[*] PATRICK J. BUCHANAN: A ONDA DO POPULISMO NACIONALISTA

Agora que os britânicos votaram para se separar da União Europeia e os Estados Unidos escolheram um presidente que nunca antes ocupou um cargo público, os franceses parecem estar seguindo o exemplo.le-pen-736939

No segundo turno do domingo, na escolha de um candidato para enfrentar Marine Le Pen da Frente Nacional na eleição presidencial da próxima primavera, os republicanos de centro-direita escolheram François Fillon em uma vitória esmagadora.

Enquanto Fillon vê Margaret Thatcher como um modelo na política fiscal, ele é um católico socialmente conservador que apoia os valores familiares e quer confrontar o extremismo islâmico, controlar a imigração, restaurar a identidade histórica da França e acabar com as sanções contra a Rússia.

“A Rússia não representa nenhuma ameaça para o Ocidente”, diz Fillon. Caso contrário, surge a pergunta: por que a OTAN? Por que as tropas dos EUA estão na Europa?

Como Le Pen é a favorita para ganhar a primeira disputa da eleição presidencial e, Fillon, a segunda em maio, uma relação mais próxima de Paris com Putin parece certa. Os próprios europeus estão trazendo a Rússia de volta para a Europa, e separando-se dos americanos.

No próximo domingo, a Itália irá realizar um referendo sobre reformas constitucionais, apoiado pelo primeiro-ministro Matteo Renzi. Se o referendo, que se arrasta nas pesquisas, falhar, diz Renzi, ele renuncia.

Em oposição à Renzi estão a Liga Norte separatista, o Movimento 5 Estrelas do ex-comediante Beppe Grillo, e a Força Itália do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, amigo de Putin.

“Cerca de oito dos bancos que enfrentam problemas na Itália correm risco de falência” se o governo de Renzi cair, diz o Financial Times. Daqui a uma semana, as primeiras páginas da imprensa ocidental poderão estar prestes a esboçar a mais recente crise da UE.

Na Holanda, o Partido Pela Liberdade, de Geert Wilders (em julgamento por discursos de ódio ao pedir por menos imigrantes marroquinos), está em primeiro lugar ou próximo disto nas pesquisas para a eleição nacional de março.

Enquanto isso, a porta da UE parece estar se fechando para a Turquia muçulmana, uma vez que o Parlamento Europeu votou pelo encerramento das negociações de adesão com Ancara e seu presidente autocrático, Recep Tayyip Erdogan.

Por ser acolhedora de imigrantes muçulmanos, a alemã Angela Merkel já não fala pela Europa, até mesmo por estar próxima de perder seu maior aliado, Barack Obama.

donald_j-_trump_at_marriott_marquis_nyc_september_7th_2016_16-1024x682Não apenas a Europa, mas o mundo todo parece em agitação (que o presidente eleito Trump está prestes a herdar) com regimes antigos e partidos perdendo o controle, e forças nacionalistas, populistas e de direita em ascensão.

No início deste ano, o senado brasileiro votou pela remoção da presidente de esquerda, Dilma Rousseff. Em setembro, seu antecessor, o popular ex-presidente Lula da Silva, foi indiciado em uma investigação de corrupção. O presidente Michel Temer, que, como vice-presidente, sucedeu a Rousseff, está agora sob investigação por corrupção. Fala-se sobre um impeachment.

A Venezuela, dotada de mais petróleo do que quase todos os países do planeta, está agora, graças ao castrismo de Hugo Chávez e do sucessor Nicolas Maduro, próxima do colapso e da anarquia.

A Turquia da OTAN e nosso aliado árabe, o Egito, ambos governados por regimes repressivos, são menos receptivos à liderança dos EUA.

O presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, com seu índice de aprovação em um único dígito, está enfrentando um impeachment e acusação por corrupção.

Enquanto isso, a Coreia do Norte, sob o comando de Kim Jong Un, continua fazendo testes com ogivas nucleares e mísseis que podem atingir toda a Coreia do Sul e o Japão e chegar a todas as bases americanas no leste da Ásia e no Pacífico Ocidental.

Os EUA são obrigados por um tratado a defender a Coreia do Sul, onde ainda temos 28.500 soldados, e o Japão, bem como as Filipinas, onde o novo presidente populista Rodrigo Duterte, que execra o Ocidente, faz uma aliança com a China. A Malásia e a Austrália também estão se aproximando da China, à medida que se tornam cada vez mais dependentes do comércio chinês.

Respondendo às nossas tropas da OTAN em movimento na Estônia, Letónia, Lituânia e Polónia, Putin deu início a uma movimentação de mísseis ofensivos e defensivos com capacidade nuclear, no enclave de Kaliningrado, entre a Polônia e a Lituânia.

Se entrássemos em confronto com os russos no Báltico Oriental, quantos dos nossos aliados da OTAN, alguns agora abertamente pró-Putin, estariam ao nosso lado?570fd1f8c36188f82d8b45a0

A questão é: não só a Guerra Fria chegou ao fim, o pós-Guerra Fria também. Estamos vivendo em um mundo diferente e em mudança: regimes estão caindo, antigos partidos estão morrendo, novos partidos aumentando, antigas alianças estão se desfazendo e velhos aliados se afastando.

As forças do nacionalismo e do populismo foram desencadeadas em todo o Ocidente e em todo o mundo. Não há retorno.

No entanto, a política dos EUA parece imutável por conta de garantias de guerra e compromissos de tratados que remontam ao tempo de Truman e Stalin, e Ike e John Foster Dulles.

Os Estados Unidos saíram da Guerra Fria, vinte e cinco anos atrás, como a única superpotência. Mesmo assim, é evidente que hoje não somos uma nação tão importante como aquela que fomos em 1989 e 1991.

Temos grandes rivais e adversários; temos dívidas mais profundas; estamos mais divididos. Nós travamos guerras no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia e no Iêmen que não nos serviram de nada. O que nós tivemos, nós jogamos fora.

Os Estados Unidos vivem um momento delicado na história.

A América não precisa de nada que não seja refletir sobre um quarto de século de fracassos — e um novo pensamento sobre seu futuro.

[*] Patrick J. Buchanan. “The Populist-Nationalist Tide”. The American Conservative, 29 de Novembro de 2016.

Tradução: Felipe Galves Duarte

Revisão: Pedro Henrique

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