Construindo uma ciência da psicologia social politicamente tolerante.

Por Robert D. Mather [*]

Pensamento crítico, correção de vieses, e Conservadorismo Americano

No livro “Passing on the Right: Conservative Professors in the Progressive University” [Passando à direita: Professores conservadores na Universidade Progresista], Shields e Dunn (2016) descrevem sua pesquisa empírica sobre a sub-representação da faculdade conservadora no ensino superior e dão uma espiada na vida de professores que constituem essa minoria (para uma revisão, veja Flaherty, 2016). Ao conduzir sua pesquisa, examinaram 153 conservadores em seis disciplinas (economia, ciência política, sociologia, história, filosofia e literatura) em 84 universidades, com análise quantitativa de suas atitudes e entrevistas qualitativas. Em última análise, eles descrevem a vida na universidade onde a maioria dos docentes é hesitante em se identificar publicamente como conservadores, pisando em ovos com seus colegas esquerdistas, mas que, ainda assim, na sua maioria, encontra a felicidade e o coleguismo no ensino superior. Além disso, Shields e Dunn oferecem um número de sugestões empiricamente informadas sobre como lidar com essa sub-representatividade.

O que deveríamos fazer? Eu usarei a sub-representatividade de conservadores na psicologia social para demonstrar como a psicologia social é posicionada de maneira única para ser um modelo para a solução de problemas mais gerais na academia em áreas em que a orientação política relaciona-se diretamente ao conteúdo da bolsa de estudo. Sugiro que estes três elementos sejam parte da solução: pensamento crítico, correção de vieses, e supressão de pensamento.

Pensamento crítico sobre o Conservadorismo Americano. Pensadores críticos verão que o conservadorismo não é o que é apresentado na mídia dos extremistas que gritam mais alto. Goldberg (2015) e Nash (2016) esboçam descrições detalhadas do conservadorismo. Conforme partidos políticos amadurecem com o tempo, a polarização das atitudes cria dois extremos (esquerdistas e conservadores). Apesar de poder haver outras perspectivas, informadas pelo pensamento crítico específico de um assunto, dois lados predominantes emergem. Nenhum dos lados (esquerdista ou conservador) vê que o outro tem diferenças de opinião entre si; ao invés, eles criam um estereótipo do outro lado e atacam-no, fazendo que qualquer um do outro lado que não se encaixe no estereótipo seja tomado como um subtipo. É a simples heterogeneidade intragrupal (ex.: Reconheço a diversidade dentro do meu próprio grupo, já que somos todos indivíduos únicos) e a homogeneidade intergrupal (ex.: Eles são todos iguais). Além disso, como esquerdistas e conservadores avaliam a informação usando diferentes conjuntos de fundamentos morais (Graham, Haidt e Nosek, 2009), questões diferentes são salientadas e criam estereótipos baseados em um conjunto bastante estreito de questões no outro grupo. Uma recomendação para esquerdistas é pensar criticamente sobre as perspectivas conservadoras lendo obras conservadoras fundacionais, não com objetivo de se converter, mas com o objetivo de refinar melhor seu conceito sobre um conservador.

Correção de viés. Corrigir vieses de qualquer tipo é difícil. Requer: 1) estar ciente de que você poderia estar enviesado, 2) estar motivado para corrigir o viés, 3) estar ciente da direção e magnitude do viés, e 4) ter a habilidade de corrigir o viés (Wilson e Brekke, 1994). Isso requer uma grande dose de trabalho. Primeiro, temos que saber que há a possibilidade de que nós poderíamos estar enviesados. O trabalho de Durate et al.(2015) tem estabelecido que muitos esquerdistas na psicologia social estão enviesados contra conservadores. Segundo, temos que querer corrigir o viés. Todo o processo de correção se desintegra se ninguém acha que o viés vale a pena ser corrigido, posição que tem sido a de alguns (leia a seção de comentários em Duarte et al., 2015) sobre essa questão específica. Terceiro, nós temos que saber em que direção e o quanto estamos enviesados, para que, então, não privilegiemos ou prejudiquemos. Isso é importante, porque psicólogos sociais conservadores têm direito a um tratamento justo, não a um tratamento especialmente positivo (privilégio). Quarto, não podemos nos cansar ou distrair, ou vamos voltar a confiar em nossos vieses. Então, dá trabalho ficar sem vieses, e temos que aplicá-lo especificamente a assuntos que são importantes a nós como indivíduos. Ninguém pode estar sem viés em todos os domínios, mas, se escolhermos grupos sociais suficientes em relação aos quais ficaremos sem viés e fizermos do tratamento justo uma prioridade, poderemos automatizar metas igualitárias crônicas (Moskowitz et al., 1999) e ser bem sucedidos mais frequentemente.

