, e até mesmo a troca de sexo não é algo novo; A DC lançou “Terra 11”, um universo de gênero reverso, em 2005.

“Eles irão desfazer tudo que fizeram,” Dixon diz. “Se você quer um grupo diversificado de personagens, crie alguns novos e pare de alterar os que já existem.”

“Eles gostam de transformar o Thor em uma garota ou de fazer desse outro um personagem transgênero, e isso cria um burburinho na mídia, que é o porquê de as pessoas comprarem o livro,” diz Smith. “Mas essas mudanças não tem nada a ver com escrever uma boa história.”

Entre os super heróis que ainda admiram, Dixon e Smith apontam o Batman da DC como favorito, mas Smith acrescenta que ele gosta do Homem de Ferro também. Batman e Homem de Ferro são heróis empreendedores, que escolheram o vigilantismo, em vez de terem recebido poderes super-humanos por meio de um acidente bizarro. “Além disso, ambos têm dinheiro, e isso é engraçado de se pensar” Smith diz. “Se eu tivesse este dinheiro, o que eu poderia fazer?”

HQs da Marvel estrelando a versão feminina do Thor ultrapassaram as vendas do original, mas Smith acredita que isso é um inchaço temporário nas vendas, inspirado pela cobertura da grande mídia sobre a “inovação” da editora. Também vale a pena notar que nenhum dos heróis com gênero trocado, ou super-heróis de etnicidade e passado além do caucasiano, substituíram o original, herói, homem, branco nas prateleiras. Em alguns casos, como o Homem-Aranha de Peter Parker e o Homem-Aranha de Miles Morales, os dois trabalham em parceria, e em outros — como Ironheart — o Homem de Ferro original atua como Bruce Wayne ou Oráculo, aconselhando nos bastidores.

Mas Dixon tem razão em um ponto. Enquanto o presidente Bush apareceu diversas vezes em HQs da Marvel, aparentando ser idiota em algumas, e como o típico Presidente Americano em outras (ele é salvo pelos X-Men), o Presidente Obama aparece nos quadrinhos da Marvel como um personagem ativo. Em “O Cerco” #4, Obama abole o Ato de Registro Superhumano e põe o Capitão América em um lugar de poder. Ele também se torna amigo do Homem-Aranha [Peter Parker].

Dixon e a Marvel parecem concordar em uma coisa: A política pode alavancar as vendas. “Para mim, a mudança de paradigma começou quando lançamos a Thor feminina, porque isto horrorizou e supostamente afastou essas pessoas de que estamos falando, mas também não há dúvida de que renovou o personagem e o tornou um dos mais vendidos,” disse recentemente ao ICV2 o vice-presidente sênior da Marvel David Gabriel . A publicação que precedeu a estreia da Thor ficou em 43º lugar nas vendas de quadrinhos. Quando a Thor feminina estreiou, sua primeira publicação ficou imediatamente em 3º, atrás apenas de “A Morte de Wolverine”, uma verdadeira façanha, e “Walking Dead”, um gigante editorial.

Permitir que um personagem que não seja branco ou homem (a parceira de longa data de Thor Jane Foster) empunhasse temporariamente o Mjölnir não foi uma ideia completamente nova — Miles Morales, por exemplo, apareceu primeiro em 2011 — e nenhuma editora focada no lucro poderia ser condenada por tentar repetir o que foi sucesso. Talvez Dixon dê à Marvel crédito demais por presumir que as motivações dela sejam inteiramente políticas.

A ideia de que o sucesso de “Clinton Cash” sugere algo remotamente relacionado a super-heróis também não se sustenta. As altas vendas da graphic novel podem ser prova de que os quadrinhos, não obstante qualquer assunto subjetivo particular, têm um potencial de público maior que as editoras pensavam, mas a única coisa que poderia provar o ponto de Smith e Dixon seria um super-herói conservador que fosse popular. Hillary Clinton não é isso.

Na verdade, nada disso é novo. É assim que as editoras tradicionais vêm funcionando há décadas. Não é incomum para as grandes editoras terem coleções conservadoras, porque esses livros vendem. O selo Sentinel da editora Penguin Random House, por exemplo, atende especificamente a um público conservador de “centro-direita”. Editoras de quadrinhos não têm nenhuma subdivisão assim, por isso Dixon e Smith foram para a Regnery, uma editora conservadora independente. Mas o sucesso deles poderia provar para a Marvel ou DC que a tradicional abordagem de mão dupla faz sentido em qualquer mídia. Você pode pedir emprestado a Pedro para pagar a Paulo mesmo se Pedro e Paulo não concordem em nada entre si.

Por fim, não parece que Dixon e Smith realmente guardam rancor das editoras. Afinal existem quadrinhos populares que são compatíveis com suas preferências. A série “O Justiceiro”, estrelada por um herói amado pela maioria dos leitores conservadores e escrita ocasionalmente pelo próprio Dixon, continua a matar. O que Dixon e Smith parecem não gostar é do diálogo cultural acerca dos quadrinhos como uma forma de mudança social. Eles são a antítese dos “Justiceiros Sociais.” Eles lutam pelo “status quo” e ainda talvez pelo “status quo” que deixou de ser “quo” há um tempo atrás. Quem são seus inimigos? As pessoas que compram os quadrinhos do Homem-Aranha de Miles Morales. São leitores que eles acabaram tanto por confiar quando por se ressentir.

Felizmente para os dois, eles têm um novo público. Julgando por quanto “Clinton Cash” vendeu, eles podem ter sucesso em seus próprios termos. Apenas não podem levar seus heróis com eles.

[*] Emily Gaudette. “Can Bane’s Creator Break Comic Book Liberals?”. Inverse, 29 de Agosto de 2016.

Tradução: João Colchete

Revisão: Felipe Alves

1 comentário

  • Concordo com cada vírgula do Chuck Dixon! O mais engraçado é que não se faz nada dessas bobagens modernosas em Asterix, Lucky Luke, Spirou & Fantásio, Titeuf e os Smurfs – só pra citar alguns exemplos europeus, e as vendas vão muito bem, obrigado. Imagino que o mesmo possa ser dito dos mangás.

  • Obrigado! Seu comentário aguarda moderação.

    Gostei muito do site! parabens!

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