O caso contra as ações afirmativas

Por David Sacks & Peter Thiel [*]

Ao longo dos últimos 25 anos Stanford tem discriminado em favor de minorias raciais nas admissões, contratações, no preenchimento de cargos e em ajuda financeira. Mas só recentemente a universidade se viu forçada a repensar essas políticas em face de um novo debate público sobre ações afirmativas.

Começamos a comprender por quê. Concebidas originalmente como um meio de corrigir discriminações, as políticas raciais, pelo contrário, promoveram-nas. E ao invés de fomentar harmonia e integração, essas políticas dividiram a universidade. Em nenhuma outra área da vida pública há maior disparidade entre a retórica dos benefícios e a vida real.

Consideremos por exemplo a alegação de que políticas baseadas na raça ajudam os “desfavorecidos”. Na verdade, como observou Thomas Sowell (Instituto Hoover), tais políticas beneficiam principalmente candidatos de minorias que sejam provenientes das classes média e alta. Ao mesmo tempo, por essas admissões serem um jogo de soma zero, as políticas prejudicam os brancos pobres e até muitos asiáticos (que cumprem os critérios de admissão em números desproporcionais). Se essas políticas pretendem realmente sanar desvantagens, elas poderiam ser oferecidas com base nessas desvantagens e não na raça.

Um outro mito é o de que as políticas concedem apenas uma pequena “vantagem” aos candidatos de minorias. Com efeito, a média de disparidade no Teste de Habilidades Acadêmicas (sigla em inglês SAT) entre afro-americanos e brancos aprovados em Stanford atingiu 171 pontos, conforme os dados reunidos pelo Consórcio para o Financiamento da Educação Superior (da sigla em inglês COFHE) e citados no livro A Curva do Sino de Richard Herrnstein e Charles Murray.

A injustiça e a arbitrariedade fundamentais desses benefícios – por que a filha qualificada de um refugiado vietnamita deveria perder a vaga para um filho sub-qualificado de um médico negro? – tem levado apoiadores a alterar seus argumentos nos últimos anos. Em vez de ser uma alternativa para reparar as desvantagens, muitos apoiadores agora exigem que as políticas promovam a “diversidade”. Esta mesma pressão para a “diversidade”, aliás, levou a Stanford a criar dormitórios segregados por raça, programas de orientação de calouros segregados por raça, cerimônias de graduação segregadas por raça e requisitos curriculares para os estudos de gênero e de teoria racial.

Mas se a “diversidade” fosse de fato o objetivo, então as políticas poderiam ser determinadas com base em características extraordinárias, não com base em raças. A hipótese subjacente – de que somente as minorias podem contribuir com certas ideias e perspectivas – é uma afronta não apenas por não ser verdade, mas também por que isso sugere a ideia de que cada minoria pensa de uma determinada forma.

O que deu errado? O problema básico é que um passado racista não pode ser desfeito com mais racismo. Programas de consciência racial são uma traição ao sonho da comunidade sem cores de Martin Luther King, e a elevada sensibilidade racial que eles causam é fonte de rancor e tensão, e não de conciliação.

Quando os funcionários da Universidade se vangloriam de “procurar por racismo em todos os lugares”, como o professor multiculturalista Greg Ricks falou em uma entrevista para o Stanford Daily em 1990, talvez então a resposta mais sensata (e certamente a mais previsível) a se dar será a de que os alunos brancos devem evitar relacionar-se com pessoas tão irascíveis. Desta maneira, a ênfase na “diversidade” tornou as relações inter-raciais hostis e superficiais; o multiculturalismo deu origem ao politicamente correto.

Não queremos negar que há pessoas na América que são racistas e que há traços no estilo de vida americano que são herança de um passado ainda mais racista. Porém o racismo não está em todos os lugares, há muito pouco num lugar como Stanford. É certo que ninguém acusou de racismo os responsáveis pelo processo de admissão em Stanford , então talvez o verdadeiro problema com as ações afirmativas é que fingimos resolver um problema que não existe mais. Além do mais, há a compreensão cada vez maior de que as ações afirmativas não foram bem sucedidas em pôr fim à discriminação após 25 anos de decidida implementação, então talvez seja a hora de tentar algo diferente.

Embora o departamento de admissões de Stanford não possa apagar os erros da História, sua missão continua muito importante – isto é, admitir os melhores alunos que possa encontrar. O único critério para descobrir esses estudantes e definir o que seja “mérito” deve ser o desempenho individual – não somente nas notas e resultados de testes, obviamente, mas num vasto espectro de feitos realizados no esporte, na música, em assembléias estudantis, no teatro, em clubes escolares e outras atividades extracurriculares. Mas raça e etnia (ou gênero ou preferência sexual) não têm lugar nesta lista; tudo isso são traços individuais, não realizações individuais.

Possivelmente o pior efeito colateral das ações afirmativas é que elas podem comprometer as valiosas conquistas dos estudantes pertencentes a minorias. Muitas vezes não é possível dizer se um dado estudante genuinamente mereceu entrar em Stanford, ou se ele entrou por se encaixar num modelo de diversidade. No momento em que as pessoas suspeitarem do pior – que as políticas de benefícios distorceram toda a sala de aula – elas serão acusadas do mesmo racismo que justifica essas políticas. É uma cura estranha essa, que gera a sua própria doença.

Uma Stanford sem ações afirmativas será uma Stanford em que uma pergunta tal como “quem deve fazer parte deste lugar?” não mais precisará ser respondida . Isso porque não será mais necessário fazer tais perguntas, nem mesmo em voz baixa.

David Sacks, 94, é estudante de direito na Universidade de Chicago. Peter Thiel, 89, JD ’92, comanda uma firma de investimentos. Eles são co-autores do livro “O Mito da Diversidade: Multiculturalismo e as Políticas de Intolerância em Stanford”

[*] David Sacks & Peter Thiel. “The Case Against Affirmative Action”. Stanford Alumni, Janeiro de 2013.

Tradução: Jay Messi

Revisão: Felipe Alves

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