O que há de errado na Teoria Social?

Por Herbert Blumer [*]

O que há de errado na Teoria Social[1]

Minha preocupação é limitada àquela forma de teoria social que se põe, ou presume se por, como parte da ciência empírica[2].

O objetivo da teoria na ciência empírica é desenvolver esquemas analíticos do mundo empírico com o qual a dada ciência se relaciona. Isso é feito mediante a concepção abstrata do mundo, isto é, em termos de classes de objetos e de relações entre essas classes. Esquemas teóricos são, essencialmente, propostas quanto à natureza de tais classes e de suas relações naquilo em que essa natureza é problemática ou desconhecida. Tais propostas tornam-se guias para a investigação no sentido de identificar se elas próprias ou suas implicações são verdade. Assim, a teoria exerce forte influência na pesquisa – definindo problemas, demarcando objetos e conduzindo à investigação sobre relações afirmadas. Por sua vez, descobertas de fatos testam as teorias, e ao sugerir novos problemas convidam à formulação de novas propostas. Teoria, investigação e fatos empíricos estão interligados numa consistência metodológica com a teoria guiando a investigação, a investigação buscando e isolando fatos, e fatos afetando a teoria. A fecundidade de sua interação é o meio pelo qual uma ciência empírica se desenvolve.

Comparada com essa rápida síntese da teoria na ciência empírica, a teoria social em geral apresenta graves deficiências. O seu divórcio do mundo empírico é flagrante. Em relevante medida, é compartimentalizada num mundo próprio, dentro do qual se alimenta de si mesma. Normalmente a localizamos em cursos e campos separados. Em sua maior parte, tem sua própria literatura. Seu eixo central é, primordialmente, a exegese – um exame crítico de esquemas teóricos prévios, a composição de porções deles em novos arranjos, a tradução de velhas ideias para um novo vocabulário, e a adição ocasional de uma nova noção como resultado da reflexão sobre outras teorias. É marcadamente suscetível à importação de esquemas externos ao seu próprio espectro empírico, como no caso da analogia orgânica, da doutrina evolutiva, do fisicalismo, da doutrina do instinto, do behaviorismo, da psicanálise e da doutrina do reflexo condicionado. Para além disso, quando aplicada ao mundo empírico a teoria social é primordialmente uma interpretação que ordena o mundo no seu molde, não um cultivo estudioso de fatos empíricos para ver se a teoria se encaixa neles. Em termos tanto de origem quanto de uso, a teoria social parece em geral não estar orientada para o seu mundo empírico.

Ademais, a teoria social é manifestamente defeituosa em sua orientação da pesquisa investigativa. É raramente exprimida numa forma tal que facilite ou permita a investigação no sentido de identificar se ela própria ou suas implicações são verdadeiras. Assim, é gravemente limitada no estabelecimento de problemas de pesquisa, na sugestão de tipos de dados empíricos a serem buscados e em conectar esses dados entre si. Seu divórcio da pesquisa é tão grande quanto o seu divórcio do mundo empírico.

Finalmente, pouco se beneficia da vasta e sempre crescente acumulação de “fatos” que decorre da observação empírica e da pesquisa investigativa. Ao passo que isso pode ser devido à inutilidade intrínseca desses fatos para fins teóricos, também pode ser devido à deficiência na teoria.

Essa três linhas de deficiência na teoria social sugerem que tudo o que é preciso é corrigir preocupações impróprias e más práticas na teorização. Ouvimos repetidamente recomendações e injunções nesse sentido. Faça com que os teóricos sociais reduzam drasticamente a sua preocupação com a literatura da teoria social e, ao invés disso, conectem-se com o mundo social empírico. Deixe-os renunciar à sua prática de “taking in each other’s washing[3] e, ao invés disso, trabalhar com dados empíricos. Deixe-os desenvolver seu próprio capital conceitual atráves do cultivo do seu próprio campo empírico, ao invés de importar moeda espúria de reinos estrangeiros. Faça-os abandonar a prática de meramente interpretar coisas para que se encaixem em suas teorias e, ao revés, teste suas teorias. Acima de tudo, faça-os expor suas teorias por modos que sejam passíveis de teste. Faça-os orientar suas teorias para os vastos corpos de achados de pesquisas acumuladas e desenvolver teorias à luz de tais descobertas.

