Os Últimos Jedi e o Fim do Heroísmo

Por Sean Fitzpatrick [*]

A intenção de Os Últimos Jedi parece ser a de reduzir a cinzas os arquétipos do passado heróico. Se o herói fracassa em ser herói, e mais ainda, recusa seu próprio status de herói, qual poderia ser a razão por trás de tal desencanto pós-moderno?

O público tem lamentado em alto e bom som o Luke Skywalker apresentado no mais recente episódio da franquia Star Wars, Os Últimos Jedi – e existe um motivo para essa reação, um motivo tão antigo quando o mundo. A espinha dorsal da mitologia de Star Wars são os mitos tradicionais. A fúria de Luke Skywalker, e a fúria despertada em seus fãs, já existiu antes em outros heróis similares. À medida que a saga Star Wars continua a injetar pós-modernismos desajeitados nos esquemas e tropos clássicos da Antiguidade, temos agora que o candidato a herói Luke Skywalker tornou-se uma nova versão do perene herói Aquiles – mas motivado por novos e estranhos propósitos, diferentes dos igualmente polarizados heróis de outrora.

Aqueles de nós que cresceram com Luke Skywalker nos anos 70 e 80 lembram-se dele como o fazendeiro rebelde, de rosto jovem, empunhando sua arma de raios e seu sabre de luz com uma impetuosidade tal que o elevou ao status de herói de guerra e Cavaleiro Jedi. Mas todos levamos um choque ao nos deparar com o Luke do mais recente filme da celebrada série de Geoge Lucas. Já idoso, ele se mostra abatido, cansado e radicalmente contra envolver-se na batalha para salvar sua família, seus amigos e a galáxia. As razões para isso, porém, são pessoais. Seu completo fracasso em treinar o sobrinho nos caminhos da Força o levaram a renunciar à vocação, à religião e à Ordem. Ele se afasta para sempre da guerra nas estrelas por não mais acreditar no valor de suas próprias ações ou no valor do heroísmo em si. Luke Skywalker se tornou cínico, paralisado por uma perda de fé.

Quando os heróis se tornam humanistas e esperam da Humanidade momentos de fraqueza acima de qualquer outra coisa, não é tão surpreendente que passem a experimentar dúvidas existenciais. Luke Skywalker é um desses heróis, o que o torna subitamente interessante, mas pouco inspirador. Os seres humanos são imperfeitos por natureza, portanto é natural que aqueles obcecados por essa imperfeição tenham desconfiança, até mesmo hostilidade, a idealismos. Essa atitude se degenera na mentalidade de sempre se questionar a sinceridade dos motivos, a retidão das condutas, e os costumes tradicionais. É este o ponto de vista imperfeito dos cínicos, e a crise final do arco de Luke Skywalker. Tal alheamento e desilusão não são incomuns nas lendas dos heróis; contudo a motivação que vemos em Os Últimos Jedi vem embuída com uma perspectiva pós-moderna se comparada com o antigo paradigma original dessas crises – a saber, a fúria de Aquiles.

Aquiles é um dos maiores heróis gregos, famoso por sua maestria nos combates, sua invulnerabilidade, e por sua natureza quase que a de um deus. Seu envolvimento na Guerra de Tróia foi essencial para a campanha dos gregos em represália ao rapto de Helena, rainha de Esparta, pelo príncipe troiano Páris. Depois de quase uma década de luta à sombra dos muros de Tróia, o comandante das forças gregas, Agamenon, foi forçado a libertar uma de suas concubinas para aplacar a ira de Apolo. Rancoroso e inseguro, ele capturou uma das escravas de Aquiles em compensação à sua perda. Furioso com tal insulto, Aquiles recusou-se a lutar e abandonou seus camaradas e seu país em favor da própria honra – uma decisão ditada pela sua natureza divina, já que, quando os deuses se enfurecem, eles retiram sua assistência às nações, que então perecem.

