Dança e Teologia do Corpo

Por Tony Listi [*]

A dança tradicional entre homens e mulheres (i.e. a dança de salão) é uma excelente maneira de ensinar e ilustrar a Teologia do Corpo. Essa dança revela, visualmente, por meio dos corpos masculino e feminino, como Deus deseja que homens e mulheres se comportem no amor erótico.

1) Consentimento: o homem não deve tentar forçar a mulher a dançar com ele; ele deve convidá-la e obter seu consentimento. Ela não é obrigada a dançar caso não deseje. É claro que, do mesmo jeito, o homem também não tem a obrigação de dançar com quem ele não queira.

Igualmente, um homem não deve forçar uma mulher a sair, a ter um relacionamento sério ou a se casar com ele. O homem deve falar com ela e respeitar a sua decisão. E nenhuma mulher deve forçar um homem a essas coisas também. O amor não pode ser coagido.

2) Iniciativa masculina: tradicionalmente, o homem convida a mulher para dançar. Sim, às vezes mulheres, de fato, chamam os homens para dançar, mas essa não é a regra. A mulher tomar a iniciativa de convidar não necessariamente prejudica a dança, mas tal atitude pode refletir uma predisposição subentendida de que o homem é incapaz ou de que não está disposto a assumir a liderança da dança, o que seria um problema.

Do mesmo jeito, o homem deve tomar a iniciativa de convidar a mulher para sair, de pedi-la em namoro sério e de pedir sua mão em casamento. O homem deve provar seu interesse, amor e compromisso. Se o homem não se importa o suficiente para pedir, ou se não consegue ter o mínimo de coragem para o pedido, ele não a ama realmente. A covardia é autocentrada e sem amor, independentemente do fato de a mulher dizer “sim” ou “não”. Não é bom que o homem esteja mais preocupado com ele mesmo e com seu orgulho do que com a mulher, com o bem estar dela e com o que ele deseja fazer por ela. Se um homem sincero e amoroso pede, e a mulher diz “não” arrogante e cruelmente, em vez de ter compaixão e graciosidade, ele deve entender que está melhor sem essa mulher, a qual é não é digna de seu amor e é incapaz de amar.

Sim, de vez em quando, mulheres tomam a iniciativa de pedir aos homens, mas, novamente, isso não é o normal e pode causar problemas ao longo do caminho, embora não necessariamente pelas mesmas razões indicadas acima para a dança. Em um nível mais alto e sério, nunca ouvi falar de uma mulher que tenha pedido um homem em casamento. Há, espiritualmente, uma razão para isso: o homem deve conduzir e provar seu amor.

3) Liderança masculina, ação e responsabilidade: uma vez que ela aceite dançar, a mulher segue e o homem conduz. O homem escolhe ativamente quais passos serão executados e onde estarão na pista de dança. Se ambos tentarem conduzir e nenhum deles tentar acompanhar, não acontecerá dança alguma. Na verdade, em um caso extremo, eles machucam um ao outro e/ou separaram-se de alguma maneira. Se o homem conduz terrivelmente, ambos sofrem. Tal liderança implica responsabilidades muito importantes. O homem deve tomar cuidado para não conduzir a mulher de um jeito que ela (ou ambos) esbarre(m) nos outros dançarinos na pista de dança.

Por que a mulher não pode guiar a dança? Em teoria, eu acho que ela poderia, mas você já viu alguma dança na qual a mulher está conduzindo, girando, inclinando, segurando o homem em seus braços, etc.? Funciona? Seria agradável de ver? Não, isso não acontece porque essa dança não está de acordo com as qualidades e características naturais dos corpos masculino e feminino (o que discutirei em seções mais à frente). Esta é a realidade da dança: naturezas diferentes devem ser levadas em conta e obedecidas.

Do mesmo modo, em um casamento, o marido é o líder natural, o chefe da família, e, assim, tem responsabilidades importantes, como prover o sustento de sua esposa e dos filhos. O namoro e o noivado devem ser um processo no qual o homem gradualmente aprende a cuidar de sua namorada por amor e servidão a ela.

É importante lembrar que a liderança cristã é uma liderança servidora. Os maiores no reino são os que servem aos outros, usando seu poder e autoridade para servir aos outros em vez de a si mesmos. Um líder que abusa de seu poder e autoridade, impondo-se sobre os outros, é abominável. Mas, ao contrário do pensamento moderno, a autoridade em si não é má nem opressiva.