Essas são injunções gentis as quais todos nós subscreveríamos. Elas efetivamente têm uma ordem limitada de mérito. Mas elas nem isolam o problema do que está basicamente errado com a teoria social, nem provê meios de corrigir as dificuldades. O problema remanesce na esteira de estudos feitos com o devido respeito a essas injunções. Houve e há muitas pessoas capazes e conscienciosas em nosso campo, isoladamente, que procuraram e têm procurado desenvolver a teoria social por meio de cuidadosa, por vezes meticulosa, preocupação com dados empíricos – Robert E. Park, W. I. Thomas, Florian Znaniecki, Edwin Sutherland, Stuart Dodd, E. W. Burgess, Samuel Stouffer, Paul Lazarsfeld, Robert Merton, Louis Wirth, Robin Williams, Robert Bales e dúzias de outros que igualmente merecem menção. Praticamente todos eles estão familiarizados com os cânones da pesquisa empírica. Não podemos corretamente acusar essas pessoas de indiferença para com o mundo empírico, ou de ingenuidade procedimental, ou de incompetência profissional. Ainda assim, suas teorias e seu trabalho são considerados suspeitos e tidos por deficientes, algumas teorias por uns, outras teorias por outros. De fato, as críticas e contracríticas dirigidas aos seus respectivos trabalhos são severas e os revertem completamente. É óbvio que temos de examinar mais profundamente do que o nível das injunções mencionadas acima.

Ao meu ver, a linha apropriada desse exame diz respeito ao conceito. A teoria tem valor na ciência empírica apenas na extensão em que se conecta fecundamente com o mundo empírico. Conceitos são o meio, e o único meio, de estabelecer essa conexão, porque é o conceito o que aponta para as instâncias empíricas sobre as quais uma proposta teórica é feita. Se o conceito é claro quanto ao que se refere, então pode ser feita uma identificação segura das instâncias empíricas. Com a sua identificação, elas podem ser cuidadosamente estudadas, usadas para testar propostas teóricas e exploradas para sugestões quanto a novas propostas. Assim, com conceitos claros afirmações teóricas podem ser trazidas para relações próximas e autocorretivas para com o mundo empírico. Contrariamente, conceitos vagos detêm a identificação de instâncias empíricas adequadas e obscurecem a detecção do que é relevante nas instâncias empíricas que são escolhidas. Desse modo, bloqueiam a conexão entre a teoria e o mundo e inibem a sua interação efetiva.

O reconhecimento da posição crucial dos conceitos na teoria na ciência empírica não significa que outros assuntos são de nenhuma importância. Obviamente, o significado das habilidades intelectuais na teorização, tais como originalidade e imaginação disciplinada, não requer qualquer destaque. Similarmente, as técnicas de estudo são de evidente importância. Também corpos de fatos são necessários. Ainda assim, reflexão profunda e brilhante, um arsenal dos mais precisos e engenhosos instrumentos, e uma vasta gama de fatos não tem propósito na ciência empírica sem a relevância, orientação e ordem analítica empírica que somente pode advir de conceitos. Já que na ciência empírica tudo depende do quão fecundamente e fielmente o pensamento se entrelaçará com o mundo empírico em estudo, e já que os conceitos são a porta de entrada para esse mundo, o efetivo funcionamento dos conceitos é questão de importância decisiva.