Como Luke Skywalker, as razões para Aquiles não lutar são pessoais. Mas suas razões têm raízes no pólo oposto ao cinismo. Aquiles acredita tão firmemente na superioridade de sua própria natureza e no seu status de herói que ele abandona até seus entes mais queridos à morte em nome dessa crença. Skywalker torna-se tão descrente de si mesmo e do heroísmo que ele deixa seus entes mais queridos morrerem junto com sua fé já morta. As semelhanças correm em paralelo, ecoando umas às outras no contexto de suas respectivas eras. Assim como Aquiles envia uma imagem de si mesmo ao permitir que seu amigo Pátroclo use sua armadura na batalha para manter longe os troianos dos navios gregos, Luke também envia uma imagem de si mesmo para ganhar mais tempo para os combatentes da resistência — mas essas imagens têm motivações diferentes, em um caso o princípio divino e no outro a negação do princípio.

O mundo sempre se dividiu sobre a ação de Aquiles, se ela foi ou não correta, assim como o público hoje está dividido sobre o comportamento de Skywalker. Essa divisão sinaliza conceitos diferentes da noção de heroísmo com a qual a humanidade se debate durante séculos. Por um lado, o herói é um modelo de glória que existe apenas para a exaltação de si mesmo. Por outro, o herói é aquele que vive para servir os outros e oferecer sua própria glória para a glória dos outros. Essa diferença é captada na mudança histórica entre o herói primário e o herói secundário, entre Homero e Virgílio, onde o segundo introduziu um conceito novo e radical de herói, que se oferece em sacrifício para que os outros possam viver livres de tribulações. Alguns rejeitam Aquiles porque rejeitam a natureza rigorosa do deus que ele simboliza, enquanto aceitam Eneas por causa da natureza compassiva do deus que ele personifica. Tomados em conjunto, essas reações englobam uma visão completa da divindade, uma visão de justiça e de misericórdia, uma visão que aprecia o curso da salvação humana. O problema com Luke Skywalker é que a cultura que o criou, mesmo que para ser um eco dos heróis do passado, perdeu essa visão antiga exemplificada pelos heróis.

Em poucos milhares de anos o mundo mudou. O cinismo sombrio de Luke Skywalker já foi um dia o heroísmo brilhante de Aquiles, mas o herói permanece. Hoje há diferenças na compreensão da realidade, mas o princípio continua sendo: o Bem deve vencer o Mal. O público ainda vê os heróis como padrões idealizados, embora os padrões não sejam mais os mesmos, nem tão elevados assim. E eles ainda lutam junto com os heróis. Assim como o público antigo o questionou, Aquiles, em sua tenda, questionou os méritos da glória pessoal perante Odisseu, Fênix e Ajax, até o ponto em que Eneas redefiniu essa glória. Assim como o público atual o questiona, Luke Skywalker, em sua ilha, questiona os méritos do heroísmo perante Rey até o ponto em que os espectadores em todo o mundo estejam reconsiderando a definição de heroísmo.

Representações culturais através de criações imaginativas não devem ser desprezadas como algo banal – mesmo que essas representações venham brandindo sabres de luz. As sociedades já estabeleceram um catálogo de heróis, e suas mitologias já possuem uma função diagnóstica e didática. Nossas mitologias refletem nosso mundo. Star Wars e produções similares talvez sejam o mais próximo que nossa cultura tem dos mitos clássicos, mas, verdade seja dita, são representações de um povo que perdeu a plenitude da verdade. O herói Luke Skywalker não é, como fica patente, o mesmo herói que o de Homero. Nem o santo pós-moderno é o mesmo que o santo da antiguidade. Continua a existir, no entanto, a necessidade de encarar o mundo como ele é. Se algo como Star Wars possui ou não uma chave para a redenção, isso ainda será visto. É o caso, porém, de sermos cautelosos. Se os conceitos de certo e errado heroísmo e anti heroísmo de bem e mal, enfim tornam-se cada vez mais confusos naquela galáxia pós-moderna, é porque já são confusos nesta nossa sociedade pós-moderna. O tema principal de Os Últimos Jedi é explicitado por Kylo Ren quando diz: “Deixe o passado morrer. Mate-o, se for preciso”. Os Últimos Jedi está tentando, de alguma maneira, queimar, reestruturar os arquétipos do passado heróico. Tenha cuidado.

