Ficção Científica: o despertar da imaginação

Bradley J. Birzer [*]

Você deseja dominar um mundo? Destruir um sol? Testar uma teoria social? Explorar as profundezas da depravação? Dar um fim a escravidão e a miséria? Destruir todos os impérios?

Isso é possível… ao menos na imaginação.

O estudo apropriado da natureza humana é tudo; compreendê-la [a natureza humana], assim como na arte, é o despertar da imaginação e das paixões.” [C.S. Lewis, “On Science Fiction”]

Como a ficção científica agora nos cerca e não reside, especificamente, em meio algum, tomamos ela como uma garantia. Mesmo com a perda do aspecto da “nova fronteira” na ficção científica em busca de outros mundos, certamente nos propomos a explorar seus limites [da ficção científica] — ao menos tecnológica e cientificamente. Estou escrevendo este mesmo ensaio em um aparelho criado por Steve Jobs que vai muito além do que [os roteiristas de] Jornada nas Estrelas e seu “futurismo” foram capazes de imaginar.

Durante a primeira metade do século XX, entretanto, o que veio a ser conhecido como ficção científica era algo desacreditado por quase todos os literatos e pelo público americano em geral. Consideravam-na uma literatura de baixa qualidade, infantil e semi-pornográfica. Associadas às revistas pulp, as obras de ficção científica geralmente apareciam nas prateleiras das farmácias, próximos aos contos eróticos obscenos, romances e gibis. Apesar de algumas histórias famosas — como o “Admirável Mundo Novo” — a ficção científica permanecia sob suspeita de muitos e altamente estimada apenas por poucos. Estes eram verdadeiramente aficionados e entusiastas, encontrando-se diversas vezes ao ano naquilo que ficaria conhecido como convenções, escrevendo e enviando correspondências [para as revistas], trocando livros e romances sempre que possível. O autor de romances policiais e [histórias de] suspense, Sharon McCrumb, escreveu dois suspenses passados nos primórdios das convenções de ficção científica e, que, ao menos na minha opinião, descreviam a cultura perfeitamente.

12825186_770040249763413_44784668_n

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

No entanto, todo esse desprestígio e rejeição prestaram um grande serviço ao novo gênero, enquanto este crescia exponencialmente sem as restrições que as editoras tradicionais impunham em muitas das ficções da época, especialmente em Nova Iorque, onde tanto judeus quanto católicos não eram bem vindos em editoras respeitáveis. Descentralizados e desconectados de qualquer centro urbano, os escritores de ficção científica podiam ser anti-ideológicos, anti-conformistas e subversivos aos padrões do europeu de religião protestante e ascendência britânica. Eles podiam explorar qualquer coisa, cenário e qualquer personalidade ou comunidade em qualquer situação. É verdade, as possibilidades eram infinitas. Alguns gênios, tais como C. S. Lewis, Ray Bradbury, Isaac Asimov, Alfred Bester e Robert Heinlein encontravam-se na vanguarda de um novo movimento, um que permitia o florescimento da imaginação. Através de especulações sobre um futuro hipotético, a ficção científica se tornaria uma resposta crítica eloquente à ascensão das ideologias totalitárias e terroristas [testemunhadas em primeira mão pelos escritores desse gênero literário].

Antes do termo “ficção científica” ser aceito como um gênero, os que eram favoráveis ou contrários empregaram outros termos, tais como: [literatura] fabulista, ficção especulativa, ficção pseudocientífica e “scientifiction” (“cientificção”, em tradução livre). Sinceramente, estes termos servem tanto quanto o que passou a ser aceito, e cada um revela a expansividade e as possibilidades dessa literatura. Durante os anos 50, no entanto, Lewis, Bradbury e Sam Moskowitz desenvolveram o conceito de ficção científica. Como o termo foi aceito aos poucos (à medida que se tornava lucrativo), os literatos desdenhavam da infantilidade do escapismo contido na ficção científica, ao que Lewis rispidamente respondeu:

Talvez este seja o motivo das pessoas surgirem prontamente com a acusação de “escapismo”. Eu não havia compreendido isso muito bem até que o meu amigo, o Professor Tolkien, me fez uma pergunta bastante simples: “Que tipo de homens você considera como os mais preocupados e hostis à ideia de fuga?” e me deu a resposta mais óbvia: os carcereiros. Ser acusado de Fascismo é, certamente, uma forma simples de calúnia. Os Fascistas, assim como os Comunistas, são carcereiros: ambos nos garantem que o estudo apropriado dos prisioneiros se dê na prisão. Mas há, de fato, uma verdade por trás disso: os que remoem um passado remoto e meditam sobre um futuro distante, ou que divagam sob o céu noturno, têm uma tendência menor a se tornar fanáticos pela ortodoxia partidária do que os outros.” [Lewis, “On Science Fiction”]

12825651_770040209763417_1441317852_n

C. S. Lewis

Em um mundo pós-moderno de horrores desumanos — todos muito reais — que pessoa em sã consciência não desejaria escapar?

Conforme Lewis compreendia isso, os literatos queriam apenas comentar sobre a banalidade da vida e sua monotonia, enquanto os que adoravam a ficção científica queriam sonhar.

Nunca demonstrando timidez em seu estímulo às questões cruciais no mundo, a Universidade de Chicago — provavelmente a mais ousada e interessante instituição de ensino superior no mundo ocidental dos anos 50 — patrocinou um simpósio acadêmico significativo sobre a importância da ficção científica no dia 8 de fevereiro de 1957. Infelizmente, poucos detalhes a respeito da logística ou das origens da conferência encontram-se em domínio público, mas um estudante inglês especialista em teologia católica romana, Ronald Knox, editou quatro dos textos da conferência e publicou-os dois anos depois em um pequeno livro, “The Science Fiction Novel” (editado por Basil Davenport, em 1959). Revelando a grande diversidade no pensamento e na composição da ficção científica, a conferência teve como destaque Robert Heinlein, Robert Bloch, C.M. Kornbluth e Alfred Bester. Cada um teceu críticas construtivas sobre a ascensão do gênero, reconhecendo onde ele fora bem sucedido, onde havia fracassado e, talvez o mais importante: onde ele falhara em reconhecer suas próprias limitações.

É fascinante ler atentamente os argumentos apresentados em 1957, haja vista que os fãs de ficção científica (os mais fanáticos), em 2015, apresentam os mesmos argumentos, notando os mesmos sucessos, os fracassos e a deficiência em reconhecer as próprias falhas. No ano passado [2014], talvez alguns leitores do The Imaginative Conservative provavelmente saibam, as indicações ao Hugo desmoronaram perante o comportamento de certos fãs, que alegaram estar agindo (de forma consideravelmente rude e inapropriada, ao menos em minha opinião) por razões ideológicas. No The Imaginative Conservative, alguns dos muitos artistas que estudamos e promovemos encontravam-se no meio de tudo isso. Ganhar um [prêmio] Hugo depois desse fiasco terrível poderia revelar-se, hoje e amanhã, um símbolo de desonra, muito mais do que de honra. Somente o tempo será capaz de dizer isso.

Hugo Award – O maior premio para autores de ficção científica

Com sorte, a comunidade de ficção científica pode superar isso rapidamente.

Embora essa divisão — especialmente da forma que ela é entendida hoje e [como tem sido] nas últimas décadas — seja freqüentemente formulada nos termos esquerdistas, ela realmente reflete uma divisão entre aqueles que desejam manter a ficção científica como um gênero aberto e os que acreditam num certo padrão e tradição — estabelecidos por aqueles pioneiros entre as décadas de 30 e 50 — que ainda deveriam ser seguidos. Isso é algo novo e melhorado ou meramente novo? Recentemente, fiquei impressionado com um jovem escritor, David Forbes. Apesar de ser abertamente um esquerdista, o senhor Forbes escreve bem e pensa melhor ainda. Ao menos, os ensaios recentes de Forbes deveriam servir de alerta: caímos nos velhos hábitos da tradição irrefletida, colocando em risco nossa imaginação e nossa arte.

Não há dúvidas de que o gênero de ficção científica permitiu aos gênios — tais como Lewis e Bradbury — prosperarem, assim como o ostracismo imposto pelos críticos da cidade de Nova Iorque. A ficção científica não apenas fez com que os gênios se tornassem ainda mais geniais, mas também encorajou a excelência individual de cada escritor no florescimento contra o marasmo sufocante de sua época.

Munida de imaginação contra as temíveis leis de mercado, a ficção científica pode fazer o mesmo por nós no presente.

[*] Bradley J. Birzer é co-fundador da The Imaginative Conservative e da cátedra Russel Amos Kirk em História, na Hillsdale College. Ele é membro da Ronald Reagan Presidential Library. O Dr. Birzer é autor de Russell Kirk: American Conservative (2015, University Press of Kentucky), American Cicero: The Life of Charles Carroll, Sanctifying the World: the Augustinian Life and Mind of Christopher Dawson, J.R.R. Tolkien’s Sanctifying Myth: Understanding Middle-earth, co-editor do The American Democrat and Other Political Writings, de James Fenimore Cooper e co-author da The American West.

Link original: http://www.theimaginativeconservative.org/2016/01/science-fiction-foothold-to-the-imagination.html

Tradução: Felipe Galves Duarte

Revisão: Rodrigo Carmo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *