O Problema com a Autoestima

Por Lauren Slater [*]

Faça este teste:

  1. Em geral estou satisfeito comigo mesmo.
  2. As vezes penso que não sou bom em tudo.
  3. Sinto que tenho um bom número de qualidades.
  4. Sou capaz de fazer coisas assim como a maioria das outras pessoas.
  5. Sinto que não tenho muito de que me orgulhar.
  6. Certamente me sinto inútil as vezes.
  7. Sinto que sou uma pessoa de valor, pelo menos igual aos outros.
  8. Gostaria de ter mais respeito por mim mesmo.
  9. No geral, estou inclinado a sentir que sou um fracasso.
  10. Tomo uma atitude positiva com relação a mim mesmo.

Criado pelo sociólogo Morris Rosenberg, esse questionário é um dos mais usados amplamente para avaliação de autoestima nos Estados Unidos. Se suas resposta demonstram uma sólida autoestima, a sabedoria das ciências sociais prevê que você seja ajustado, esclarecido e sóbrio, basicamente lúcido, sem registro criminal e com algum tipo de grau superior distinto abaixo de sua capacidade. Se, por outro lado, suas respostas demonstram alguma vergonha, então isto é óbvio: você foi, ou é, uma mãe adolescente; você está propenso ao desvio social; e se você não bebe é porque as drogas ilícitas são abundantes e fortes.

Não tem sido muito discutido, até recentemente, que a elevada autoestima – definida simplesmente como gostar muito de si, mantendo uma opinião positiva sobre suas ações e capacidades – é essencial ao bem estar e que o oposto dela é responsável por crimes, abuso de substâncias, prostituição, assassinato, estupro e até mesmo terrorismo. Milhares de páginas de literatura sobre psiquiatria e ciências sociais sugerem isso, estudos com nomes como “Características de Pais Abusivos: Um Olhar Sobre a Autoestima” e “Baixa Autoestima Adolescente Leva a Múltiplos Problemas Interpessoais”. Em 1990, David Long publicou “A Anatomia do Terrorismo”, onde ele descobriu que sequestradores e homens bomba sofrem com sentimentos de inutilidade e que suas ações violentas e chamativas são tentativas desesperadas de trazer algum instinto interno a uma monótona autoimagem.

Isso faz tanto sentido que não pensamos em questionar. Quanto menos confiança você tem, pior é o que você faz; quanto mais confiança você tem, melhor é o que você faz; é assim então que funciona. Baseados em nossas crenças, temos criado programas de autoestima nas escolas os quais o principal objetivo é, como Jennifer Coon-Wallman, psicoterapeuta de Boston, disse, “dar grandes quantidades de aprovações sem levar em conta o desempenho real.” Temos a Associação Nacional para Autoestima com aproximadamente mil membros, e em 1986 o Legislativo do Estado da Califórnia criou a “Força Tarefa da Califórnia para Promover Autoestima e Responsabilidade Pessoal e Social”. Isso foi incentivado pelo deputado John Vasconcellos, que fervorosamente acreditava que aumentando o conceito que seus cidadãos tinham sobre eles mesmos ele poderia refrear o abuso de drogas e todos os tipos de outros males sociais.

Não funcionou.

De fato, as taxas de crimes e de abuso de substâncias estão formidáveis, juntamente com nossos resultados de autoavaliação em testes de papel e lápis. (Se esses testes são indicadores válidos e confiáveis de autoestima é um assunto digno de investigação em si, mas em linguagem escrita das ciências sociais, vai “além do escopo deste artigo”). Em parte, a discrepância entre altos escores de autoestima e habilidades sociais precárias e a perspicácia acadêmica levou pesquisadores como Nicholas Emler, da London School of Economics, e Roy Baumeister, da Case Western Reserve University, a considerar a noção inesperada de que a autoestima é superestimada e a sugerir que pode até ser uma culpada, não uma cura.

