O conservadorismo de Hayao Miyazaki

Por Peter Schellhase [*]

No ano passado o diretor de animação japonês Hayao Miyazaki anunciou a aposentadoria com o lançamento de seu último filme, Vidas ao Vento. Este filme é um dos trabalhos mais perfeitos e pungentes da arte do cinema, seja com atores reais ou animado, que já vi.

O filme reacendeu controvérsias no Japão sobre as opiniões políticas de Miyazaki. À época de seu lançamento, o diretor publicou um ensaio político em que se opunha a alterações propostas à constituição japonesa, que permitiriam ao país criar um exército permanente e declarar guerra. Também argumentou que o Japão deveria pagar reparações às mulheres asiáticas usadas pelos militares japoneses como escravas sexuais durante a Segunda Guerra Mundial. A direita japonesa criticou fortemente os comentários de Miyazaki.

Enquanto isso, na América, alguns críticos condenaram o filme por retratar de forma simpática Jiro Horikoshi, o engenheiro aeronáutico que desenhou o icônico e mortal avião de caça Mitsubishi Zero.

A relutância do diretor de 73 anos em se curvar às posições políticas de qualquer lado sobre a guerra mostra que ele se devotou antes de tudo à integridade de seus princípios artísticos. No entanto os princípios de Miyazaki vão além de uma simples dedicação à arte. Dos primeiros filmes até Vidas ao Vento ele expressou o que eu descreveria como uma visão profundamente conservadora.

Miyazaki procura tudo aquilo que é bom na vida humana, na civilização e no mundo, e centra suas histórias na apreciação e manutenção dessas coisas. Retrata ideais de virtude, compaixão, comunhão e auto-confiança, e atribui um grande valor a tradição.

A visão conservadora de Miyazaki se expressa de várias maneiras, incluindo algumas que não seriam entendidas como conservadoras dentro da política americana. Vamos começar com o mais incompreendido, mas também um dos mais gratificantes aspectos do conservadorismo de Miyazaki: seu “ambientalismo”.

O ambiente

No nível artístico, as histórias de Miyazaki têm lugar em paisagens lindamente concebidas. Às vezes as imagens conservam-se sobre um panorama apenas em virtude de sua beleza. Muitas vezes os ambientes de seus filmes apresentam a natureza e a humanidade em harmonia, sejam em paisagens agrícolas, aldeias ou mesmo nas grandes cidades. Para Miyazaki as pessoas deveriam viver próximas à natureza. A cultura humana está integrada à natureza e destina-se a nela habitar.

O ambiente é um participante ativo nas histórias. Os caprichosos espíritos guardiões de Meu Vizinho Totoro encarnam antigos mistérios benevolentes do campo que cuidam de duas crianças recém-chegadas que sentem falta de sua mãe, exatamente como as pessoas da comunidade também cuidam delas. Da mesma forma, em Princesa Mononoke, o Príncipe Ashitaka reconhece sabiamente que os espíritos das árvores demonstram que a floresta está viva e sadia, embora eles aterrorizem os seres humanos que perderam o respeito pela natureza. Em Nausicäa do Vale do Vento, mesmo a odiada “selva tóxica” acaba tendo um papel importante na renovação de um mundo totalmente poluído pela guerra nuclear.

Miyazaki opõe-se ao uso predatório da natureza para fins contrários ao florescimento da harmonia entre ela e a civilização humana. A maioria dos poucos vilões reais dos filmes de Miyazaki são predadores desse tipo: os Tolmeckians em Nausicäa que querem reviver um guerreiro gigante incrivelmente destrutivo; o sombrio Príncipe Muska de O Castelo no Céu, que espera utilizar o poder de uma cidade voadora para dominar o mundo; ou a Madame Suliman de O Castelo Animado, uma feiticeira que tenta trazer todos os magos na terra sob seu controle e transformá-los em monstros belicosos. Os vilões de Miyazaki tentam dominar a natureza em busca da dominação política e, em última análise, são destrutivos para a natureza e para a civilização humana.

A respeitosa visão da natureza de Miyazaki compreende que o mundo deve ser habitado e administrado pelos seres humanos. Explorar ou mesmo destruir a natureza para ganhos de curto prazo é má administração e algo prejudicial para a humanidade, uma vez que este mundo nos foi dado como nosso lar permanente.

Eis aí um elemento que é pouco desenvolvido no conservadorismo da direita norte-americana, que às vezes é tentado a adotar uma postura caricata de “asfaltem o planeta” em reação às ideologias ambientais anti-humanas na esquerda. No entanto, o respeito pela natureza é uma inclinação naturalmente conservadora.

