Nelson Mandela, o Chamariz de Diamantes.

Por Isaac Chotiner [*]

Após Edward Zwick retornar de Moçambique e Serra Leoa em Junho, ele recebeu uma carta de Nelson Mandela. Zwick, o diretor do filme Tempo de Glória, havia viajado para a África para filmar Diamante de Sangue, que conta a história da guerra civil que brutalizou Serra Leoa durante os anos de 1990. O filme – que centra-se no drama de um pai e seu filho que são escravizados pelos rebeldes e tem Leonardo DiCaprio interpretando um cínico contrabandista de diamantes- é uma ficção, porém o contexto é historicamente preciso: De 1991 a 2002, os violentos soldados rebeldes da Frente Revolucionária Unida sequestraram civis, os forçando a trabalhar nas minas de extração de diamantes, e contrabandeavam as pedras que desenterravam para os países vizinhos. De lá, os diamantes eram transportados para a Europa e vendidos por conglomerados do setor, tal como a De Beers. Os lucros voltavam a Serra Leoa, onde pagavam para que houvesse mais sequestros e violência. Diamante de Sangue é uma crítica inexpressiva do protagonismo das indústrias de diamantes na selvagem e desgastante guerra, e sua indiferença frente às violações aos direitos humanos na África. Zwick teve razões para crer que Mandela – um dos grandes líderes mundiais na luta pelos direitos humanos – ficaria satisfeito.

Não ficou. Em sua carta a Zwick, Mandela escrevera que “Isto poderia ser profundamente lastimável se a feitoria do filme inadvertidamente obscurecesse a verdade, e, como resultado, levasse o mundo a acreditar que a reposta apropriada a dar fosse cessar a compra de diamantes vindos da África… Esperamos que a ânsia de contar uma história de vida cativante e relevante não resulte na desestabilização de nações africanas produtoras de diamante, e consequentemente de suas populações.” Nada disso faz muito sentido, a não ser que consideremos um fato que não é muito difundido sobre Mandela: O homem que deu fim ao Apartheid e tornar-se-ia mais tarde no mais eloquente porta-voz pela dignidade humana do século XX é também um chamariz para a industria do diamante.

A afinidade de Mandela com a De Beers e outras companhias do ramo dos diamantes é o resultado de suas relações pessoais e geográficas. A África do Sul produz mais de $1 bilhão de dólares em diamantes por ano; e, muito embora o Congresso Nacional africano do governo Mandela tivesse significante número de Marxistas e comunistas, o partido mostrou-se abertamente compassivo as industrias de diamantes no instante em que tomou o poder. Como adendo a esse fato, havia a amizade de Mandela com Harry Oppenheimer, futuro presidente da De Beers – que, como empresário Sul Africano branco, fora relativamente solidário com o movimento anti-apartheid. Oppenheimer encorajou a criação de uma associações de mercados negros e fundou um partido político especificamente para fazer oposição as disparidades raciais da África do Sul. Mandela e Oppenheimer aproximaram-se pouco antes de Mandela se candidatar e essa aproximação aumentaria exponencialmente: Depois da eleição de Mandela, Oppenheimer o recebia constantemente em suas luxuosas propriedades. Mandela fora também conhecido por trazer os representantes da De Beers para viagens em países fronteiriços.

Por volta do final dos anos 90, a pressão política estava amontoando-se sobre a De Beers – que, na época, controlava 70 por cento do comércio de diamantes no mundo- para que desse fim aos “diamantes de conflitos” em Serra Leoa. (A frase era usada tipicamente para referir-se aos diamantes cujos lucros das vendas financiavam guerras.) Os diamantes de conflitos já haviam dado subsídios para a sangrenta guerra civil da Angola, e principiaram a protagonizar devastação semelhante em Serra Leoa. (Em 2000, Ryan Lizza documentou nestas páginas [do The New Republic] os esforços desastrosos da administração Clinton para mediar a paz naquele país no Oeste africano.) Organizações de direitos humanos clamaram por medidas que certificassem que os diamantes de conflitos não chegariam ao mercado mundial.

