O hijab e a normalização da Sharia no Ocidente

Por Gleice Queiroz:

No mês de setembro, pela primeira vez, a New York Fashion Week apresentou um desfile com modelos vestindo a “hijab” — a indumentária islâmica que deixa apenas o rosto das mulheres exposto. A estilista Anniesa Hasibuan foi muito aplaudida e elogiada. Notícias em todos os canais de moda ressaltavam a importância de acabar com o preconceito e a intolerância ocidental em relação às vestimentas impostas às mulheres de países islâmicos. Todavia, em nenhum momento, as pessoas pararam para refletir a respeito da simbologia presente nesse fato, o que é, sobremaneira, preocupante.

Conforme muito bem observado por Niall Ferguson, no livro Civilização, “o que as pessoas vestem é importante!” O historiador argumenta que Stefan Wolle, estudante da Alemanha Oriental em 1960, recorda: “No começo não era possível [comprar jeans na República Democrática Alemã]. O jeans era considerado a personificação do imperialismo cultural anglo-saxão. E usar jeans era extremamente malvisto. E não se podia comprar um. [Mas] muitos conseguiam com parentes que viviam no Ocidente […] Eles usavam, e os professores, os empregadores e os policiais nas ruas se irritavam. Isso deu origem a um mercado negro de produtos ocidentais que parecia ameaçar o Estado”.

“O jeans era tão desejado que as autoridades policiais soviéticas cunharam o termo “crimes de jeans”, que se referia a “violações da lei provocadas por um desejo de usar qualquer meio para obter artigos feitos de jeans”.  Em 1968, Régis Debray, filósofo esquerdista francês e antigo companheiro de armas de Che Guevara, observou: “Há mais poder no rock, nos vídeos, no jeans azul, na fast food, nas redes de notícias e nas antenas de TV do que em todo o Exército Vermelho.”

Continua Ferguson: “Dos pijamas sem forma dos Guardas Vermelhos de Mao às calças boca de sino dos hippies, a revolução de 1968 foi toda sobre roupas. Das minissaias aos biquínis, a revolução sexual foi toda sobre a ausência delas. […] A influência da moda ocidental se mostrou impossível de deter, sobretudo quando os alemães orientais puderam assistir televisão alemã ocidental […] Designers como Ann Katrin Hendel começaram a confeccionar suas próprias roupas em estilo ocidental, vendendo-as em porta-malas de carros. Hendel fez até mesmo seu próprio jeans: “Tentamos costurá-los usando lona encerada, ou roupa de cama, ou tecidos que não eram jeans. Também tentamos tingi-los, mas era muito difícil acertar no tingimento […] Eles se tornaram tão populares que as pessoas os arrancavam de nossas mãos”.

Mais adiante o autor diz: “Istambul é uma cidade cosmopolita, onde as roupas e os acessórios da civilização ocidental há muito são lugar-comum nas ruas. Caminhando pelos principais centros de compras de Istiklâl Caddesi, a sensação é de que poderíamos estar em praticamente qualquer lugar no mundo mediterrâneo. Mas basta ir a outra parte na mesma cidade — na área de Fatih, perto de Sultão Ahmed, por exemplo — e as coisas parecem muito diferentes. Para os muçulmanos devotos, as normas ocidentais de indumentária feminina são inaceitáveis porque revelam mais do que permite a religião. E é por isso que, em um país que é majoritariamente muçulmano, o turbante, o véu […] e a capa preta solta […] estão de volta.”

“Isso representa uma importante mudança de direção para a Turquia. […] A questão ilustra, mais uma vez, como as nossas roupas e acessórios podem ter um significado mais profundo. O lenço de cabeça e o véu são meramente uma expressão de fé pessoal, que qualquer sociedade ocidentalizada deveria tolerar com base no princípio de liberdade de expressão? Ou são símbolos antiquados da desigualdade social determinada pelo Islã, que uma sociedade secular deveria proibir?”

“O argumento islamita é que cobrir o corpo é não mais que uma opção inofensiva, que algumas mulheres escolhem exercer livremente. O véu, segundo dizem, é apenas mais uma forma de indumentária feminina, disponível nas lojas de Istambul em todas as cores e estilos, com brilhos para exibicionistas. A realidade, é claro, é que promover o véu é parte de um plano mais amplo de limitar os direitos humanos por meio da implementação da lei da sharia na Turquia, alcançando pouco a pouco o que foi alcançado de maneira muito mais repentina no Irã após a Revolução de 1979 — uma reação contra a “intoxicação ocidental” […] do Irã […]. Não é nenhuma casualidade que essa mudança na indumentária tenha sido acompanhada de uma mudança na política externa da Turquia. Outrora um pilar pró-americano da Oran e candidata a membro da União Europeia, a Turquia está cada vez mais se voltando para o Oriente, competindo com a República Islâmica do Irã pela liderança do mundo muçulmano, ressuscitando memórias dos tempos do poder otomano.”

O autor, então, termina afirmando que “a disseminação do modo de vestir ocidental foi inseparável da disseminação do modo de vida ocidental, assim como a reação contra o modo de vestir ocidental no mundo islâmico é uma revivificação do islamismo no mundo. […] Talvez a ameaça definitiva ao Ocidente venha não do islamismo radical, nem de outra força externa, e sim de nossa falta de compreensão e de fé com relação a nossa própria herança cultural”.

Fonte: FERGUSON, Niall. Civilização: Ocidente x Oriente. São Paulo: Planeta, 2012.

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