Masculinidade Subversiva

Por Sarah E. Hinlicky [*]

Promiscuidade enfraquece a masculinidade. Paternidade aperfeiçoa-a. Chegou a hora de restabelecer a ligação entre masculinidade e moralidade.

Existem algumas coisas na vida que são mais bem definidas por exemplos do que por fórmulas. A masculinidade é uma delas. Todas as vezes que busquei uma definição precisamente dicionarizada de masculinidade, sempre me deparei com qualificações e digressões intermináveis. Então, agora, em vez disso, coletei várias anedotas para ilustrar o conceito ao meu gosto. Aqui está uma das minhas favoritas. Em um fim de semana, no ano passado, eu estava em uma casa noturna muito conhecida no New York’s Village com uma amiga da faculdade. Dois rapazes que eu conhecia da região estavam nos acompanhando; nós os chamaremos de Timothy e Titus. Em algum momento, no desenrolar da noite, enquanto estávamos pulando e dançando no meio da pista de dança, um estranho bêbado tentou, bem, me agarrar. Eu não perdi tempo e corri para o outro lado do círculo, o que, naturalmente, despertou a curiosidade dos garotos. Eu me expliquei. Titus prontamente respondeu “Você quer que o levemos para fora e batamos nele por você? Eu sempre quis poder defender uma mulher assim”. A punição seria desproporcional ao crime, então recusei sua oferta. Mas eu e minha amiga ficamos muito impressionadas. Nenhuma de nós, em nossa vida, havíamos conhecido um rapaz disposto a fazer isso por nós. E, mais do que isso, Timothy era quem estava torcendo por um envolvimento romântico, não Titus; então este não tinha nada a ganhar com essa confusão. A história se espalhou entre minhas amigas rapidamente, e cada uma delas insinuou, de forma não muito sutil, que, certamente, gostaria de conhecer esse homem.

Talvez seja vergonhosamente retrógrado equiparar masculinidade com uma proposta de agressão física para solucionar um infortúnio social. Seria imprudente, no entanto, fechar os olhos para a recepção entusiástica que essa oferta encontrou entre as mulheres que conheço. Seria imprudente também ignorar o fato de que esse homem fez isso aos vinte e poucos anos, com sua virtude sexual ainda intacta. Eu sempre soube que castidade feminina e poder feminino andavam de mãos dadas. Depois desse incidente, comecei a perceber que castidade masculina e uma masculinidade cativante e atraente também não eram antitéticas.

É claro, tente dizer isso para um típico adolescente americano, e seus esforços serão atendidos, na melhor das hipóteses, com uma risada, se não com completo escárnio. A estatística é espantosa: aos 19 anos, 85% dos homens americanos já fizeram sexo[1]. E 30% já o teriam feito aos 15 anos; e metade, aos 17. É razoável supor que esses jovens homens sexualmente ativos não estão morrendo de preocupação com o estado de sua masculinidade. No geral, eles estão com mais medo de outra coisa. A razão principal para não fazer sexo entre 16 e 21 anos é o medo de doenças (logo seguida pela razão de ‘não estar pronto’, uma lógica perigosa que pode ser revertida em questão de segundos).

Medo de doença, contudo, é um motivo insatisfatório e, em último caso, pouco convincente. Por exemplo… Eu tive uma conversa, no verão passado, com meu irmão mais novo, que só é menor do que eu em termos de idade, no outro quesito ele é aproximadamente 30 centímetros mais alto que eu. Nossa conversa foi sobre os dois tópicos mais importantes no mundo: religião e sexo. Meu irmão estava me dizendo que insiste em praticar o primeiro agora, mas pretende guardar o último para o casamento. Eu concordei que essa era uma boa política. Em seguida, mencionou que estava um pouco surpreso com o fato de seus amigos não fazerem o mesmo. Afinal, ele disse, existe um alto risco de gravidez e doença. Foi quando comecei a ficar inquieta. A questão é que eu conhecia uma grande quantidade de rapazes que, há muito, perderam a virgindade (por assim dizer) e nenhum desses terríveis destinos se abateu sobre eles. De todas as pessoas que eu conheço que não esperaram, apenas a menor fração delas teve que lidar com gravidez ou doenças. A maioria sofreu pequenos danos aparentes, alguns ficaram magoados quando o relacionamento terminou, mas um novo amor faz um bom trabalho ao encobrir a dor antiga. Uma ética baseada no medo de uma traumática consequência física não vai durar muito tempo em face de alguns exemplos de compensação.