Agora, deveria ser evidente que os conceitos na teoria social são extremamente vagos. Termos representativos como costumes, instituições sociais, atitudes, classe social, valor, norma cultural, personalidade, grupo de referência, estrutura social, grupo primário, processo social, sistema social, urbanização, acomodação, discriminação diferencial e controle social não discriminam claramente as suas instâncias empíricas. Quando muito, permitem uma identificação aproximada, e no que é tão grosseiramente identificado não permitem a determinação do que é acobertado pelo conceito e o que não é. As definições que são fornecidas para esses termos usualmente não são mais claras que os conceitos que elas procuram definir. O cuidadoso escrutínio dos nossos conceitos força-nos a reconhecer que se apoiam num sentido vago e não na precisa especificação de atributos. Vemos isso em nossa experiência comum ao explicar conceitos para nossos estudantes ou leigos. Definições formais são de pouca utilidade. Ao invés disso, se formos bons professores procuramos dar o sentido do conceito, por meio do uso de algumas ilustrações aptas. Esse sentido inicial, com o tempo, enraíza-se através da pura experiência de compartilhar um universo comum de discurso. Nossos conceitos vêm a perder valor em função desse sentido. É esse sentido e não especificações precisas que nos guiam em nossa disciplina nas transações com nosso mundo empírico.

Essa natureza ambígua dos conceitos é a deficiência básica da teoria social. Impede-nos de chegar a uma efetiva compreensão do nosso mundo empírico, porque não sabemos ao certo o que compreender. Nossa incerteza quanto ao que nos referimos obstrui-nos de indagar questões pertinentes e de definir problemas relevantes para pesquisa. O sentido vago entorpece nossa percepção e assim vicia a observação empírica dirigida. Encoraja nossa teorização a se desenvolver num mundo separado do seu próprio com somente uma tênue conexão com o mundo empírico. Limita severamente o esclarecimento e o crescimento que os conceitos podem extrair dos achados da pesquisa. Conduz à indisciplinada teorização, que é má teorização.

Se a deficiência crucial da teoria social, e sob esse aspecto, da nossa disciplina, é a natureza ambígua de nossos conceitos, por que não proceder de forma a tornar nossos conceitos claros e definidos? Essa é a essência do problema. A questão é como fazer isso. As possíveis linhas de respostas podem ser bastante reduzidas por meio do reconhecimento de que um grande esforço, senão consciencioso e zeloso, não toca o problema. A clarificação de conceitos não se atinge pela introdução de um novo vocabulário de termos ou substituindo novos termos – a tarefa não é de lexicografia. Não se alcança pela ampla reflexão sobre teorias para mostrar sua fraquezas lógicas e armadilhas. Não se realiza formando ou importando novas teorias. Não se consegue inventando novos instrumentos técnicos ou melhorando a fiabilidade de velhas técnicas – esses instrumentos e técnicas são neutros em relação aos conceitos em nome dos quais podem ser utilizados. A clarificação de conceitos não vem de empilhar montanhas de descobertas da pesquisa. Apenas como exemplo gostaria de apontar para as centenas de estudos sobre atitudes e os milhares de itens que renderam — esses milhares de itens de descoberta não contribuíram em nada para esclarecer o conceito de atitudes. Do mesmo modo, a mera extensão da pesquisa em âmbito e direção não oferece, por si só, a garantia de conduzir à clarificação de conceitos. Estas várias linhas de esforço, como os próprios resultados parecem abundantemente testemunhar, não satisfazem o problema do conceito ambíguo.

As mais sérias tentativas de lidar com esse problema em nosso campo assumem a forma de desenvolver procedimentos fixos e específicos destinados a isolar um conteúdo empírico estável e definitivo, com esse conteúdo constituindo a definição ou a referência do conceito. As mais conhecidas dessas tentativas são a formação de definições operacionais, a construção experimental de conceitos, a análise fatorial, a formação de sistemas matemáticos dedutivos e, embora ligeiramente diferentes, a construção de índices quantitativos confiáveis. Embora estas tentativas variem quanto ao tipo de procedimento específico que é utilizado, elas são semelhantes na medida em que o procedimento é concebido para produzir, através de desempenhos repetidos, um achado estável e definitivo. Uma definição de inteligência como sendo o quociente de inteligência é uma ilustração conveniente do que é comum a essas abordagens. O quociente de inteligência é um achado estável e discriminatório que pode ser verificado através de uma repetição de procedimentos claramente especificados. Ignorando questões quanto ao mérito diferencial e ao nível diferencial de penetração entre essas abordagens, parece que, ao produzir um conteúdo específico e discriminatório, elas são a resposta ao problema do conceito ambíguo na teoria social. Muitos afirmam que o emprego resoluto de um ou outro desses métodos produzirá conceitos definitivos com a conseqüência de que a teoria possa ser aplicada decisivamente ao mundo empírico e testada efetivamente na investigação.