“Não há absolutamente evidência alguma de que a baixa autoestima é particularmente prejudicial”, afirma Emler. “Não é de todo uma causa de mau desempenho acadêmico; pessoas com baixa autoestima parecem fazer tão bem na vida como as pessoas com elevada autoestima. Na verdade, eles podem fazer melhor, porque eles costumam a tentar com mais afinco.” Baumeister leva as considerações de Emler um pouco mais longe, afirmando não apenas que a baixa autoestima é, na maioria dos casos, uma condição socialmente benigna, se não benéfica, mas também que o contrário, elevada autoestima, pode mutilar e até mesmo matar. Baumeister conduziu um estudo no qual descobriu que algumas pessoas com opiniões favoráveis de si mesmas eram mais propensas a administrar confusões, gritarias, do que um sujeito mais desanimado, tímido, daquele que segura as pontas. Uma experiência anterior demonstrou que os homens com elevada autoestima estavam mais dispostos a desonrar as vítimas a quem tinham administrado choques elétricos do que aos que eram seus pares subordinados.

Somente no ano passado, foram realizados três irônicos estudos de autoestima nos Estados Unidos, todos eles com a mesma mensagem central: pessoas com elevada autoestima representam uma ameaça maior para as pessoas a sua volta do que aquelas com baixa autoestima e sentimentos ruins a respeito de si mesmo e isso não é a causa dos maiores e mais caros problemas sociais de nosso país. A pesquisa é original e convincente e estabelece as bases para um novo e importante tipo de narrativa sobre o que faz a vida valer a pena – se escolher ouvir, o que pode ser difícil. Um dos fundamentos centrais deste país é, afinal, a busca da felicidade, o que tem sido estranhamente unido à busca da autoestima. Mudar um paradigma nunca é fácil. Mais de 2000 livros oferecendo a conquista da autoestima tem sido publicados; programas educacionais em escolas projetados a fim de cultivar a autoestima continuam a proliferar, do mesmo modo que os programas de reabilitação para os dependentes químicos que se concentram no realinhamento cognitivo com frases auto afirmativas como “Hoje vou aceitar-me por quem sou, não por quem eu queria ser.” Eu tenho visto terapeutas orientarem seus pacientes sociopatas a dizer “eu me adoro” todos os dias ou a postar notas com lembretes em seus armários de cozinha e acima de seus suportes de papel higiênico, auto afirmações lado a lado com o desperdício.

Daremos o alerta às nossas noções sobre autoestima que a elas é devido ou a pesquisa irá pelo caminho do desperdício? “Pesquisas como essa estão seriamente equivocadas”, diz Stephen Keane, um terapeuta que atua em Newburyport, Massachusetts. “Primeiro, está definindo a autoestima segundo noções masculinas muito convencionais e problemáticas. Segundo, é claro para mim que muitos homens violentos, em particular, tem essa vergonha interior; eles descobrem cedo na vida que eles não vão estar à altura, e eles compensam isso com os punhos. Precisamos, como homens, chegar ao lugar onde realmente podemos honrar e expandir nossa graça humana natural”.

O comentário de Keane está arraigado em uma história que remete a centenas de anos, e é essa história que nos impede realmente de lutar contra as ideias de cientistas como Baumeister e Emler. Temos mantido há muito tempo neste país a crença Byronica de que a natureza humana é essencialmente boa ou graciosa, que por trás da bainha da pele está um pequeno globo de brilho a ser aproveitado para usos criativos. Benjamin Franklin, assim acreditamos, adquiriu esse brilho, como Joseph Pulitzer e outras pessoas menores fizeram, as quais ansiosamente entraram na moda do que foi chamada, no século XIX, a “cura mental”.

A cura mental pressente a cura da Nova Era, de modo que quando olhamos para as origens vemos que a Nova Era não é nova. No século 19, as pessoas realmente acreditavam que você era o que pensava. Soa familiar? Poste acima do seu papel higiênico. Você é o que você pensa. O que você pensa. O que você pensa. Na década de 1920, um psicólogo francês, Émile Coué se tornou o motivo de maior ira neste país; ele propôs a técnica de autossugestão e logo havia muitos cidadãos repetindo “dia após dia, de todo o modo, estou ficando cada vez melhor”.

