Downton Abbey é um conto de fadas?

Por Dwight Longenecker [*]

Downton Abbey, o drama de sucesso da televisão inglesa, teve pouco a ver com um casarão, trajes elegantes, o excelente elenco e a história intrigante. Acabo de terminar de assistir a temporada final, ocorreu-me que o sucesso da série tem tudo a ver com contos de fadas.

Tivemos um magnífico castelo? Tivemos. Downton Abbey dificilmente poderia ser mais grandioso. Tivemos um príncipe bonito? Tivemos alguns. Tivemos uma princesa insensível que precisava aprender as humildes lições do amor? Lady Mary desempenhou o papel. Tivemos uma princesa à espera, a Cinderela desprezada e desapontada que ganha o dia no final? Lady Edith leva a melhor.

Nós tínhamos duas fadas madrinhas — a sarcástica, mas sábia, Condessa viúva e a sempre maternal Prima Violeta. Lord e Lady Grantham presidiram o seu reino como monarcas benevolentes, pacientes e gentis. A única coisa que faltava era um tio excêntrico no sótão que poderia ter feito o papel de mago velho e sábio.

Os criados espelhavam os amos. Carson e a Sra. Hughes estavam em seus tronos, dirigindo um regime severo, mas justo. Madrinha e cozinheira, a Sra. Patmore observou sua pequena Cinderela Daisy, enquanto o perverso sub-mordomo Barrow aprendeu a superar seu lado negro para se tornar um protegido principesco de Carson. Enquanto isso, Anna e o Sr. Bates sofreram como vítimas inocentes e bodes expiatórios — retendo em si mesmos as ações mais tenebrosas e as motivações do martírio, e o pobre Mosely foi a tartaruga paciente e perseverante que ganhou a corrida.

Os contos de fadas são eternos porque agregam as esperanças e os sonhos das pessoas comuns. Eles nos conectam com o inconsciente coletivo e transcendem a cultura e os contextos contemporâneos. Downton Abbey pode estar ambientada em um passado reconhecível e não tão distante, mas na realidade esse mundo está tão distante de nós como qualquer castelo encantado no mundo dos contos de fadas. O cenário é, portanto, um mundo de fantasia, e é esse mundo de fantasia que nos ajuda a lidar com a realidade de aqui e agora.

O famoso ensaio de J.R.R. Tolkien sobre conto de fadas inspira minha teoria. É verdade que Downton Abbey não é um conto de fadas no sentido de que há animais míticos. Não há dragões descansando em ouro acumulado, nem há unicórnios, ninfas da floresta, orcs, anões, elfos, feiticeiros, anéis mágicos e espadas com nomes. Porém há um mundo sedutor alternativo povoado de personagens arquetípicos cujas histórias não podemos resistir, e quando olhamos mais fundo para o significado e o método dos contos de fadas, a comparação é verdadeira.

Tolkien eloquentemente contesta a acusação de que os contos de fadas são mero escapismo.

Afirmei que escapismo é uma das principais funções dos contos de fadas e, como não os desaprovo, é claro que não aceito o tom de desprezo ou pena com o qual “escapismo” é tão freqüentemente usado: um tom para o qual os usos da palavra fora da crítica literária não dão qualquer garantia. No que as falhas são chamadas de Vida Real, Escapismo é, evidentemente, como uma regra muito prática, e pode até ser heróico.

Na vida real é difícil culpá-lo, a menos que falhe; em críticas, parece ser “quanto pior melhor. Evidentemente, somos confrontados com um mau uso de palavras, e também por uma confusão de pensamento. Por que um homem deve ser desprezado se, encontrando-se na prisão, ele tenta sair e ir para casa? Ou se, quando ele não pode fazer isso, ele pensa e fala sobre assuntos fora da temática “carcereiros e os muros da prisão”?