Ainda assim, Mandela endossou os produtores de diamantes. “A indústria do diamante é vital para a África do Sul e para a economia sul-africana”, disse ele à época, reverberando as declarações da De Beers. “Nós deveríamos nos consternar com uma campanha internacional sobre esses assuntos para que ela não fira esta atividade industrial essencial.” Além do mais, Mandela não titubeia ao falar que a postura das indústrias sobre os reclames dos direitos humanos devem ser entendidas através de suas “próprias iniciativas”. Quando, em 2000, o deputado estadunidense Tony Hall propôs um projeto de lei que poderia obrigar todos os diamantes comercializados por mais de $100 dólares nos Estados Unidos fossem acompanhados por um certificado com o nome do país de origem da pedra, um executivo da industria de diamantes falou diante do Congresso usando as palavras de Mandela para argumentar que tais medidas poderiam prejudicar as nações produtoras de diamantes. “O ex-presidente Nelson Mandela expressou preocupação acerca do que essa ‘campanha internacional’ possa trazer à vitalidade da indústria de diamantes em seu país.” disse Eli Haas, presidente do Clube dos Comerciantes de Diamantes, em relato ao subcomitê da Casa.

Eventualmente, em 2002, devido a um acordo conhecido como o Processo de Kimberley, as companhias de diamantes concordariam em garantir que todos os diamantes viessem de campos de exploração legalizados e que os lucros não se tornariam subsídios para guerras civis. No entanto continua não muito claro quão eficiente o Processo de Kimberley é atualmente. Um boletim recente das Nações Unidas descobriu que os diamantes de conflitos da Costa do Marfim estavam entrando no mercado através de Gana e Mali, e uma pesquisa feita pela Agência dos Estados Unidos pelo Desenvolvimento (traduzido da sigla em inglês USAID – United States Agency for International Development) estimou que mais da metade dos diamantes provenientes de Serra Leoa continuavam a ser comercializados ilegalmente. O problema, segundo os especialistas, é que o Processo de Kimberley não possui quaisquer mecanismos independentes para verificação e cumprimento dos termos. “A indústria de diamantes não faz muitas perguntas,” diz Corinna Gilfillan do Global Witness (Testemunha Global), uma ONG consternada com a exploração de recursos naturais. “Eles estão apenas em busca do melhor acordo.”

Apesar disso, Mandela continuou a manter o endosso. Recentemente ele redigiu uma nota elogiando a De Beers pelos serviços prestados à comunidade. “Eu parabenizo a De Beers, líder mundial em diamantes, com raízes na África do Sul, pela forma como continua a demonstrar suas boas credenciais como uma corporação cidadã em muitas áreas importantes”, escreveu ele. A carta, previsivelmente, aparece nos panfletos corporativos da De Beers.

A campanha das indústrias de diamantes contra o filme Diamante de Sangue é apenas a última fase, então, do embate atual para impedir má publicidade e escrutínio exacerbado. Zwick (que já foi estagiário no The New Republic) recebeu uma carta no começo deste ano (2006) do presidente do Processo de Kimberley e chefe do Conselho Mundial do Diamante (traduzido da sigla em inglês WDC – World Diamond Council) – um grupo industrial que representa as grandes companhias de diamantes – em que expressava sua preocupação com o filme. O CMD também contratou a Sitrick and Company, firma especializada na resolução de crises. E, em Junho, um blog do Los Angeles Times noticiou que a Sitrick havia convencido – Surpresa! – Mandela a responder a publicidade gerada pelo lançamento do filme. (Um porta-voz do CMD contesta isso, afirmando que o ex-presidente sul-africano falou por vontade própria).

Os pronunciamentos de Mandela a favor da indústria de diamantes são, em algum nível, perfeitamente compreensíveis. Afinal, ele era presidente da África do Sul, e parte do trabalho de um presidente é zelar pela economia de seu país. Porém Mandela não é reconhecido como um herói do século XX por causa de esforços diligentes em favor de caros interesses nacionais da África do Sul; antes, ele deve a sua estatura graças a uma campanha de décadas contra o apartheid, uma campanha que apelou para valores universais como os direitos humanos e a liberdade. Ao dar cobertura para as indústrias de diamantes durante os anos 90 — nos tempos em que os produtores de diamantes ajudavam a alimentar a brutalidade em Serra Leoa- Mandela estava colocando os interesses mais caros à sua nação acima desses mesmos valores universais; e, hoje, ele continua a fazer a mesma coisa. “Verdade e reconciliação – é tudo lixo” é o que diz a personagem de DiCaprio a um repórter idealista em Diamante de Sangue. É óbvio, Nelson Mandela não concordaria. Mas, ao servir de chamariz para beneficiar as indústrias de diamantes, ele está moralizando aqueles que o fazem.

[*] Isaac Chotiner. “Nelson Mandela, the Diamond Shill”. New Republic, 18 de Dezembro de 2006.

Tradução: Jay Messi
Revisão: Flavio Ghetti

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