Miyazaki não é um ambientalista alienado. A “Natureza”, ou melhor, os espíritos representantes da natureza, nem sempre são bons. Podem ser contaminados pelo mal, tanto por causa do contato humano como por sua fraqueza e malícia próprias. Em Nausicäa os seres humanos vivem sob constante ameaça de uma selva venenosa e de insetos gigantes irritadiços. A Viagem de Chihiro nos apresenta um mundo espiritual tão moralmente complexo quanto o mundo humano, mudo esse que a jovem heroína humana deve entender e reconciliar-se para salvar os pais de uma maldição espiritual. A tensão política entre os guardas-lobo e os javalis da floresta em Mononoke mostra como, ao resistir à invasão dos seres humanos, os defensores da natureza também podem se tornar arrogantes, odiosos e autodestrutivos. Neste filme é o Príncipe Ashitaka que reconcilia afinal a humanidade e a natureza com seu enérgico auto-sacrifício.

Pacifismo

Ashitaka pertence ao povo Emishi, uma minoria racial reprimida e levada a se esconder pelos japoneses. Quando ele é obrigado a matar um deus-demônio javali para defender sua aldeia, ele fica infectado por uma maldição e se vê obrigado a deixar seu povo. A maldição lhe dá uma habilidade de luta sobrenatural, mas ele sabe que a violência, mesmo para o “bem”, vai acelerar sua destruição. Em busca de respostas e de uma cura, ele descobre os deuses da floresta em guerra com a industrialista Lady Eboshi. A história étnica de Ashitaka teria dado a ele motivos para se juntar aos deuses da floresta em sua campanha de vingança contra a humanidade. Em vez disso, proscrito, sem amigos, e à mercê de uma morte terrível, ele luta pela paz.

A disposição de Ashitaka mostra outra faceta da visão de Miyazaki que pelos padrões americanos podem não parecer muito conservadora: uma forte preferência pela paz e uma renúncia quase completa à violência. Suas histórias não evitam situações de violência e conflito. A guerra cria o cenário e é, pelo menos, parte do problema central para alguns deles, incluindo Nausicäa, O Castelo no Céu, Porco Rosso, Mononoke, O Castelo Animado e, claro, Vidas ao Vento. E nem Miyazaki oferece respostas triviais a perguntas difíceis. Ao escolher a não-violência muitos de seus heróis escolhem um caminho difícil e que exige sacrifícios. Quando o pai é morto e seu pequeno país invadido, a Princesa Nausicäa aceita a humilhação da derrota para salvar seu povo e, em última instância, a civilização humana. Esse tipo de pacifismo só é alcançado através de um trabalho ativo, doloroso e difícil. Requer liderança decisiva. O mesmo pode ser dito para muitos dos jovens heróis e heroínas de Miyazaki. Trazem a paz através do auto-sacrifício, do trabalho árduo e da transformação interior.

Afora personagens excepcionais como o Dr. Martin Luther King, Jr., este não é o tipo de pacifismo praticado por nossas escorregadias elites de esquerda, que marcham contra a guerra enquanto, fora dos escritórios e uma vez eleitos, abraçam a maneira mais fácil de exercer o poder.

Quando os personagens se envolvem em violência, Miyazaki mostra que tal decisão também não é fácil. À medida que o jovem feiticeiro egoísta Howl vai se apaixonando por Sophie, ele resolve parar de fugir de seus inimigos e resolve lutar em defesa daqueles que acabaram se tornando sua família. A luta é inevitável, mas quase o destrói. No final, o que salva Howl é a bravura e o amor de Sophie.

Feminismo

Falando em Sophie, vamos destacar as maravilhosas personagens femininas de Miyazaki. Alguns de seus filmes – Nausicäa, Totoro, O Serviço de Entregas da Kiki, A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado e Da Colina Kokuriko – têm uma protagonista feminina. De certa forma cada um desses filmes é uma história de amadurecimento, com a heroína se afastando de seu ambiente de infância para descobrir a própria personalidade e pontos fortes individuais. A princesa Nausicäa, já sendo um líder, supera com êxito uma crise política e ecológica extrema para salvar o seu povo e tornar-se rainha. A história de Kiki é claramente um rito de passagem em que a jovem “bruxa em treinamento” se estabelece em uma cidade desconhecida, experimentando as alegrias e provações da interdependência humana. Em A Viagem de Chihiro, Chihiro deve trabalhar duro e superar dificuldades para resgatar seus pais transformados em bestas. A heroína de O Castelo Animado, Sophie, já é uma “alma antiga”, mas a maldição de uma bruxa ciumenta a leva para uma viagem inesperada em que ela e Howl aprendem a suportar os fardos do amor e da responsabilidade. Umi, a heroína de Da Colina Kokuriko, também é bem madura e responsável no início do filme, mas no decorrer da história ela cresce em auto-compreensão e se torna capaz de lidar com a dor da perda do pai.

Seria difícil dizer exatamente o que se qualificaria como um filme “feminista”, mas existem maneiras fáceis de identificar alguns candidatos. Um é o “teste de Bechdel”: o filme tem pelo menos duas personagens femininas, e pelo menos uma cena em que elas discutem algo que não seja um homem? Outro teste é para ver se uma personagem feminina no filme tem sua própria trama e preocupações independentes daqueles de um protagonista masculino.

Por qualquer destas métricas, os filmes de Miyazaki não desapontam. O efeito do “olhar masculino” sobre os personagens femininos está geralmente ausente, embora Miyazaki tenha passado um dia na estação de trem esboçando como as saias das mulheres se movem como pesquisa para Kiki. (Estou inclinado a pensar que isso reflete a obsessão do artista com o realismo e os detalhes.) As personagens femininas de Miyazaki não são objetificadas nem excessivamente sexualizadas. São tão complexas e independentes quanto seus personagens masculinos, ou mais ainda. Os personagens masculinos e femininos são indivíduos únicos, com peculiaridades específicas e até incoerências, tais como pessoas reais. Eles também são evidentemente masculinos e femininos, mas não são obrigados a existir dentro de papéis de gênero estreitamente definidos. A sexualidade não é tão importante quanto a personalidade e os relacionamentos.

Se isso é feminismo, Hollywood precisa de muito, muito mais disso. A visão de Miyazaki sobre a vida humana autêntica vai para além das modernas categorias politizadas e em direção a um profundo respeito pelo ser humano.

Em suas memórias, Miyazaki explica como sua visão artística é criar uma visão de beleza e bondade que apresente uma verdadeira alternativa ao mundo de entretenimento frenético, degradante, consumista, pornográfico e alienante em que vivem muitos adolescentes japoneses. Este desejo primeiro tomou forma quando Miyazaki tinha 17 anos e seu pai levou para ver o primeiro filme de animação do Japão [na verdade o primeiro longa-metragem animado em cores do Japão]:

Na época, sua ambição era transformar-se um artista do manga, e esboçava o que descrevia como “um drama absurdista”, mas a pureza da emoção de A Lenda da Serpente Branca moveu-o às lágrimas. “Percebi como eu era idiota”, escreveu ele duas décadas depois. “Apesar das palavras cínicas que eu falava, ansiava por um mundo sincero e puro. (…) Eu não podia mais negar o fato de que queria criar algo que fosse uma afirmação da vida.”

Amor e Família

Miyazaki tem uma preocupação especial com a forma como os jovens japoneses perderam o seu senso de deslumbramento ao viverem num mundo completamente materialista e sem encantos. Michael Toscano escreve na revista Curator: “Ele teme que as crianças japonesas sejam ofuscadas por uma cultura de consumo excessivo, superproteção, educação utilitarista, carreirismo, tecno-industrialismo e um secularismo que está engolindo o animismo nativo do Japão”. Uma cultura inferior de anime e mangá está arruinando a imaginação das crianças, e até mesmo os meninos e meninas pararam de se interessar um pelo outro. Toscano observa: “Numa pesquisa de 2013 sobre os hábitos sexuais dos japoneses, a Associação Japonesa de Planejamento Familiar (JFPA) descobriu que um número catastrófico de adolescentes e jovens adultos japoneses, com idades entre 16 e 24 anos, perderam o desejo por sexo. Um quarto dos jovens japoneses “não estavam interessados ou desprezavam o contato sexual”; 45 por cento das mulheres relataram o mesmo. Talvez com este fato em mente, Miyazaki tenha em certa ocasião comentado que a única maneira de preservar o futuro de Japão é “conceber tantas crianças como possível.”

Várias histórias de Miyazaki trazem temas de amor e romance. No entanto, o romance per se nunca é o foco. Os casais de Miyazaki são mais companheiros do que amantes. Mais importante que o romance é a maneira como indivíduos solitários e vulneráveis se integram em relações de confiança e responsabilidade mútuas e que geralmente beneficiam todos ao seu redor.