A este respeito, Downton Abbey ofereceu um excelente escapismo. Por um breve período de tempo, saímos da era bárbara, confusa, violenta, grosseira e egoísta em que vivemos para um mundo onde as regras da virtude, honestidade, modéstia e boas maneiras foram honradas mesmo que nem sempre fossem obedecidas. Por um tempo, escapamos de nossa era utilitária em que a ganância é honrada, a depravação exaltada, a perversidade glorificada e a covardia recompensada. Nós escapamos para uma era em que o trabalho árduo, discrição, lealdade, decência e castidade foram recompensados e suas falhas punidas.

Tolkien diz que este “escapismo” se conecta com nosso antigo desejo de escapar da morte para a vida, e então ele continua,

O “consolo” dos contos de fadas tem um aspecto maior do que a satisfação imaginativa dos desejos ancestrais. Muito mais importante é a Consolação do Final Feliz. Eu quase me arriscaria a afirmar que todos os contos de fadas completos devem tê-lo (…) Como não parecemos possuir uma palavra que exprima isso (…) eu chamarei isso de Eucatastrofe. O conto eucatastrófico é a verdadeira forma de conto de fadas e sua função mais elevada.

O consolo dos contos de fadas, a alegria do final feliz: ou mais corretamente da boa catástrofe, a alegria súbita transforma essa alegria, que é uma das coisas que os contos de fadas podem produzir supremamente bem, não é essencialmente “Escapista, nem “evasivo”. Nesses cenários de conto de fadas — ou ficção científica — é uma graça súbita e milagrosa: uma reviravolta inesperada. Não nega a existência de discatastrofe, de tristeza e fracasso: a possibilidade destes é necessária para a alegria da libertação; nega a derrota final universal e na medida é evangelho, dando um vislumbre fugaz da Alegria, da Alegria além dos muros do mundo, comovente como tristeza. Esta é a marca de um bom conto de fadas, do tipo mais elevado ou mais completo, que, por mais selvagens que sejam seus eventos, por mais fantásticas ou terríveis que sejam as aventuras, pode dar à criança ou ao homem que a ouve, quando a “reviravolta” vem — recupera-se o fôlego, tem-se um alívio no coração, o marejar dos olhos (acompanhado de lágrimas), tão entusiasmadas como as que são ocasionadas por qualquer forma de arte literária com uma qualidade ímpar.

O autor de Downton Abbey, Julian Fellowes, foi acusado por alguns críticos de resolver tudo em um final feliz impecável. O episódio final ocorre na véspera de Ano Novo (o tempo dos fins e dos novos começos), pois todos os personagens permanecem juntos no que é evidentemente um final feliz de tirar lágrimas dos olhos.

Tolkien conclui dizendo que o final feliz prefigura ou faz eco do último final feliz da história do evangelho e, portanto, longe de ser escapista ou irreal, os contos de fadas são extremamente reais e profundamente verdadeiros. A função de Downton Abbey (e de todos os contos de fadas com um final feliz que desfrutamos) é trazer as boas novas. Destaca, portanto, os significados mais profundos, não só para a história, mas para a nossa vida individual.

Então Tolkien conclui,

A história, a fantasia, perseveram, e hão de permanecer. O Evangelho não revogou lendas; ele as santificou, especialmente o “final feliz”. O cristão ainda tem que trabalhar, tanto com a mente quanto com o corpo, sofrer, esperar e morrer — mas agora pode perceber que todas as suas provações e dons têm um propósito, que pode ser salvo. Tão genial é a recompensa com que ele foi agraciado, que talvez agora, talvez, se atreva a adivinhar que na fantasia ele pode realmente ajudar na efusão e no enriquecimento múltiplo da criação. Todos os contos podem se tornar realidade — e, no entanto, por último, redimidos, eles podem ser tão parecidos e, diferentes das formas que lhes damos como Homem, finalmente salvos, serão parecidos porém distintos dos desencaminhados que conhecemos.

[*] Dwight Longenecker. “Is Downton Abbey a Fairytale?”. The Imaginative Conservative, 13 de Agosto de 2016.

Tradução: Cássia H.

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