O que há de errado com as Universidades hoje em dia? Isso pode ser solucionado?

Por Cardinal Mindszenty Foundation [*]

As faculdades e universidades de hoje tornaram-se centros de doutrinação política de alto custo. Trata-se de um sistema único na histórica do homem, em que aqueles que são doutrinados e mal treinados para o mundo real têm de pagar a seus doutrinadores, seja gastando as economias de suas famílias, seja obtendo empréstimos subsidiados pelo governo. Para assegurar que a doutrinação não desvie muito da linha do politicamente correto, professores e administradores erigiram um sistema de controle, a fim de garantir que somente aqueles que aceitam o “pensamento de grupo” a respeito de injustiças raciais, étnicas, ambientais e econômicas sejam autorizados a ensinar.

Esse sistema de controle começa com quem logra ser admitido na graduação, quais temas de dissertação são aprovados, quem é contratado para o professorado, quem se titulariza e, mais tarde, para alguns poucos escolhidos, quem consegue tornar-se administradores de alta remuneração. Então, apenas para se certificar de que não há falhas no sistema, os professores organizam programas de estudos de gênero e estudos étnicos, para que possam mobilizar os ativistas do campus a atacar quaisquer desertores em suas fileiras. Como outro resguardo para esta gaiola de ferro, burocratas federais impõem e interpretam uma série de regulamentos sobre faculdades e universidades. O Título IX provou ser uma ferramenta eficaz para rachar a dominação masculina sobre os esportes nas universidades e até mesmo um instrumento melhor para forçar o pensamento de grupo no campus.

A “Novilíngua” do Big Brother de George Orwell parece rústica em comparação com a atual compreensão do que seja “liberdade acadêmica”, “comunidade de estudiosos”, “justiça social” e “zonas de liberdade de expressão”.

A “Liberdade Acadêmica” Orwelliana

Por toda a América, as universidades e faculdades estão criando “zonas de liberdade de expressão” e restringindo a liberdade de expressão. Costumava haver uma “zona de liberdade de expressão” chamada América, mas não mais nos campi universitários. Em vez de permitir que professores e alunos manifestem-se livremente na sala de aula ou no campus, os administradores universitários têm adotado políticas para restringir a liberdade de expressão. Evidentemente, o “discurso de ódio” é restringido. A zona pode permitir que um pregador evangélico fale sobre pecado e a Bíblia (cercado por estudantes zombeteiros, na maioria dos casos), mas o discurso que possa ofender estudantes pertencentes a minorias, estudantes muçulmanos, mulheres ou outros grupos favorecidos é realmente proibido. Na sala de aula, o corpo docente fala continuamente sobre política de identidade, sobre como homens brancos e privilegiados oprimem as minorias raciais, sobre como cometeram genocídio contra os nativos americanos, escravizam os africanos, mantiveram as mulheres em suas casas e criaram, sistemas políticos, como a democracia americana, para manter o privilégio branco. Esse tipo de discurso é aceitável e, de fato, encorajado.

O que eles não podem falar, sem ser extraordinariamente cuidadosos, é qualquer coisa que pareça culpar a vítima. Isto significa que os professores têm de caminhar cuidadosamente sobre assuntos relativos a questões raciais, de gênero ou religiosas. Se esses tópicos são levantados em uma “zona de liberdade de expressão” ou na sala de aula, tanto os professores quanto os alunos têm de prefaciar suas observações com uma miríade de qualificações, mostrando que compreendem a complexidade destas questões.

No entanto, a restrição sobre o discurso vai além de apenas pensar duas vezes sobre o que poderia ser dito. A palavra-chave hoje é “micro-agressão”. A fala, a linguagem corporal ou o tom podem ser tomados como “micro-agressão” se um aluno sensível a vê como tal. A presidente do sistema da Universidade da Califórnia, Janet Napolitano, de fato publicou exemplos em seu site do que pode ser considerado comportamento micro-agressivo (http://www. thecollegefix.com/post/22839/). Incluídos nos exemplos de linguagem agressiva estão expressões como “Terra de Oportunidade” ou “Ação Afirmativa é racista”. Outros comentários proibidos são: “Todos podem ter sucesso nesta sociedade, se trabalharem duro o suficiente”; “De onde você é?” ou “Onde você nasceu?”; e “Quando eu olho para você, eu não vejo cor.”

