Escravos cristãos, senhores muçulmanos

Por Janet Levy [*]

Hoje em dia a escravidão como instituição remete à posse de escravos africanos no Sul [dos EUA] no período pré-Guerra Civil. No entanto, a escravidão é uma velha prática que data do Egito antigo, da Grécia e de Roma assim como dos impérios Ameríndios no México e na América Central. Ela também se estabeleceu e foi ideologicamente sancionada no mundo muçulmano desde os tempos de Maomé.

Em paralelo à escravidão africana nas Américas, entre 1500 a 1800 existiu um próspero comércio de escravos europeus cristãos brancos levados a cabo por muçulmanos da Berbébria no Norte da África. Em seu livro Christian Slaves, Muslim Masters, o professor de história Robert Davis, da Ohio State University, examina de perto este aspecto pouco discutido da história moderna.

Com suas origens na vida do Profeta Maomé, a escravidão encontra-se profundamente imbricada na tradição e lei islâmica. Os muçulmanos devem seguir os ensinamentos de Maomé, que possuía e comercializava escravos. Além disto, uma grande parte da sharia – na Suna de Maomé e no Corão – é voltada para a prática da escravidão. Califas muçulmanos geralmente possuíam haréns com centenas de jovens escravas capturadas em terras cristãs, hindus e africanas. A escravidão ainda é praticada em muitos países muçulmanos e é glorificada pelos grupos jihadistas atuais.

Em Christian Slaves, Muslim Masters, Davis descreve como, de 1500 a 1800, corsários muçulmanos da Berbéria escravizaram sistematicamente cristãos brancos da Itália, França, Espanha, Portugal, Holanda, Islândia, Grã-Bretanha, Irlanda e Grécia. Os muçulmanos invadiam navios no mar e atacavam as vilas costeiras em uma atividade denominada “roubo de cristãos” [Christian stealings]. Ao longo deste tempo, explica Davis, o Mediterrâneo possuía a reputação de ser o mar onde as pessoas desapareciam: pescadores e marinheiros em pequenos barcos, pastores cuidando de rebanhos, agricultores trabalhando perto do litoral, pessoas das cidades e mesmo mulheres e crianças que viviam em comunidades costeiras. Habitantes do litoral e aqueles que viajavam por navio ficavam sob o risco constante da captura, da violência e da exploração nas mãos dos muçulmanos da Berbéria.

Como parte desta jihad contra o cristianismo iniciada em 1500, pirataria e escravização foram alguns dos instrumentos utilizados para arrancar das comunidades infiéis pessoas úteis e produtivas, e para conseguir espólios. Davis estima que ao longo de três séculos de predação muçulmana, algo em torno de 1,25 milhões de europeus foram furtiva e permanentemente retirados de suas famílias e comunidades.

As vítimas que haviam sido perseguidas e aprisionadas eram então levadas para o mercado de escravos no norte da África poucos dias após a captura ou após longas viagens nas quais seus captores buscavam mais espólios. Por vezes os piratas reapareciam na porta da casa da vítima balançando uma bandeira branca [truce flag] e mostrando aos familiares desesperados as vítimas disponíveis para o pagamento de resgata. Os cativos mais ricos conseguiam ser libertados em alguns dias ou meses, mas os mais pobres podiam ficar anos na escravidão ou morrer em cativeiro. Além do trabalho que lhes era exigido, muitos escravos eram forçados a roubar ou a vender água para pagar por seus alojamentos primitivos e sua parca provisão de comida.

Com sua pesquisa, Davis concluiu que muçulmanos capturados tinham aproximadamente 50% de chances de serem resgatados em algum momento. Enquanto isto, aproximadamente metade dos cativos sobreviviam aos cinco primeiros anos e escravidão sob as duras condições de vida e trabalho as quais se submetiam.

Davis comparou as vantagens para os corsários muçulmanos de capturar suas vítimas em navios ou em terra. Navios comuns raramente rendiam tanto espólio quanto os ataques em terra, mas ofereciam um maior potencial pela obtenção de marinheiros e negociantes especializados. Ademais, as pessoas nos barcos podiam ser coagidas a revelar a localização de objetos de valor que estivessem guardados e a riqueza dos passageiros. Passageiros a bordo dos navios eram, geralmente, mais ricos que os pescadores e os habitantes das cidades e eram presas mais fáceis e adequadas para pedir resgates.

A pior forma de sujeição imposta pelos muçulmanos era, sem dúvida, a escravidão nas galés. De três a cinco cativos eram acorrentados pelos pulsos a um remo e pelos tornozelos a um banco preso ao chão do navio. Cada navio, impulsionado sobretudo por remos, necessitava de 150 a 300 homens que eram obrigados a remar enquanto recebiam fortes golpes de varas. Escravos de galé, que basicamente trabalhavam até morrer ajudando seus senhores a angariar mais escravos, remavam sem camisa, recebiam rações miseráveis e degradavam-se em seus postos enquanto eram atormentados por ratos, pulgas e tantos outros parasitas.

Mulheres cativas serviam tanto como escravas sexuais em haréns ou como empregadas domésticas confinadas aos serviços da casa. Muitas concubinas se converteram ao islã e nunca foram resgatadas. Meninos e adolescentes eram mantidos para serviços militares ou sexuais.

De acordo com a pesquisa de Davis, era tão significante a extensão da empresa escravista na Barbéria que um quarto da população de Argel era de escravos. Toda a existência da cidade baseava-se na pirataria e no comércio de escravos. Em Túnis e Trípoli, entre 10 e 20% da população era de escravos.

Algumas comunidades litorâneas europeias tornaram-se praticamente cidades fantasmas em vista da fuga de seus habitantes diante dos perigos dos corsários muçulmanos, escreve Davis. Incursões em busca de escravos causaram longos e significativos problemas econômicos nas comunidades afetadas, e as exigências de pesados resgates reorganizaram as relações de propriedade. Um aldeão que resgatava um membro da família podia ser obrigado a abrir mão da posse da terra, de uma casa, de um barco e ficar em uma incômoda situação, trabalhando na terra ou no barco que ele possuíra antes da captura de seu parente. Ademais, nas comunidades europeias devastadas, igrejas buscavam levantar fundos para resgatar seus membros escravizados. As igrejas faziam constantes e desesperadas tentativas de obter doações para libertar aqueles em cativeiro.

Diante das descobertas da pesquisa de Davis e da aceitação da escravização do infiel sob a doutrina islâmica, não surpreende que dentro do mundo muçulmano inexista um clamor pela abolição da escravidão. Na verdade, ela ainda existe no Chade, Níger, Mauritania, Mali e Sudão. Pressões para pôr fim a prática vieram do Ocidente. Somente em 1962 a Arábia Saudita, em resposta as pressões dos EUA, aboliram oficialmente a escravidão. Hoje em dia, vemos que o Estado Islâmico usa a doutrina islâmica para justificar o sequestro e a escravização de mulheres e crianças cristãs e yazidi, chegando mesmo a emitir um édito sancionado pelo Corão sobre a permissão de intercurso sexual com meninas pré-puberes.

A relevante pesquisa de Davia sobre a escravidão de cristãos brancos pelos muçulmanos ajuda a lançar alguma luz sobre esta prática que subsiste. Infelizmente, embora o Ocidente tenha há muito abolida a prática da escravidão institucionalizada, preceitos ideológicos permitem sua continuidade, muitas vezes inconteste, em partes do mundo muçulmano.

[*] Janet Levy. “Christian Slaves, Muslim Masters”. The American Thinker, 14 de Setembro de 2016.

Tradução: Alexandre Ramos

Revisão: Daiana Neumann

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