Meu irmão e eu acabamos concordando que tinha que haver mais do que isso. A lei de Deus simplesmente não podia ser tão arbitrária, baseada em algumas anomalias estatísticas que, na melhor das hipóteses, trabalham por reforço negativo e, na pior, manda as pessoas preocupadas às farmácias em busca de produtos pouco confiáveis. Tinha que haver algum teor positivo para o “não faça”. O teor positivo tem obrigação de ser mais persuasivo do que sua contraparte negativa, mas, ironicamente, ele não é mencionado com tanta frequência, em detrimento da luta dos homens jovens [contra as tentações]. [Eis o] caso [posto] em questão. Tinha um cara que eu conheci na faculdade, o qual vários de nós, meio que brincando, chamávamos de Virgem Repulsivo. Ele se mantinha firme porque sabia que isso era certo de acordo com a moral [aprendida] na Escola Bíblica. Ao mesmo tempo, ressentia-se de sua moralidade infantil e do Deus que determinou todos os passos do caminho, então nunca amadureceu em seu entendimento a respeito da lei. Seu medo era destrutivo, e não instrutivo, amável; e ele merece algo melhor. Então, pelo bem dele e do meu irmão, eu tenho tentando, um pouco paradoxalmente, na condição de mulher, analisar o problema (alguns podem chamar de oximoro) da virgindade masculina.

Para começar, deve ser dito que uma ética saudável do medo tem certa relevância. Mas, se a tática do medo será empregada de alguma forma, a ênfase deve mudar para o impacto ruim que o sexo pré-matrimonial, algumas vezes até mesmo com a noiva, tem sobre os casamentos. Eu tenho ficado completamente atordoada ao ouvir um homem após outro expressar arrependimento excruciante sobre o seu passado leviano logo que ele conhece a mulher de seus sonhos; isso veio à tona clara e inequivocamente na pesquisa informal e ilimitada [feita por mim]. A verdade (muitas vezes negada) é que a relação sexual liga o homem à mulher, e desfazer tal ligação não é mais possível ao homem do que o é para a mulher. O homem acaba levando com ele, para os votos de compromisso do casamento, todas as outras pessoas com quem esteve ligado antes. Pior ainda, é amplamente aceito que, especialmente para os homens, as memórias sexuais permanecem vívidas por um longo, longo, tempo, independente de seu estado civil. Isso pode não parecer um problema para o homem que diz esperar muito pouco do amor e menos ainda do casamento. Mas essa é uma desculpa instável e superficial. É engraçado como a ideia da alma gêmea cativa a todos, mesmo os céticos que tentam veementemente negá-lo. Tenho certeza de que todos nós já vimos um cínico ferrenho reduzido a um estado embaraçoso, agitado e sentimental de paixão e rimos cá com nossos botões da ironia disso tudo. A maioria dos casos dos sexualmente ativos que conheço (todos eles, talvez), ainda aspira a algum tipo de amor eterno, mesmo que eles rejeitem a instituição do casamento, em princípio, e continuem buscando, embora duvidosamente, pelo grande amor de sua vida. Enquanto isso, seus estilos de vida sabotam metodicamente suas esperanças e sonhos. O casamento promete o amor que é tão ardentemente desejado pelos homens, mas condicionalmente condicionado à fidelidade não apenas durante o casamento, mas antes dele também.

A questão lógica, então, é: se homens querem esse tipo de amor, por que eles o colocam em risco ao aprontar tanto? Eu, particularmente, não me convenço nem um pouco com a linha de argumento que afirma que rapazes são mais compelidos por seus hormônios à promiscuidade do que mulheres. Quem quer que tenha feito essa afirmação, obviamente, não conhecia nenhuma mulher muito bem e subestimou amplamente o poder de sublimação de homens e mulheres. Eu acredito que tenha um pouco mais de credibilidade a alegação de que homens, como regra, não escutam de suas sociedades que vale a pena preservar sua própria virgindade. De modo geral, culturas têm sido sempre mais interessadas na castidade feminina do que na contraparte masculina. Pode não ser particularmente justo, mas faz sentido; afinal de contas, mulheres são aquelas que carregam os bebês, e, até muito recentemente, não havia nenhuma maneira infalível de se verificar a identidade paterna. Em nossa própria cultura [norte-americana], na qual o estigma da promiscuidade praticamente já desapareceu, e os problemas decorrentes são tratados como incuráveis, eu gostaria de culpar especificamente uma pessoa. E o ganhador não é ninguém menos que Hugh Heffner.

