O que é Honra?

Por Jeremy A.Kee [*]

I. Introdução

Houve um tempo, nos dias que se foram, em que a honra era a principal força-motriz de todo homem grandioso, bom e decente. Todas as ações de suas mãos, cada pensamento que saia de sua mente para a boca findava em seus lábios, cada motivação para quaisquer fins válidos aos seus empreendimentos – todas elas eram ditadas por um senso de honra inato, objetivadas a sustentar a honra já existente, ou então em recuperar a que por meio de algum infortúnio tenha sido degradada. A honra tem sido por um milênio o ponto central nas histórias que contamos às nossas crianças na esperança de que elas também cresçam para viver honradamente. Homens e mulheres de valor matariam o dragão, derrotariam a bruxa, derrubariam ou subverteriam um rei perverso, tudo na intenção de preencherem seus sensos de honra.

Não relegada somente aos contos de fada, a honra é igualmente encontrada em todas as grandes narrativas da história, conhecidas ou não. Homens e mulheres de honra falam para as almas; eles falam para aquilo que é real e verdadeiro em cada ser humano. A razão para isto se dá por que a honra, o que quer que ela determine, é em si mesma honesta, benévola, bela e verdadeira. O homem honra a Deus, aos profetas, e aos seus pais. Ele honra suas promessas, seus votos, suas leis, e suas dívidas. Ele honra seus atletas, os sábios, e uma miríade de grandes realizadores de nossa sociedade.

O que é, então, honra? O que se segue abaixo é um olhar sobre diversas ideias de honra através das eras, seguido do que é a honra em seu estado presente para a humanidade, e por fim algumas conclusões. Esta é, lamentavelmente, apenas uma introdução sobre o assunto e será dificilmente um trabalho extenso.

II. O Homem Magnânimo de Aristóteles

Ainda que não imune ao criticismo acadêmico, o conceito de “homem magnânimo”, esboçado por Aristóteles na obra Ética a Nicômaco, é certamente uma versão inicial do conceito de homem honrado. Muitos criticaram a concepção de Aristóteles, que faz disto um lugar propício para ingressarmos em futuras investigações sobre o que torna um homem honrado.

No livro IV da Ética, o filósofo dá-nos um exemplo simples de conduta e comportamento de um homem cuja alma é grande. Alguns desses pormenores evidenciam a honra, enquanto outros se afiguram como próprios dos ideais e condutas da era moderna, que está dentre a mais transitória das gerações humanas. Por ocasião, Aristóteles alega que um homem de grande alma não se submete a riscos pequenos e irá alegremente favorecer os outros ao mesmo tempo em que se esquivará de fazer alarde sobre o seu ato de caridade. Estas características demonstram ser honrosas o suficiente. Contudo, este mesmo Homem Magnânimo está apto a mostrar generosidade tanto para aqueles de alto status, como para aqueles de status abaixo do dele. O Homem Magnânimo é também aquele que vive sua vida como quer ao passo que se submeter à vontade de outrem seria algo próximo da escravidão.

Aristóteles desta forma retrata uma imagem complexa, pelo menos para a concepção moderna do significado de honra. Apesar de sua grande proeza intelectual e filosófica, Aristóteles não é infalível em suas conclusões. Ele apresenta uma imagem de um tipo de pessoa que é facilmente comparável ao que conhecemos como aristocrata. Aristóteles, sendo de um lugar e tempo diferentes, pôde expressar inferências que são próprias de sua época. Poderia alguém então admitir que a honra é relativa? Creio eu que isto é uma dedução falsa e perigosa.

III. Cavalheirismo e Obrigações da Nobreza

O cavalheirismo está morto”, muitos sugerem hoje, e talvez os que acreditam nesta impressão estejam certos. O código dos cavalheiros era o código de conduta para os cavaleiros da Idade Média. Para viver sob este código, apesar de certas variações de um grupo para outro, era esperado que um cavaleiro protegesse os pobres, os fracos, e os indefesos; servisse os bons, buscasse a justiça, e tivesse retidão em sua conduta. É a partir daí que o senso de honra se torna facilmente identificável.

Porventura a mais recente e confiável ideia de honra vem daquele bastião do desejo de honra, França. É da terra da guilhotina e do champagne que recebemos o conceito conhecido na língua francesa como Noblesse Oblige. Traduzido para o Português como “A Nobreza obriga,” Noblesse Oblige aponta que com a prosperidade, o poder e o prestígio vem as responsabilidades sociais; é uma obrigação moral agir com honra, benevolência, e generosidade. Em nossa moderna e descartável cultura, não surpreende que tal noção tenha saído de moda. Não solitário em sua culpa, o indivíduo deve, aliás, admitir que um cinismo desconcertante invadiu a psique conservadora moderna, na qual o indivíduo crê ou por livre escolha ou por imposição que aqueles que são menos favorecidos que ele estão assim somente por causa de más escolhas, e, deste modo, são indignos da ajuda daqueles de posições sociais mais altas e privilegiadas. A isto, deveremos retornar mais a frente.