Até agora, a adequação dos esforços de precisão no sentido de resolver o problema do conceito ambíguo permanece no campo da reivindicação e da promessa. Eles encontram três dificuldades pronunciadas em sua ambição de produzir conceitos genuínos relacionados com o nosso mundo empírico.

Em primeiro lugar, na medida em que o conteúdo empírico definitivo que é isolado é considerado como constituindo por si só o conceito (como na afirmação de que “X é o quociente de inteligência”), carece de possibilidades teóricas e não pode ser considerado um conceito genuíno. Não tem o caractere abstrato de uma classe com atributos especificáveis. O que é “quociente de inteligência” como uma classe e quais são suas propriedades? Embora se possa dizer que o “quociente de inteligência” é uma classe composta por uma série de quocientes de inteligência específicos, pode-se ou não apontar características comuns desta série particularidades que, naturalmente, caracterizariam a classe? Até que as instâncias específicas de conteúdo empírico isoladas por um determinado procedimento sejam reunidas em uma classe com características distintivas comuns de conteúdo, nenhum conceito com caráter teórico é formado. Não se pode fazer propostas sobre a classe ou abstração ou relacioná-la com outras abstrações.

Em segundo lugar, na medida em que o conteúdo empírico definitivo que é isolado é considerado como qualificador de algo além de si mesmo (como na afirmação de que “Inteligência é o quociente de inteligência”, onde a inteligência agora seria concebida como incluindo uma variedade de referências de senso comum, tais como a habilidade de resolver problemas administrativos, de planejar campanhas, de inventar, de exercitar engenhosidade diplomática, etc.), o conceito é constituído por algo que está além do conteúdo empírico definitivo. Mas como este “algo além” não é tratado pelo procedimento que produz o conteúdo empírico definitivo, o conceito permanece na posição ambígua que originalmente estabeleceu o problema. Em outras palavras, o conceito continua a ser constituído por um sentido ou entendimento geral, e não por especificação.

Terceiro, uma questão pertinente deve ser confrontada no que diz respeito à relação do conteúdo empírico definitivo que está isolado para com o mundo empírico que é do interesse da disciplina. É preciso ter as possibilidades de estabelecer o lugar e o papel do conteúdo específico, no mundo empírico, para que o conteúdo empírico tome parte na teoria sobre o mundo. Um procedimento específico pode resultar num achado estável, às vezes necessariamente pela mecânica interna do procedimento. A menos que esse achado tenha um lugar relevante no mundo empírico em estudo, ele não tem valor para a teoria. A demonstração de tal relevância é uma dificuldade crítica que se contrapõe aos esforços para estabelecer conceitos definitivos por meio do isolamento de conteúdos empíricos estáveis através de procedimentos precisos. Aliás, o estabelecimento de tal relevância não é obtido por meio de correlações. Enquanto classes de objetos ou itens acobertados por conceitos podem ser correlacionados, o mero estabelecimento de correlações entre itens não forma conceitos ou, em outras palavras, não dá um item como uma instância de uma classe, um lugar ou uma função. Além disso, a relevância de um conteúdo empírico isolado para o mundo empírico não é estabelecida simplesmente se usando o conceito para rotular as ocorrências dadas nesse mundo empírico. Trata-se de um poço semântico no qual caem muitos profissionais, particularmente aqueles que trabalham com definições operacionais de conceitos ou com construção experimental de conceitos. Por exemplo, um estudo cuidadoso da “moral” feito em um experimento restrito pode produzir um achado estável entretanto, o mero fato de que nós costumeiramente rotulamos diversas instâncias, em nosso mundo empírico, com o termo “moral”, não provê qualquer garantia de que tal construção experimental de “moral” se encaixe nelas. Tal relação deve ser estabelecida e não presumida.

Talvez estas três dificuldades que mencionei possam ser resolvidas com sucesso de modo que os conceitos definitivos genuínos de uso teórico possam ser formados a partir do tipo de esforços que eu tenho considerado. Resta ainda o que sou forçado a reconhecer como a questão mais importante de todas, nomeadamente se os conceitos definitivos são adequados ao estudo do nosso mundo social empírico. Apresentar essa questão neste ponto parece mover-me em sentido inverso, para contradizer tudo o que eu disse acima sobre a necessidade lógica de conceitos definitivos para superar a fonte básica de deficiência na teoria social. Mesmo que a questão seja herética não vejo como ela pode ser evitada. Gostaria de explicar por que a questão é muito pertinente.

Acho que um estudo ponderado mostra conclusivamente que os conceitos de nossa disciplina são, fundamentalmente, instrumentos sensibilizadores. Por isso, chamo-os de “conceitos sensibilizadores” e os ponho em contraste com os conceitos definitivos, como os que me refiro na discussão anterior. Um conceito definitivo refere-se precisamente ao que é comum a uma classe de objetos, com o auxílio de uma definição clara em termos de atributos ou referências fixas. Esta definição, ou as marcas de referência, servem como um meio de claramente identificar a instância individual da classe e a composição da instância que é abrangida pelo conceito. Um conceito sensibilizador carece de tal especificação de atributos ou marcas de referência e, conseqentemente, não permite ao usuário mover-se diretamente para a instância e seu conteúdo relevante. Em vez disso, dá ao usuário um sentido geral de referência e orientação na abordagem de casos empíricos. Enquanto os conceitos definitivos fornecem prescrições do que ver, conceitos sensibilizadores meramente sugerem direções ao longo das quais olhar. As centenas de nossos conceitos — como cultura, instituições, estrutura social, costumes e personalidade — não são conceitos definitivos, mas sensibilizadores por natureza. Carecem de referência precisa e não têm parâmetros que permitam a identificação precisa de uma instância específica e de seu conteúdo. Em vez disso, se apoiam sobre um sentido geral do que é relevante. Não pode haver qualquer disputa sobre esta caracterização.

Agora, não devemos admitir tão prontamente que nossos conceitos são sensibilizadores e não definitivos meramente em virtude da imaturidade e da falta de sofisticação científica. Devemos considerar se há outras razões para essa condição e perguntar, particularmente, se ela é devida à natureza do mundo empírico que estamos buscando estudar e analisar.

Considero que o mundo empírico da nossa disciplina é o mundo social natural da experiência cotidiana. Neste mundo natural, cada objeto de nossa consideração — seja uma pessoa, grupo, instituição, prática ou o que seja — tem um caráter distintivo, particular ou único e jaz no contexto de um caráter distintivo similar. Acho que é esse caráter distintivo do exemplo empírico e de seu cenário que explica por que nossos conceitos são sensibilizadores e não definitivos. Ao lidar com uma instância empírica de um conceito para fins de estudo ou análise, nós não confinamos a nossa consideração a respeito, e aparentemente não podemos fazê-los significativamente, estritamente ao que é abrangido pela referência abstrata do conceito. Não afastamos o que dá a cada instância seu caráter peculiar e nos restringimos ao que têm em comum com as outras instâncias da classe abrangida pelo conceito. Pelo contrário, parecemos forçados a alcançar o que é comum, aceitando e usando o que é distintivo do dado exemplo empírico. Em outras palavras, o que é comum (ou seja, aquilo a que o conceito se refere) é expresso de maneira distinta em cada instância empírica e pode ser obtido apenas por meio de aceitar e trabalhar através da expressão distintiva. Todos nós reconhecemos isso quando perguntamos, por exemplo, que forma a estrutura social toma em uma comunidade camponesa chinesa ou em um sindicato americano, ou como a assimilação ocorre em um rabino judeu da Polônia ou em um camponês do México. Acredito que você verá que isso é verdade na aplicação de qualquer um de nossos conceitos ao nosso mundo empírico natural, quer seja estrutura social, assimilação, costume, instituição, anomia, valor, papel, estratificação ou qualquer das outras centenas de nossos conceitos. Reconhecemos que aquilo a que nos referimos por qualquer conceito dado forma-se de uma maneira diferente em cada instância empírica. Temos de aceitar, desenvolver e usar a expressão distintiva, a fim de detectar e estudar o comum.