Isto não quer dizer que Miyazaki apresente uma imagem idealizada das famílias. Muitos de seus jovens protagonistas não têm um dos pais, ou nenhum deles. Alguns são maus modelos, como os pais glutões e materialistas de Chihiro, ou a mãe fútil de Sophie. Algumas famílias são simplesmente disfuncionais, como os piratas voadores de O Castelo no Céu: filhos pendurados no avental matriarcal de Dola, enquanto o pai passa todo o seu tempo isolado na sala das máquinas. Mas também há famílias realistas e estáveis, com pais diligentes e responsáveis e mães sábias e carinhosas, como em Totoro, Ponyo e Da Colina Kokuriko.

A mais estranha das famílias de Miyazaki é a família acidental que se reúne ao redor da lareira mágica de Calcifer em O Castelo Animado. Quando “Vovó” Sophie chega ao castelo pela primeira vez, Howl e seu aprendiz Markl vivem numa terrível confusão. Sophie limpa a casa e se torna uma mãe tão necessária para Markl. Howl também se torna mais responsável à medida em que ele e Sophie aprendem a amar um ao outro, e a última cena retrata o trio em plena felicidade doméstica, tendo a este ponto também adotado a senil Bruxa do Nada e o cão asmático de Madame Suliman, Heem. Esta família não-biológica retrata a esperança de que mesmo pessoas excluídas e feridas pela sociedade possam encontrar um lugar acolhedor para viver.

Devemos mencionar aqui a enigmática Lady Eboshi de Princesa Mononoke. Eboshi irritou os deuses da floresta com suas armas e a destruição da floresta. No entanto, ela ao mesmo tempo demonstra grande compaixão para com os leprosos e ex-prostitutas que trabalham na sua fábrica-fortaleza. Quando Ashitaka confronta Eboshi sobre a maldição provocada por ela, Osa, um dos leprosos, fala:

“Jovem, eu, como você, sei como é a raiva, e dor e desamparo. Mas você não deve se vingar de Lady Eboshi. Ela é a única que nos viu como seres humanos. . . . Nós somos leprosos. O mundo nos odeia e tem medo de nós, mas ela nos levou, lavou nossa carne podre e fez curativos em nós. . . . A vida é sofrimento. É difícil. O mundo está amaldiçoado, mas ainda assim você encontra razões para continuar vivendo.”

Embora Irontown seja destruída no clímax, o fim do filme nos traz Eboshi prometendo a seu povo que eles vão reconstruí-la, desta vez com a ajuda de Ashitaka. Miyazaki se recusa a condenar a empresa, sugerindo que há lugar para a tecnologia e a indústria na sua visão de uma sociedade harmoniosa.

Transformação Pessoal

As histórias de Miyazaki empregam alguns dos mesmos tropos de outros animes contemporâneos – heróis em cenas de ação, fantásticas máquinas voadoras e guerreiros-robô, todos encontram um lugar. O que coloca Miyazaki muito além de outros diretores, além de sua superioridade inquestionável como animador, são seus personagens reais e dinâmicos. Todas as suas histórias envolvem indivíduos simpáticos assumindo responsabilidades, fazendo escolhas difíceis e tornando-se pessoas melhores e mais maduras. Se o diretor está tentando ensinar uma lição a sua audiência, a lição principal não é “você deve salvar a Terra”, mas “você deve mudar sua vida.”

A Viagem de Chihiro, um dos filmes mais simbólicos de Miyazaki, elabora o tema da transformação por meio de uma quase parábola. Os pais de Chihiro representam o fracasso do Japão moderno. São palermas impacientes e imprudentes, impulsionados por apetites corporais, que pouco se importam com a tradição. Seu desrespeito pelo “jeito antigo” é explicitamente simbolizado pelo carro brilhante de tão novo percorrendo uma estrada repleta de santuários tratados pro eles sem nenhum respeito. Após de empanturrarem num buffet mágico, eles acabam sendo transformados em suínos.

