O cristianismo de Harry Potter

Por Bradley J. Birzer [*]

“Sua mãe morreu para salvar você. Se existe uma coisa que Voldemort não consegue entender, é o amor. Ele não percebe que um amor tão forte quanto o da sua mãe por você deixa uma marca.” Harry Potter e a Pedra Filosofal (1997)

Pelo ano de 2000 eu estava viajando para Houston. No caminho para o aeroporto de Detroit parei num mercadinho em Ann Arbor. Isso foi antes do 11 de setembro, e eu estava juntando algumas bebidas e comidas para enfrentar o voo relativamente longo de Detroit a Houston. Na fila do caixa, do lado de alguns jornais horríveis e doces a servir de isca para crianças, estava uma pilha de livros com um título interessante: Harry Potter e a Pedra Filosofal. A capa era simples, mas fui seduzido pelo título. Não tendo mais nada para ler no momento, comprei um exemplar. A partir do momento em que me sentei no avião, mergulher totalmente no mundo de J.K. Rowling.

Em parte, meu interesse foi puramente acadêmico. Eu já estava escrevendo um livro sobre J.R.R. Tolkien, e encontrar este livro recém-lançado foi um milagre. Tolkien afirmara que uma história fantástica não poderia ser ambientada no mundo moderno já que a tecnologia de nossa época estragaria a atmosfera. Embora não possa dizer que a escrita da Sra. Rowling esteja no mesmo nível de Tolkien (nem mesmo no mesmo plano de existência), fui tomado pela habilidade da autora de construir um mundo imaginário tão profundo no meio do nosso próprio turbilhão contemporâneo.

Por outro lado, porém, meu interesse foi puramente egoísta. Achei o livro absorvente enquanto entrenimento puro. A inteligência de toda a história, os personagens estereotípicos, o elemento Arthuriano de Harry, as invenções, o heroísmo. Desde o início parecia bastante claro para mim que Rowling conhecia bem a mitologia com que trabalhava – céltica, nórdica, anglo-saxônica e clássica – e que um senso de caridade e justiça cristã permeavam todo o livro.

Imediatamente após devorar o primeiro livro, comprei e mergulhei no segundo e no terceiro e aguardava ansiosamente o quarto livro. Não apenas comprei, mas li no mesmo dia de seus lançamentos o quarto, quinto e sexto livros. Cada um deles trouxe algo novo para a mitologia como um todo, e me descobri um membro privilegiado desse mundo fantástico. Então veio o número sete. Lançado em 21 de julho de 2007, Harry Potter e as Relíquias da Morte me entediou e decepcionou tanto quanto os seis livros anteriores haviam me encantado. O final de toda a série, pensei, não era nada mais nada menos que medíocre. Foi de encontro a quase tudo que a história tinha criado e defendido nos primeiros seis livros. Onde estava o heroísmo, a lealdade e o senso de justiça que impregnava cada página de cada um dos outros livros publicados por Rowling? Onde estava o mistério, o maravilhoso, e a profunda humanidade de tudo? Minha decepção ao final do livro me azedou. Considerando que eu tinha considerado seriamente escrever algo longo e acadêmico sobre a série (coisa que teria valido a pena!), dedicando-me por alguns anos para a tarefa, me encontrei mais que decepcionado no final do verão de 2007. Na verdade, me sentia totalmente apático sobre o assunto.

Eu mal me lembrava de Rowling ou Potter até mais ou menos seis semanas atrás. Meu quarto filho, ironicamente chamado Harry, tinha acabado de pegar o primeiro livro da série. O deleite contagiante daquele mundo – o menino, a escola, a magia, as amizades – irradiava-se dos olhos de meu Harry enquanto ele lia, ria, fazia caretas e continuava a ler.

Nosso Harry se guia muito pela própria cabeça, mas ele também queria compartilhar seu prazer recém-descoberto com todos nós. Para isso, ele deu início ao clube do livro da família Birzer, aos sábados.

Numa entrevista exclusiva com esse jovem leitor, Harry me disse “eu amo esses livros porque eles são cheios de magia. E eu sou um nerd, e eu amo tudo sobre ficção científica e fantasia. Além do mais, eles são simplesmente incríveis.”

Talvez tenha passado tempo o bastante desde minha desilusão e apatia, ou talvez eu só estivesse excitado por ver meu Harry devorando livros com tanta intensidade. Seja qual for a razão, quase uma década depois de esquecer a coisa toda, estou mais ou menos no meio do terceiro livro. Tudo parece muito novo e inteligente novamente.

Sejam quais forem as posições políticas, culturais e sociais de Rowling – ela ter rotulado retroativamente como homossexual o principal mago-mentor da série Potter, e sua decepção com o papa anterior ter dado pistas de suas inclinações esquerdistas – os livros são, em sua maior parte, profundamente tradicionalistas e humanos. Talvez ainda mais profundamente, eles sejam cristãos.

Na tradição testada e aprovada dos heróis ocidentais, Harry sofre imensa perda quando era um bebê. Um bruxo malvado matou seus pais. Órfão, Harry cresce sem amigos, negligenciado e abusado por parentes perversamente fofoqueiros de sua mãe, uma família “trouxa” (comum). No entanto, esta família comum é profundamente disfuncional. É relativamente classe média e falta-lhe qualquer imaginação; o pai, sintomaticamente, é um fabricante de brocas. Ele é, muito para seu próprio contentamento, uma engrenagem na máquina da modernidade. A família anseia pelos últimos luxos, repete o nonsense conformista que ouve em torno de si e almeja nada mais do que ser igual, mas ligeiramente melhor, do que os vizinhos.

Quando o inteligente e resiliente Harry descobre com a idade de onze anos que seus pais eram feiticeiros, e que ele também o é, torna-se evidente que seu destino é ser alguém incomparável e poderoso. Fazendo vários amigos próximos e frequentando uma escola para bruxos, Harry encontra-se em situações cada vez mais perigosas. Quaisquer que sejam suas travessuras (muitas vezes bastante normais para um menino), Harry nunca deixa a desejar quando se trata de ser fiel ou de se comportar heroicamente. Através dos três primeiros livros Rowling revela (explicita e implicitamente) que seu mundo mágico é um mundo tradicional socrático e judaico-cristão, baseado nas Sete Virtudes e na ética tradicional, e que o nosso mundo moderno é baseada no poder e na manipulação. O mal, no mundo mágico de Rowling, foi persuadido a crer que poder e manipulação transcendem o amor, e que eles podem funcionar também no mundo mágico. Tal ação, no entanto, só leva à sua própria condenação.

Em um de seus momentos mais explicitamente católicos, o vilão principal da história mata e bebe o sangue de um unicórnio. “O sangue de um unicórnio irá mantê-lo vivo, mesmo se você estiver a um centímetro da morte, mas a um preço terrível”, explica um personagem. “Você matou um ser puro e indefeso para salvar a si mesmo mas terá apenas uma semi-vida, uma vida amaldiçoada, a partir do momento em que o sangue lhe tocar os lábios.”

Seria difícil encontrar um momento paulino mais interessante (Coríntios 1, 11:29) na literatura infantil moderna.

No final da primeira história, Harry é merecidamente recompensado por seu heroísmo ao longo do livro. E no entanto, assim como a vida real, nem tudo acaba bem. A escola está fechada para o verão, e ele deve voltar a morar com sua família trouxa por três meses, um período torturante que assegura que ele nunca levará a si mesmo muito a sério.

[*] Bradley J. Birzer. “The Christianity of Harry Potter”. The Imaginative Conservative, 9 de Março de 2016.

Tradução: Duanne Scremin

Revisão: Felipe Alves

1 comentário

  • Alisson

    Cristianismo em harry potter? é sério isso?
    Pensei que ia tratar do desfoque, da zombaria velada a tudo o que é cristão nos livros, até lembrar do ponto em que o cristianismo está hoje. Um cristianismo que agrada a gregos e troianos, mais influenciado pela cultura e crenças ao redor que pela influencia do próprio Cristo, realmente é um cristianismo a ser tratado e visto por escritores anti cristãos como algo a ser mencionado em seus livros.

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