O Senhor dos Anéis é uma alegoria?

por Joseph Pearce [*]


“O Senhor dos Anéis é, de fato, uma obra fundamentalmente religiosa e católica; inconsciente no primeiro contato, mas visível na releitura.” – J.R.R Tolkien à Robert Murray, S.j.

GettyImages-2634941-1024x675

“Quanto a qualquer significado ou ‘mensagem’ ocultos, não teve o autor qualquer intenção. Não é alegórico nem temático. Desagrada-me a alegoria em todas as suas manifestações, e assim o faço desde que fiquei mais velho e suficientemente atento para detectar a sua presença.” – J.R.R Tolkien (Introdução à segunda edição de O Senhor dos Anéis)

Há um mistério no âmago de O Senhor dos Anéis que continua a desconcertar e confundir os críticos. Seria ela “uma obra fundamentalmente religiosa e católica”, como Tolkien observou em uma carta ao seu amigo jesuíta Fr. Robert Murray, em dezembro de 1953, ou, conforme ele expressa na introdução para a segunda edição de O Senhor dos Anéis, sem intenção de significar algo ou passar uma “mensagem”? Se a Tolkien desagrada a alegoria em suas várias manifestações e se ele insiste que isso “não é alegórico nem temático”, como poderia ser católico? Se não há referências literais a Cristo ou a Igreja em nenhum nível alegórico de expressão, a obra não pode ser considerada católica. Simples assim. No entanto, não é tão simples porque Tolkien sustenta que é “religiosa e católica”, e reforça sua declaração com um “de fato”, como se dissesse que a dimensão religiosa e Católica fosse uma obviedade.

O mistério se intensifica ao percebermos que Tolkien, em outra ocasião, refere-se especifica e inequivocamente sobre O Senhor dos Anéis ser uma alegoria, contradizendo dessa forma o que diz na introdução do livro. Em resposta a uma carta na qual é questionado se O Senhor dos Anéis era uma alegoria ao poder Atômico, ele disse que “não era uma alegoria ao poder atômico, mas ao Poder (exercido para a dominação)”. Ao confessar a alegoria ao poder, ele afirmou que essa não era a alegoria mais importante da história: “Eu nem mesmo creio que o Poder ou a Dominação sejam o ponto central de minha história… O verdadeiro tema para mim é sobre alguma coisa muito mais permanente e difícil: a Morte e a Imortalidade.”14101987_1756255871322912_1683687649_n

Isto dá a impressão, portanto, que Tolkien se contradiz ao descrever sua obra como uma alegoria por um lado, e negando-a por outro. Ele está confuso ou simplesmente ciente de que emprega uma mesma palavra para denotar duas coisas diferentes? O Senhor dos Anéis é uma alegoria em um sentido da palavra e não em outro sentido?

É claro que Tolkien não está confuso quanto ao significado de alegoria. Ele foi um filólogo altamente respeitado e professor de língua e literatura na Universidade de Oxford. Dessa forma, podemos seguramente admitir que ele usa a palavra alegoria com dois significados distintos: em um, O Senhor dos Anéis é uma alegoria; no outro, não.

Talvez seria útil, nesta etapa, se tomássemos um momento para discutir os vários significados aos quais a denominação de “alegoria” está atrelada. Linguisticamente, “alegoria” deriva da palavra grega allegoria, que tem em si a combinação de duas palavras gregas: allos, que significa “outra”, e agoria que significa “fala”.

Em seu nível mais básico, portanto, uma alegoria é algo que fala de outra coisa. Neste sentido, e como Santo Agostinho ilustra em seu discurso sobre os sinais convencionais na obra A Doutrina Cristã (“De Doctrina Christiana”), toda palavra que utilizamos é uma alegoria. A palavra é uma denominação que expressa alguma coisa. Uma palavra, quando proferida, é um som que direciona a nossa atenção para algo que ele [esse som] representa; se escrita, trata-se de um conjunto de formas que direciona nossa atenção para algo que ele [esse conjunto de formas] representa. É, de fato, assombroso perceber que não conseguimos sequer ter um pensamento sem que façamos uso da alegoria — um fato misterioso que sujeita toda a percepção da realidade ao nível da metafísica, onde a literalidade da matéria é sempre transcendida pela alegoria do significado.