Chihiro chega à casa de banhos da bruxa Yubaba e é obrigada a realizar uma série de taferas. Os espíritos visitam a casa de banhos para serem purificados e revigorados. Chihiro liberta um espírito de um rio do lixo que o deixou imundo — lavando-se do consumismo, por assim dizer. Mas a poluição ambiental não é o desafio mais difícil. Chihiro também enfrenta Sem Face, um espírito mascarado que tenta com ouro os trabalhadores da casa de banhos e começa a devorar tudo que encontra pela frente. Ele não tem uma personalidade autêntica e tenta comprar olhares com pepitas de ouro brilhantes. Quando Chihiro o faz vomitar tudo o que ele consumiu, ele é humilhado e, pela primeira vez, começa a encontrar satisfação em servir os outros. Por fim, Chihiro ajuda a libertar um espírito que foi escravizado por Yubaba, conquistando ao mesmo tempo a liberdade para si mesma e para seus pais.

Valores Tradicionais e Religião

A tradição religiosa — de uma variedade caracteristicamente japonesa — também se infunde nos filmes de Miyazaki. A bela arte do diretor apresenta uma visão pura e espiritual do mundo, o que incentiva temor e respeito. O Xintoísmo afirma que tudo o que existe não é apenas físico, mas também espiritualmente significativo. Para viver e cuidar de tal mundo, a alma de uma pessoa também deve tornar-se pura. É o que Miyazaki está fazendo com suas histórias de transformação pessoal: encorajando a purificação na virtude, visando uma espécie de semelhança com as crianças. As histórias mais simples de Miyazaki — Totoro e Ponyo — são também as suas histórias mais maduras, retratando seres humanos que vivem em harmonia uns com os outros e com a natureza. Os adultos trabalham duro e vivem vidas disciplinadas. A velhice é algo a se honrar e as crianças são bem-vindas e incluídas na vida diária. Quando as crianças encontram os espíritos elementais, os adultos não respondem com cinismo ou descrença, mas com alegre afirmação, lembrando-se da maravilha da infância.

A maioria dos filmes de Miyazaki expressam de uma forma ou de outra temas relacionados ao Xintoísmo. Em Mononoke, como Freda Freiberg observa: “Ashikata [sic] pode servir como intermediário entre os japoneses imperialistas e capitalistas e o mundo não-humano porque ele pertence a uma tribo humana que reverencia a natureza e acredita nos deuses animistas. San recusa-se a aceitar sua humanidade e identifica-se apenas com o mundo não-humano”. Da mesma forma, a Princesa Nausicäa é a intermediária entre os seres humanos obcecados pela tecnologia e que não respeitam a natureza e a ira destrutiva dos Ohmu, os insetos gigantes protetores da natureza. É preciso um coração puro para salvar o mundo.

A Viagem de Chihiro é possivelmente o filme mais explicitamente religioso de Miyazaki, ao trazer muitos temas ligados ao Xintoísmo, essa antiquíssima corrente de tradições japonesas que venera os ancestrais e honra as presenças espirituais do mundo natural. James W. Boyd e Tetsuya Nishimura fazem essas observações sobre o caráter enigmático do amigo e protetor de Chihiro, Haku:

Haku é em alguns aspectos a personificação de (…) alguns valores culturais tradicionais do Japão. O traje que veste se assemelha aos do período Heian — ele usa algo semelhante a um hakama, parte do traje formal de um sacerdote xintoísta. Além desse traje nobre, seu discurso é formal e tradicional. Ao se referir a si mesmo, ele não usa o pronome “boku”, mais coloquial, mas o pronome “watashi”, mais formal. E quando se dirige a Sen, ele usa um termo aristocrático antigo, mais nobre, “sonata” (…) O fato de que Haku encarna certos valores tradicionais, que é ele quem ajuda Chihiro naquele mundo intermediário, e que Chihiro, por sua vez, ajuda Haku a se lembrar de sua identidade, convida a uma interpretação. Talvez Miyazaki esteja comunicando aos espectadores contemporâneos alguns insights importantes sobre a tradição japonesa xintoísta (…) Que podem ser úteis nestes tempos modernos.

Chihiro ilustra a crença de Miyazaki de que, embora sejam os jovens os mais ameaçados pelo caminho errado que a cultura japonesa moderna tomou, eles também são a chave para sua recuperação. Da Colina Kokuriko, escrito ele e dirigido por seu filho Gorō, traz a esperança de que a juventude do Japão possa dar nova vida às antigas tradições. Neste filme, o Japão está se preparando para sediar os Jogos Olímpicos de 1964 e mostrar-se ao mundo como um país moderno e progressista. Mas ao tentar apagar a vergonhosa história recente, o país corre o risco de negligenciar as coisas preciosas do passado. Umi, no entanto, lembra-se fielmente do passado em gestos pequenos mas significativos. As primeiras cenas do filme demoram-se em sua rotina matinal de fazer café da manhã para a família e os inquilinos da avó. Seu primeiro ato é colocar um copo de água e uma flor cortada em frente ao retrato do pai numa mesa de canto — um gesto budista de honra aos ancestrais. Todas as manhãs Umi também hasteia as bandeiras sinalizadoras do jeito que o pai lhe ensinou, embora ele se tenha perdido no mar já há muitos anos.

