Liberdade e Vida Intelectual

Por Zena Hitz [*]

Que sentido faz estudar Humanidades? A pergunta reflete o clima atual entre os educadores humanistas: ansiedade com um toque de desespero. Com o declínio de matrículas, cortes de programas e diminuição de cursos, as instituições de ensino tradicionais estão se tornando lugares desconfortáveis para os professores que zelam pela aprendizagem humanista. Mas a crise na área de Humanas não é apenas uma crise causada por Vilões que querem destruir Tudo O Que É Bom. É principalmente algo muito mais preocupante: uma crise de confiança em nós mesmos, uma crise causada por uma falha de auto-entendimento. Somos assombrados pela sensação de que o que fazemos é de alguma forma inadequado ou sem sentido. Esta é uma falha de imaginação, tanto quanto uma falha de compreensão.

O filme de Mona Achache “Le Hérisson” (“O Ouriço”) apresenta uma imagem pouco comum da vida intelectual. O filme conta a história da amizade de três pessoas em um apartamento burguês parisiense. No centro da história temos Renée, uma proletária feia de meia-idade, a porteira do edifício. A idade avançada de Renée é filmada com um realismo inquietante — sua figura atarracada, com o rosto sem adornos, seus casacos desleixados e seu hábito solitário de comer chocolate. Mesmo assim Renée exerce uma atração misteriosa sobre Paloma, de doze anos, filha de privilegiados que é obcecada pela vida sem sentido de sua família e que vai planejando, de forma um tanto extravagante, seu próprio suicídio. Renée também atrai Kakuro, um japonês recém chegado ao edifício e que tem um interesse romântico por ela. É um choque para o espectador que uma figura tão pouco cinematográfica seja o astro romântico.

A antecessora fílmica de Renée no quesito meia-idade é Emmi, a protagonista romântica da obra-prima de R. W. Fassbinder “O Medo Consome a Alma” (Angst Essen Seele Auf), de 1974. Ao contrário da atual imagem Hollywoodiana da meia-idade — como a dramaturga interpretada por Diane Keaton em “Alguém Tem que Ceder” (2003), rica, realizada, charmosa e ainda sexy — a Emmi de Fassbinder é gorda, enrugada, tola, e uma faxineira, o fundo do poço social. Emmi se apaixona por um jovem imigrante temporário marroquino, para desgosto dos filhos xenófobos bem como de seus vizinhos e colegas de trabalho. Renée se apaixona por Kakuro, quebrando a fronteira nítida entre ela e os ricos moradores do edifício. A história de amor em ambos os casos resulta numa conexão humana real que se destaca em nítido contraste de seus ambientes sociais, terríveis e guiados pelo status.

A novidade que “O Ouriço” introduz no tema — e neste ponto segue o romance em que é inspirado, “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery — é que esta conexão humana inquietante mas autêntica origina-se e baseia-se na vida intelectual. Renée, a porteira, irritadiça e ignorante em público, tem um segredo: ela lê avidamente grandes romances e livros de filosofia, história e clássicos. Em um momento chave ela é mostrada num momento particular, de porta fechada, lendo filosofia à mesa de jantar. Mais tarde, ela é vista retirando-se para um quarto secreto atrás da cozinha, recheado com livros e uma cadeira de leitura. É essa vida secreta que atrai o pretendente japonês, bem como a protagonista do filme, Paloma. Kakuro, o pretendente, sabe quem ela é porque seu gato tem o nome de Leon Tolstoy, como os próprios gatos dele. Paloma, a protagonista, percebe que Renée é uma alma gêmea quando ela descobre um tratado filosófico acidentalmente deixado na mesa da cozinha. Em uma cena central Paloma está na cozinha de Renée e percebe a porta fechada que leva ao seu quarto de leitura. Intrigada, ela pergunta: “O que tem atrás daquela porta?” É a vida oculta de Renée que atrai os outros personagens e que forja as amizades em que se refugiam da bolha privilegiada e vazia que os rodeia.