Essa aparente necessidade de ter que fazer um estudo daquilo a que o conceito se refere, trabalhando com e através da natureza distinta ou única da instância empírica, em vez de lançar essa natureza única de lado invoca, aparentemente por necessidade, um conceito sensibilizador. Uma vez que os dados imediatos de observação sob a forma da expressão distintiva em diferentes instâncias de estudo são diferentes, ao abordar os casos empíricos não se pode confiar em referenciais ou traços fixos e objetivos de expressão. Em vez disso, o conceito deve orientar o sujeito para o desenvolvimento de uma imagem da expressão distintiva, como no estudo da assimilação do rabino judeu. Sai-se do conceito para a distinção concreta da instância, em vez de abraçar a instância no quadro abstrato do conceito. Trata-se de preencher uma nova situação ou de escolher um caminho num terreno desconhecido. O conceito sensibiliza para esta tarefa, fornecendo pistas e sugestões. Se o nosso mundo empírico se apresenta sob a forma de acontecimentos ou situações distintas e singulares, e se buscamos, através do estudo direto deste mundo, estabelecer classes de objetos e relações entre classes, somos, eu acho, forçados a trabalhar com conceitos sensibilizadores.

O ponto que estou considerando pode ser apresentado de outra maneira, afirmando-se que aparentemente temos de inferir que qualquer instância dada em nosso mundo empírico natural e seu conteúdo são abrangidos por um de nossos conceitos. Temos de fazer a inferência a partir da expressão concreta da instância. Devido à natureza variável da expressão concreta de instância em instância, temos de confiar, aparentemente, em guias gerais e não em traços objetivos fixos ou modos de expressão. Noutras palavras, já que o que inferimos não se expressa da mesma e fixa maneira, não podemos confiar em expressões objetivas e fixas para fazer a inferência.

Dados os modos atuais de pensamento, uma conclusão de que os conceitos da teoria social são intrinsecamente sensibilizantes e não definitivos será sumariamente desprezada como puro disparate pela maioria das pessoas em nosso campo. Outros que sejam levados a pausar e considerar tal conclusão podem ser propriamente perturbados pelo que ela implica. Isso significa que nosso campo permanecerá para sempre em seu estado atual de imprecisão e renunciará às possibilidades de aperfeiçoar seus conceitos, suas proposições, sua teoria e seu conhecimento? Isso não está implícito. Os conceitos de sensibilização podem ser testados, melhorados e refinados. Sua validade pode ser testada através do estudo cuidadoso de casos empíricos que se suponham por eles abrangidos. As características relevantes de tais instâncias, que se identifica não serem adequadamente abrangidas por o que o conceito assevera e implica, tornam-se o meio de revisar o conceito. Em verdade, isso é mais difícil com os conceitos sensibilizadores do que com os conceitos definitivos precisamente porque se deve trabalhar com formas de expressão variáveis, ao invés de fixas. Essa maior dificuldade não impede o progressivo aperfeiçoamento dos conceitos de sensibilização por meio de um cuidadoso e imaginativo estudo do teimoso mundo ao qual tais conceitos são dirigidos. Os conceitos de assimilação e desorganização social, por exemplo, ganharam abstração mais apropriada e discriminação mais intensa através de estudos perspicazes e realistas, como os de W. I. Thomas e Robert E. Park. Na verdade, tudo o que eu estou dizendo aqui é que o cuidadoso e aprofundado exame de ocorrências em nosso mundo social natural fornece os meios de tornar os conceitos de sensibilização cada vez mais consonantes com o que tal estudo revela. Em resumo, não há nada de esotérico ou incomum, basicamente, na correção e refinação de conceitos sensibilizadores à luz de persistentes achados empíricos.

Deve ser apontado, ainda, que conceitos sensibilizadores, ainda que fundados na razão ao invés de em tratos objetivos explícitos, podem ser formulados e comunicados. Isto é parcamente feito por meio de definição formal e certamente não por meio do estabelecimento de referenciais. Isto se alcança, ao contrário, por meio de exposição que proveja uma imagem significativa, auxiliada por ilustrações adequadas que capacitam à compreensão da referência com base na experiência de cada um. É assim que chegamos a identificar sentido e razão em nossos conceitos. Semelhante exposição, deve-se adicionar, pode ser boa ou pobre — e da mesma maneira pode ser melhorada.

A deficiência na sensibilização de conceitos, então, não é inevitável nem irremediável. De fato, a deficiência admitida em nossos conceitos, que certamente são usados nestes dias como conceitos sensibilizadores, deve ser atribuída à inadequação do estudo dos casos empíricos a que se referem e à inadequação de sua exposição. O estudo inadequado e a exposição deficiente geralmente combinam. O grande vício, e o vício enormemente difundido, no uso de conceitos de sensibilização é tomá-los como certo descansar o conteúdo com qualquer elemento de plausibilidade que eles possuem. Sob tais circunstâncias, o conceito toma a forma de um estereótipo vago e torna-se apenas um dispositivo para ordenar ou arranjar instâncias empíricas. Como tal, não é testado e testado contra as instâncias empíricas e, portanto, perde o único meio de sua melhoria como uma ferramenta analítica. Mas isso meramente indica trabalho inadequado, desleixado ou preguiçoso e não precisa ser. Se variadas instâncias empíricas são escolhidas para estudo, e se esse estudo é cuidadoso, sondando e imaginativo, com um olho sempre alerta sobre se, ou até que ponto, o conceito se encaixa, meios completos são fornecidos para o refinamento progressivo de conceitos sensibilizantes.

Foi dito o suficiente para definir o problema do que há de errado com a teoria social. Ignorei uma série de pequenas deficiências ou as mencionei apenas superficialmente. Procurei apontar a fonte básica de deficiência. Isso consiste na dificuldade de trazer a teoria social em uma relação próxima e auto-correta com seu mundo empírico para que suas propostas sobre esse mundo possam ser testadas, refinadas e enriquecidas pelos dados desse mundo. Esta dificuldade, por sua vez, centra-se nos conceitos de teoria, já que o conceito é o pivô de referência, ou a porta de entrada, para aquele mundo. A ambigüidade nos conceitos bloqueia ou frustra o contato com o mundo empírico e mantém a teoria distante em um reino não realista correspondente. Tal condição de ambiguidade parece ser, em geral, verdadeira para os conceitos de teoria social.

Como corrigir esta condição é o problema mais importante da nossa disciplina na medida em que procuramos desenvolvê-la em uma ciência empírica. Uma grande parte, se não a maioria, do que fazemos nestes dias não toca o problema. A reflexão sobre a teoria existente, a formulação de uma nova teoria, a execução de pesquisas sem orientação conceitual ou de pesquisa em que os conceitos são aceitos sem crítica, a acumulação de quantidades de descobertas díspares e a concepção e uso de novos instrumentos técnicos — tudo isso gira em torno do problema.

Parece claro que existem duas linhas fundamentais de ataque ao problema. A primeira visa desenvolver procedimentos precisos e fixos que produzirão um conteúdo empírico estável e definitivo. Baseia-se em técnicas puras e padronizadas, em arranjos experimentais, em categorias matemáticas. Seu mundo imediato de dados não é o mundo social natural de nossa experiência, mas abstrações especializadas dele ou substitutos dele. O objetivo é retornar ao mundo social natural com conceitos definitivos baseados em procedimentos precisamente especificados. Embora tais procedimentos possam ser úteis e valiosos em muitos aspectos, a sua capacidade de estabelecer conceitos genuínos relacionados com o mundo natural é confrontada por três graves dificuldades que até agora não foram cumpridas com êxito.