Mas como John Hewitt disse em seu livro criticando a autoestima, talvez Ralph Waldo Emerson, mais do que qualquer outra pessoa, tenha sido o responsável pelas palavras mais eloquentes e pela filosofia persuasiva do movimento da autoestima moderna. Emerson faleceu há mais de um século, mas você pode visitar sua casa em Concord, Massachussets, e ver seus chinelos amarrados por cordas de veludo e seus óculos, surpreendentemente frágeis, armação de ouro fino, lentes brilhantes, repousando sobre uma bela mesa. Foi nessa casa que Emerson escreveu seus famosos ensaios transcendentalistas como “On Self-Reliance”, no qual postula que o indivíduo tem algo inovador e autêntico dentro de si e que cabe a ele descobrir e alimentar isso para além das pressões corruptíveis da influência social. Emerson nunca mencionou “autoestima” em seu ensaio, mas cada palavra dele ecoa pelo movimento da autoestima de hoje com sua crença romântica, as vezes até estúpida e claramente humana, de que somos especiais, da cabeça aos pés.

A autoestima, como uma construção, como uma quase religião, está traçada numa tradição que ao mesmo tempo nos define e nos confina como americanos. Se nós fossemos desconstruir a autoestima, questionar o seu valor, nós estaríamos, de certo modo, questionando quem somos, nossa nacionalidade e individualidade. Nós estaríamos ameaçando nossa autoestima. Isto é provável porque nós não podemos assimilar verdadeiramente pesquisas como a de Baumister ou a de Emler; isso chega muito perto dos ossos e então os ameaça de quebrá-los. Imagine se você ouvir a professora do seu filho dizer “não pense muito a respeito de você mesmo”. Imagine sua esposa dizendo a você “você sabe, você não é tão bom naquilo que faz”. Nós temos desenvolvido um discurso de afirmação, e desviar-se dele seria entrar em outra arena, linguística e gramatical, de modo que o que saiu de nossas bocas seria na melhor das hipóteses indelicado, ou na pior das hipóteses ininteligível.

Há alguma maneira de falar sobre o “eu” sem medir o seu valor? Por que, como uma cultura, temos confundido as duas noções completamente separadas – a) eu e b) valor? Isso pode ter muito a ver com a nossa história empresarial como os americanos, em que tudo existe para ser melhorado, como acontece, novamente, com o poder da linguagem para moldar crenças. Como contaríamos a história do “eu”, se não triunfante, redentoramente, reforçada pelo avesso? Uma rápida olhada nos títulos da Amazon.com que contém a palavra “self” mostra que uma forte porcentagem também tem – um aperfeiçoamento ou – uma melhoria embutida neles, frequentemente com números – algo como “101 maneiras de melhorar sua autoestima”, “503 jeitos de melhorar sua perspectiva em 60 dias” ou “604 modos de superar a auto conversa negativa”. Você poderia dizer que esses títulos são produto de uma cultura, ou que esses títulos e conteúdos são o que molda a cultura. É o velho argumento: nós construímos a linguagem ou é ela quem nos constrói? No caso da autoestima, provavelmente é algo intermediário, um looping sinergético.

Sobre o tema da linguagem, se poderia culpar, é claro, Baumeister e Emler por usarem a “autoestima” de maneira muito unidimensional, ao ponto que ela se dissipasse e se misturasse com simples presunção. Baumeister, em uma tentativa de nuance, tentou esconder a questão se referindo a dois tipos previamente definidos: elevada autoestima instável e elevada autoestima bem fundamentada. Como psicóloga, eu me lembro de uma vez ter tratado um assassino que disse: “O problema comigo, Lauren, é que eu sou o maior pedaço de [palavrão] que o mundo gira em torno”. Ele teria uma alta pontuação em um teste de autoestima, mas ele realmente “se sente bem” sobre si mesmo? E se ele realmente não se sente bem sobre si mesmo, então não nos leva a crer que a sua escondida baixa autoestima, não a elevada, leva à violência? E, contudo, como Baumeister ressalta, a pesquisa mostrou que as pessoas com clara baixa autoestima não são violentas, então por que a baixa autoestima causaria violência apenas quando ela estiver escondida? Se você seguir tal linha de raciocínio, poderia surgir com uma tola espécie de conclusão de que a baixa autoestima escondida causa a agressão, mas a baixa autoestima visível não, o que significa que a ocultação, não a arrogância, é a verdadeira culpada. Isso faz pouco sentido.

