Loucura e Desespero: Um Corpo Que Cai, de Hitchcock

Por Bradley J. Birzer [*]
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Assim como todos os seus melhores filmes, Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock, analisa brutalmente a Modernidade, reconhecendo-a esquizofrênica e desejosa. Em contraste com o minimalismo despojado de Festim Diabólico, o qual também é estrelado por Jimmy Stewart, Um Corpo que Cai é, de todas as formas, luxuoso e exuberante. O filme concentra-se mais no cenário e no humor do que no diálogo. E, diferente do espaço limitado de um apartamento de classe alta em Manhattan em Festim Diabólico, Um Corpo que Cai centraliza-se em um genuíno detetive de classe média em São Francisco. Símbolos são abundantes no filme — símbolos da antiguidade americana, da aristocracia americana, do industrialismo americano, da cultura hispano-americana, e do catolicismo americano. Se Festim Diabólico é filosófico, Um Corpo que Cai é igualmente psicológico.

Embora os críticos tenham amado Um Corpo que Cai quando apareceu pela primeira vez, em 1958 — o New York Times, especialmente, enaltecendo-o como um magistral trabalho de arte cinematográfica —, o público, de modo geral, ignorou-o. Alfred Hitchcock, profundamente constrangido com seus fracassos de bilheteria, culpou o envelhecido Jimmy Stewart por não ser mais atraente ao público. E, estranhamente, Um Corpo que Cai desapareceu, tornando-se um dos chamados “filmes perdidos” de Hitchcock. Em 1983, ele finalmente apareceu mais uma vez nas salas de cinemas e, um ano depois, em vídeo cassete. Desde a sua reapresentação no início dos anos 1980, críticos têm, geralmente, considerado-o um dos dois maiores filmes já feitos, disputando o primeiro lugar com Cidadão Kane.

Não importa quantas vezes se assista a Um Corpo que Cai, ele demanda total atenção e concentração. Esse é simplesmente o tipo de filme que não pode servir como pano de fundo.  É uma obra de arte completa, e, como tal, requer tudo de nós. Mesmo os créditos de abertura — perturbadoramente freudianos e junguianos — desorientam o espectador. Projetados pelo renomado designer gráfico Saul Bass, eles consistem em modelos rotativos, os quais levam nossos olhos e mente às profundezas do desespero psicológico e do horror — em um abismo pessoal e existencial. Os créditos devem servir também como uma advertência: se você assistir a este filme acreditando que irá terminar duas horas depois com um belo sorriso no rosto e no coração, você estará redondamente enganado. Não há nada feliz neste filme.

Após os créditos de abertura, a cena inicial é um clássico absoluto, na medida em que vários homens correm cruzando os telhados de San Francisco ao anoitecer, uma cena imitada por Dark City e Matrix. Assim que a perseguição começa, o detetive Jimmy Stewart (John “Scotty” Ferguson) escorrega, por um tubo de drenagem, para salvar a vida. Conforme um colega policial tenta ajudar Scotty, o detetive é atingido por uma vertigem, fazendo que aquele que seria seu ajudante e colega caia vários andares abaixo, morrendo com o impacto no solo. Um inquérito oficial livra Scotty de qualquer delito, mas, ele, atormentado pela culpa, sai do departamento de polícia. Esse é um baque e tanto para Scotty, pois ele havia sido um advogado que se tornou detetive, vislumbrando um dia transformar-se um Comissário de Polícia de San Francisco.393785_0

A melhor amiga de Scotty é Midge, sua namorada de longa data e, presumivelmente, a única que adiou o noivado em algum momento durante a faculdade, mas que, claramente, ainda o ama. Que ela ama Scotty está claro, mas o modo como ela o ama permanece incerto durante todo o filme. Uma costureira profissional e designer, Midge aperfeiçoa e cria sutiãs. Tal como acontece muito nos filmes de Hitchcock, a orientação sexual dos personagens não é clara. Em Festim Diabólico, os principais assassinos são quase que certamente homossexuais. Em Um Corpo que Cai, a personagem de Midge poderia muito bem ser uma lésbica, embora isto esteja longe de ser óbvio. Ela revela-se excessivamente protetora de Scotty, apesar de ser legal com ele e permanecer romanticamente desapegada. Quando ele demonstra interesse por outra mulher, Midge torna-se excessivamente possessiva, ainda que não esteja disposta a dar a ele a chance de um relacionamento sério e comprometido.