Penso que também seja importante ressaltar que, apesar de, talvez, o caso na dança ser o contrário, um bom líder sabe o momento de seguir e deixar que outros assumam a liderança, mesmo que apenas temporariamente. Um bom marido tem a humildade de reconhecer tanto os seus pontos fortes e suas fraquezas quanto os de sua esposa. Ele sabe quando se guiar pela esposa e nunca rejeita ou reprime a força dela. Como um bom marido, ele jamais entrega sua autoridade, mas a exerce com sabedoria e prudência.

Assim, em certo sentido, o homem também é chamado a se entregar, a entregar seu autointeresse por causa do amor e a “renunciar” sua função direta e explícita de líder. São esses os tipos de rendição que os homens, se quiserem liderar bem, devem fazer.

4) Obediência feminina, rendição e receptividade: mais uma vez, o papel da mulher na dança é seguir. Ela deve deixar o homem conduzi-la. Caso não o faça, ambos os dançarinos terão problemas durante a dança. A função de seguir não a diminui como parceira, dançarina ou ser humano. Seguir não é um papel de menor dignidade na dança; é simplesmente diferente.

Quando a mulher é uma boa seguidora do homem na dança, ela está se entregando, especialmente entregando o seu corpo para este homem. Se ela o acompanha obedientemente nos mais íntimos movimentos de dança, ela entrega seu corpo e ela mesma para ele ainda mais. Quanto mais íntimo o movimento do corpo, mais completa a sua rendição.

Da mesma forma, uma vez casada, o papel da mulher é seguir obedientemente a liderança do seu marido. É certo, porém, que um bom marido que conduzirá amorosa e humildemente o casamento, como eu descrevi acima, pode ser difícil de encontrar nos dias de hoje. É melhor uma mulher evitar o casamento caso ela não consiga encontrar um homem que irá amá-la como Jesus ama a Igreja, ávido para servi-la e pronto para sacrificar-se e sofrer por causa dela até a morte, apesar de suas falhas, fraquezas e imperfeições.

Namoro e noivado devem ser um processo no qual a mulher gradualmente aprende a como confiar, como render-se ao seu namorado. Claro, o homem tem que ganhar essa confiança da sua namorada aos poucos, por meio de atos de amor. E a entrega física final, emocional e espiritual é o ato sexual, o qual está devidamente reservado apenas para o casamento, porque a estabilidade da total fidelidade no casamento é o alicerce para a total confiança necessária no ato sexual.

Se a mulher se recusa a entregar-se, como uma dançarina que se nega a ser conduzida, ou, se uma mulher nunca aprende a render-se, como uma bailarina que nunca assimila, a partir dos sinais físicos de seu líder masculino, o que ele quer que ela faça, a relação terá problemas, ou entrará até em colapso.

Ao contrário do pensamento moderno, a autoridade e a dignidade não são equivalentes ou proporcionais. O fato de o marido ter mais autoridade do que a esposa não significa que ele tenha qualquer dignidade a mais como ser humano (o mesmo poderia ser dito sobre a autoridade do Papa e dos bispos em relação aos católicos e não católicos). Então, quando o apóstolo Paulo afirma que a esposa deve estar subordinada à autoridade do marido, ele não está dizendo as mulheres têm alguma dignidade inferior; ele está somente afirmando o papel específico delas na dança do casamento.

5) Altura, tamanho e força masculina: o corpo masculino, em média, é naturalmente mais alto, maior e mais forte do que o feminino. São a altura e a força do homem que fazem dele o líder natural da dança, ele pode facilmente girar, inclinar e segurar e mulher. Ela geralmente não consegue fazer o mesmo com ele. Se o homem não for alto o suficiente, será difícil ou impossível para ele girar a mulher. Se ele não for forte o suficiente, será difícil ou impossível para ele incliná-la, segurá-la e executar outros movimentos que necessitam de força. Se o homem não é alto o suficiente, os dois sofrem.

Igualmente, os homens devem colocar a altura, força e tamanho de seu corpo a serviço das mulheres e, assim, amar a mulher de sua vida. O homem deve abrir portas, carregar coisas (principalmente se forem pesadas), consertar coisas e fazer outros serviços que requerem força para as mulheres. Esse princípio, em geral, é verdadeiro para além do amor erótico, mas encontra maior concentração e expressão mais profunda nele. Um homem deve usar a sua força e tamanho para proteger a sua namorada, noiva ou esposa de danos, até mesmo ao ponto de sacrificar a sua saúde física ou a vida pelo bem dela.