O enredo de Kokuriko gira em toprno do “Latin Quarter”, um hotel do século XVIII ocupado por gerações de clubes acadêmicos do ensino médio. A escola planeja derrubar o prédio sujo e degradado e abrir espaço para uma nova construção. Os membros dos clubes protestam, mas tudo indica que eles perderão essa briga Umi intervém, organizando um esquadrão de meninas para supervisionar e ajudar os meninos a limar e reparar o edifício. O espírito dos alunos prevalece, e os clubes ganham uma nova chance.

Esta é a essência do conservadorismo. Como os clubes, a tradição pode vir a juntar poeira e tornar-se inútil por causa da negligência. A solução não é condenar a tradição, mas jogar fora os jornais empoeirados, esfregar os pisos, substituir as janelas quebradas, derrubar a placa de “meninas não entram” e cobrir tudo com uma brilhante camada de tinta nova. Os jovens que honram o passado e têm esperança no futuro podem salvar a tradição da obsolescência.

Conclusão

Como vimos, a arte de Miyazaki representa um desafio conservador lançado ao rosto de muitos aspectos da moderna cultura japonesa: amnésia histórica e esquecimento das tradições; desencanto com a família e a infância; culto à tecnologia e exploração da natureza e da humanidade. Caminhos culturais incompatíveis com o Japão amado por Miyazaki. Mas, como conservador, ele não se limita a denunciar o modo de vida moderno. Em vez disso ele, através de sua arte, nos faz ver o que uma vida boa, harmoniosa e bela poderia e deveria ser.

Voltando a Vidas ao Vento e a seus críticos: Terá Miyazaki a responsabilidade de condenar a participação indireta de Jiro naquele conflito? Pode ter o filme algum tipo de obrigação moral de afirmar um ponto de vista, especificamente, sobre a guerra? Hoje a guerra não é mais uma questão política viva. Todos os responsáveis por ela, e a maioria daqueles que se lembram dela pessoalmente, estão mortos. O próprio Miyazaki tinha apenas quatro anos de idade quando a guerra acabou.

Vidas ao Vento é a obra mais melancólica de Miyazaki. Seus personagens são soprados — literal e figurativamente — pelo vento. Seus sonhos os levam até o céu, e esses sonhos são varridos pelos acontecimentos. O mundo inteiro está mergulhando numa loucura que nem Jiro nem seu amigo alemão podem entender ou controlar. O que resta para eles? Jiro invoca os versos do poeta Paul Valery: “O vento está soprando! Devemos tentar viver!” Ele faz o possível para viver para a engenharia e o amor. No fim das contas tudo é varrido — o trabalho pela guerra, e a esposa pela doença — e para confortá-lo ele só tem a lembrança de seus sonhos: que todas essas coisas eram boas e que ele fez bem em buscá-las.

Os conservadores têm uma terna afinidade pelas coisas preciosas que estão desaparecendo. Às vezes, elas podem ser preservadas e resgatadas para uma nova vida. Outras vezes, elas só podem ser preservadas como lembranças por uma geração tal como a nossa, que pode abrir os antigos registros e senti-las nos próprios corações, enchendo-os de reverência por tudo que é belo e que está desaparecendo em nosso tempo.

[*] Peter Schellhase. “The Conservative Vision of Hayao Miyazaki”. The Imaginative Conservative, 7 de Novembro de 2014.

Tradução: Felipe Alves

Revisão: Rodrigo Carmo

2 comentários

  • Daniel Lima

    Sensacional! Já apreciava bastante as animações de Miyazaki e agora quando as rever prestarei mais atenção nesses detalhes.

  • Lucas Andrade

    Essa mania da direita de tentar valorizar o feminismo é terrível.

    “Se isso é feminismo, precisamos mais disso”.
    Esse é papo manjado de feminista.

    Ora, é óbvio que isso não é feminismo, porque não tenta censurar adversários, estimular ódio contra homens nem aumentar o estado e o poder político da extrema-esquerda.

    O paternalismo com que a direita lida com ideologias destrutivas como
    o feminismo é lamentável

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