Por mais que tenha realmente se desenvolvido, e qualquer que seja o impulso social latente que tenha salientado, na análise final, pouca coisa tem sido tão explicitamente destrutiva para a castidade masculina nos últimos trinta anos do que a filosofia da Playboy. Atrevo-me a adivinhar que ela tem sido bem mais destrutiva para os homens do que o pior tipo de feminismo tem sido para as mulheres. A mensagem é simples e sedutora, permeando silenciosamente a consciência masculina nacional. Seu verniz de respeitabilidade a torna particularmente sedutora; o estilo de vida suave da Playboy não é grosseiro como [o da revista pornográfica] Hustler, vamos combinar; e a revista sempre consegue ter as melhores entrevistas com celebridades. Muito esperto! Mesmo que eles resistam ou se ressintam, mesmo que nunca tenham deixado seus olhos percorrerem uma única edição, os homens americanos sabem que estão sendo pressionados a transar o máximo possível. O ideal impingido neles é um de promiscuidade suave, apoiada por uma visão de mundo maliciosamente materialista. A armadilha tem como isca o dinheiro. E é reforçada por todas as coisas pelas quais os rapazes são suscetíveis de se interessar: esportes, veículos e fraternidade. A sedução do luxo sem esforço traduz-se no chamariz de fotos de mulheres nuas. Um tipo de estilo de vida, naturalmente, implica o outro. Esse materialismo permite que os homens fechem seu coração sem sequer perceber.

E é aí que eu vejo a mais séria destruição. Para cada bebê nascido fora do casamento e cada caso de DST deve haver dez vezes mais homens que abandonaram suas reivindicações de alma e espírito. Uma mulher talvez sofra mais visivelmente a promiscuidade pelas penas sociais e físicas que paga. Mas, ao mesmo tempo, se é que eu posso fazer uma generalização (para ambos os sexos) tão extensa, uma mulher continuará em sintonia com sua alma e agarrada a seu coração, não importa o quão danificado esteja. Enquanto isso, o homem, parece-me, pode ignorar muito mais facilmente essa parte do seu ser, e até perdê-la completamente.

Desde que comecei a pensar seriamente sobre esta questão, venho prestando atenção nos homens de vinte e poucos anos sexualmente ativos que conheço. Uma vez que comecei a prestar atenção, fiquei surpresa com o que encontrei. Vi tristeza escondida dissimuladamente [nos] olhos dos meninos que tinham trilhado seu caminho para fora da infância e da família, que nunca encontraram um caminho para uma nova família com seus próprios filhos para recuperar a inocência que eles tiveram de abandonar. Eu vi esses homens olhando para as mulheres virgens com inveja, não luxúria! Para o que essas meninas de sorte ainda tinham: não um status sexual, mas uma leveza de coração que é o companheiro da inocência sexual. Alguns desses homens, penso eu, esperavam recuperar a leveza de coração por pura proximidade com mulheres virgens, mesmo quando desesperavam-se por nunca merecer tal mulher por si mesmos. Em outras ocasiões, o seu próprio desespero suprimido levou-os a ligar para seus amigos castos, forçando-os, inconscientemente, à sujeição (a miséria adora companhia). Em meus próprios encontros pessoais com esses homens, muitas vezes tive a sensação assustadora de ser muito mais madura do que eles. O problema pós-casto deles recusa-se a ser ignorado. Sexualidade domina a imaginação dessa forma porque a vida e a morte estão envoltas por ela. Preenchida corretamente, ela cria a humanidade em ambos os amantes e seus filhos. Abusada, mata não só física mas espiritualmente também.

E agora olhe para o resultado. Esses pobres homens (sim, por favor, sinta pena deles; nós somos pessoas de arrependimento e perdão) que compraram a filosofia Heffner foram enganados no que tange à sua masculinidade. Ninguém nunca lhes ensinou o significado da masculinidade. Ninguém nunca desafiou seus modos tolos, de moleque, e os obrigou a provar que eram realmente homens. Ninguém se importou, nem um pouquinho, se eles estavam [ou não] crescendo para se tornar homens [de verdade]. Na melhor das hipóteses eles reconheceram uma escolha entre dois falsos modelos: um segundo o qual a masculinidade era definida por comportamento sexual agressivo, alta renda e substâncias que alteram o comportamento; e o outro para o qual qualquer coisa masculina estereotipada (força, proteção, ousadia, competitividade, autoridade) era julgada rude, bruto e socialmente inaceitável. Dado isso, o resto é mais uma não-opção do que qualquer outra coisa; não é de estranhar que a maioria dos homens tenha ido para o primeiro, mesmo que o tenha modificado para caber alguma ideia de moralidade que eles possam ter (tudo bem se ela diz isso, tudo bem se eu a amo, etc.). Eu até me pergunto se o aumento da atividade homossexual masculina em nosso País não está, de alguma forma, ligada a uma busca da virilidade verdadeira e do verdadeiro perigo.