Na verdade, os homens devem procurar ser fisicamente mais fortes em prol de servir a sua namorada ou esposa. Levantar pesos não deve ser motivado pelo ego (por mais difícil que seja para nós evitar), mas sim por um desejo de estar preparado para servir com amor à nossa namorada ou esposa, buscando a masculinidade ideal. Esse tipo de busca pela força deve continuar até mesmo depois de ter se casado. Às vezes, homens casados, ou até aqueles que estão em um relacionamento sério, pensam que não precisam se empenhar para ser fortes para sua esposa ou namorada, porque eles acreditam que a força é meramente para seduzir e conquistar mulheres, ao invés de também servir à mulher que já é sua.

Com tudo isso em mente, é muito natural que as mulheres queiram e procurem por homens que sejam mais altos e mais fortes do que elas são. Assim como, naturalmente, os homens desejam e buscam mulheres menores e mais fracas do que eles mesmos. Apesar das melhores intenções, é mais provável que haja desarmonia quando essas desigualdades físicas são opostas a esses desejos naturais. As características físicas do corpo naturalmente têm consequências psicológicas e espirituais.

Contudo, apenas força física não é suficiente; um homem, em um relacionamento, deve possuir força emocional, psicológica e espiritual para que proteja o bem-estar emocional, psicológico e espiritual da mulher. Na verdade, tal proteção é ainda mais importante do que a proteção física, pois cultivar essas forças é mais importante do que levantar pesos. Um namorado ou marido deve ser o protetor do corpo, da mente e da alma de sua namorada ou esposa.

6) Misteriosa e desvelada graça, elegância e beleza feminina: o corpo feminino é naturalmente mais gracioso, elegante e (em certo sentido) mais belo que o corpo masculino (talvez eu esteja sendo um pouco tendencioso por ser homem, mas acredito que não). Quando o corpo feminino é girado, inclinado e segurado, a graça natural, elegância e beleza desse corpo brilham por meio desses movimentos. É muito difícil colocar essas misteriosas qualidades em palavras para articular esse mistério do corpo da mulher… Mas talvez o homem esteja numa posição melhor que a dela para investigar por dentro desse mistério.

É como se o corpo do homem liderasse os movimentos na dança, elevando e revelando a graça, elegância e beleza do corpo da mulher, que estava escondida ou não manifestada na quietude ou descompasso dos movimentos antes da dança. Algumas vezes o corpo feminino parece radiar a graça, elegância e uma bela energia, e todo dinamismo contido no corpo do homem apenas tenta direcionar e controlar, como um reator nuclear direciona e controla uma grande quantidade de energia atômica.

Semelhantemente, eu tenho sempre observado que as mulheres parecem se tornarem mais graciosas, elegantes e belas quando elas estão flertando ou quando estão em um relacionamento. Claro, alguém pode dizer que muitas mulheres têm alguém por quem ser mais graciosas, elegantes e belas e, por isso, elas sofrem mais. Na verdade, as mulheres deveriam procurar apresentar tais características para o bem de seu namorado ou marido. Cuidados com a pele, cabelo, maquiagem, etc. não deveriam ser motivados por vaidade (por mais difícil que pareça para algumas mulheres evitar isso), mas, sim, pelo desejo de ter a melhor aparência possível e, assim, apresentar-se para seu namorado ou marido de maneira a agradá-lo, lutando por um ideal de feminilidade.

Mas eu acredito que esse fenômeno vai, ou deveria ir além daquilo que a mulher faz meramente na intenção de ter um parceiro; o homem com quem ela está num relacionamento pode, e deveria, extrair e revelar sua graça, elegância e beleza por meio de seu relacionamento com ela, por meio de seu serviço de amor para com ela.

De vez em quando, mulheres casadas, ou até mesmo mulheres que estão num relacionamento sério, pensam que não têm que se dedicar em ser belas para seu namorado ou marido porque elas pensam que beleza é apenas para seduzir e conquistar homens, ao invés de também agradar e servir o homem que lhe pertence.

Certamente, é verdade que a graça, elegância e beleza são mais profundas do que a mera aparência. É mais importante para as mulheres cultivarem o tipo espiritual de graça, elegância e beleza que infundem a personalidade do que gastarem horas na frente de um espelho. Mas o corpo não deve ser totalmente negligenciado, pois o corpo também é quem nós somos.