“O fato é”, diz Emler, “temos colocado homens antissociais em todos os testes de autoestima que temos, e não há evidência do velho conceito psicodinâmico de que eles secretamente se sentem mal consigo mesmos. Esses homens são racistas ou violentos porque não se sentem mal o suficiente sobre eles próprios.” Baumeister e seus colegas escrevem que “as pessoas que acreditam estar entre os 10% superiores em qualquer dimensão podem ser insultadas e ameaçadas sempre que alguém afirmar que elas estão entre os 80, 50 ou 25%. Em contrapartida, alguém de baixa autoestima que se considere meramente nos 60% superiores só seria ameaçado por um feedback que o coloca entre os 25%… Em suma, quanto mais favorável é a visão de alguém sobre si mesmo, maior será o alcance de feedback externo a ser percebido como inaceitavelmente baixo.”

Talvez, como esses pesquisadores estão dizendo, o orgulho é realmente perigoso, e pouquíssimos de nós sabemos ser humildes. Mas isso provavelmente não é a razão inteira pela qual estamos ignorando as chamas que dizem “olha, às vezes a autoestima pode ser ruim para a sua saúde”. Como sempre, existem as forças do mercado, e elas são formidáveis. A indústria psicoterapêutica, por exemplo, teria um enorme êxito se a autoestima fosse reexaminada. Afinal, a psicologia e a psiquiatria estão baseadas na noção do “eu”, e seu aprimoramento é o propósito principal do tratamento. Eu não estou dizendo que os profissionais de saúde mental tenham qualquer desejo consciente de perpetuar uma visão talvez simplista da autoestima, mas eles são, nós somos (sou uma deles, confesso) os “varejistas culturais” do conceito de autoestima, e se o conceito hesitar acontece o mesmo com nossos bolsos.

Sério, quem viria para o tratamento para ser colocado para baixo? Como conseguiríamos que nossos clientes pagassem para ser, se não insultados, ao menos desconfortavelmente desafiados? Há aqui uma tensão profunda entre a psicoterapia como um negócio que precisa manter seus clientes e a psicoterapia como uma prática que tem no coração a saúde de seus pacientes. A saúde mental não é necessariamente algo confortável. Como queremos proteger nossos pacientes e nossos bolsos, nós nem sempre dizemos isso. As indústrias farmacêuticas que nos subscrevem nunca dizem isso. Pílulas que te levam a aceitação ou ao nivelamento, mas eu ainda tenho que ver um anúncio de uma droga de deflação.

Se você olhar a psicoterapia em outras culturas, terá um vislumbre das obsessões da nossa própria. Você também verá o fiasco de marketing que teríamos em nossas mãos se nós reduzíssemos as nossas crenças de autoestima. No Japão, há uma forma popular de psicoterapia que não foca no “eu” e no seu valor. Este tratamento psicoterapêutico, chamado Morita, tem como premissa central que o sofrimento neurótico vem, literalmente, do autoconhecimento extremo. “As pessoas mais miseráveis que conheço tem sido autofocalizadas”, diz David Reynolds, um médico de Morita em Oregon. Reynolds escreve que “a cura não é definida pelo alívio do desconforto ou realização de algum estado ideal (o que é impossível), mas pela ação construtiva na vida a qual ajuda a viver uma existência plena e significativa e não ser governado por um estado emocional.”

A terapia Morita, que enfatiza a ação sobre a reflexão, poderia ter algum problema aqui, especialmente na classe média ocidental, onde as pessoas passariam por dificuldades ao fazer jardinagem durante 50 minutos. É o que os pacientes da Morita fazem, plantam petúnias e praticam paciência enquanto esperam por seu florescimento.

Como todo sistema de crenças, a Morita tem suas limitações. Desapegar dos sentimentos que trazem consigo o risco de se desprender de seus sinais significativos, os quais trazem informações importantes sobre como agir: estender a mão, recuar. Mas a pesquisa atual sobre a autoestima sugere que realmente poderíamos nos beneficiar, se não física ao menos espiritualmente, com algumas petúnias do projeto Blue Cross. E o fato de que continuamos, no vernáculo, a usar a palavra “encolher” para se referir ao tratamento significa que talvez, inconscientemente, saibamos que às vezes precisamos ver que não somos tão importantes como pensávamos.

Ver o quê? Talvez o autocontrole devesse substituir a autoestima como um pino para tentar fortemente ter sucesso. Não quero soar puritana, mas há algo que precisa ser dito à disciplina, que vem da palavra “discípulo”, o que na verdade significa compreender. Por fim, o autocontrole não precisa ser visto como um estreitamento, restaurado ao seu significado original, pode ser experimentado como um tipo de façanha realizada por um atleta ou o que um artista demonstra, músculos não domesticados, mas treinados, ao ponto que os saltos são poderosos, a espinha flexível e a energia aproveitada e moldada.