A outra linha de ataque aceita nossos conceitos como sendo intrinsecamente sensibilizantes e não definitivos. Poupou-se as dificuldades lógicas enfrentadas pela primeira linha de ataque, mas à custa de perder a realização de conceitos definitivos com marcas de referência específicas e objetivas. Procura melhorar conceitos por pesquisa naturalista[4], que é pelo estudo direto de nosso mundo social natural onde os exemplos empíricos são aceitos em sua forma concreta e distintiva. Depende da descrição fiel dos relatos dos casos e da sondagem analítica em seu caráter. Como tal, seu procedimento é marcadamente diferente daquele empregado no esforço para desenvolver conceitos definitivos. Seu sucesso depende de um estudo de vida paciente, cuidadoso e imaginativo, e não de atalhos rápidos ou de instrumentos técnicos. Embora seu progresso possa ser lento e tedioso, ele tem a virtude de permanecer em estreitas e contínuas relações com o mundo social natural.

A oposição que esbocei entre esses dois modos de ataque coloca, creio eu, o problema de como a deficiência básica da teoria social deve ser abordada. Ele também coloca, eu suspeito, a linha primária de questão em nossa disciplina no que diz respeito a tornar-se uma ciência empírica do nosso mundo social natural.

[*] Herbert Blumer. “What Is Wrong with Social Theory”. The Mead Project, 2007.

Tradução: Helena Benício

Revisão: Rodrigo Carmo

[1] Ensaio lido na reunião anual da American Sociological Society, agosto de 1953.

[2] Há outros dois tipos legítimos e importantes de teoria social que eu não proponho avaliar. Uma delas busca desenvolver uma interpretação significativa do mundo social ou de alguma parte significativa dele. Seu objetivo não é formar proposições científicas, mas delinear e definir situações de vida para que as pessoas possam ter uma compreensão mais clara do seu mundo, suas possibilidades de desenvolvimento e as direções ao longo das quais ela pode se mover. Em cada sociedade, particularmente numa sociedade em mudança, há uma necessidade de clarificação significativa dos valores sociais básicos, das instituições sociais, dos modos de vida e das relações sociais. Esta necessidade não pode ser satisfeita pela ciência empírica, mesmo que alguma ajuda possa ser obtida da análise feita pela ciência empírica. Seu cumprimento efetivo exige uma sensibilidade às novas disposições e uma apreciação de novas linhas ao longo das quais a vida social pode tomar forma. A maioria da teoria social do passado e muito na do presente é consciente ou inconscientemente deste tipo interpretativo. Este tipo de teoria social é importante e está em seu próprio direito.

Um segundo tipo de teoria poderia ser chamado de teoria “política”. Trata-se de analisar uma determinada situação social, ou estrutura social, ou ação social como base para a política ou ação. Pode ser uma análise da estratégia e tática comunistas, ou das condições que sustentam a segregação racial em uma cidade americana, ou do jogo de poder nas relações de trabalho na indústria de produção em massa, ou do potencial moral de um país inimigo. Tal análise teórica não é feita no interesse da ciência empírica. Também não é uma mera aplicação do conhecimento científico. Tampouco é investigação de acordo com os cânones da ciência empírica. Os elementos de sua análise e suas relações têm uma natureza dada pela situação concreta e não pelos métodos ou abstrações da ciência empírica. Esta forma de teorização social é de óbvia importância.

[3] Parte de expressão historicamente atribuída a Mark Twain, que integralmente se leria “you can’t make an economy by taking in each other’s laundry (or washings)”. Literalmente, quer dizer algo como “não se pode criar uma economia através de uns pegarem as roupas dos outros para lavar”. Na prática, quer dizer que, se a pessoas se limitassem a lavar as roupas uns dos outros como meio de vida, não se produziria qualquer valor.

[4] Neste artigo não pretendi abordar a lógica da pesquisa naturalista.

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