EUA e França: Uma Nova Santa Aliança?

 

[*] Por Michael Curtis

 

O resultado das eleições recentes nos Estados Unidos e na França aumenta a possibilidade de uma nova Santa Aliança, uma aliança informal de dois países para defender os princípios e valores da civilização ocidental, mudando o sistema atual.

O grande Marxista, Groucho, resumiu brevemente. “Eu não quero pertencer a nenhum clube que me aceite como membro.” A política atual tem seu lado divertido já que indivíduos proeminentes criticam as “elites” e o establishment dominantes em seus países, ou aqueles que dominam e participam da tomada de decisões políticas, econômicas e militares. A crítica ao establishment, por aqueles que fazem parte dele, está na moda, segundo mostram as eleições e declarações recentes.

A campanha de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos não morreu na praia por conta de sua constante advertência de que drenaria o pântano em Washington. Muito pelo contrário, ele [até] boiou sobre ele. 3a6036e700000578-3935600-image-m-14_1479158555988Mais surpreendente ainda, a primeira-ministra britânica Theresa May e, sem muita surpresa, François Fillon, um dos principais candidatos à presidência na França, eles mesmos, que pertencem a elite do próprio país, destacam as falhas das elites contemporâneas.

Em 14 de novembro deste ano, a primeira-ministra Theresa May falou no Banquete do Lord Mayor no prestigiado Guildhall, em Londres, para uma audiência rica e influente que jantava rosbife e bebia garrafas de vinho tinto de 300 dólares. Ela falou sobre estar ciente das desvantagens, bem como dos benefícios do processo de globalização e das tensões e diferenças entre aqueles que ganham e aqueles que perdem no processo.

De forma semelhante a Trump, que foi apoiado por aqueles chamados de “deploráveis” por sua rival Hillary Clinton, May indicou que compreendia o problema de pessoas modestas a pessoas de baixa renda que veem seus empregos sendo terceirizados e salários reduzidos. Estes indivíduos estão descontentes ao verem o surgimento de uma nova elite global, que às vezes parece jogar através de um conjunto diferente de regras, e que cujas vidas estão muito distantes de sua existência cotidiana [dessas pessoas modestas].

Por algum tempo, a França vem sendo imensamente governada por um pequeno grupo de indivíduos, uma casta auto reprodutiva, extraída daqueles que estudaram nas mesmas e poucas escolas de elite. Se a Grã-Bretanha tem Oxford e os Estados Unidos tem a Ivy League, estas são apenas parcialmente comparáveis ao papel e ao domínio das escolas de elite francesa. Essas escolas (a Sciences-Po, a ENA, a Ecole Polytechnique e a escola de gestão de negócios, a HEC) determinam as carreiras dos seus alunos e dos líderes da França.

Um dos que anseiam pela liderança surgirá na eleição presidencial na França, que será realizada no dia 8 de abril e em maio de 2017. Dois dos principais candidatos à presidência fizeram declarações semelhantes com críticas à elite ou à sociedade francesa. As opiniões de Martine Le Pen, chefe da Frente Nacional (FN) são bem conhecidas. Ela comparou os acontecimentos na França atual, incluindo a imigração em massa de muçulmanos, 8% da população atualmente, com a invasão dos bárbaros no século 4, e afirma que as consequências serão as mesmas. A “ocupação” muçulmana na França pesa fortemente sobre os moradores locais.lepen

Le Pen é uma nacionalista feroz, e partes proeminentes de seu programa se opõem à União Europeia — a “Europa de Bruxelas” — ao globalismo, ao livre comércio e à abertura de fronteiras. Uma de suas palavras de ordem é a ênfase na “voz das pessoas … o espírito da França”. É provável que ela vá bem no primeiro turno da votação, mas, de acordo com as pesquisas, é pouco provável que ganhe no segundo turno. No entanto, as pesquisas na França, como as dos EUA sobre Trump, podem subestimar os votos escondidos, cuja prioridade é a anti-imigração.

Em oposição a ela, haverá um candidato do Partido Socialista, mas este partido e seu líder, o presidente François Hollande, andam com pouquíssima popularidade no momento. Hollande ainda não declarou se ele será candidato à reeleição: sua decisão positiva vai depender de uma redução significativa do desemprego no país. O primeiro-ministro Manuel Valls aguarda nos bastidores.

O principal adversário de Le Pen será François Fillon, o candidato de 62 anos do partido de direita Les Republicains (o antigo UMP). Fillon tem uma carreira política de 35 anos, inclusive como primeiro-ministro de 2007 a 2012, membro do conselho de ministros outras cinco vezes e representante parlamentar de sua cidade natal, Le Mans. Ele liderou no primeiro turno das primárias republicanas, ganhando 44,1% em comparação com os rivais, Alain Juppe com 28,6% e o ex-presidente e seu ex-chefe, Nicolas Sarkozy, que foi eliminado no segundo turno por ter ficado em terceiro, com 20,7% dos votos. Em 27 de novembro deste ano, Fillon venceu o segundo turno nas primárias de seu partido, com 67% dos votos. O slogan eleitoral deste veterano conservador — semelhante ao de Donald Trump — foi: “nós temos de mudar o sistema”.

fillon-11-tt-width-604-height-403-crop-0-bgcolor-000000-nozoom_default-1-lazyload-0François Fillon é mais moderado do que seu rival Juppé, mas ele é parte integrante da ala conservadora da Direita Católica do Les Republicains, quando não, um “reacionário social”, termo usado por seus adversários quando se referem a ele. Embora Fillon tenha enfatizado seu conservadorismo social e seus valores católicos e familiares, ele declarou que não tentaria anular a lei de 2013 que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Apesar de ser pessoalmente contra o aborto, ele não irá mudar a lei de 1975 defendida por Simone Veil que o torna uma prática legal na França, e nem irá alterar a lei do aborto. Ele representa valores familiares — ele e sua esposa, originalmente galeses, criaram cinco filhos em seu castelo do século XII, no oeste da França.

Fillon é muito claro sobre a ameaça que enfrenta a França e o mundo. A Rússia não representa ameaça. O verdadeiro perigo é o terrorismo islâmico e o fundamentalismo, a invasão do islamismo sangrento na vida cotidiana: “essa invasão pode sinalizar uma terceira guerra mundial”. Fillon sustenta que o Islã Radical está corrompendo alguns cidadãos muçulmanos na França. Ele defende um controle administrativo sobre o Islã, rompendo com o movimento salafista e proibindo a pregação em árabe. No verão deste ano, ele aprovou a proibição de burkinis, os trajes de banho de corpo inteiro, usados por mulheres muçulmanas nas praias da França.

Sua atitude em relação ao extremismo islâmico ficou evidente em seu livro “Conquering Islamic Totalitarianism” (Vencendo o Totalitarismo Islâmico, em tradução livre), publicado este ano. Ele chamou a França para a guerra contra esse totalitarismo. Assim como Le Pen, ele afirma que a França não é uma sociedade multiculturalista, e se opõe à ideia de políticas de identidade. Pelo contrário, a identidade nacional francesa deve ser protegida. Ele apela, entre outras coisas, por uma cooperação com a Rússia e Vladimir Putin, que o elogiou como sendo uma pessoa muito íntegra. Os dois compartilham uma preocupação sobre a virulência do Islã, especialmente o ISIS, e a proteção dos cristãos no Oriente Médio. Fillon acredita que as sanções contra a Rússia por conta de suas ações na Ucrânia devem ser abandonadas.

reagan-thatcherFillon, um admirador de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, planeja políticas semelhantes às deles, incluindo cortes nos gastos públicos, aumento na idade de aposentadoria, redução do número de empregos do setor público em até meio milhão, fim da jornada semanal de 35 horas, diminuição de impostos e a limitação do poder dos sindicatos.

Fillon também compartilha posições que são semelhantes ou coincidem com as de Le Pen e Donald Trump. Entre elas, há doutrinas de patriotismo, valores familiares e a diminuição máxima da imigração. Todos os três enfatizam a soberania de seu país, os EUA e a França, e um apelo para impedir aquilo que veem como um declínio. Todos os três compartilham uma forte visão de que a autoridade e os verdadeiros valores devem ser restaurados em seu país. Assim como no Brexit do Reino Unido, para os três políticos a oposição à imigração ainda é a chave. Seria esse o sinal de uma aliança franco-americana?

[*] Michael Curtis. “A Transatlantic Holly Alliance?”. American Thinker, 30 de Novembro de 2016.

Tradução: Felipe Galves Duarte

Revisão: Pedro Henrique

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