Existem programas de terapia que ensinam algo como o autocontrole, mas previsivelmente não são grandes fabricantes de dinheiro e com certeza não atraem a maioria dos consumidores de terapia, a classe média alta. Um desses programas, chamado Emerge, é dirigido pelo psicólogo David Adams em um prédio de baixo orçamento em Cambridge, Massachusetts. Os clientes da Emerge são em sua maioria homens abusivos, 75% deles mandados pelos tribunais. “Uma vez iniciei um tratamento com agressor que estava na psicoterapia há três anos e sua violência não estava diminuindo”, disse Adams. “Perguntei a ele ‘Por que você acha que bateu em sua esposa?’ Ele me respondeu ‘Meu terapeuta me disse que é porque eu não me sinto bem internamente sobre mim mesmo’.” Adams suspira e então sorri. “Acreditamos que não tem nada a ver com o quão bom um homem sente sobre si mesmo. Com a Emerge, ensinamos os homens a avaliar honestamente seus comportamentos e a interagir com os outros usando empatia e respeito.” Com o fim de atingir esses objetivos, os homens escrevem suas histórias de abuso inteiras em folhas de papel, penduram na parede e leem elas. “Algumas histórias são tão longas que estão ao redor de toda a sala”, diz Adams. “Mas é um poderoso exercício. Isso faz que um garoto veja concretamente”. Outros exercícios envolvem ter os homens agindo fora do abuso com o conselheiro como vítima. Ao contrário das terapias “suburbanas” tradicionais, a Emerge não está sob pressão alguma para manter os seus clientes; os tribunais fazem isso por eles. Em troca, eles estão livres para seguir um caminho que tem a ver com “confronto equilibrado”, no centro do qual está a crítica reavaliação e a auto – não, não estima – responsabilidade.

Enquanto para um subgrupo específico de pessoas, a Emerge pode nos fornecer um modelo de como reconfigurar o tratamento – e talvez até a vida – se decidirmos que o “eu” não é sobre o quão bem ele se sente, mas o quão bem ele faz, no trabalho e amor. Trabalho e amor. É uma frase elaborada pelo próprio Freud, que uma vez disse que o indivíduo bem sucedido é aquele que alcançou um trabalho significativo e um amor significativo. Observe como esta frase é separada da noção de “eu”. Nós culpamos Freud por muitas coisas, mas não podemos culpar aquele vitoriano fumante de charutos por essa obsessão cultural particular. Foi Freud afinal quem disse que o trabalho da psicoterapia era transformar o sofrimento neurótico em sofrimento comum. Freud nunca afirmou que deveríamos ser felizes, e ele também nunca afirmou que a confiança era a chave para uma vida bem vivida.

Eu me lembro do choque que tive quando finalmente li este velho analista em sua língua nativa. As traduções em inglês de Freud o fazem parecer maníaco, se não egomaníaco, com suas palavras inchadas como id, ego e superego. Mas no alemão original alemão, id significa “abaixo do eu”, ego se traduz no “eu” e superego não é super hiper, mas, simplesmente, “sobre o eu”. Freud estava mostrando que pertence a você uma parte da mente que observa a mente, a qual toma a visão global em um esforço de honestidade. “Sobre o eu”. Consigo ver. E vendo isto, avalio, edito, elogio e podo. Isto é a auto avaliação, a qual precede o autocontrole, pois devemos primeiro saber onde nós vacilamos e tropeçamos, e onde somos realmente fortes, antes que possamos fazer alterações disciplinadas. Auto avaliação. Tem um certo tipo de ritmo, não tem? A auto avaliação pode ser o que Baumeister e Emler estão na verdade defendendo.  Se nossa vidas é história em construção, então nós devemos ser capazes de editar, como também de anunciar o texto. Auto avaliação. Se dissermos auto avaliação de novo e de novo, 101, 503, 612 vezes, talvez nós possamos criá-la. E aprender suas artes complexas.

[*]Lauren Slater. “The Trouble With Self-Esteem”. New York Times, 3 de Fevereiro de 2002.

Tradução: Patrícia Maragoni

Revisão: Rodrigo Carmo

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