A vida intelectual como retratada neste filme tem quatro características principais:

1) É uma forma da vida interior de uma pessoa, um lugar de retiro e reflexão.

2) Como tal, é algo afastado do mundo, “o mundo” sendo entendido no seu sentido (originalmente platônico, depois cristão) de “locus” da competição e de luta por riqueza, poder, prestígio e status.

3) É uma fonte de dignidade — algo óbvio no caso do baixo status de Renee, uma mulher da classe trabalhadora sem atrativos, sem filhos e longe da idade fértil.

4) Ela abre espaço para a comunhão: ele permite uma conexão profunda entre os seres humanos.

ouricoDessas quatro características da vida intelectual, é a noção de afastamento que tem importância central. É o fato de a vida intelectual se afastar do mundo que explica a sua verdadeira interioridade — uma interioridade distinta da busca pessoal narcisista da própria posição social. É a independência da pessoa que se afasta da competição por riqueza ou status que fornece ou revela um tipo de dignidade que não pode ser classificado ou negociado. Esta dignidade, mais a universalidade dos objetos do intelecto — pois que eles estão disponíveis para todos — é que abre espaço para a comunhão real.

A imagem do intelecto como um refúgio do mundo é raro hoje em dia, mas sua história é significativa. Como o Sócrates da “República” de Platão reconhece a probabilidade de o mundo continuar com seus males, ele descreve o filósofo como alguém que se retira da vida pública “como alguém que se refugia sob uma pequena parede de uma tempestade de poeira ou granizo impulsionado pelo vento” (República 496d). O pensador não mundano é como uma figura de antigas lendas: o próprio Sócrates, é claro, perdendo-se em pensamentos no começo de um jantar, como descrito no “Banquete” de Platão; ou Tales, que supostamente caiu num poço quando olhava as estrelas; ou Diógenes, o Cínico, cujo único pedido para Alexandre o Grande, quando com ele se encontrou, foi para ele sair da frente da luz do sol. Talvez o mais extraordinário é o caso narrado por Plutarco sobre o grande matemático Arquimedes, tão absorvido numa prova matemática que ele não notou sua cidade ser tomada pelos romanos, e que foi morto por um soldado quando ele insistiu em completar sua prova antes de ser levado para as autoridades romanas.

Os cristãos antigos falam de uma vida intelectual nos moldes desse ideal platônico. Assim, Agostinho descreve o amor à sabedoria como um esforço para “reunir toda a nossa alma de forma tal qual a que atingimos pela mente, para ali estacionarmos e nos entricheirarmos completamente, para que possamos não mais nos vangloriar dos nossos bens privados, que são ligados a coisas efêmeras, mas em vez disso lançarmos de lado todo o apego a épocas e lugares e apreender aquilo que é sempre único e sempre o mesmo”. (“Sobre o Livre Arbítrio” 2,16)

Na Idade Média e posteriormente a Virgem Maria é frequentemente retratada lendo num quarto quando o anjo Gabriel chega com sua proposta. Às vezes há um livro, a Torá, como no Rertábulo de Merode, de Robert Campin. Às vezes, os livros são empilhados em um estudo, como na Anunciação de Fra Filippo Lippi, onde Maria está claramente no meio de um trabalho sério. No entanto, muitos ou poucos os livros, a menina está sempre sozinha e sempre de alguma forma abrigada ou enclausurada. Os artistas ilustram numa antiga tradição de apresentar Maria como uma leitora voraz, a estudar as Sagradas Escrituras, e segundo uma noção, então comum, da afinidade entre a vida intelectual e espiritual, do “jardim cerrado” onde o Deus da verdade se encontra com o crente, apartado das demandas do mundo.