14111804_1756255907989575_1224243501_nÉ evidente que Tolkien não poderia ter tido este sentido básico de alegoria em mente. A esse nível de entendimento, O Senhor dos Anéis é obviamente uma alegoria, pois não poderia ser senão outra coisa! Sendo assim, continuemos com nossa exploração dos diferentes tipos de alegoria para então descobrirmos qual alegoria O Senhor dos Anéis é ou não é.

A mais elevada forma de alegoria, ou ao menos a mais santificada, é a parábola. Essa foi a forma que Cristo adotou para propagar a verdade que Ele desejava ensinar. O filho pródigo não existiu de verdade, ele foi um artifício da imaginação de Cristo. Mesmo assim, a história do Filho Pródigo possui uma utilidade universal porque todos vemos algo de nós mesmos e dos outros nas ações do protagonista e quiçá igualmente nos atos do pai benevolente e do irmão invejoso. À medida que a parábola evoca-nos a nós mesmos e aos outros, ela é uma alegoria. Ao passo que Frodo, Sam ou Boromir remetem-nos a nós mesmos e aos outros, O Senhor dos Anéis é uma alegoria.

Uma classe muito menos sutil de alegoria é aquela formal ou natural, na qual os personagens não são pessoas, mas abstrações personificadas. Eles não possuem personalidades embora existam meramente como recortes no papel a significar uma ideia. Desta maneira, por exemplo, a Dama Filosofia, na obra A Consolação da Filosofia, não é uma pessoa, mas uma abstração personificada. Ela existe pura e simplesmente para representar a beleza e a sabedoria da filosofia. Semelhantemente, Cristão, na obra O Peregrino, não é uma pessoa, mas uma abstração personificada que vive pura e simplesmente para representar o Cristão em sua jornada de um mundanismo a outro. Tal como uma alegoria formal e natural, cada personagem na história de Bunyan é uma abstração personificada. C.S. Lewis, na obra O Regresso do Peregrino, utiliza o método de Bunyan ao introduzir personagens como a bela donzela em armadura reluzente chamada Razão, que tem duas belas irmãs chamadas Teologia e Filosofia.

É esse tipo de alegoria a qual Tolkien se refere, evidentemente, na introdução da segunda edição de O Senhor dos Anéis. De certa forma, ele não se interessava por essas alegorias porque elas submetiam a liberdade de imaginação do leitor às intenções didáticas do autor. No intuito de ensinar e pregar, o autor de uma alegoria formal ou natural influencia a imaginação do leitor, forçando-o a ver sua opinião. Enquanto que boas histórias conduzem as pessoas para a bondade e a verdade por meio do poder da beleza, as alegorias formais prendem a beleza, deixando a bondade e a verdade sufocadas. Essas alegorias podem ter bons e nobres propósitos de ensino e pregação, que só são possíveis com o poder e a glória da relação imaginária e criativa entre um bom escritor e seus leitores.

14137919_1756255911322908_1308528822_nÉ evidente que O Senhor dos Anéis não é esse tipo de alegoria.

Muitas outras formas de alegoria poderiam ser discutidas, tais como a intertextualidade empregada de forma memorável por T.S Eliot na obra “A Terra Desolada”, ou o modo que a alegoria é incluída com grande elegância e destreza dentro das obras de Homero e Shakespeare e por romancistas modernos, como Evelyn Waugh. Embora o uso da intertextualidade não seja tão nítido na obra de Tolkien (embora esteja presente), há muitos paralelos entre as maneiras pelas quais a alegoria é inserida em O Senhor dos Anéis e a forma que ela é realizada pelos maiores escritores de narrativas épicas, tragédias, comédias e romances. É nesse sentido que O Senhor dos Anéis pode ser visto como parte de uma grande Tradição da civilização ocidental e uma das inestimáveis jóias da Cristandade.

Tradução: Juliermis Messias

Revisão: Márcio Flemming

[*] Joseph Pearce. “Is ‘the Lord of the Rings’ an Allegory?”. The Imaginative Conservative, 5 de Maio de 2016.

1 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *