Ficção, Cultura e Guerra de Narrativas: as histórias praticamente se escrevem sozinhas

Por John Biver [*]

Se queremos ganhar a guerra de narrativas, então devemos lutar em todas as frentes e em todas as arenas – e isso inclui escrever contos de ficção. O colaborador de BarbWire, Paul Hair, publicou recentemente suas primeiras coletâneas de contos, Mortal Gods: Ignition e Winning through Losing. Como sou fascinado pelo processo criativo, eu tinha algumas perguntas para Paul:

JB: Uma apresentação rápida: você é um militar reformado que virou escritor de não-ficção – e agora de ficção. Fale mais do essencial sobre si mesmo e que possa ajudar os leitores a saber o necessário sobre você.

PH: Já escrevo colunas e artigos de não-ficção há mais de cinco anos, tendo sido publicados em sites reconhecidos nacionalmente como Breitbart, o Daily Caller, WND e BarbWire. A maior parte desses textos se concentrava em coisas sérias, incluindo as chamadas questões sociais. São assuntos importantes, mas também é algo deprimente escrever sobre eles. Chegou a hora de me concentrar na ficção e em outras coisas, e me divertir com isso. Por isso Mortal Gods: Ignition e Winning through Losing.

JB: Em sua entrevista na BarbWire de Paul Bois, autor de “The Bound”, você fez esta pergunta: “Você acha que os conservadores e cristãos entendem corretamente a importância da cultura e estão envolvidos nela?” Qual é a sua resposta para essa pergunta?

PH: O Sr. Bois deu algumas respostas realmente ponderadas. Encorajo todos a lê-las.

Quanto à minha resposta à pergunta: “Você acha que os conservadores e os cristãos entendem corretamente a importância da cultura e estão envolvidos nela?” Não.

Alguns conservadores e cristãos compreendem a importância da cultura, e pode-se encontrar alguns artigos ou colunas que explicam brilhantemente o porquê dessa importância. (Leia, por exemplo, “A Integração da Teoria e da Prática: Um Programa para o Novo Movimento Tradicionalista”. Eric Heubeck o escreveu e o Free Congress Foundation de Paul Weyrich publicou em 2001. Já não está na FCF, mas você ainda pode encontrar cópias em algum lugar – principalmente em sites de esquerda que continuam histéricos com ele. A análise e avaliação de Heubeck é uma das melhores coisas escritas no século XXI sobre cultura e estratégia.)

Mas a maioria dos conservadores e cristãos não entende a importância da cultura. E isso é uma vergonha porque a cultura é o formador primário de nossos valores e crenças. Podemos criar tantos órgãos de imprensa, think tanks, organizações de políticas públicas, programas de rádio, movimentos políticos e grupos para monitorar o que quisermos. Mas se não tivermos nenhuma influência sobre a cultura, perderemos a guerra.

JB: Robert McKee, autor do manual de roteiro Story, escreveu que quando as pessoas se voltam para a ficção elas “não desejam escapar da vida, mas encontrar a vida (…) exercitar [suas] emoções (…) para adicionar profundidade aos seus dias”. O mundo “consome” filmes, romances, teatro e televisão em grande quantidade: qual é a situação atual dessa “dieta” e como trabalhos como o seu podem melhorá-la?

PH: Ultimamente um número cada vez maior de meus artigos de não-ficção, particularmente os publicados em BarbWire, têm focado no entretenimento. E apesar de conservadores e cristãos se queixarem regularmente de Hollywood, eles consomem Hollywood tanto quanto quaisquer outros.

Sem citar nomes, um notável conservador que é visceralmente anti-Donald Trump escreveu recentemente uma resenha em que elogia o novo filme Deadpool. Ele até mesmo alardeou sobre como o filme era bem divertido e vulgar, e incentivou os outros a vê-lo. Ri comigo mesmo, porque achei que aquilo resumiu o modo de pensar de um monte de conservadores (e até mesmo cristãos): eles falam sobre como as pessoas e a cultura se tornaram tão vulgar e corrompidas ao mesmo tempo em que se eles mesmos se envolvem com algumas das coisas mais vulgares e corrompidas que Hollywood tem a oferecer. E não parecem perceber a ironia disso tudo.

Então, onde é que meu trabalho ficção entrar nisso tudo? Eu ofereço uma alternativa a Hollywood. Minhas histórias não são sermões nem fazem pregação de nada, mas não glorificam o Mal nem denigrem o Bem. (Leia a minha recente coluna na BarbWire, “Hollywood Glorifica Satanás em ‘Lúcifer’ e Demoniza Deus em ‘Pregador’” para um exemplo do que eu quero dizer com isso).

Ao mesmo tempo, minha ficção é provocadora e possui temas e motivos. Por exemplo, Deus está presente em todas as três histórias de Mortal Gods: Ignition, mas você tem que procurar por Ele.

Então, minha ficção é entretenimento, mas ao mesmo tempo ela não promove o Mal nem funciona como algo superficial sem valor.

JB: Pode parecer assustador mergulhar numa arena dominada pelos esquerdistas e pela cosmovisão pagã. Como você encorajaria outros a se aventurarem na literatura de ficção – e, assim que puderem, se envolverem completamente?

PH: Comecem a escrever e comecem a promover o que escrevem. É isso que estou fazendo agora. Não tenho nenhum grande conselho para dar porque eu ainda não estou consolidado no mercado. Aproveitem o máximo que puderem das novas mídias e tecnologias e tentem cultivar um público.

