O efeito recíproco entre o fenômeno da mídia hostil e a polarização grupal

Por Robert D. Mather [*]

A política americana viu uma variedade de transformações desde o início dos anos 90. Os dois principais partidos têm se polarizado (veja “This is What the Future of American Politics Looks Like” por Michael Lind) e a mídia social tem criado um meio por meio do qual as atitudes dos eleitores podem, rapidamente, tornar-se extremas. O cientista político Kurt Jefferson e eu discutimos algumas dessas coisas no nosso recente artigo “The Authoritarian Voter? The psychology and Values of Donald Trump and Bernie Sanders Support” (Mather e Jefferson, 2016). Aqui, defenderei que os processos de psicologia social do fenômeno da mídia hostil e da polarização grupal têm desempenhado um papel substancial na evolução recente da política americana.

Persuasão é o processo de mudar atitudes, e a mídia pode fornecer a plataforma aos partidos políticos para avançar suas agendas e mudar as atitudes da população em questões que favoreçam as posições de um partido político particular. Vallone, Ross, e Lepper (1985) identificaram o fenômeno da mídia hostil, no qual partidários percebem a apresentação de informações tendenciosas por parte da mídia contra o lado deles. Eles mostraram segmentos da cobertura jornalística nacional americana (ABC, CBS, NBS) do massacre de Beirut em 1982 e as respostas avaliadas imediatamente após a visualização dos vídeos. Tanto os partidários pró-israelenses quanto os pró-árabes classificaram a cobertura como enviesada contra seus pontos de vista, e relataram que a visualização da cobertura seria relevante para persuadir partidários neutros para o outro lado.

Durante o ciclo eleitoral, eleitores partidários sempre acreditarão que os canais de notícias estão enviesados contra eles, independente de estarem ou não. No entanto, vieses nas notícias nos Estados Unidos podem, muito bem, ser reais devido à seguinte dinâmica. Fox News trabalha pesado para dizer aos seus telespectadores (amplamente Republicanos; Pew Research Center, 2010) que a Fox News está imparcial e todos os outros canais estão enviesados favoravelmente aos Democratas esquerdistas. Ao fazer isso, a Fox News identifica-se como enviesada para os telespectadores de todos os outros canais. Uma vez que isso acontece, Fox News pode direcionar sua cobertura para as preferências de sua audiência e, de fato, ser tendenciosa nos comentários extras que dá. Todos os partidos provavelmente superestimam a probabilidade de que espectador neutro seja persuadido pela cobertura, especialmente porque a identificação do viés autosseleciona os espectadores, e nenhum dos lados escuta o outro. Esse não é um fenômeno exclusivo da Fox News, mas a Fox News tem um papel chave no ciclo relacionado ao modo como a política americana pode ter se tornado recentemente tão polarizada. A polarização grupal é a tendência para grupos decidir ser mais extremos do que os membros, inicialmente, estariam inclinados a ser individualmente. Isso acontece porque 1) pessoas fornecem argumentos convincentes durante uma discussão sobre o quais outras pessoas não haviam pensado e 2) pessoas esperam para ver o que os membros de seu grupo querem, então escolhem algo mais radical para ganhar popularidade no grupo, usando a comparação social. Isso é um fenômeno básico de grupos pequenos e grandes, não apenas de partidos políticos.

Os eventos seguintes podem ter criado o contexto para a recente polarização generalizada nos Estados Unidos: 1994 GOP “Contract with America”; 1996 Fox News Channel lançou Roger Ailes como CEO (Consultor de Mídia Republicano), GOP tentou o impeachment de Clinton; 2000 a eleição presidencial foi para a Suprema Corte para uma decisão; logo em seguida, Bush cumpre um mandato sem que muitos democratas o reconhecessem como o presidente eleito; 2008 Democratas ganham a Casa Branca com um presidente negro e uma mudança na demografia do eleitorado, e, em 2016, Trump apela para os autoritários (descrito em maiores detalhes em Mather e Jefferson, 2016). Tudo isso, tendo em conta os novos espaços de mídia de massa (isto é, notícias de cabo, internet e mídia social), os quais fornecem um contexto em que as posições políticas são facilmente polarizadas em extremos, e isso pode ser usado por partidos políticos para vencer eleições.

Referências:

Lind, M. (2016, Maio 22). This is what the future of American politics looks like. Politico. (www.politico.com)

Mather, R. D., & Jefferson, K. W. (2016, May). The authoritarian voter? The psychology and values of Donald Trump and Bernie Sanders support. Journal of Scientific Psychology, 1-8. (www.psyencelab.com)

Pew Research Center. (2010, September 12). Ideological news sources: Who watches and why? Washington, D.C.: Author (www.peoplepress.org)

Vallone, R. P., Ross, L., & Lepper, M. R., (1985). The hostile media phenomenon: Biased perception and perceptions of media bias in coverage of the Beirut Massacre. Journal of Personality and Social Psychology, 49, 577-585.

[*] Robert D. Mather. “Fox News and American Politics Since 1994”. Psychology Today, 3 de Junho de 2016.

Tradução: Pedro Herique

Revisão: Gleice Queiroz

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