Educação em que a Verdade Importa

Por Joseph Pearce [*]

O título deste ensaio, Educação em que a Verdade Importa, foi tirado do subtítulo do livro de Christopher Derrick, Escape from Scepticism: Liberal Education as if Truth Mattered, publicado em 1977. O subtítulo de Derrick por sua vez, foi uma adaptação do subtítulo do bestseller internacional de E.F. Schumacher, Small is Beautiful: Economics as if People Mattered, publicado quatro anos antes. Derrick e Schumacher eram amigos, sendo aquele fundamental em apresentar ao segundo o ensinamento social da Igreja, e estes livros têm mais coisas em comum do que seus assuntos aparentemente diferentes fazem crer. Em ambos, os autores ilustram como o materialismo filosófico da modernidade enfraqueceu os próprios fundamentos da vida civilizada, e como a solução para este problema é um retorno aos conceitos tradicionais de bom, belo e verdadeiro. Schumacher voltou-se para a sabedoria dos antigos para que ela o ajudasse a entender as imperfeições da economia; Derrick voltou-se para a sabedoria dos antigos para corrigir as falhas da academia. Seja abordando o estado precário da economia ou da academia, ambos demonstraram como denegrir o bem, fragmentgar a verdade, e destruir o belo resultaram num mundo falido em termos de riqueza verdadeira.

Num ensaio anterior para The Imaginative Conservative, Chesterton and the Meaning of Education, salientei a sabedoria contida na crítica de G.K. Chesterton à educação moderna. Cabe notar, porém, que a crítica de Chesterton às tolices e falácias presentes no âmago da academia moderna foram ecoadas pela geração de grandes escritores que o seguiram neste caminho. Modern Education and the Classics, de T.S. Eliot, publicado em 1934, complementou Reflections on Education with Special Reference to the Teaching of English de C.S. Lewis, subtítulo de seu A Abolição do Homem. Ambos os livros insistem na ideia de que a a educação não pode ser divorciada da moralidade, e que esta última deve permear a primeira. Da mesma forma, The Idea of a Christian Society (1939) e Notes Towards the Definition of Culture (1948), também de Eliot, encaixam-se como uma luva na posição de Lewis no que concerne à necessidade do Cristianismo em qualquer tentativa de restauração genuína da cultura européia. Mais notável ainda é a descrição que Eliot faz do Homem Oco no poema de mesmo nome, publicado em 1925, que prenuncia os Homens sem Peitos de Lewis no livro A Abolição do Homem e que são ficcionalizados com grande efeito satírico em Essa Força Medonha, que contem uma deliciosa paródia da desintegração e estultificação da academia moderna.

Evelyn Waugh, na sua obra-prima Brideshead Revisited, um romance inspirado por uma frase de uma das histórias do Padre Brown de Chesterton, ridiculariza os homens ocos produzidos pela academia moderna nas figuras de Hooper e Rex Mottram. Hooper não possui nenhuma ilusão especial distinta da névoa envolvente e generalizada de onde ele observa o universo:

Hooper já chorou várias vezes, mas nunca pelo discurso de Henry no dia de São Crispin, nem pelo epitáfio das Termópilas. A história ensinada a ele tinha poucas batalhas; em vez disso, uma profusão de detalhes sobre legislação humana e as recentes mudanças industriais. Gallipoli, Balaclava, Quebec, Lepanto, Bannockburn, Roncesvales e Maratona estas, e a batalha no Ocidente onde Artur caiu, e uma centena de outros nomes cujos clamores, mesmo no meu atual estado árido e desregrado, chamavam irresistivelmente por mim através dos anos com toda a clareza e força da juventude, esses clamores soavam em vão para Hooper… [i]

Tal como Hopper, o personagem de Rex Mottram serve para personificar o homem oco, o produto grosseiro da academia moderna e desintegrada. Nas palavras da esposa Julia, ele não apenas é ignorante como, ainda pior, é completamente ignorante da própria ignorância:

Você sabe que o Padre Mowbray percebeu a verdade sobre Rex imediatamente, quando custou a mim um ano de casamento para notar. Ele simplesmente não está inteiro ali. Ele não é, afinal, um ser humano completo. É um fragmento pequeno e anormalmente desenvolvido… Eu achava que era uma espécie de selvagem primitivo, mas ele era algo absolutamente moderno e atual, que só esta era pavorosa poderia produzir. Um pequeno pedaço de homem fingindo ser algo inteiro… [ii]

Deixemos os homens sem peitos ponderar com seus botões e os homens ocos com a própria vacuidade. E lembremo-nos nós dos grandes livros escritos por grandes homens, como Chesterton, Eliot, Lewis e Waugh. E lembremos que grandes homens escrevem grandes livros por causa dos Grandes Livros que eles mesmos leram. Se o século XXI quiser produzir mais grandes homens e livros, deverá restaurar a educação verdadeira; e uma educação verdadeira é uma educação em que a verdade importa.

Notas:

[i] Evelyn Waugh, Brideshead Revisited, New York: Alfred A. Knopf, Everyman’s Library, 1993, pp. 8–9.

[ii] Ibid., pp. 181–2.

[*] Joseph Pearce. “Education as if Truth Mattered”. Conservative Imaginative, 1 de Março de 2016.

Tradução: Felipe Alves

Revisão: Rodrigo Carmo

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