Cometer uma micro-agressão é racismo subconsciente, sexismo, privilégio masculino branco, xenofobia e homofobia. As diretrizes supõem que o comportamento “micro-agressivo” pode ser bem-intencionado. Dizer a estudantes do sexo feminino ou negros que, se eles trabalharem duro, podem ter sucesso, sugere que as mulheres e negros que não lograram sucesso carecem de ambição ou são preguiçosos. A lição deve ser que as mulheres que não quebraram o “teto de vidro” ou negros que vivem na pobreza devem culpar as profundas complexidades do racismo, sexismo, hegemonia cultural e privilégio masculino branco, historicamente e hoje.

Para garantir que o corpo docente tenha entendido a mensagem, o sistema da Universidade da Califórnia (UC) organizou sistemas de treinamento de líderes dos docentes ao longo do ano acadêmico de 2014-15 em todos os nove campi da UC. As sessões foram destinadas a ensinar professores sobre como evitar ofender estudantes e colegas, e dedicaram tempo a explicar como contratar um professorado mais diversificado. A suposição é de que discentes de cor e mulheres serão mais sensíveis, porque têm experimentado formas ostensivas e sutis de opressão.

Em seu romance “1984”, o “Big Brother” de George Orwell usa o medo da tortura para quebrantar os pensamentos subversivos de Winston Smith. A “Big Sister” de 2015 não usa tortura física para impor conformidade acadêmica, embora se suspeite que essas sessões de treinamento sobre “micro-agressão” devam ter sido torturantes demais para aguentar. Não se viu nenhuma preocupação quanto à imposição macro-agressiva da administração de uma Universidade custeada com recursos públicos restringindo manifestações comuns de membros do corpo docente.

Devorando os seus?

Laura Kipnis, feminista docente da Northwestern University, em Illinois, chamou a atenção da mídia nacional (americana) quando foi atacada por estudantes de sua universidade por um ensaio que escreveu para a Crônica da Educação Superior, em fevereiro de 2015. Seu ensaio, “A Paranoia Sexual Atinge a Academia” (Sexual Paranoia Strikes Academe), de linguagem extravagante destinada a despertar emoção, defendia professores que namoram estudantes de graduação e pós-graduação. Ela declarou que, quando era estudante, “O abismo entre estudantes e professores não era um fosso cheio de tubarões; um passo em falso não era fatal. Fazíamos festa juntos, bebíamos e ficávamos embriagados juntos, dormíamos juntos. Os professores podiam ser mais velhos e mais realizados, mas você não sentia que poderiam tirar proveito de você por causa disso. Como fariam isso?” Ela objetou que a “paranoia sexual” estava perseguindo a vida universitária, e que abominava isso.

Códigos severos de conduta entre professor e alunos, ela argumentou, têm penetrado todos os aspectos da vida do campus — língua, currículo, discussão acadêmica e vida social. Espera-se que os professores alertem os alunos de que o que venham a ler ou ouvir numa palestra ou discussão em sala de aula pode ser perturbador. Para proteger a sensibilidade dos alunos, os professores são obrigados pelos administradores da universidade a emitir “trigger warnings” — ou “alertas” — sobre materiais dessa natureza. Estudantes aos quais se tenha atribuído a leitura do poeta latino Ovídio, por exemplo, precisam ser alertados de que leriam sobre romanos estuprando mulheres sabinas.

Kipnis mirou, particularmente, a utilização do Título IX para impor esses códigos de conduta. Pouco depois de a administração da Northwestern University emitir seu código de conduta de estudante e professor, o comitê de coordenação Título IX da universidade emitiu uma nova linguagem para esclarecer o código. “Todos recebemos um longo e-mail da comissão”, lembrou Kipnis. “O comitê estava respondendo a uma petição de estudante e governo que exigia que os ‘sobreviventes’ fossem informados sobre os resultados das investigações de assédio sexual”. Ela ressentiu-se particularmente com o uso repetido da palavra “sobrevivente”. “Não seria ‘acusador’ o termo apropriado? Como alguém pode ser acoimado de ‘sobrevivente’ antes do julgamento sobre a acusação — isto é, supondo-se que não queremos predeterminar a culpa do acusado.”

Seu ensaio foi destinado a ser inflamatório, e isso foi. Ela foi atacada em duas direções — protesto estudantil e queixa jurídica. Os manifestantes estudantis começaram a arrastar colchões em redor do campus, sugerindo que Kipnis queria transformar Northwestern em um bordel estudante-professor. O pior estava por vir, entretanto. A defesa de Kipnis de um professor de filosofia que tinha sido julgado não culpado de acusações de agressão sexual levou outros estudantes a apresentar uma queixa fulcrada no Título IX contra ela. Kipnis foi trazida perante um comitê universitário regido pelo Título IX. Não lhe foi permitido o patrocínio de advogado, o direito de chamar testemunhas em seu favor ou o direito de confrontar seus acusadores. As acusações foram descartadas, mas todo o processo cheirou a uma “star chamber”[1]. Até a progressista Michelle Goldberg, colunista cultural do “The Nation”, achou difícil defender as ações dos alunos. Goldberg concluiu: “A política de libertação ajusta-se incomodamente com a política de proteção”.