Psicólogos sociais estão em uma posição única de refletir sobre nossos próprios vieses e de ser um exemplo para outras disciplinas na academia sobre como criar mecanismos de correção em níveis individuais para promover a boa ciência.

Supressão de pensamento. Wegner (1997) descreveu um processo de operação da consciência que procura por pensamentos permitidos e distratores, e um processo de monitoramento inconsciente que procura por instâncias do pensamento para serem evitados. Quando estamos cansados ou distraídos, o processo de operação está em desvantagem, gera distratores de menor qualidade (Reich e Mather, 2008) e ficamos com os conteúdos do monitor – exatamente o que desejamos evitar. Monteith et al (1998) mostrou que a supressão de estereótipos funciona com indivíduos de pouco preconceito; mas o efeito rebote acontece para indivíduos com muito preconceito nos quais a supressão leva ainda mais à aplicação de estereótipo depois que a supressão está completa. Então, neste caso, suprimir estereótipos de conservadores como estratégia não funcionaria como esperado para esquerdistas que têm vieses extremos, mas aqueles sem vieses extremos contra conservadores poderia usá-lo como uma estratégia efetiva.

Conclusões

Por que é importante conectar com conservadores no campo da psicologia social? Em meu artigo recente “Embracing the Right” [Abraçando a Direita], argumentei que psicólogos sociais conservadores podem emprestar credibilidade a esse campo [de estudo] com esse grupo. Pouco depois Stein (2016) discutiu um cenário recente em que a pesquisa específica foi mirada para a perda de fundos pelo congresso, e essa estória terminou com o congressista líder do ataque pensativamente reconsiderando depois de se juntar a cientistas para entender sua pesquisa a partir da perspectiva deles.

O financiamento de pesquisa está em jogo, a credibilidade de uma disciplina científica está em risco, e há indivíduos reais que não são esquerdistas que estão tomando decisões de participar da ciência, ou não, baseados em quão bem eles são recebidos por seus futuros colegas na classe (Duarte et al., 2015) e nos corredores (Nisbett, 2015).

Isso não é uma questão apenas da psicologia social (Crawford et al., 2015), mas como Shields e Dunn demonstraram, permeia o ensino superior (veja também Jashchik, 2016). Como psicólogo social, temos a chance de nos levantarmos, usando nossa pesquisa, e sermos um modelo para a civilidade no discurso científico e na política, que, em última análise, pode afetar o governo, as políticas, e construir uma sociedade melhor por meio de uma ciência sólida construída em diversas perspectivas, e usada por políticos de todo tipo que confiam em seus méritos.

Referências

Crawford, J. T., Duarte, J. L., Haidt, J. L., Jussim, L., Stern, C., & Tetlock, P. E. (2015). It may be harder than we thought, but political diversity will (still) improve social psychological science. Behavioral and Brain Sciences, 38, 45-51

Graham, J., Haidt, J., & Nosek, B. A. (2009). Liberals and conservatives rely on different sets of moral foundations. Journal of Personality and Social Psychology, 96, 1029-1046.

Goldberg, J. (2015, June 20). When we say ‘conservative,’ we mean… National Review(online)

Flaherty, C. (2016, March 16) Passing on the right. Inside Higher Education (online)

Jaschik, S. (2016, April 27). More educated, more liberal. Inside Higher Education (online)

Monteith, M. J., Spicer, C. V., & Tooman, G. D. (1998). Consequences of stereotype suppression: Stereotypes on and not on the rebound. Journal of Experimental Social Psychology, 34, 355-377.

Moskowitz, G. B., Gollwitzer, P. M., Wasel, W., & Schaal, B. (1999). Preconscious control of stereotype activation through chronic egalitarian goals. Journal of Personality and Social Psychology, 77, 167-184.

Nash, G. H. (2016, April 26). The conservative intellectual movement in America: Then and now. National Review (online)

Nisbett, R. (2015). Welcoming conservatives to the field. Behavioral and Brain Sciences, 38, 34.

Reich, D. A., & Mather, R. D. (2008). Busy perceivers and ineffective suppression goals: A critical role for distracter thoughts. Personality and Social Psychology Bulletin, 34, 706-718.

Shields, J. A., & Dunn, Sr., J. M. (2016). Passing on the right: Conservative professors in the progressive university. New York: Oxford.

Stein, S. (2016). Here’s what happened when a group of scientists went to confront their congressional tormentors: It turns out their “wasteful” research serves a purpose. Huffington Post (online)

Wilson, T. D., & Brekke, N. (1994). Mental contamination and mental correction: Unwanted influences on judgments and evaluations. Psychological Bulletin, 116, 117-142.

Wegner, D. M. (1994). Ironic processes of mental control.

[*] Robert D. Mather. “Building a Politically Tolerant Social Psychological Science”. Psychology Today, 5 de Maio de 2016.

Tradução: Pedro Henrique

Revisão: Gleice Queiroz

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