No final, as velhas tradições podem tornar o mundo jovem de novo, especialmente se elas, infundidas como estão com um antigo otimismo, forem tradições fortemente opostas ao cinismo. O otimismo é o único antídoto para o cinismo, pois o cínico é cego para o valor. O Dicionário do Diabo, do satirista Ambrose Bierce, define o cínico como “um canalha cuja visão defeituosa vê as coisas como elas são, não como elas deveriam ser”. É essa visão defeituosa que faz com que as pessoas sejam abatidas pela espada da doença contemporânea em vez de partirem em busca da cura perdida. Com a recusa de Luke, o herói que uma vez já foi destemido, a saga Star Wars flerta com uma certa questão escatológica… e um ponto de vista cínico. Muito tempo atrás, numa galáxia distante, o herói nunca deixou de ousar, e nunca deixou de ter sucesso e existe um enredo que vem satisfazendo todas as épocas, especialmente quando é a ousadia pela ousadia aquilo que muitas culturas saúdam como vitoriosa. Mas quando o herói não é um herói e, além disso, nega seu próprio status de herói, qual é o raciocínio por trás de tal desencanto pós-moderno? Onde está a velha esperança, para não falar de uma nova esperança?

Os Últimos Jedi está correto ao afirmar que chega um momento em que se deve sair de cena, para uma auto-preservação circunspecta em vez de um auto-sacrifício imprudente. A vida não é um seriado de Flash Gordon e nem é possivel explodir todas as Estrelas da Morte. Mesmo com sua visão sombria sobre a tradição, o velho Luke Skywalker oferece ao público o que ele pediu, a continuação da história de uma família desfeita. Sempre há algo de triste e preocupante em envelhecer. Essas histórias e personagens são velhos, e é preciso expor essa velhice à medida que abrem caminho para um novo grupo de heróis, mais jovens, mais enérgicos e idealistas. Dado a sua idade, é compreensível que Luke Skywalker queira que os Jedi cheguem a um fim, mesmo que seus devotos possam se opor à essa filosofia. Aquiles era, afinal, ainda jovem o suficiente para desistir de tudo com convicção quando assim o fez.

As pessoas têm lutado com os heróis por séculos. A saga continua.

[*] Sean Fitzpatrick. ““The Last Jedi” and the End of Heroism”, The Imaginative Conservative, 4 de Janeiro de 2018.

Tradução: Felipe Alves

3 comentários

  • Uma das piores coisas que tem no Os Últimos Jedi é a forma como o diretor e roteirista transformou o Luke em um covarde e em alguém tão ruim quanto o Palpatine. A ideia do Luke estar desiludido, quebrado emocionalmente, é legal até, mas teria feito mais sentido se fosse por que ele tinha feito tudo certo com o Ben, e ainda assim ele tivesse ido para o lado sombrio, que era o que parecia se for ver pelo O Despertar da Força. Mas o que o diretor fez foi pior, o Luke além de ter sido o responsável pelo seu sobrinho ir para o lado sombrio e ao invés de ir atrás do cara para impedir que ele matasse mais gente e tentar trazê-lo de volta para a luz, ele fugiu e deixou um monte de gente, inclusive o melhor amigo, serem mortos pelo Ben. Nem no final do filme ele se redime. Ao invés de enfrentar o sobrinho cara a cara, ele usa projeção da força.

    Parabéns Rian Johnson por transformar o Luke Skywalker numa galinha jedi.

  • Alex

    Nao assisti mas o texto tem um senso de opinião muito bem observado e inteligente, parabéns ao autor.

  • nani napoli

    O mesmo fizeram aqui com o filme Tropa de Elite. Criaram (meio “sem querer”…) um heroi no primeiro, e, incontinente, fizeram o segundo filme para transforma-lo rapidamente de heroi a bundao. Foi uma baldada de agua gelada na gente rsssss….

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