O que tornou o episódio tão doloroso para a esquerda foi que Kipnis era um deles. Ninguém duvidava de suas credenciais feministas. Em seu ensaio, ela pediu a castração química de estupradores e celebrou a revolução feminista no ensino superior. Sua defesa dos relacionamentos sexuais entre professores e alunos certamente não emanava de uma perspectiva moral conservadora.

Questões mais profundas: Custo, Qualidade

Enquanto alguns conservadores regozijavam-se com o fato de que a esquerda acadêmica devorava a si mesma, e progressistas preocupavam-se em apoiar ou não o professor feminista ou as ativistas feministas estudantes, as questões mais abrangentes com as quais os administradores e professores universitários deveriam se preocupar dizem respeito à qualidade da educação que as faculdades têm provido a um custo muito alto aos estudantes. O estudante universitário de hoje paga em média cerca de U$ 13.300 (treze mil e trezentos dólares) por ano em uma instituição pública que ofereça cursos de quatro anos. Isto é o dobro do que um estudante universitário pagava ($ 6.800 — seis mil e oitocentos dólares) em 1967. Os custos das faculdades privadas triplicaram durante o mesmo período. Este aumento levou a uma dívida estudantil de mais de U$ 1 trilhão (um trilhão de dólares), criando uma bolha que deveria causar preocupação nacional. O que os alunos estão alcançando, em virtude dessa educação, no mercado global? Não muito, parece.

Um estudo de 2015 realizado pelo Educational Testing Service — ETS (ou “Serviço de Avaliação Educacional”) sobre a “geração do milênio” nos EUA, Europa e Japão revela o fracasso de nosso sistema educacional em treinar os futuros trabalhadores para uma economia cada vez mais baseada no conhecimento (Educational Testing Service, America’s Skills Challenge: Millennials and the Future, 2015). Competência em leitura, aritmética e resolução de problemas é essencial para o sucesso em uma economia avançada e complexa.

O estudo do ETS mostra o quão terrivelmente deficientes nossos jovens estão no desenvolvimento dessas habilidades. Os números são surpreendentes:

Leitura: os jovens da “geração do milênio” americanos classificam-se abaixo de 15 entre 22 países participantes, acima apenas da Espanha e da Itália.

Aritmética: os jovens da “geração do milênio” americanos classificam em último lugar, junto com Spain e Italy.

Resolução de problemas: os jovens da “geração do milênio” americanos ocupam o último lugar, junto com a República Eslovaca, a Irlanda e a Polônia.

Os detalhes deste relatório são ainda mais alarmantes. Os americanos da “geração do milênio” nos 90% de desempenho acadêmico obtiveram pontuações mais baixas que seus pares em 15 países, superando apenas a Espanha. Pior ainda, as pontuações dos americanos da geração do milênio com menores níveis de desempenho acadêmico (nos últimos 10%) foram menores do que as de seus homólogos em quase todos os outros países participantes. A faixa etária mais jovem desta geração (16 a 24 anos), aqueles que poderiam estar na força de trabalho até 2065, ficou em último lugar entre os seus pares em aritmética e estava no fim da lista também na resolução de problemas. Estamos formando mais estudantes na faculdade, e gastamos mais do que a maioria dos países europeus na educação pública, mas estamos falhando em treinar nossos filhos para uma economia globalizada e competitiva.

Os orçamentos universitários expandiram-se grandemente desde os anos 60. As demandas dos estudantes, professores e administradores têm contribuído para o custo do ensino superior. Os estudantes de hoje exigem mais do que um único dormitório com beliches. Eles esperam viver em apartamentos no campus. Já não serve uma xícara de café comum na lanchonete local; em vez disso, é preciso tomar café no Starbucks do campus. Eles demandam instalações recreativas sofisticadas, com máquinas de academia, esteiras e bicicletas. Salas de aula com um atril e um quadro-negro não são boas o suficiente. As salas de aula precisam ser inteligentes, com equipamentos que permitam aos professores fazer apresentações em PowerPoint para que os alunos possam aprender visualmente, mesmo enquanto olham para seus computadores ou iPhones em vez de tomarem notas. Tudo isso custa dinheiro.