V. A Cultura da Honra VS. A Cultura da Lei

Em uma sociedade como a nossa, na qual o ônus cívico basicamente se encontra na lei, é comum que o conceito de honra rapidamente perca sua relevância na sombra da onipotente lei. Se o homem tem a lei, ele não tem a mínima necessidade de ter honra ou moral, ou ética, para isto é que temos a lei que nos diz o que é certo e o que é errado. Definir certo e errado desta forma é desleixo, e nada mais.

O exilado soviético e titã do intelectualismo conservador, Aleksandr Solzhenitsyn, discursou nesta mesma questão durante sua fala para os graduandos da Universidade de Harvard em 1978. A saber:

A sociedade Ocidental presenteou-se com um modelo de organização mais adequado aos seus propósitos fundamentados… na letra da lei… Qualquer conflito é resolvido de acordo com a letra da lei e isto é considerado a resolução suprema. Se alguém está certo do ponto de vista legal, nada mais é requerido. Ninguém mencionará que alguém poderia não estar totalmente correto, recomendam o autodomínio, uma disposição para renunciar a esses direitos legítimos, ao sacrifício e ao risco altruísta. Isto soaria simplesmente absurdo… Todos se movem pelos limites extremos destas disposições legais.”

Avesso a ilegalidade, e ao totalitarismo, Solzhenitsyn, no entanto, reconhece que a dependência excessiva da autoridade da lei pode matar a alma, e quanto maior for a dependência, logo, mais rápida a morte. Novamente ele argumenta,

Uma sociedade sem nenhum outro equilíbrio senão o jurídico não é digna do homem. Uma sociedade que é baseada na letra da lei e nunca alcança qualquer elevação está adquirindo escassa vantagem das grandes possibilidades humanas. A letra da lei é muito fria e formal para ter influência benéfica sobre a sociedade. Sempre que o tecido de vida é trançado por relações legais, há uma atmosfera de mediocridade moral, paralisando os mais nobres impulsos humanos. E será simplesmente impossível resistir aos processos deste século ameaçador apenas com o suporte de uma estrutura legalista.”

Solzhenitsyn fala do homem como se ele não estivesse a viver conforme seu potencial, como se ele escolhesse limitar a si mesmo porque ao fazer isso, ele não teria que se preocupar de levantar da cama, assumir riscos, ou verdadeiramente tomar decisões com consequências. Com a autoridade da lei como seu guia, a mente do homem já está pronta antes de sequer estar em uma situação que requererá dele estas coisas. Quão preciso é o corte; Ainda assim, a lâmina moral deste homem tornar-se-á cega e obtusa.

VI. O que, então, é Honra?

Ao final de tudo isto, o que é honra? Devo novamente apelar ao discurso de Solzhenitsyn em Harvard para chegar a uma conclusão imparcial. Ao resumir suas inferências sobre a dependência excessiva do Ocidente a supremacia da lei no direcionamento das interações humanas, ele expõe,

A defesa dos direitos individuais chegou a tal extremo, a ponto de tornar toda a sociedade indefesa perante certos indivíduos. É hora, do Ocidente – É chegada a hora, no ocidente, de defender menos os direitos humanos e dar-se ênfase as obrigações humanas.”

A defesa das “Obrigações humanas”. É isso, eis a questão! A simples menção de tal sentença pode muito bem mandar um recado a muitos conservadores modernos por ai, mas, em qual lugar tal repugnante ideia é discutida? Afinal, na terra dos homens livres, quem tem autoridade de inquirir seus vizinhos sobre suas obrigações? O homem deve ser livre para agir como quiser, tão logo não haja prejuízo a outrem, e desta forma segue a filosofia moderna. Porém, ao fazer isso não se está prejudicando os outros? Dito de outra forma, ao escolher agir conforme quer não estarão as outras pessoas sendo prejudicadas? Cada decisão na vida de cada homem criará inevitavelmente um efeito colateral. Nenhum homem é uma ilha; nem mesmo suas escolhas são, e se o homem provou alguma coisa durante os anais da história é que os fatores – entendido nas universidades modernas e no léxico do conservadorismo moderno por um termo mais honesto “Interesse próprio” – egoístas sempre foram muito significantes nos processos de tomada de decisão. Fazer a coisa certa, o que costumeiramente exige certo grau de sacrifício, é uma opção viável apenas se o agente desta lucra, no entanto se ele de fato lucrar com isso, quão honrosa foi a sua atitude?