Tal modo de encarar a vida intelectual é bastante distinto da visão dominante atual entre os educadores e teóricos da educação. As artes liberais são para o mundo; e quanto mais integrados estão com a prática mundana, melhor. Aqui os defensores das ciências humanas se dividem em dois campos: os que pensam que as artes liberais promovem a efetiva aquisição de riqueza, e aqueles que pensam que promovem bens sociais e políticos. Assim lemos, de acordo com a primeira opinião, que a filosofia é valorizada no Vale do Silício; ou, nos argumentos popularizados por Fareed Zakaria, que as artes liberais são essenciais para a inovação e para a promoção da prosperidade. Mas mesmo autores que compreendem que o valor da educação é bastante diferente do valor da prosperidade caem em armadilhas semelhantes. Para eles o estudo das Humanidades significa formar cidadãos; o seu objetivo final é o engajamento cívico. Tal ponto de vista é encontrado mesmo entre aqueles preocupados em defender o valor das Humanidades por seu próprio valor intrínseco. Martha Nussbaum é um exemplo útil. Junto com Anthony Appiah e outros escritores atuais sobre a universidade, ela reconhece o valor intrínseco do estudo (seu livro mais recente sobre o tema é intitulado “Não Pelo Lucro”), enquanto que em última análise defende o valor da artes liberais como essencial para o progresso social e político. Ao fazê-lo, ela subordina a vida intelectual à política e a preocupações políticas. Nussbaum reconhece que a prosperidade é algo inadequado como meta final dos seres humanos e como finalidade de sua educação, mas ela parece pensar que a cidadania democrática é essa meta. Ela parece não entender que há coisas além de cidadania, mais esplêndidas e mais fundamentais e que essas mesmas coisas, e mais do que nunca no momento atual, precisam ser protegidas — e protegidas ainda mais das infinitas demandas da cidadania .

Da mesma forma, encontramos mesmo entre os defensores cristãos contemporâneos das artes liberais uma tendência a instrumentalizá-las. Considere a discussão da vida intelectual no livro de 2013 “Catolicismo Evangélico”, de George Weigel. Seria fácil concluir da discussão de Weigel que o propósito da vida intelectual é a “catequese e evangelização” isto é, instilar e disseminar as opiniões corretas — e que seus inimigos são pessoas com opiniões falsas, modernistas e pós-modernistas. Não há nada de errado com a promulgação de opiniões corretas ou a tentativa de refutar erros. Mas considerar o cultivo de opiniões corretas como o objetivo da vida intelectual, como fazem tantos intelectuais cristãos nos dias de hoje, é um erro destrutivo. Tratar opiniões corretas como uma meta cria obstáculos ao desenvolvimento intelectual real, não por causa de seu conteúdo, mas porque ao fazê-lo reduz os seres humanos a seus papéis sociais. Somos então sutilmente doutrinados a abandonar nossas vidas interiores para que possamos servir melhor a objetivos sociais e políticos.

Intelectuais à direita e à esquerda têm sucumbido ao ativismo: a vida intelectual serve à causa da mudança social. Mas, assim como a arte de adquirir riqueza, a arte de lutar pelo poder político não requer uma disciplina especial. Não há perigo, em nossa cultura hiper-moralizada e hiper-política, que os nossos jovens de alguma forma deixem de ficar encantados com a perspectiva de fazer a diferença. O perigo é bastante diferente: que, com todos os bens humanos sendo usados ou descartados na luta por fins sociais e políticos, percamos nossa humanidade e a dignidade que ela implica. Perdermos aquilo que torna a vida digna de ser vivida, seja a vida intelectual ou qualquer outra das atividades humanas incrivelmente preciosas que existem em paz e em santa inutilidade.

As pressões “do mundo” — pressões para acumular riqueza e lutar pelo poder — são extremamente fortes, assim como o risco de nossa humanidade ser diminuída na capacidade de fazer uma contribuição ou de “fazer a diferença”. Este sempre foi o problema. O que é necessário, agora mais que nunca, são formas de ascetismo, formas de disciplina que protejam os seres humanos de tais pressões e ajudem a preservar as manifestações da dignidade humana e as formas de comunidade que a dignidade torna possível. A vida intelectual é uma dessas formas cruciais de ascetismo. Que ela possa ser preservada como tal.

[*] Zena Hitz. “Freedom and Intellectual Life”. First Things, 7 de Abril de 2016.

Tradução: Felipe Alves

Revisão: Rodrigo Carmo

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