Além disso, embora seja verdade que você pode encontrar hostilidade por parte da esquerda, você pode encontrá-la da direita também. Por outro lado, você pode encontrar pessoas da esquerda dispostas a ajudá-lo (ou que serão mais simpáticos a você do que as pessoas da direita). Isso não quer dizer que você não vá encontrar pessoas da direita que lhe sejam simpáticos e que irão ajudá-lo, porque você vai. Mas mantenha as opções em aberto e espere pelo inesperado.

JB: Explique para nós o seu gênero – “super-humano transgênero” parece mais uma paródia – e paródias não são algo fácil nos dias de hoje devido a todas as loucas histórias da vida real que enchem as manchetes diariamente.

PH: Você tocou num ponto importante. “The First Transgender Superhuman” é na verdade apenas um dos três contos de Mortal Gods: Ignition. E tanto o título quanto o enredo do conto levam em consideração a obsessão moderna com o conceito de “transgênero”. Há um elemento de paródia no título e até mesmo no enredo, mas em última análise é uma história dramática.

Coloquei de propósito “transgênero” no título e no enredo porque é uma história atual para os tempos atuais – só que é trabalhada de uma forma diferente de qualquer coisa que você já tenha lido. Na verdade, “The First Transgender Superhuman” é tão acurado na abordagem de questões contemporâneas que você vai se surpreender em ver como o elemento “transgênero” do enredo acaba refletindo fatos da vida real de forma assustadoramente plausível. (Leia a história e depois leia este artigo sobre como a CIA tem uma estratégia para recrutar mais pessoas “transgênero”.)

The First Transgender Superhuman” também trata dos estrangeiros ilegais que estão invadindo e tomando conta da América – outra questão contemporânea. E se você está se perguntando se não são elementos demais num único conto, a resposta é que não são. Leia para ver como todas essas coisas se unem de uma forma completamente única e satisfatória. A última frase da história é incrivelmente engraçada.

O mesmo vale para os outros dois contos em Mortal Gods: Ignition (“Like Hail and Fire, Mixed with Blood” e “Warrior”).

Além disso, todas as três histórias se passam um universo onde super-humanos – não super-heróis – existem e vivem da forma como tais seres poderiam viver em nosso mundo. Em outras palavras, eles não vestem malha apertada e vão combater o crime. Em vez disso, usam roupas comuns e estão sujeitos ao império da lei, como todo mundo.

Criei o universo de Mortal Gods porque tanto eu quanto o público somos fascinados pelo conceito de super-humanos. Além disso os super-humanos não são mais meras fantasias. Escrevi recentemente para a BarbWire um artigo que mostra como os governos e forças militares do mundo estão incessantemente tentando criá-los.

Assim, as tramas e os títulos (de Mortal Gods: Ignition e dos contos dentro dele) foram criados para atrair uma vasta audiência. Na verdade, para atrair quem quer que seja um adulto. Não quero que este livro seja apenas para os conservadores – quero que os esquerdistas também o leiam e gostem dele.

Gostaria que todos lessem e apreciassem meu segundo livro de contos, mas provavelmente o apelo será bem maior para os conservadores. Ambas as histórias em Winning through Losing acontecem no mundo real.

Se quer dar boas risadas, leia “Common Ground” em Winning through Losing. Não é exatamente uma comédia, mas acaba caindo na categoria. E se você é um fã de política, com certeza vai adorar. É um conto sobre como o Partido da Grande Tenda está combatendo o Partido Para a Frente numa eleição presidencial. (Eles são, é claro, caricaturas dos nossos partidos políticos da vida real.) E sabe como constantemente ouvimos falar sobre a necessidade de encontrarmos um “terreno comum” na política? Esse conceito desempenha um papel importante na trama, e no final resulta num desfecho engraçado.

Enfim, estou realmente explorando vários gêneros e colocando questões contemporâneas nas histórias de meus dois livros.

JB: Fale-nos sobre Liberty Island.

PH: Liberty Island é um webzine que publica autores conservadores e libertários. Foi criado com o propósito expresso de ajudar pessoas fora da ideologia esquerdista a se inserirem no mundo da cultura. Sou um dos Criadores na Liberty Island. Esta não publicou nem Mortal Gods: Ignition nem Winning through Losing, mas o fato de terem me escolhido para fazer parte da equipe é algo que realmente me deixou feliz. Com isso meus leitores também ficam sabendo que alguém conhece a minha obra e vê algum valor nela. Em outras palavras, se alguém compra e lê Mortal Gods: Ignition e Winning through Losing, estará adquirindo um produto de qualidade.

JB: Em que você está trabalhando agora?

PH: Gostaria de escrever mais histórias do Mortal Gods. E, fiel à ideia de escrever histórias sólidas e que tenham apelo para todos, poderei um dia escrever histórias do Mortal Gods a partir do ponto de vista de personagens diferentes – incluindo personagens que tenham crenças inteiramente opostas às minhas. (Na verdade, é bem possível que ninguém em Mortal Gods: Ignition e Winning through Losing compartilhe exatamente as mesmas crenças que eu. Eles são, afinal, ficção.)

E gostaria de transformar o “Common Ground” numa série contínua. Sempre podemos fazer bom uso do humor, e o final do conto deixa de fato aberta a possibilidade de continuações. E eu acho que poderia escrever um monte de continuações. Os políticos e os “especialistas” são tão revoltantes e ridículos que as histórias praticamente se escrevem sozinhas.

Além disso tudo, há muitas outras histórias que já esbocei. Provavelmente publicarei algumas delas no meu site pessoal Liberate Liberty (onde publico atualizações da minha obra de ficção e questões culturais/de entretenimento relevantes) e na minha página de Criador na Liberty Island.

[*] John Biver. “Fiction, Culture, and the Information War: The Stories Practically Write Themselves”. Barbwire, 23 de Fevereiro de 2016.

Tradução: Felipe Alves

Revisão: Rodrigo Carmo

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