Conservadorismo não se limita a ser anti-esquerda

Por Rod Dreher [*]

Em 2005, o historiador direitista John Lukacs escreveu que o futuro político dos Estados Unidos poderia muito bem ser decidido à Direita, em uma disputa “entre pessoas à Direita, cuja convicção obrigatória é seu desprezo por Esquerdistas e que odeiam estes mais do que amam a liberdade, e outros que amam a liberdade mais do que temem os esquerdistas.”

Esta frase me veio à cabeça na noite passada, interpretando o coro em favor de Trump por criar um inferno para a mídia em sua conferência com a imprensa ontem. Como eu já disse, eu simplesmente não entendo por que tantos conservadores pensam que um show seja algo para se orgulhar. Não foi a performance de um homem forte, mas sim de um fraco. O que me trouxe isso à mente foi especificamente ter lido uma cópia adiantada do livro The Vision of the Soul: Truth, Beauty, and Goodness in the Western Tradition (A Visão da Alma: Verdade, Beleza e Bondade na Tradição Ocidental), de James Matthew Wilson, professor de literatura em Villanova. O livro será publicado em Junho. Este livro, sem dúvidas, posicionará Wilson na primeira classe dos intelectuais conservadores.

A Visão da Alma é uma defesa ao Platonismo Cristão, o qual Wilson afirma que está na essência da tradição intelectual ocidental. O que ele diz estar proposto a fazer é ir até as fontes do pensamento que hoje culturalmente chamamos de conservador, mas na verdade, é uma tentativa de conservar a fé na civilização ocidental nos tempos modernos. Eu não quero falar muito sobre isso agora, assim tão distante da publicação, mas eu vou dizer aqui que o livro de Wilson oferece uma defesa da tradição ocidental que é de tirar o fôlego devido à sua profundidade e clareza, transmitida em uma prosa que genuinamente encanta com sua elegância, lucidez e esplendor. Eu nunca li um livro em que um conteúdo tão intenso alça voo com tanta leveza e estilo. É como observar a manobra de um Boeing 747 com a graça e a precisão de um beija-flor. As gerações futuras de conservadores irão olhar para trás ao encontro de A Visão da Alma com o mesmo senso de gratidão e admiração que nós hoje lembramos da primeira vez que lemos Richard Weaver e Russel Kirk. Esse livro não é apenas verdadeiro e bom, mas também belo. Eu sei que eu o lerei e relerei pelo resto da minha vida. A Visão da Alma deveria ser a pedra angular de toda escola clássica. Este é um dos dez livros que você leva para o seu retiro espiritual e em torno do qual você constrói todo o restante da sua vida intelectual.

Por que eu falo dele aqui? Porque você apenas tem que ler algumas páginas de Wilson para se encantar com o que a tradição artística e intelectual conservadora foi e pode ser, assim como se desesperar ao que ela foi reduzida atualmente. Este não é um livro sobre política, ou melhor, é um livro no qual as políticas não são nada além de convicções mais profundas sobre da natureza das coisas. Mas se empolgar com o livro também induz ao desespero, ao perceber o quão longe caímos da nossa árvore. Trump não é citado neste livro, mas de certo modo, ele está por todo ele. Ele é um símbolo de decadência – assim como o establishment ao qual ele é contra (e sim, isso inclui o establishment da mídia). Na cultura clássica, a desordem da alma produz a desordem na sociedade. É por isto que, mais fundamentalmente, estamos na situação que estamos hoje.

Lukacs, o historiador, orgulhosamente se autodenomina de “reacionário”, e uma década atrás, ele previu a ascensão do populismo tomando o lugar das instituições e costumes que serviram à nossa República por mais de dois séculos. Em uma entrevista que ele deu em 2006, com Jeet Heer:

Em um bate-papo, ele tece elogios a uma certa forma de populismo, citando os movimentos de massa que levaram democracia à Europa Central e ao Leste da Europa. “O povo geralmente está certo”, observa ele. “Apenas repare no meu país. A Revolução Húngara de 1956 foi um verdadeiro levante popular. Embora tenha sido derrotada, trouxe consequências muito benéficas a longo prazo. Foi a “Batalha de Stalingrado” do comunismo internacional. Posteriormente a repressão na Hungria foi muito menor. Eles não conseguiram restaurar o terror em 100%. É por isso que em 1989 a mudança de regime ocorreu sem derramamento de sangue.”