Para o casamento em específico, a última revelação que o homem faz sobre a feminilidade acontece no ato sexual e na consequente maternidade que se segue. A graça, elegância e beleza da mulher são expostas sem roupa no ato conjugal. O amor alimentado na maternidade desde o desenvolvimento no útero até a amamentação no seio descoberto também possui uma misteriosa graça, elegância e beleza.

7) Apenas um parceiro: um homem só pode dançar com uma mulher por vez. Ele só tem um corpo com dois braços e duas pernas e só pode olhar em uma direção. O próprio corpo humano coloca limites sobre o que o homem pode fazer no ato da dança. O mesmo vale para a mulher.

Sim, é possível dançar em grupo, mas esse tipo de dança envolve pouca ou nenhuma intimidade com outras pessoas. Ou não há toque físico envolvido ou a interação física é muito limitada no que concerne à intimidade porque o corpo e a atenção de alguém estão divididos entre duas ou mais pessoas.

Outrossim, um homem só pode estar num relacionamento sério ou casado com uma mulher. Claro, é perfeitamente possível flertar com várias pessoas de uma vez para procurar por um parceiro que mereça seu foco e atenção com exclusividade. Mas flertar é um meio para um fim, mas não um fim em si; é um meio de encontrar um parceiro exclusivo. Tratar o flerte como se fosse meramente uma atividade de recreação, e não uma pesquisa amorosa, causará dor e prejuízo, dificultando a existência de um relacionamento ou casamento estável.

O matrimônio é uma “dança” cuja “música” não termina até que um dos dois morra e que não permite “trocar” de parceiro no meio da “música” sem que machuquemos a nós mesmos, a nosso parceiro e a outras pessoas, “seja dentro ou fora da pista de dança”.

Como numa dança, o próprio corpo humano impõe limites ao amor erótico. Deus desenhou nosso corpo de uma maneira muito especifica sexualmente. Com exceção das anormalidades físicas, a fisiologia de todo e qualquer homem ou mulher normal tem somente uma configuração de órgãos sexuais. Assim, somente um homem e uma mulher podem engajar no ato sexual a qualquer momento (qualquer tentativa de contradizer isso é uma perversão). Esse é o ato do clímax e a consumação do matrimônio, e é exclusivo por natureza. Se Deus tivesse desenhado o corpo do homem ou da mulher de uma maneira sexualmente diferente, então nós, cristãos, teríamos uma Teologia do Corpo diferente. Portanto, a monogamia é natural e certa por causa da exclusividade do ato sexual em si.

8) Concentre-se no próprio parceiro: não apenas o corpo impõe limites na dança, o mesmo acontece com a mente. Enquanto dança, o homem deve focar na sua parceira, no corpo dela e em conduzi-la bem. Se a atenção do homem está vagando, ele, sua parceira e a dança dos dois sofrerão por isso. O mesmo vale para a mulher. Se ela não focar nele e na liderança dele, ocorrerão problemas.

Assim também, namoros, noivados e casamentos terão problemas se o homem ou a mulher não estiver concentrado o suficiente em seu parceiro e atrair-se facilmente por outros. Obviamente, porém, as relações eróticas não devem consumir nossa vida inteira. A família e os amigos também merecem nosso amor e atenção.

Mas, em última análise, uma vez casado, o seu cônjuge deve vir em primeiro lugar, antes de todos os outros homens e mulheres, e as suas ações devem demonstrar isso. E o namorado e namorada que pode vir a se tornar nosso marido e esposa naturalmente merece também esse grau de prioridade. Entretanto, bons parceiros permitem que seu amado passe um tempo de qualidade com sua família e amigos e tenha tempo de incluí-los regularmente nos círculos de amizades e familiar do casal.

9) União e intimidade: por fim, o objetivo de uma boa dança é a união. Se tanto liderar quanto seguir forem papéis bem executados, os dançarinos alcançarão uma união de mente e movimentos quase ao ponto de se tornarem um só corpo dançando, ao invés de dois. Mas, a menos que os dois cheguem a um comum acordo de quem irá guiar e quem irá seguir, não haverá união no movimento dos corpos durante a dança.

