Hype Conservadora: por que ser autêntico é mais importante do que ser descolado?

Por Melissa Langsam Braunstein [*]

Os habitantes de Washington não se importam se você disser que o Distrito de Colúmbia é a Hollywood das pessoas feias. Mas diga-lhes que a cidade não é o epicentro do poder que eles acham que é, e eles ficarão incomodados.

A sociedade dos conservadores de Hollywood, The Friends of Abe, Inc. (FOA), acredita que a guerra de idéias está acontecendo dentro de nossa cultura, e não nos “think tanks”. O diretor-executivo do grupo, o cineasta independente Jeremy Boreing, conversou comigo recentemente por telefone sobre a luta crucial da qual os conservadores, há muito tempo, abriram mão.

Se todo mundo em Hollywood é de esquerda, é legal ser conservador?

Nunca é legal ser conservador, porque o “legal” é algo especificamente definido pela cultura, e a cultura é definida pela esquerda. Ouço muita gente falar sobre tornar o conservadorismo algo “legal,” mas não acho que isso seja possível. Você está tentando conquistar a aprovação de um sistema configurado para se opor a você. Ser “autêntico” é um objetivo melhor. Os conservadores estão no auge de sua forma quando são autênticos e verdadeiros.

A ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis) está processando Hollywood por discriminação contra as mulheres. Isso é uma ironia?

As mulheres são sim discriminadas em Hollywood. Estive em reuniões de apresentação, com  a presença de mulheres , nas quais se diziam as coisas mais vis sobre mulheres – coisas como, com que tipo de mulheres o CEO gostaria de fazer sexo para, assim, determinar quem deveria integrar o elenco. Muitas dessas mulheres tendem bastante para a esquerda e sentem na pele como dói esse preconceito, mas não percebem que outras pessoas também podem se sentir feridas, pessoas que podem ter crenças diferentes, tradicionais. Metade do país é do sexo feminino, mas metade dele também é conservador.

O Presidente Obama “compreendeu” [como funciona] a cultura pop?

O Presidente Obama é um produto da cultura pop. Certa vez Morgan Freeman contestou as pessoas que chamavam Barack Obama de o primeiro presidente negro. Ele disse que foi ele o primeiro presidente negro [no filme  “Impacto Profundo”] e, de muitas maneiras, isso é verdade. Mesmo que os democratas não entendam de cultura, eles pelo menos compreendeem seu valor. Obama sabe que ela é a ferramenta mais eficaz que existe para produzir mudanças.

Existe algum membro promissor no Partido Republicano de 2016 que entenda a cultura pop?

Há vários que tentam entendê-la, mas temos um longo caminho a percorrer. Temos que aprender a ter desenvoltura no palco. Um exemplo: Marco Rubio beber água no meio do discurso mais importante de sua vida. Ele deixou o pódio durante um discurso televisionado, o que significa interromper a transmissão, e as pessoas mudam de canal quando a TV sai do ar. Foi um erro muito pequeno, mas um enorme fracasso em termos de domínio do palco. Nossos políticos de direita precisam aprender a se apresentar e a falar.

Alguns reclamam que Obama não parece um americano, mas era [Mitt] Romney que não parecia americano, porque ele não parece alguém que tenha envolvimento com a cultura pop. As pessoas não saem por aí citando os Pais Fundadores, elas falam de “Modern Family” e “Os Simpsons.” Como você pode querer moldar a cultura e ser insensível à cultura?

Em geral, a associação com ícones da cultura pop ajuda ou atrapalha os políticos?

Ícones pop são um negócio arriscado, especialmente na direita, porque temos muito poucos deles. Se uma celebridade de direita fizer algo de errado, a cultura pop se voltará contra ela, minando sua popularidade, o que prejudicará o político. Tome por exemplo a família Duggar. Todo político de direita está agora tendo que defender  sua associação com os Duggars. Na direita, cada vez que você usa uma celebridade, você perde celebridade. Uma melhor utilização do tempo seria aprender com os conservadores [atuando na indústria do] entretenimento sobre o poder do palco e de como falar a linguagem da cultura.

Caitlyn Jenner é “o novo normal”?

Caitlyn Jenner é o novo normal? É o novo normal porque os conservadores permitiram que as coisas se tornassem assim; não temos dito a verdade na cultura pop. Os conservadores não estão na guerra das ideias. Eles pensam no que está acontecendo no D.C., mas o D.C. só pode se mover dentro dos limites estreitos que a cultura permite.

Considere o seguinte: o presidente Obama não poderia ser eleito em 2008 sem se opor ao casamento gay, e ele não podia ser reeleito sem apoiá-lo. Não importa no que ele acredita. Aquilo era o que ele tinha de dizer; este é o poder da cultura pop.

Eu pessoalmente acho que é trágico que grande parte do País esteja comemorando isso. Se você discorda de mim, é bom para você que a cultura concorde com você. A biologia de Caitlyn Jenner é menos importante do que as pessoas percebem e do que a cultura pop diz sobre a situação. As pessoas vêm fazendo estas cirurgias há uma geração e meia, e elas não foram capa da Vanity Fair e tampouco paparicadas até agora, então, obviamente, algo mudou, mudança essa conduzida pelos valores da cultura pop.

Por que “Sniper Americano” foi tão bem nas bilheterias?

Não era propaganda. Você vê exibida ali [na tela] a nobreza do soldado americano. O filme de Eastwood não tem uma visão exagerada e bidimensional. O filme abre com uma cena sobre uma decisão a ser tomada, mas sem uma resposta moral nítida. É uma narrativa clara dos horrores da guerra, mas as pessoas sabem que nós [os americanos] somos os mocinhos. Foi algo autêntico e verdadeiro, e representou os valores de um mercado extremamente carente. Esta é uma oportunidade de mercado, se você tiver tolerância ao risco e o coração para entrar nessa luta.

Em que os conservadores devem se empenhar?

Precisamos criar nossas próprias estruturas. Um grande exemplo é a Fox News. Murdoch e Ailes desafiaram a mídia existente através da criação de sua própria rede, e ao fazer isso, eles mudaram as coisas para sempre. Desconheço o orçamento da Fox News, mas não é [o equivalente a] nenhuma campanha de “crowdfunding”; é uma operação de bilhões de dólares. Precisamos equiparar o jogo na cultura pop.

Ninguém se importa se Obama citar “Impacto Profundo”, mas “Impacto Profundo” tornou-lhe possível a presidência. Sem “Will and Grace” não haveria nenhum debate nacional sobre o casamento gay ou a enorme reviravolta sobre o assunto que aconteceu em tão pouco tempo. Hollywood desistiu dos conservadores, mas os conservadores também desistiram de Hollywood. Foi um grande erro.

Palavras finais?

Se perdermos a cultura pop, perderemos a cultura em geral.

[*]  Melissa Langsam Braunstein. “A Fox News for Pop Culture”. Real Clear Politics, 21 de Julho de 2015.

Tradução: Felipe Alves

Revisão: Rodrigo Carmo

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