Os salários dos professores aumentaram mais rapidamente do que os de qualquer outro grupo profissional, exceto os médicos. Um professor de tempo integral em uma instituição pública de cursos de doutorado de quatro anos recebe, em média, U$ 126.981,00 (cento e vinte e seis mil novecentos e oitenta e um dólares). Naturalmente, há grandes disparidades dentro das universidades e entre as universidades. Não obstante, salários mais altos para professores contribuem significativamente para o custo da educação. Professores exigem maiores salários embora ensinem a menos turmas. Enquanto isso, cada vez mais administradores universitários estão recebendo salários em nível corporativo. Somado a isso, estão os altos custos de treinadores e funcionários esportivos.

Os crescentes custos das universidades e da educação superior têm sido subsidiados pelo governo federal através de empréstimos estudantis e bolsas de pesquisa. Estes subsídios federais permitiram que faculdades e universidades aumentassem a taxa de matrícula dos estudantes. É um esquema de pirâmide. Os estudantes assumem dívidas para pagar uma educação universitária na esperança de um trabalho bem remunerado para pagar suas dívidas. Enquanto isso, bilhões de dólares de dívidas de estudantes não pagas constroem a pirâmide bamboleante.

Os administradores respondem à crise

Sob pressão para fazer frente aos crescentes custos, os administradores universitários passaram a expandir sua base de estudantes por meio da educação on-line, enquanto reduzem seus custos trabalhistas. Poucas pessoas na educação superior realmente acreditam que a educação on-line é tão boa, em termos de qualidade, quanto cursos presenciais. A promessa é que a educação on-line vai melhorar. Provavelmente sim, mas há uma grande diferença entre ter uma discussão em sala de aula com alunos reais e uma sala de bate-papo on-line. Conversas individuais com os professores após a aula ou durante as suas horas de trabalho sobre o curso que um aluno esteja fazendo ou sobre planos de carreira são difíceis de replicar em um curso virtual. Conversar on-line não permite tanto em termos de experiência pessoal.

Enquanto expandem a sua base de clientes, as faculdades e universidades estão cortando seus custos trabalhistas através da contratação de professores adjuntos. A titularização é um status declinante na maioria das universidades. Hoje, apenas cerca de 20% de todas as classes são ensinadas por professores titulares. Entrementes, os professores adjuntos têm um incentivo para dar notas mais altas. Alunos com notas mais altas dão avaliações de curso mais favoráveis, aumentando a probabilidade de que o professor adjunto seja recontratado no ano seguinte.

O que pode ser feito?

As faculdades do século XIX eram principalmente privadas e confessionais, protestantes ou católicas. Seu objetivo era treinar seus alunos em caráter moral e liderança. Era comum em faculdades protestantes o presidente da universidade lecionar sobre moral nos seminários que culinam o fim da graduação. O texto primário era “Elementos de Ciência Moral”, de Francis Wayland (1835). Esse livro tem suas raízes na Escola do Realismo de Senso Comum escocesa, no Cristianismo e “laissez-faire” econômico. O objetivo das faculdades era treinar cidadãos virtuosos.

Não podemos retornar ao passado. A faculdade tal como era no Século XIX está morta, exceto por algumas pequenas faculdades ainda preocupadas com conceitos como virtude, honra e valores mais elevados. Faculdades públicas e privadas, com poucas exceções, estão sob estresse financeiro, especialmente porque os governos têm-lhes cortado o financiamento. Este é um momento perfeito para que os doadores, os ex-alunos e o público insistam para que as universidades se preocupem com a alfabetização cívica e com as contribuições da cultura ocidental (mesmo dentro de um contexto global). Ex-alunos, doadores e fundações podem atrair administradores e professores para dotar centros e professores que ofereçam cursos tradicionais e introduzam estudantes a Aristóteles, Platão, aos Artigos Federalistas, Abraham Lincoln e autores de grande literatura.

Como Winston Churchill disse certa vez, nunca desperdice uma boa crise. Nessa tempestade perfeita dentro das universidades, foi criado o ambiente para uma real mudança de clima.

[*] Cardinal Mindszenty Foundation. “What’s Wrong with Today’s Universities? Can It Be Remedied?”. Mindszenty Report, Julho de 2015.

Tradução: Helena Benício

Revisão: Rodrigo Carmo

[1] N.T.: Trata-se de expressão pejorativa que se refere a tribunais ou corpos e comitês de julgadores que atuam de maneira inquisitorial, proferindo decisões arbitrárias mediante procedimentos secretos ou juridicamente questionáveis. A origem da expressão “Star Chamber” remonta a uma antiga Corte existente na Inglaterra, e abolida em 1614, que se reunia e proferia decisões sem a presença de júri, adotando métodos inquisitoriais.

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