Pode parecer óbvio, mas para o propósito da Teologia do Corpo vale ressaltar que você não pode verdadeiramente dançar com alguém enquanto um está do outro lado da sala ou se vocês nem mesmo estão se vendo. Uma longa distância torna a dança impossível, ou, no mínimo, muito menos íntima e mal executada.

Não importa se o homem e/ou a mulher pretende(m) ou não ter intimidade enquanto dança(m); a dança íntima cria essa proximidade entre eles. Claro, alguns movimentos de dança são intrinsecamente mais íntimos do que outros. Dar as mãos, prática comum na dança tradicional, não é algo tão íntimo como os movimentos, embora momentâneos, nos quais o homem verdadeiramente segura a mulher em seus braços ou mais próxima ao corpo dele. Contudo, o próprio fato de o homem liderar e iniciar e de a mulher seguir e render-se, essa realidade em si, já é, de algum modo, íntima. Então, nesse sentido, a dança é inerentemente íntima.

Um homem não deve conduzir uma mulher em movimentos de dança que sejam muito íntimos em relação ao seu grau relacionamento com a mulher (conhecida, amiga, membro da família, namorada ou esposa?). E uma mulher não deve entregar seu corpo a movimentos de dança muito íntimos em relação ao seu nível de relacionamento com o homem (conhecido, amigo, membro da família, namorado ou marido?). Homens e mulheres que estão em um relacionamento sério, ou casados, devem se disciplinar e preservar a si mesmos de excessiva intimidade enquanto dançam com outra pessoa que não seja seu namorado, namorada ou cônjuge.

Bem assim, como na dança, relacionamentos eróticos de diversos níveis serão bem sucedidos se o homem e a mulher estiverem cumprindo bem seus papéis naturais, e, assim, alcançarão unidade de fé e ação. Namoros e relacionamentos devem ser um processo em que se verifica se há chances de haver essa unidade e em que se busca estabelecê-la sempre que possível.

Nessa perspectiva, é fácil perceber que as relações eróticas entre as pessoas com grandes diferenças no que diz respeita a religião, política e visões de mundo, geralmente, são muito difíceis, se não impossíveis, de serem verdadeiramente amorosas, porque essas divergências impedem a união. Casais precisam estar “em sintonia” em uma série de questões importantes para atingir a união amorosa.

E, claro, a união final e manifesta dos corpos do homem e da mulher é o ato sexual. Mas essa união coporal não pode ser amorosa a menos que uma união emocional e espiritual (sacramental) a preceda. Sem esse tipo de laço, a união física apenas trará sofrimento, desarmonia e separação.

Como em uma “dança à distância”, relacionamentos distantes são como uma espécie de paradoxo. É possível que relacionamentos suportem a tensão da distância apenas se a intimidade e a profundidade da relação já tiverem sido construídas anteriormente por uma interação pessoal. Um casamento, se firmado com seriedade, deve ser capaz de resistir a um curto período de distância (a rigor, um casamento deve ser capaz de sobreviver a qualquer coisa com a graça de Deus, exceto a morte de um dos cônjuges).

Assim como acontece com a intimidade na dança, não importa realmente se o homem e a mulher pretendem compromisso ou intimidade quando têm relações sexuais ou envolvimento em cada contato íntimo. Os próprios atos em si expressam compromisso e intimidade. Falar essa linguagem corporal de compromisso e intimidade e, ainda assim, querer e agir de outra forma é mentir e machucar a pessoa do sexo oposto.

A dança, de todos os tipos, sempre foi um exercício espiritual, não apenas físico. Não é mero movimento, é muito mais, é uma expressão da alma. E, assim, a dança entre homens e mulheres naturalmente irá refletir a espiritualidade sexual dos dançarinos, não somente os movimentos corporais.

A dança de salão e o cerimonial em torno dela foram desenvolvidos em uma época anterior, quando a espiritualidade sexual do mundo ocidental era muito mais cristã e, portanto, muito mais alicerçada na verdade. Não é por acaso que a dança de salão tem decaído e tem sido substituída vorazmente por uma dança mais individual e autônoma, o verdadeiro amor erótico cristão também decaiu. Há uma correlação e, provavelmente, uma causa simbiótica envolvida. A falta de amor leva a uma dança sem amor e vice-versa.

[*] Tony Listi. “Dance and Theology of the Body”. Conservative Colloquium, 12 de Junho de 2011.

Tradução: Patrícia Maragoni

Revisão: Gleice Queiroz

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