Mas mesmo quando pressionado, Lukacs tem dificuldades para encontrar boas palavras para o populismo no estilo americano. Para ele, a ascensão do populismo de direita nos Estados Unidos é problemática porque significa que os conservadores não mais servem como escudo contra os perigos das massas políticas. Ao invés disso, “conservador” passou a significar simplesmente “anti-esquerda”.

“O Nacionalismo é um denominador comum muito baixo e vil, que une as pessoas”, diz ele. “É o ódio que une as pessoas. Pessoas se satisfazem com a ideia de que são boas, porque seus inimigos são maus. Isto é uma síndrome americana, mas também é uma verdade universal da humanidade.”

“Nos Estados Unidos, os Republicanos são o partido nacionalista”, prossegue ele. “É por isso que eles venceram as eleições – à base de símbolos. Eu acredito que a importância da economia na escolha política das pessoas é demasiadamente exagerada. Vivemos em uma era de estupidez intelectual onde as pessoas utilizam os termos errados. As pessoas pensam que é um ‘problema cultural’ ou um ‘problema moral.’ Estas são meias-verdades.”

Embora Lukacs tenha conquistado sua quota de estima e consideração em uma carreira que alcança mais de cinco décadas, ele agora se encontra estranhamente isolado, como alguém que critica o partido Republicano a partir de um ponto de vista tradicionalista.

“O que há de tradicional em George Bush?, pergunta ele em tom de exasperação. “Nada. Nada.”

Pode-se dizer que o ponto ao qual o velho reacionário quer chegar é que, Trump não veio do nada. George W. Bush, o Partido Republicano e o movimento conservador preparam o terreno para ele, sem nem mesmo saberem o que estavam fazendo.

De qualquer forma, para aqueles para quem o conservadorismo significa algo além de ser anti-esquerda, para aqueles que desejam mergulhar fundo na tradição conservadora à procura de jóias raras, façam suas pré-reservas do livro The Vision of the Soul (A Visão da Alma). Vamos precisar dele. Aqui está uma prévia da sua introdução:

O conservadorismo tradicional, em contrapartida, só atinge o coração contemporâneo nos breves momentos em que a solidão do indivíduo moderno surge e o leva a questionar o geralmente não questionado bem da saturação tecnológica e midiática; quando este vê por um momento que a feiura material da nossa civilização não pode ser resolvida pela tecnologia “verde”, mas apenas por um reajustamento fundamental da atitude da pessoa humana em direção à criação e aquisição de valores antigos; quando, cada vez mais raramente, lê um livro que causa nele uma imagem de heroísmo genuíno desmotivado por um mero trauma e materializado de uma forma mais duradoura que as sangrentas fantasmagorias da Hollywood contemporânea; ou quando sente que o anseio mais profundo do coração é por uma felicidade permanente, e que a felicidade somente é possível em uma comunidade natural grande com laços que não apenas ligam, mas que também sustentam. Nestas margens, e nesses momentos de fuga, poderia algum conservadorismo literário ser ressuscitado? Teria nossa era um Burke, um Coleridge, um Eliot? O registro histórico não nos dá motivo para otimismo, e a presente era do ceticismo relativista e do espetáculo do consumidor, da depravada anti-cultura e dos sentidos extasiados, nos dá bons motivos para duvidarmos. Mas os capítulos que seguem estão fundados na esperança: esperança de que a defesa que eles fazem de uma cultura de verdade, bondade e beleza – e, de fato, da realidade desta trindade determinando a realidade como tal – irá ressoar na sensibilidade de seus leitores e ajudá-los em seus diversos trajetos para viverem bem no mundo; espero que seus argumentos sejam suficientemente convincentes para fazer algumas almas repensarem o nosso atual regime cultural; e espero, finalmente, que seus recursos possam ajudar as vozes conservadoras de hoje e de amanhã a encontrarem uma linguagem adequada para expressarem as paixões que acalentam.

[*] Rod Dreher. “Conservatism Does Not Equal Anti-Liberalism”. The American Conservative, 17 de Fevereiro de 2017.

Tradução: Leonardo Matos

Revisão: Rodrigo Carmo

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