Diferenças entre a Esquerda e a Direita: Parte 1

Por Dennis Prager [*]

Para se Posicionar, Você Precisa Conhecer os Dois Lados

A maioria dos americanos se posiciona ou à esquerda ou à direita sobre a maioria dos assuntos. Em muitos casos, no entanto, eles passariam apuros para explicar sua posição ou a posição a que eles se opõem. Mas, se você não é capaz de explicar ambos os lados, como sabe que tem razão? No mínimo, é necessário entender os pontos de vista da esquerda e da direita para compreender de verdade o seu próprio ponto de vista.

Eu cresci num mundo esquerdista – nova-iorquino, judeu e diplomado por uma universidade de elite. Eu tinha apenas oito anos de idade quando o presidente Dwight Eisenhower concorreu à reeleição contra o candidato democrata, Adlai Stevenson. Eu não sabia nada sobre política e me interessava pouco pelo assunto, mas me lembro bem de ter certeza – eu tinha certeza, não apenas acreditava – que os democratas “defendiam os pobres” e os republicanos “defendiam os ricos”. Eu votei nos Democratas até a eleição de Jimmy Carter em 1976. Ele foi o último democrata em quem votei.

Obviamente, eu passei por uma transformação intelectual, e não foi fácil. Dos pontos de vista emocional e psicológico, tornar-me um republicano foi como me converter para outra religião. Na verdade, quando eu votei pela primeira vez num republicano, me senti como tivesse abandonado o povo judeu. Ser judeu significava ser democrata[1]. Não era nada complicado. Isso era – e continua sendo – essencial para a identidade de muitos judeus americanos.

Portanto, precisei pensar muito antes de passar por essa conversão. Eu precisei entender tanto a esquerda quanto a direita. Na verdade, a missão da minha vida inteira foi essa. Os frutos dessa missão serão mostrados numa série de artigos que explicam as diferenças entre esquerda e direita. Espero que eles ajudem os conservadores a compreender melhor por que são conservadores, e que permitam aos esquerdistas entender por que alguém que se importa muito com “os pobres” defende idéias conservadoras – ou que hoje são rotuladas como conservadoras.

DIFERENÇA Nº 1: O homem é essencialmente bom?

As ideologias de esquerda sustentam que as pessoas são essencialmente boas. Por outro lado, as ideologias conservadoras sustentam que o homem nasce moralmente imperfeito: não que ele nasça necessariamente mau, mas, sem dúvida, ele não nasce bom.

Sim, nascemos inocentes (afinal, bebês não cometem crimes), mas nós não nascemos bons. Seja a crença cristã no pecado original ou a crença judaica de que todos nascemos com uma yetzer tov (inclinação para o bem) e uma yetzer ra (inclinação para o mal), que estão em constante conflito, os sistemas fundamentais de valores do Ocidente nunca disseram que somos naturalmente bons.

Para aqueles que argumentam que todos temos a bondade dentro de nós, duas respostas: primeiro, nenhuma religião ou ideologia nega que temos bondade dentro de nós. O problema está em negar que há maldade dentro de nós. Em segundo lugar, muitas vezes é complicado colocar em prática essa bondade. A bondade humana é como ouro: ela precisa ser extraída – e como na extração de ouro, extrair a nossa bondade pode ser muito difícil. Isso é muito importante para entender o abismo entre a esquerda e a direita porque muitas diferenças fundamentais derivam desse abismo.

Talvez a mais óbvia delas é que os conservadores culpam mais do que os esquerdistas o comportamento daqueles que se envolvem em práticas criminosas e violentas. Os esquerdistas argumentam que a pobreza, o desespero e a desesperança é que levam os pobres, especialmente os negros pobres (e, nesse caso, o racismo também entra na lista) a se revoltar e cometer crimes violentos. Veja o que disse o presidente Barack Obama em 18 de maio de 2015:

Em algumas comunidades, a noção de injustiça e impotência tem contribuído para a desordem nessas comunidades… Quando as pessoas não sentem que têm esperança e oportunidades, isso pode, muitas vezes, alimentar o crime e a inquietação. Já vimos isso em lugares como Baltimore, Ferguson e Nova Iorque, e isso tem muitas causas, desde a essencial falta de oportunidades até a sensação de alguns grupos de serem injustamente perseguidos pelas forças policiais”.

Assim, os negros pobres que se revoltam e cometem outros atos de violência fazem isso principalmente porque se sentem abandonados e carentes. Ora, como as pessoas são essencialmente boas, seus atos de maldade devem ser explicados por fatores alheios ao seu controle. O comportamento delas não sua culpa, e quando os conservadores culpam os negros de vandalismo e outros comportamentos criminosos, os esquerdistas os acusam de “culpar as vítimas”.

Na visão conservadora, as pessoas que praticam o mal devem ser culpadas porque fizeram escolhas erradas, e essas escolhas foram feitas porque elas têm pouco autocontrole ou uma consciência desajustada. Em ambos os casos, elas são as culpadas. É por isso que a grande maioria das pessoas igualmente pobres, sejam elas negras ou brancas, não vandaliza nem comete crimes violentos.

Da mesma forma, muitos esquerdistas acreditam que a maioria dos muçulmanos que se envolvem com terrorismo o fazem por causa da pobreza e, principalmente, por causa da elevada taxa de desemprego entre os jovens no mundo árabe. No entanto, acontece que a maioria dos terroristas vem de lares de classe média. Todos os terroristas do 11 de setembro vieram de lares de classe média ou alta. E, é claro, Osama bin Laden era bilionário.

A pobreza material não causa assassinatos, estupros nem terrorismo. A pobreza moral, sim. Essa é uma das grandes diferenças entre a esquerda e a direita, e ela surge principalmente de suas opiniões divergentes sobre se a natureza humana é intrinsecamente boa ou não.

[*] Dennis Prager. “To Defend a Position, You Must Understand Both Sides”. National Review, 26 de Maio de 2015.

Tradução: Gustavo B.

Revisão: Andy Schmid

[1] Nota explicativa: A comunidade judaica em Nova Iorque tem um papel importante no partido Democrata por conter muitos imigrantes advindos das comunidades do leste europeu na época em que os discursos socialistas e comunistas ganhavam força. No começo do século XX esses imigrantes acabaram por se tornar maioria, ultrapassando a tendência conservadora dos judeus alemães, mais tradicionais e já assimilados à cultura da região.

7 comentários

  • Calebe Durante

    Ótima página e ótima matéria. Com certeza é de extrema importância conhecer ambos os lados! Parabéns!

  • Kimberly Raabe

    Texto excelente. Meus parabéns aos tradutores! Espero a parte 2! 💛💚💙

  • Marcelo Diogenes Borba

    Olá!
    Gosto muito dos textos de vocês e gostaria de estar sempre recebendo novas informações de textos.
    Obrigado.

  • Thereza Christina Ferrari Paiva

    Obrigada pela insencao apresentada no texto.

  • Carl

    Muito bom. Muito útil , essa leitura. Obg!

  • Lorena

    Parabéns matéria realmente muito boa!

  • estevao carlos taukane

    Valeu, gostei do texto, essas informações ajudam a identificar em que parâmetro (esquerda e direita), estamos agindo diante de uma situação, mas gostaria de solicitar mais informes em outros contextos, como por exemplo, em uma país da América Latina. Grato se puderem me nos ajudar!!!!

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