Outro velho amigo de faculdade reaparece na vida de Scotty após o final de seu internamento no hospital. Envolvido estranhamente com uma história complicada sobre fantasmas, vidas passadas e assombrações espirituais, ele solicita que Scotty siga sua esposa — a qual está, supostamente, possuída [pelo espírito de] uma bela latino-americana da São Francisco do século XIX em Carlotta Valdez. Próximo do fim de sua vida trágica, a decaída bela Carlotta caiu na loucura, perguntando por seu filho enquanto vagava sem rumo pelas ruas de São Francisco. O velho amigo de faculdade alega temer que sua esposa também esteja adquirindo a loucura [do espírito pelo qual está possuída].

Em Festim Diabólico, tudo é claustrofóbico. Aqui, em Um Corpo que Cai, tudo é imenso, aberto e estonteante. É difícil conseguir se orientar no filme, uma intenção óbvia por parte do diretor. Hitchcock notoriamente odiava filmagem externa. Um perfeccionista, queria o controle sobre todos os aspectos do filme. Grande parte de Um Corpo que Cai, contudo, realiza-se do lado de fora, e Hitchcock vê-se adepto tanto de filmagens ao ar livre como em ambientes fechados, apesar de suas próprias hesitações. Novamente, detalhes são abundantes em Um Corpo que Cai, frequentemente enchendo a tela. Hitchcock até contratou Edith Head — talvez imortalizada na nossa geração como a melhor designer exorbitante de Os Incríveis — para adaptar e customizar todos os trajes das mulheres no filme. Voluptuosa em todas as suas variadas paisagens, São Francisco serve como um perfeito fundo de cenário para o filme.

Sem revelar muitos detalhes do enredo — todos do qual são inesperados, entrelaçando e girando em formas talvez somente lógicas para a alma perplexa de Hitchcock — Um Corpo que Cai segue tanto a loucura simulada como a loucura real. Existe um assassinato no centro da história, e Scotty, uma vez mais, vê-se preso no meio disso, inseguro em seus próprios desejos, em suas próprias virtudes e em seus próprios pecados.

untitledTalvez o mais importante seja, no entanto, o fato de Scotty apaixonar-se pela segunda vez em sua vida. Midge poderia ter sido a primeira, mas a nova mulher —protagonizada por Kim Novak — torna-se a obsessão relativamente boa de Scotty. Novak iludiu o homem muito mais velho, e ele caiu de amor por ela completamente. No início, ela se apresenta como uma loira platinada de classe alta, tão sofisticada quanto imaginável na década de 1950. Mais tarde, no filme, ela se oferece como uma solitária e moralmente suspeita provinda de Salina, Kansas. Agora, bem longe da loira platinada, ela é uma ruiva relativamente sexualizada, uma caipira fazendo seu caminho na cidade grande. Scotty cai de amor pelas duas, reconhecendo as possibilidades de transformar a ruiva na loira platinada.

Como mencionado acima, não se deve iniciar esse filme com ânimo alegre ou com a expectativa de um final feliz. Foram tantas as vezes que assisti a esse filme ao longo dos últimos trinta anos, e ele nunca deixou de me deprimir. Isso também, obviamente, me intriga imensamente. Este não é um simples trabalho de arte. Este é profundo, cheio de nuances e estratificado. Cada cena revela algo intenso e profundo.

Como a história é um turbilhão de desejos conturbados, assim também é a moralidade de Um Corpo que Cai.  Independente do que Hitchcock tenha pensado após o fracasso de bilheterias do filme, a performance de J. Stewart é impecável, como o é a de Barbara Bel-Geddes representada por Midge. Se existe um problema com o filme, é Kim Novak. Para os padrões dos anos 1950, ela poderia ter sido considerada atraente, mas, na minha visão, ela tão somente parece indigna e desprezível. Se Jimmy Stewart tivesse sido algo menos que um ator, sua obsessão por Kim Novak teria sido ridícula. Felizmente, ele é o perfeito protagonista masculino dos anos 1950, igualmente astuto e inocente, igualmente violento e sensível.

Um Corpo que Cai permanece uma joia, verdadeiramente uma das grandes obras de arte do século passado.

[*] Bradley J. Birzer. “Madness and Despair: Hitchcock’s Vertigo”. The Imaginative Conservative, 23 de Janeiro de 2016.

Tradução: Walkiria Melo

Revisão: Gleice Queiroz

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