Um homem, para ser honrado, deve defender as obrigações humanas, em uma sociedade muito mais focada no indivíduo e no materialismo do que no espiritual e no bem, a opção honrada frequentemente requer que abdiquemos dos ideais modernos. Retornemos a noção conservadora de que aqueles que estão em uma posição socioeconômica inferior tem somente suas más escolhas para culpar, a resposta honrosa e certamente a mais impopular, é, “Que diferença isso deveria fazer?” A honra não faz vista grossa e nem determina quem é merecedor de uma resposta digna. A honra testemunha a obrigação humana não realizada, e suas consequências. Deixemos as críticas para os homens de pouco valor.

Fazer algo honrado é sujeitar todo o seu ser a acreditar que está subjacente a toda vida humana e suas relações sociais, e de fato a toda existência, um senso universal de certo e errado. Alguns denominam isto como lei natural, outros, verdade objetiva; Qualquer que seja seu desígnio permanece inalterado o sentido – uma lei imutável na qual se espera que os homens não apenas sigam ao interagir com os outros, contudo também na qual os homens sustentem uma justa expectativa de como serão tratados pelos outros. Se empenhar em viver honradamente é nada além de satisfazer o impulso inato sentido por homens e mulheres quando postos diante da escolha entre o certo e o errado.

Enquanto o câncer social do relativismo moral continua a se espalhar por toda a sociedade moderna, nosso senso coletivo de honra continua a decair. Como alguém pode agir de maneira honrada se a mais básica distinção de certo e errado é substituída por uma pseudofilosofia que argumenta que certo e errado são apenas construções sociais, relíquias da era passada? Isto evoca uma história contada a mim pelo meu professor da faculdade, Tenente-Coronel Armstrong. Quando esteve no deserto iraquiano durante a Guerra do Golfo, ele e seu regimento percorriam o deserto sem ter sequer um ponto de referência em qualquer direção que olhassem. Após algum tempo, alguém notou algo pequeno no horizonte, como se estivesse a uma grande distância. O que quer que fosse, seguramente aquilo era bem maior dado o quão distante parecia estar, e assim em questão de segundos eles ficaram próximos do objeto – um simples tonel de óleo. Na ausência de qualquer outro objeto com o qual se poderia comparar, não havia medida para julgar seu tamanho.

Semelhante coisa pode ser dita de nosso atual compasso moral. Se um homem sugere que não há objetivamente certo e errado – uma declaração muito irônica dado que isto é em si uma afirmação objetiva – e se a vida que ele vive reflete esta indiferença objetiva entre bondade e maldade, então ele não possui embasamento no qual se construiria um mundo melhor, consequentemente não terá motivo para se queixar enquanto o mundo continua a desmoronar ao seu redor.

Se a honra tem algum valor, então seus preceitos são tais que permanecem constantes além das gerações. Ou o que hoje é considerado honrado poderia ser visto da mesma forma na época dos reis e cavaleiros, ou não o é nem mesmo hoje, nem o foi até então, nem nunca será considerado um ato de honra.

VII. Não Há Final Feliz?

Devemos ser gratos pelo relativismo ser apenas uma sombra, e não um objeto capaz de produzir uma sombra. Devemos ficar alegres, pois embora em decadência, a honra não está agora, nem nunca estará morta enquanto houver aqueles que desejem viver uma vida honrada. Afinal, lembremos que para sermos honrados, viver de acordo com um código objetivo de certo e errado nunca será um caminho confortável de andar, mas é como dizem nas palavras do Velho Testamento “A porta é larga e estreito é o caminho”

Concluirei este ensaio sobre honra com a citação de um homem que foi ele mesmo um gigante de uma grandeza muito além da compreensão do homem comum. Permita que as palavras seguintes sirvam de encorajamento para aqueles enfadados por um mundo sem honra.

Nunca desista. Nunca desista. Nunca, nunca, nunca, nunca – em nada, notável ou pequeno, grande ou insignificante – nunca desista, exceto por convicções de honra e bom senso.”

-Sir Winston Churchill

Harrow School, 29 de Outubro, 1941.

[*] Jeremy A.Kee. “What is Honor?” The Imaginative Conservative, 7 de Junho de 2014.

Tradução: Jay Messi

Revisão: Cássia H.

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