Pence e a Prudência

Por Jonah Goldberg. 31 de Março, 2017

 

Cristãos tradicionais enfrentam um duplo padrão.

Já ouvi inúmeras versões desta história, mas eu vou com a relatada pelo Dr. Abraham Twerski, um psiquiatra de renome e rabino ortodoxo. (Eu resumi e parafraseei um pouco.)

O barbudo Twerski vai ao aeroporto com sua vestimenta chassídica – o chapéu, o casaco comprido, a camisa branca abotoada. Outro judeu, este vestido de forma mais moderna, se sente irritado por Twerski e solta o verbo contra ele: “O que há de errado com você? Precisa insistir em desfilar nessa roupa medieval como se fosse Purim? Você não percebe o quão ridículo você parece? Você não traz nada além de desprezo e constrangimento sobre nós, judeus! “

Depois de deixar o homem irritado continuar por um tempo, Twerski diz: “Eu não entendo o que estás a dizer. O senhor percebe que eu sou Amish, certo? “

A raiva do judeu moderno rapidamente se transforma em constrangimento. “Oh, me perdoe!”, diz se desculpando. “Eu não sabia que você era Amish. Você se parece tanto com os companheiros chassídicos. Você deve saber que eu não tenho nada além de respeito por você e seu povo – mantendo suas tradições sem se curvar às vontades e caprichos da sociedade. “

O cheque-mate vem quando Twerski diz, “Arrá! Se eu fosse Amish, você não teria nada além de respeito por mim. Mas como sou judeu, você sente envergonha de mim. Espero que um dia você tenha por si mesmo o mesmo respeito que tem pelos outros. “

Mas essa não é a moral da história que tenho em mente.

O Washington Post publicou um perfil da esposa do vice-presidente Mike Pence, Karen, e muitas pessoas estão indignadas ou com repulsa que dois cristãos evangélicos façam coisas que são bastante normais para os cristãos evangélicos fazerem. Especificamente, Mike Pence aparentemente não janta sozinho com mulheres ou participa de eventos que sirvam álcool se sua esposa não acompanhá-lo. Talvez esta prática tenha começado quando ele estava no Congresso, um lugar onde muitos políticos arruinaram casamento e carreira, ao não seguir essas regras.

Em resposta, houve um monte de zombaria barata vindas de proeminentes escritores e ativistas esquerdistas. É uma afronta às mulheres que trabalham! Ele é um cristão maluco! Ele acha que uma refeição com qualquer mulher vai levar ao sexo!

Muitos conservadores vieram em defesa dos Pence – e com razão. Mollie Hemingway, do Federalist, focou em como essas regras ajudam a evitar a infidelidade: “Ponto para Mike Pence por reconhecer essas verdades e conhecer seus limites”.

(Photo by Scott Olson/Getty Images)

Concordo. Mas vale a pena salientar que a infidelidade não precisa ser a questão. Eu duvido que Pence fosse um devasso sem essas regras. Talvez ele as siga apenas para tranquilizar sua esposa?

Ou talvez isso não seja da nossa conta? Essa certamente seria a atitude de muitos esquerdistas se Pence fosse um Democrata e tivesse realmente traído sua esposa.

No verão passado, quando Bill Clinton falou sobre sua esposa na convenção democrata (“Na primavera de 1971, eu conheci uma moça …”), os esquerdistas se derretaram pela “história de amor”, e a regra do dia era que o casamento é complicado e a capacidade dos Clintons de permanecerem casados (embora praticamente separados) é admirável. Além disso, “Quem somos nós para julgar?” – sem dúvida a máxima favorita de Bill Clinton.

Nos encontramos num lugar muito estranho quando as elites dizem que não temos o direito de julgar o adultério, mas temos todo o direito de julgar os casais que tomam medidas para evitá-lo.

Mas, em última análise, não acho que o duplo padrão importante seja sobre o casamento ou adultério. É sobre os cristãos devotos.

Se os Pence fossem muçulmanos e seguissem regras semelhantes, como muçulmanos devotos talvez façam, duvido que houvesse algo como esse tipo de desprezo da esquerda. Claro, isso é inédito. Mas os esquerdistas gastam muito tempo e energia criando desculpas convenientes e confortáveis para muçulmanos religiosos – burcas, véus, segregação de gênero, etc. – que nunca fariam para cristãos devotos.

Parte disso é estratégia de coalizão. Por exemplo, a marcha feminista em Washington – aquela com todas aquelas mulheres usando chapéus de genitália feminina – foi co-presidida por Linda Sarsour, uma muçulmana devota que às vezes defende a sharia (incluindo, por exemplo, a proibição saudita que impede mulheres de dirigirem).

Mas parte desse comportamento me parece uma forma grosseira de fanatismo partidário, oriunda de uma espécie de auto-aversão da cultura tradicional da América. As opiniões muçulmanas ortodoxas sobre as mulheres são exoticamente “outras” e de alguma forma corajosas, como o fictício viajante Amish. Os cristãos ortodoxos são um constrangimento, como o judeu chassídico da história.

Jonah Goldberg é membro do American Enterprise Institute e editor sênior da National Review.

Tradução: Tulius Lima
Revisão: Jonatas

Artigo original: http://www.nationalreview.com/article/446305/mike-pence-wife-marriage-practices

1 comentário

  • “Nos encontramos num lugar muito estranho quando as elites dizem que não temos o direito de julgar o adultério, mas temos todo o direito de julgar os casais que tomam medidas para evitá-lo.”

    Resume o artigo todo, por sinal muito bem escrito.

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