Seria útil selecionar do clichê usual sobre homens-e-sexo versus mulheres-e-amor, a intuição genuína sobre o que torna a sexualidade masculina distintamente masculina. Todo mundo já ouviu o clichê que diz que, quando se trata de relações sexuais, mulheres focam na parte da intimidade e homens focam na parte física. Mas o que torna a sexualidade masculina distintamente masculina? Talvez isso possa ser colocado assim. Sexualidade feminina é específica. Mulheres raramente querem sexo em geral: sua paixão é focada naquele com o qual se deseja o sexo. Compromisso é inerente à sexualidade feminina, sem dúvida, em grande parte por razões biológicas. A questão para as mulheres é quem será o vencedor sortudo. E o problema é evitar compromissos ruins, ou muito cedo, ou em série. Mas a sexualidade masculina não é assim, talvez, novamente, por razões biológicas. É naturalmente desfocada e amorfa. É um desafio para os homens concentrar o desejo em uma só pessoa, uma mulher, uma parceira de vida. Aqui se encontra o ponto culminante da vida adulta sexual para os homens. Se os homens se envolvem em sexo-muito-precoce, ou em promiscuidade pré-esposa, muitas vezes, na suposta busca da masculinidade em si, não apenas se subverte a verdadeira idade adulta sexual mas também se perde um desafio crucial para o homem, um teste essencial de sua masculinidade. Promiscuidade mina a masculinidade. Paternidade aperfeiçoa-a.

Mas se esse desafio aos homens vai permanecer, nós, culturalmente falando, devemos parar de ter medo da masculinidade. Certamente devemos condenar a masculinidade ruim e pervertida (machismo, por exemplo), mas não ousemos perder a masculinidade boa e verdadeira junto com ela. Minha família tem uma história que ilustra isso lindamente. Há muitos e muitos anos, quando meus bisavôs eram recém-casados (nos anos 1920 ou 30), eles entraram em uma briga terrível. Meu bisavô perdeu a cabeça e bateu na minha bisavó pela primeira e última vez. Com isso, a briga terminou, porque a minha bisavó virou-se e recusou-se a falar com o seu marido pelos próximos três dias. Finalmente, no terceiro dia, ele ficou de joelhos diante dela e implorou pelo seu perdão, o qual foi concedido, e ele nunca mais bateu nela novamente. De certa forma, é uma história chocante. Eu certamente fiquei chocada a primeira vez que a ouvi. Mas observe o que está acontecendo sob a superfície. Esse homem cristão da classe trabalhadora aprendeu, por si mesmo, que a violência contra a sua própria esposa era um sinal de fraqueza, e não de força, de infidelidade, e não de prerrogativa conjugal. Na qualidade de seu marido, ele foi chamado para servi-la e protegê-la, não dominá-la e machucá-la. E ele aprendeu poderosamente a profundidade do seu amor e fidelidade para com ele porque ela estava disposta a perdoar um pecado feio quando ele veio até ela em arrependimento. Meu bisavô era um homem fisicamente poderoso, mas, por meio daquela história, sempre entendemos que a sua maior força estava em seu humilde pedido de desculpas. É chegada a hora de reconectar masculinidade e moralidade. Elas foram separadas uma da outra por tempo demais. A moralidade não é convincente até que você possa mostrar qual sua utilidade. Deve-se apontar para algo maior e melhor, ou então ela se torna utilidade social pura. Se as mulheres devem estar visando a um cartel de virtude (para usar as palavras de Wendy Shalit), então os homens, como um todo, e não apenas alguns, devem visar a uma aliança de valor. Valor é o casamento da masculinidade com a moralidade, o cultivo do caminho melhor e mais elevado para os homens. Ceder a luxúria e dinheiro e pressões culturais é fácil demais. Ganhar o coração de uma boa mulher, criar uma criança para amar e temer ao Senhor, e contribuir para uma vocação digna, não é tão fácil. Mas esses são os sinais de um verdadeiro homem.

[*] Sarah E. Hinlicky. “Subversive Masculinity”. Catholic Education Resource Center, 4 de Novembro de 1999.

Tradução: Fernanda Ferreira

Revisão: Gleice Queiroz

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